segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Ano novo, vida nova!

Apesar do clichê, essa frase vai significar muito pra mim. A partir de janeiro de 2011 muita coisa irá mudar na minha vida. Não sei, por exemplo, se o perfil do Blog continuará o mesmo. Acho que sempre colocarei alguma coisa sobre política ou religião, mas agora será mais a título de comparação mesmo.

Eu gostaria muito de explicar o que vai acontecer 100% na minha vida, mas nem eu mesmo sei ao certo. Sei que vou me mudar e dia 10 de janeiro vou devolver o apê que moro desde setembro de 2008, depois defenderei minha dissertação e se der tudo certo, serei mestre, finalmente. Vou morar uns dois meses na casa dos meus sogros até ir rumo ao desconhecido gelado. Espero que não role nenhum ciúme da parte de madrecita, afinal, ninguém merece pegar ônibus na Octogonal e ainda tenho muitas coisas para resolver antes de partir. Tenho algumas idéias do que fazer quando estiver por lá, mas nada de certo. Quero fazer milhões de cursos, mas não sei se terei grana pra tudo.

Bom, sei que uma mudança tão grande na vida da gente nos faz pensar em outras coisas que não se ligam diretamente a ela, mas que a tocam de alguma maneira. Uma coisa besta como decidir o que levar, nos faz colocar na balança o que é ou não importante na nossa vida. Meus livros vão ficar, minhas ferramentas de artesã (amadora), meus vestidos, meus sapatos. Coisas que pareciam tão importante não vão servir para nada nesse ano em que serei vizinha do Papai Noel.

Outra coisa que não me preocupa é quem vai me visitar. Cheguei a pensar que enlouqueceria um ano longe dos meus amigos ou da minha família, mas sei que não vamos perder o contato, pois o blog continua, o skype, o e-mail... Tenho tantos amigos do coração que eu vejo uma vez por ano e olhe lá. Tenho outros que moram longe, mas que vejo até bastante... Tem muita gente que ficou bem mais próxima esse ano e que também está encarando o exílio. Espero que tenhamos sorte e que possamos trocar figurinhas e rir muito dos hábitos e costumes diferentes que irão nos fazer passar muita vergonha (no bom sentido) fora daqui.

Espero que 2011 seja ainda mais interessante do que 2010. Eu sempre preferi anos ímpares, mas essa não é mais uma regra infalível. Sinto um friozinho na barriga. Acho que vou passar outra vez por aquela velha indecisão "O que farei da minha vida?". Essa pergunta fica para ser respondida em 2012, mas tem sua resposta elaborada desde já, sem pressão, afinal, sei que muita coisa pode mudar até lá.

Caso não volte por aqui por um bom tempo, desejo a todxs muitas felicidades, festas, alegrias e desejos realizados.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Direita ou esquerda

Eu semrpe tive dificuldade para entender esses conceitos. Direita e esquerda, a princípio, são apenas direções, mas na política, são posições. Em tese o pensamento de cada uma é bem diferente e característico. Mesmo conhecendo as diferenças entre eles sempre me vem a cabeça uma frase "Não tem nada mais liberal que um democrata no poder". Ou algo assim. É o mesmo que dizer que ao entrar no poder, não importa o lado, as posturas são as mesmas. É claro que não podemos afirmar isso porque senão não faria diferença e ninguém precisaria votar porque no final estaria tudo igual.

Mas então me deparo com outro pensamento: Qual a diferença entre dois lados que disputam uma guerra? Tem gente que acha que um está certo e outro está errado. Isso se resumiria em afirmar que quem ganha está certo e quem perde está errado. Na prática, ao meu ver, é nisso que se resume uma guerra. Se o perderdor tivesse ganhado ele estaria no poder e certo. Mas o que isso tem a ver com a política? Bom, normalmente quem governa acha que está certo porque ganhou as eleições. Felizmente, na política, diferentemente das guerras, os governantes devem pensar na população como um todo, pois governa para todos e é pago por todos, até mesmo por aqueles que não votaram nele. Entretanto, acho que uma das razões para isso pode ser o fato da política ter evoluído ao ponto do governante não saber quem votou ou não nele, pois caso contrário, poderia eliminá-los ou boicotá-los se quizesse. Assim também, pode-se conviver com as diferenças. Claro que a política não é tão simples ou simplória. Existem outras questões envolvidas e muitas outras formas de se pensar a política, afinal, a diferença de visões e interesses acaba justificando a própria existência da política.

O que me faz pensar nesses ditados é que muitas vezes, não importando o lado, as pessoas esquecem de ver os defeitos de suas propostas e acham, acreditam que seu modo de pensar é o certo e que a crítica é algo pessoal. Desse modo, tanto a direita quanto a esqueda andam em círculos e ninguém avança, pois não se sai do lugar. Por isso, nesses termos, eu não sou nem de direita ou de esquerda, primeiro que não gosto de me prender a pacotes imutáveis, depois não acredito numa proposta perfeita, além disso, se admitir ter mais idéias em comum com um lado do que com outro automaticamente os bitolados passarão a julgar todas as minhas opiniões com base no rótulo assumido por esse ou aquele lado.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Boicotando o meu futuro carro

Hoje eu acordei cedo. Estou usando as minhas "férias" para organizar a mudança e a viagem. Por isso fiz uma listinha de coisas a fazer. Ontem eu fiz duas coisas da lista que duraram a manhã toda. Hoje eu saí cedo de casa para ir a cede do meu plano de saúde. Descobri q to lascada. Eles não suspendem o plano, então eu tenho q suspender e encarar a carência qnd voltar ou pago para tem um plano aqui e outro lá, sendo q eu estarei lá. Mas enfim, depois de ir lá eu fui ao supermercado, voltei à pé pra casa.

Fiz mais uma série de coisas e no final do dia fui ao aniversário de um amigo meu q por sorte foi bem aqui na minha quadra. Quando sentei na mesa me bateu um sono monumental. Depois de um certo tempo eu me toquei que fiquei cansada pq fiz uma penca de coisas. Daí eu parei pra pensar q se tivesse carro teria feito quase tudo em um dia. Mas depois me toquei que se tivesse carro teria o dobro de coisas para fazer e sentiria talvez o mesmo desgaste que sinto normalmente com a desvantagem de trocar as caminhadas pelos engarrafamentos.

Por isso eu decidi que vou evitar o carro até pegar o hábito de fazer exercícios.

PS: Eu acho q meus posts estão meio desconexos, mas eu tô de férias, época pra relaxar. Relaxe vc tbm e leia tranquilx!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Sobre boicotes, boates e afins

Tirando um pouco as teias de aranha daqui quero colocar um pensamento. NÃO UMA MANIFESTAÇÃO UNILATERAL DA VERDADE. O que vou colocar aqui não se baseia em dados, pesquisas... É apenas um ponto de vista entre tantos outros que existem e que são igualmente válidos, mas que apenas não estão aqui porque não me pertencem. Achei que deveria colocar aqui assim como colocam advertências antes de filmes de animação como "Nenhum animal foi usado durante as filmagens" e talz.

Bom, outro dia uma amiga nossa fez uma despedida numa boate do primo e um conhecido nosso. Ela fez lá porque teoriacamente eles iriam fazer o melhor preço na cerva do que qq outra boate aqui de Brasília e ainda ela poderia colocar dois amigos Djs para tocarem no ambiente. Parecia um ótimo negócio, tanto que eu e o maridon nem nos preocupamos com o preço do álcool e tomamos umas 3 cada. Isso ñ é muito, mas nós não conseguimos beber mais do que 2 normalmente.

Claro que fomos à boate principalmente para prestigiar a nossa amiga, mas o preço colaborou para a nossa permanência lá. Enfin, na hora de pagar, minhas estimativas passaram muito longe, mas como não sei fazer conta, paguei pq achei q tinha errado. Quando nossa carona começou a demorar mais do que o normal, fomos ver o q estava acontecendo. Ao chegar no balcão, onde ela estava, ouvimos reclamar que de 5 e pouco a cerva foi para 7 e pouco. Ao ouvir isso eu peguei a conta para conferir. O mesmo erro aconteceu comigo. Resolvi reclamar. A moça do caixa deve ter achado que eu era imbecil ou estava totalmente bêbada pq me disse q esse era mesmo o preço. Eu discuti com ela dizendo q no bar o preço q o garçon nos deu era outro. Vcs acreditam que a mulher teve a cara de pau de dizer que o garçom deu o preço errado, sendo que o preço do garçon estava escrito no cardápio? Pois bem, ao ouvir isso a mulher repetiu a mesma frase anterior. Nessa hora eu percebi que ñ adiantaria reclamar, peguei minhas coisas e fui embora. Fui para nunca mais voltar.

Onde quero chegar com isso é que ñ ia adiantar fazer um escândalo pois poderia acabar estragando despedida da minha amiga, mas como o pessoal do lugar não fez nada para me fazer justiça, eu decidi nunca mais voltar. Dizem que os boicotes não funcionam, pois bem, minha política costuma ser, só ir onde eu sou bem tratada. Nesse caso, costuma funcionar o boicote porque quem anda comigo não vai onde eu sou destratada pq na hora de combinar eu acabo dizendo e em tal lugar eu não vou pq já fui roubada e etc. E se os estabelecimentos de Brasília não ficarem ligados vão começar a perder bastante, pois eu estou pensando em fazer uma lista negra e ainda colocar nos sites guias da cidade os episódios constrangedores pelos quais já passei em cada um deles. Pelo menos assim, quem usar a internet pode evitar certos problemas que a boba aqui passou pq não olhou as referências do lugar antes.


Dizem que um dos maiores problemas no ramo de serviços é a falta de reclamação dos clientes. Dizem por vias formais. Existem casos e casos. No caso de um restaurante, se vc reclama com o garçom e ele não faz nada ou se faz de mouco, me parece não adiantar muito reclamar com o gerente pois se ele não passou para os garçons que eles devem encaminhar as reclamações para o gerente ou tentar resolver isso quer dizer que ele está fazendo tudo menos gerenciar o estabelecimento. Afinal, do que adianta vender comidas e bebidas se não tem quem as consuma? Quando é o caso de empresas maiores, como as de telefonia, realmente não temos muito para onde correr, já que as agências não servem de muita coisa. Escolha pelo preço ou por um serviço exclusivo, pq não existe atendimento ou respeito ao consumidor. Mas de verdade, eu já fui cliente de quase todas as empresas de telefonia celular, só falta uma para completar o ciclo. Quando ele terminar, volto para o começo. Não tenho nenhum respeito ou fidelidade por tais empresas.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Dicas de livros

Existe uma personagem da literatura portuguesa que é desconhecida por muitos - Mariana. Mais conhecida ainda como Mariana Alcoforado ou Sóror Saudade. Conheci a história dela através de uma ótima professora que caiu de para-quedas na disciplina de realismo português. Nessa ocasião, eu, que estava crente que ia ler o Fernando Pessoa, acabei lendo A Casa da Malta.

Felizmente essa professora gostava de nos mostrar o lado underground da literatura e acabou comentando sobre a Mariana, Anaïs Nin e Florbela Espanca - expoentes da literatura de suas épocas sutilmente deixadas de lado por muitos estudiosos. Eis que um dia, vasculhando as estantes de livros de bolso da Banca mais famosa do Ceubinho eu encontro ela, Mariana Alcoforado, por r$ 8,00. Não resisti, ainda mais quando para valida-la havia depoimentos dos seus leitores: Rilke, Stendhal, Sainte-Beuve e Rousseau. Esse último queima filme (na minha opinião), mas é famoso.

Falando agora do livro, são 5 cartas de amor publicadas primeiramente de forma anônima, afinal, se trata de confissões amorosas de uma freira (de um convento em Beja). Por isso ainda o nome Sóror Saudade. Essa última informação não encotrei no livro e como foi a professora que comentou muito exitante, coloquei em itálico. Bom, a freira teve uma grande paixão por um oficial do exército francês que estava servindo em Portugal, dizem ser o conde de Saint-Léger, ou De Chamilly. Mas a questão é que, bom, eu estou muito pouco romântica ultimamente, então vou analisar friamente a carta: trata-se de uma mulher desesperada com o rompimento e a indiferença do amante. Eu a acho por demais solícita com ele, apesar de todo ódio que exala em suas cartas, afinal, ele fudeu com ela e com a vida dela.

Parece-me ainda que ela sofreu punições da família pela aventura, mas se recusou entregar o nome do amante, um homem covarde que desgraçou uma mulher sem experiência que viveu num convento a vida toda e não teve coragem para romper com ela pessoalmente. Essa é a minha leitura, afinal, eu sei que no séc. XVIII a educação das meminas em muitos casos era feita por freiras e os pais que não conseguissem ou não quisessem arrumar casamento para suas filhas chegavam a nunca conviver com elas, deixando-as mofar num convento, como parece ser o caso de Mariana. Mas ele também pode ter sido ameaçado pela família de Mariana, que era muito poderosa. Quanto a parte romântica da carta, a considerada por muitos como uma voz que se sobressai, vale a pena dizer que a dor de uma desilusão parece ser a mesma, não importa a época.

Cartas Portuguesas, Mariana Alcoforado

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O post do desassosego

Ou o não-post

Eu adoro essa palavra. Pra mim ela soa bem diferente de ansiedade. Quando penso em ansiedade me dá vontade de roer as unhas, no desassosego, tenho vontade de trabalhar, dançar, ir tomar uma cerva com os amigos, mas ficar à espreita, só olhando.

Essa palavra não surgiu aí a toa. Foi inspirada no livro do desassossego do Fernando Pessoa - o esquizofrênico mais criativo que eu já vi. Bom, eu o chamo assim porque ao ler seus heterônimos separadamente e desavisadamente pode-se muito bem achar que se tratam de 3 escritores distintos. Inclusive eu faço a mesma pergunta que muitos: Será que o próprio Pessoa não é um heterônimo? Afinal, pessoa vem de persona, a máscara do teatro grego. Acho que só com essa explanação já posso ter plantado a semente do desassossego em vcs. Enfin, esse livro, ou não livro como Pessoa o chamou, é enorme e eu não li nem 1/3 dele ainda, mas já me deixou por demais desassossegada. Vou colocar aqui o primeiro trecho do livro para que vcs se sintam tão desassossegados quanto eu.

"1. Nasci em um tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a haviam tido - sem saber porquê. E então, porque o espírito humano tende naturalmente para criticar por que sente, e não por que pensa, a maioria desses jovens escolheu a Humanidade para sucedâneo de Deus. Pertenço, porém, àquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem, nem vêem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado. Por isso nem abandonei Deus tão amplamente como eles, nem aceitei nunca a Humanidade. Considerei que Deus, sendo improvável, poderia ser, podendo pois dever ser adorado; mas que a Humanidade, sendo uma mera idéia biológica, e não significando mais que uma espécie animal humana, não era mais digna de adoração do que qualquer outra espécie animal. Este culto da Humanidade, com seus ritos de Liberdade e Igualdade, pareceu-me sempre uma revivescência dos cultos antigos, em que animais eram como deuses, ou os deuses tinham cabeças de animais.

Assim, não sabendo crer em Deus, e não podendo crer numa soma de animais, fiquei, como outros da orla das gentes, naquela distância de tudo que comummente se chama Decadência. A Decadência é a perda total da inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida. O coração, se pudesse pensar, pararia."

Livro do desassossego - Bernardo Soares (ou Fernando Pessoa)


Acho que a principal diferença entre nós, aqui, é que para ele houve um tempo em que se acreditava em Deus, esse Deus que fazia girar o sol em torno da Terra. No meu tempo, ele já havia morrido, sido esquecido.

sábado, 27 de novembro de 2010

A história do meu ateismo

Não sei se já comentei aqui, mas cursei a maior parte do meu primeiro grau em escolas católicas, de padres e freiras. Isso porque a minha mãe achava que nessas escolas teríamos mais disciplina e elas se encarregariam de fazer uma coisa para ela que ela definitivamente não queria fazer - nos dar educação religiosa. Isso porque a crença dela era uma bagunça. Ela tinha preguiça de ir na igreja, mas não confessava. Meu pai se dizia agnóstico e fazia de tudo para falar mal da crença da minha mãe. Como a mamis não tinha paciência para conversar com a gente, fomos para escola católica.

Eu sempre fui uma boa aluna. Fazia tudo direitinho. Não participava das atividades extra-escolares pq morava muito longe da escola e meus pais trabalhavam o dia todo. Mas, como em toda escola católica, tinhamos aula de "ensino religioso". Isso era praticamente catequese, ou uma mini missa. Pq só viamos coisas sobre a igreja católica. Eu achava tudo mais chato do que aula de matemática, mas como era nerd, fazia o que os professores mandavam e tirava nota alta. Para mim era um 10 fácil. Bastava dizer que amava a Deus e citar os versículos certos.

A distância da religião católica começou dentro da escola, além do meu pai que se dizia agnóstico apenas para não brigar demais com a minha mãe, pois no fundo ele era ateu. Todas as perguntas que fazíamos sobre algo tinham como resposta "porque deus quis", ou "porque está na bíblia", "porque jesus falou". Isso me deixava sempre mais confusa. Num determinado momento, acho que na quarta série, nos "convidaram" para fazer a primeira comunhão. Eu adorei a ideia, afinal eram tardes longe de casa e perto dos meus amigos. A aula era uma bagunça. O professor ficava o tempo todo fora de sala fumando e a gente tocando o terror. A única coisa que precisávamos fazer era colorir os símbolos da páscoa, desenhá-los e etc. Isso de desenhar eu me amarrava, então, não foi difícil. Eu estava na terceira ou quarta série, não me lembro bem.

Quando o dia da comunhão chegou, como disse meu pai, eu só conseguia pensar no meu vestido. Era um mini vestido de noiva, e não era só o meu. Conclusão, eu e todas as minhas amigas queríamos examinar e olhar os vestidos umas das outras. A missa passou em branco. Eu fiquei posando para as fotos tentando esconder a minha felicidade. Quando a missa acabou e fomos para casa, meu pai perguntou "O que o padre falou?". Eu não sabia responder. Fiquei pensando durante muito tempo pq não tinha prestado atenção, além do vestido, oq tinha me desconcentrado. A gente já sabia oq ele ia dizer, pois estudamos antes.

Sabe oq ele disse? Nada. Ele não disse nada. Foi essa a conclusão que eu cheguei. Isso queria dizer que eu não acreditava no que ele dizia. Contei a conclusão para o meu pai e ele ficou super feliz. Minha mãe disse que isso passava e que eu não devia dar ouvidos ao meu pai, "deus ia falar comigo". Não falou. E depois foram várias experiências no mesmo nível que afirmaram ainda mais o meu ateísmo. Como a interpretação super tendenciosa que a professora fez de uma música do Raul que me deixou p. da vida, ou as experiências no colégio de freira. E essa é a história do meu ateísmo.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Dia 4

Ou 5

Hoje é O DIA PELO FIM DA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

Mas o que é a violência contra a mulher? Certamente não é violência entre mulheres. A violência contra a mulher é praticada por homens. Grande parte dela por homens conhecidos; pais, irmãos, tios, primos, cunhados, vizinhos, maridos. Isso é uma das razões que tornam a denuncia ainda mais difícil. Em outros casos ela é ignorada pois ainda temos resquícios do pensamento colonial onde o marido era proprietário da mulher.

Se os homens são os maiores agressores não podemos esperar acabar com a violência mobilizando apenas as mulheres. É claro que, se as minhas amigas que já foram agredidas não convivessem com tais babacas elas nunca teriam sido vítimas de agressão. Pena que muitas vezes não dá para prever tal tipo de comportamento. Como aconteceu com a Julia Roberts no dormindo com o inimigo (não é um bom exemplo, mas foi o que me ocorreu). Mas como convencê-los a "partilhar" harmonicamente a vida em sociedade e os papéis?

Existe uma resistência enorme contra os argumentos e até mesmo qualquer temática que possa resvalar em algo medonho chamado "feminismo". Muita gente diz que ele nem existe mais. Os autores "esclarecidos" colocam "movimentos de mulheres". Eu, particularmente não me importo com o nome desde que não se rejeite as idéias sem examiná-las. No meu ambiente de trabalho, a academia, vejo muita gente rejeitando xs autorxs feministxs e comprando as idéias de autores que se dizem "pós-modernista", que praticamente sugaram suas idéias da fonte feminista sem lhes dar o devido crédito. Eu, por exemplo, só consigo fazer mulheres concordarem com os meus argumentos. Isso porque posso me basear nas experiências delas. Toda mulher já sofreu uma "violência de gênero". Não quer dizer que os homens não tenham sofrido, mas talvez, para eles isso seja parte do "virar homem". De qualquer modo, uma violência simbólica é bem diferente de uma violência física.

Eu não sei como fazer para convencer os homens que é errado bater em mulher se para muitos eu nem tenho o direito de falar o que eu penso. A coisa para mim se torna mais difícil ainda de pensar quando lembro a negação enorme que existe do ponto de vista de assumir a existência do sexismo, da homofogia e do racismo no Brasil. Muita gente insiste em acreditar que vivemos na beleza da democracia racial e da miscigenação. Negar seja talvez um mecanismo de defesa que ajuda a esquecer aquela experiência ruim que a gente queria que nunca tivesse acontecido, mas ela aconteceu.

Não sei se vou conseguir chegar onde eu quero, mas vamos ver. Deve haver alguma explicação para a violência contra a mulher. Homens, tentem responder se existe realmente algum bom motivo para bater em uma mulher? Algum motivo que não faça você parecer um fraco, covarde, ignorante, descontrolado, abusivo, perturbado, mediocre, chauvinista, ridículo, ruim de papo...?

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Dia 3

A inspiração já começou a falhar, mas vou tentar.

Comentei no blog da Iara sobre um vídeo que eu assisti no jornal. Era um flagrante de violência no meio da rua. O marido bate na esposa e arrasta ela pelos cabelos. Eu não achei a agressão inteira, que é bem mais longa, mas vale a pena dar uma conferida. O video também está sem som, mas no final, quando entrevistada, a vítima diz que apanha porque o marido é muito ciumento. Que não é a primeira vez, mas ela esta com ele porque gosta muito dele.





O que eu queria dizer para as mulheres que denunciem. Que se separem. Saiam de perto. Eu sei que é difícil, mas pensem em vocês mesmas. Essa coisa de não se separar por causa dos filhos é a pior coisa que vc pode fazer por sua família. Viver no inferno da violência doméstica não é bom pra ninguém, muito menos para os seus filhos.

Tem também o vídeo da Luana Piovani falando sobre a agressão que sofreu. Acho que vale a pena ver. A parte que ela fala do estupro começa no minuto 5:50



Quer dizer, se ela que é famosa, rica, tem uma família estruturada sofre uma agressão, isso deixa claro que todas nós podemos passar por isso. O pior do que a vergonha de sofrer uma agressão é ser humilhada e ter sua dignidade questionada pela justiça. Denunciar também é muito difícil, mas não podemos deixar de fazê-lo.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Dia 2

Bullying ou sexismo?

Seguindo a postagem coletiva, vou comentar uma reportagem que assisti ontem no jornal da Record. A reportagem era sobre bullying, a nova moda entre os psicólogos e educadores. Ela era até interessante, mostrava a história da filha da escritora Nelma Penteado, que sofria bullying na escola apenas por ter um quilos além do padrão anorexico.

A reportagem mostrou resumidamente os tipos de agressão verbal que as meninas sofriam. Ser gordinha e ter o cabelo enrolado era recorrente. Era eu na adolescência. Mas o engraçado é que durante a reunião contra o bullying não havia nenhuma menina com os cabelos enrolados. Eu achei estranho. Como se combate o bullying? Se adequando ao padrão de beleza antinatural que nos é imposto?

Só para ilustrar, o padrão de beleza que nós seguimos é europeu, o que não se adapta muito bem por aqui, afinal, não somos altas, brancas ou temos cabelos lisos e olhos claros. Até o DNA de quem se acha branco tem índio e negro. A questão é que eu também não quero ser alta ou ter o cabelo liso e loiro. Eu não me incomodo com o que sou, afinal, sou brasileira. E para falar a verdade, procure uma adolescente magrela e de cabelos alisados e loiros (ou com luzes) e veja quantas você acha. Agora procure uma gordinha de cabelos enrolados. As gordinhas se destacam. Talvez, também por isso, sofram tanto.


Bom, e existe uma razão para não sermos branquelos. Alguém já ouviu falar de uma comunidade de pescadores albinos que existe no nordeste? Assisti uma reportagem sobre eles uma vez, mas vou ficar devendo. Tem uma pescadora que o trabalho dela é levar água potável para as casas. Ela muitas vezes tem que fazer isso de dia, conclusão: corre um grande risco de pegar câncer de pele. Na estrevista dessa pescadora a reporter pergunta porque ela não usa roupas de manga comprida para fugir do sol. Ela diz que não usa porque os outros ficam "mangando" dela.

Voltando a reportagem do bullying, a questão passa para o comportamente dentro de casa. Muitas vezes os pais praticam o bullying em quem o pratica na escola. Aquela questão que o menino que apanha em casa bate nos colegas na escola. Pois bem, eu posso falar que acho que a questão da menina que sofre bullying vai muito mais além do fato dela ser gordinha ou ter o cabelo enrolado.

As meninas são uma espécie de produto. A vida delas gira em torno dos garotos. Isso porque devemos aprender cedo como conquistar um marido. E para isso devemos ter uma aparência e uma postura que justifique a escolha de um homem rico e poderoso. Os homens não precisam ser bonitos, por isso sofrem muito menos com o bullying. Para quem acha que eu estou no século errado, vou contar um causo da minha adolescência. Quando eu era adolescente, adorava rock e usava só camiseta de banda com calças largas. Tinha o cabelo na cintura e ele sempre foi enrolado, desde que nasci. Minha mãe ficava louca. Tentava de tudo para me arrumar. Quando suas táticas de me xingar não funcionavam ela apelava para seu último recurso: "assim vc nunca vai arrumar um namorado". Uma vez saí da escola para a parada de ônibus com os fones no ouvido. No meio do caminho as pilhas acabaram e eu continuei com os fones pq deu preguiça de guardar. Foi quando percebi dois meninos da minha sala atrás de mim conversando. Eles falvam algo assim "Nossa, essa menina é muito feia, ridícula. Dá vontade de enxer ela de porrada, ela é muito feia."

Agora me respondam: Porque a maior parte das críticas à Dilma reforçavam a mesma coisa, que ela era feia e autoritária? Porque mulheres não podem ser feias e autoritárias. Isso é coisa pra homem. Mulher tem que ser um bibelô. Ser bonita e doce.

*só pra avisar que eu estou atrasada no cronograma das postagens. Minha semana sempre começou na segunda.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Cinco dias de ativismo on line contra a violência contra a mulher


Dia 1

Dando início a série de cinco postagens sobre a violência contra a mulher, eu gostaria de colocar uma questão que sempre me vem à cabeça em relação a esse tema. Nós temos dois dias, 8 de março e 25 de novembro, para nos lembrar da mesma coisa: a violência contra a mulher. E passamos 363 dias sofrendo com a violência sem ser lembrada pelo resto do ano. Mas em um desses dias, não nos lembramos nem mesmo da violência atroz contra a mulher que esse dia representa.

O dia 08 de março foi considerado o dia Internacional da mulher. É um dia para se colocar em pauta as consquistas dos movimentos feministas e também o que ainda precisaser feito. Certa vez eu vi uma série de pichações sexistas num banheiro da UnB. Cometi um ato de vandalismo e respondi uma das acusações colocando o verdadeiro motivo do dia internacional da mulher ser comemorado em oito de março. Devido a enxurrada de outras pichações que seguiram esta eu resolvi começar meu protesto on-line por essa dia.

Essa data não foi escolhida ao acaso. No dia 8 de março de 1857 cerca de 130 tecelãs faziam uma greve dentro da fábrica onde trabalhavam, em Nova Yorque. Elas reividicavam uma redução na jornada de trabalho, que era de 16hs, e equiparação dos salários com os homens e melhores condições de trabalho. As mulheres, nessa época, ganhavam 1/3 do salário de um homem e sofriram diversos abusos no ambiente de trabalho. Como consequência de seu ato subversivo, essas mulheres foram trancadas dentro do galpão da fábrica e atearam fogo nelas.

O interessante porém é o fato do comércio estar usando essa data para fazer com que se comprem flores e chocolate para as mulheres sem discutir nada a respeito da condição atual das mulheres em nossa sociedade. Ganhar uma rosa no dia 8 de março pode ter vários significados, mas e minoria deles é lisonjeira. As flores sempre simbolizaram o sexo da mulher, a vagina. Elas aparecem na cerimônia de casamento para lembrar que o sexo da mulher vai pertencer ao marido. É como se fizesse uma oferenda. Flores também são colocadas em túmulos para confortar a família da pessoa que faleceu e mostrar que a vida continua apesar da perda.

A desvirtuação do real significado do dia internacional da mulher em uma data para se presentear as mulheres - mais uma data comercial é muito frustrante. "Uma em cada cinco brasileiras declara espontaneamente já ter sofrido algum tipo de violência por parte de um homem. A cada 15 segundos uma mulher é espancada por um homem no Brasil."

Semana passada eu estive no Simpósio Gênero e Psicologia Social, realizado na UnB. Durante a palestra da professora Lia Zanotta, que falava sobre os vereditos em casos de estupros no DF, eu fiquei absolutamente pasma. A análise ainda é preliminar e não podemos tirar conclusões precipitadas, mas ao que parece, a mulher só não é responsabilizada pelo estupro quando morre ou quase morre. Ou seja, quando fica evidente que ela se opôs ao estupro. Dentre todas as abominações escritas nos autos eu ouvi inclusive uma que dizia ser uma menina de 11 anos suficiente madura e esperta para fugir de um estuprador "doidão" e armado. Ela seria capaz de fugir do homem apenas por conseguir ir sozinha da escola para casa e havia esperimentado cola (era uma menina de periferia, mas isso não foi levado em conta).

Eu me pergunto então, porque entregar flores para as mulheres no dia 8 de março? Seria um pedido de desculpas? Não pelo que foi feito e ainda é feito, mas apenas pelo que aconteceu no dia 8 de março de 1857 em Nova Yorque? Pode ser que seja um lembrete: sua sexualidade me pertence e se vc for muito independente te chamarei de macho ou de promíscua e vc ainda ganhará menos que eu. Ou, pode ser que realmente o significado dessas flores não seja tão superficial assim e algumas pessoas queiram nos lembrar que a vida continua e que temos muitos motivos para comemorar e para lutar, apesar da morte das 130 mulheres em Nova Yorque.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Funcionando sob pressão!

Os dias andam muito corridos. Li metade de um livro de 700 páginas para o meu trabalho e na hora de escrever sobre ele não consigo nem lembrar porque o li. Um monte de dicas legais sobre outros blogs, acordo cheia de idéias para postar e na hora que me sento aqui, dá um branco.

Tenho que reescrever minha introdução e a minha conclusão, mas como? Eu sei o que está ruim, mas não sei o que por no lugar. Queria tanto falar de um assunto mais legal, banalidades, ou quem sabe até política. Mas nada. Estou quase escrevendo outra dissertação só sobre o tédio e a falta de inspiração. Já dois dias se passaram onde eu me dediquei a estudar e na hora de colocar o estudo no papel nada saiu. E eu estava indo tão bem. Vai ver que foi uma ilusão. Buá, buá!

Nessas horas uma mistura de raiva com frustração toma conta da gente. Penso em jogar tudo fora e começar de novo. Que se explodam os prazos, eu não ganho pra isso mesmo. Outra vontade que tenho e deixar tudo em stand by e ir tomar uma cerva, me esconder debaixo da coberta, tomar um café quentinho e assistir o Ben 10. Não pensar em nada, descançar o cérebro. Preciso de idéias e elas não vem! Vou fazer quem nem o Dali (não sei se isso é verdade, foi uma história que o meu irmão me contou), colocar um prato ao lado da cama e segurar uma colher na mão. Quando começar a pegar no sono e a colher tocar o prato eu escrevo a primeira coisa que passar na cabeça. Que tal?

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O primeiro selo a gente nunca esquece!

Existem coisas que a gente não esquece quando perde ;), outras a gente não esquece quando ganha. Além das homenagens adoráveis que ganhei no meu post passado, uma foi um pouco mais especial - meu primeiro selo!



Sim! Eu ganhei um selo pq segundo a Glorinha, meu blog vicia que nem café. hehe. Bom, foi quase isso que ela disse. Mas vamos ao que importa. O premio dardos é dado pelo reconhecimento dos ideais de cada blogueiro, pela criatividade que ele demonstra através de seu pensamento. Como muita gente que eu pensaria em premiar já foi premidada e eu tenho que escolher as pessoas aqui e justificar, vou premiar 3 blogueiras poetisas e feministas.

A primeira que eu não posso deixar de premiar é uma menina nada comportada que escreve suas brochuras (no brochuras de uma menina nada comportada). Seu blog mistura utilidade pública, com divulgações úteis de uma feminista super imformada com um ativismo pungente que transborda em micro-contos, vídeos e histórias bem contadas da atualidade.

O segundo que eu não poderia deixar de colocar é tu não te moves de ti. Infelizmente pouco atualizado, o blog sempre traz a representação artística do poema colocado pela autora. A lírica intimista prende o leitor que se pergunta, quem é ela? O feminismo não é o tema, mas a poesia revela que ele não está de fora, é palimpsesticamente presente.

O último blog, Sobre sentir, foi uma boa surpresa que tive um dia de ter uma leitora que não conheço e não faço ideia de como veio parar aqui, mas a estética do seu blog, um mix urbano de fotografia, arte e poesia me cativaram. E por isso gostaria de compartilhar com vcs um pouco dele.

Acho que a premiação pode soar estranha para algumas delas, já que não comento com frequência em seus blogs, mas a surpresa é ótima, afinal, é o momento de lhes revelar que apesar de não comentar, estou sempre visitando e lendo seus blogs.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

28 primaveras! e daí?

Anteontem me perguntei porque detestava os meus aniversários. Teoricamente é quando o inferno astral acaba. Eu deveria gostar dele. Mas não é isso que acontece. Tem os traumas de infância, mas bom, eu não fico mais infeliz se no lugar de uma Barbie noiva eu ganhar a boneca da Xuxa, aquela acusada de vários assassinatos na nossa infância. Na verdade, eu não podia reclamar dos presentes.

Dentro das posses dos meus pais, eles faziam o possível para me agradar. Eu ganhava até presente extra por ser a melhor aluna da turma. Porque então eu não gostava dos meus aniversários? Acho que não gosto de ser o centro das atenções. Ainda por cima por um motivo bobo desses. Eu não escolhi o dia do meu nascimento, porque comemorar? Acho meio louco isso. A outra razão é pior ainda, comemorar por estar ficando mais velha?! Hein??? Não tenho medo da idade, mas a cada ano que passa tem ficado mais difícil dar pulinhos de alegria. Sabe como é, dor nas costas, varizes, LER...

Mas sei lá, todo mundo fica tão feliz em fazer aniversário que deve ter um bom motivo. Ganhar presentes? Acho que não. Não sei se já escrevi aqui, mas pra mim ganhar um presente é um trauma, quase igual ao do Sheldon, do Big Bang Theory. Além de me sentir obrigada a presentear as pessoas que me presenteam, eu tenho problemas com o que ganho. Não que eu não goste das coisas, mas é que sempre tem um problema. Se é roupa, não me cabe. Se é sapato, não me serve. Livro que é o que eu mais gosto de ganhar, pouca gente se arrisca em me dar. Adoro vale presente de livraria, mas acabo só ganhando trivialidades. Eu gosto delas, mas gostaria o mesmo tanto da companhia do presenteador numa boa conversa.

Mas se deixarmos tudo isso de lado, ganhar presentes não é realmente o problema. De fato, eu até gosto de ser lembrada. O que há de errado então? Eu realmente não sei. Ainda acho fazer aniversário estranho. Vai ver que passar por essa experiência uma vez por ano durante 28 anos não foi suficiente para me acostumar com ela. Vai ver que no fundo sou um bicho do mato escondido numa pele de intelectual.

domingo, 7 de novembro de 2010

A revista femina

Socorro! Não tem nada pior do que a famigerada revista feminina. Cada vez que surge uma nova sinto em mim uma pontada de esperança desesperada de encontrar algo além de moda, sexo e dicas de maquiagem. Realmente as propostas e propagandas estão longe desse clichê, mas basta abrir o plástico que a envolve para cair no velho “10 truques infalíveis para deixá-lo louco na cama”, “saiba o que usar nesse verão”, “dicas para deixar a chapinha de lado na hora de sair”... Ninguém merece! As revistas femininas são ‘Caprichos’ crescidas, nada mais. E não sei se só eu reparei, mas quase sempre as principais reportagens são escritas por homens. Aposto que nas editoras eles também devem ganhar mais que as colegAs.

Outra coisa engraçada é reparar que revista de mulher é revista de moda ou decoração. Revista de homem é de carro ou mulher pelada. E revista de política? Será que é para os dois?

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A presidenta do Brasil

Quando eu estava na 7a série escrevi minha primeira redação no novo colégio, era um colégio de freiras. Eu escrevia muito bem nessa época. Foi antes da minha confusão mental se instalar de vez. Mas enfim, o tema da redação era criativo como sempre "O que você quer ser quando crescer". Era um tema difícil para mim, pois eu já havia parado de crescer. Entretanto, nessa época, meu interesse por política já havia começado a se manifestar. Meu irmão estava no primeiro ano do 2o grau (era esse o nome na época) e como era a primeira vez que um de nós estudava num colégio laico, ele estava bem animado com a possibilidade de expressar a própria opinião. Nós conversávamos bastante e eu começava a conhecer por alto várias teorias políticas por intermédio dele.

Quando vi um tema assim tão batido me inspirei e escrevi "Quero ser presidente do Brasil". Depois de entregar a redação eu fiquei com vergonha. Parecia coisa de primário escrever isso. Eu justifiquei na redação o porque queria ser presidente "para que as pessoas tivessem liberdade de expressar suas opiniões, acabar com a pobreza..." Eram coisas meio óbvias, mas era onde minha compreensão atingia. Mas acho que foi um bom texto, porque tirei nota máxima. No dia de entregar a redação corrigida a irmã que era professora de português me chamou depois da aula para conversar comigo porque eu estava conversando durante a aula dela.

Fiquei com medo de ser mandada para diretoria. Eu era muito nerd. Ela então me disse uma coisa que eu nunca mais esqueci. "Você acha que isso é postura de alguém que quer ser presidente do Brasil?". Sabe o que eu respondi a ela? "Acho que não, irmã. Mas eu não quero mais ser presidente do Brasil, acho que nenhuma mulher vai conseguir". Eu me senti ridícula na hora. Nem percebi que a irmã estava tentando me incentivar.

Mesmo com todos os poréns que vejo hoje, só posso dizer:

Obrigada, Dilma!

Agora toda menina pode sonhar em ser presidente do Brasil sem se sentir ridícula.

sábado, 30 de outubro de 2010

Minhocações e besouragens

Acabei de reler pela 3 vez As Meninas, da Lygia Fagundes Telles e não resisti em pegar emprestado as expressões acima.

Estava lendo um post da Lola que falava sobre aqueles que são preconceituosos por enxergar o preconceito em tudo. A posição da Lola não é essa, ela só estava respondendo uma crítica que recebeu. Eu, como estou infurnada em casa trabalhando à beça fiquei pensando "Será que o mundo mudou e eu não vi?". Eu bem que queria viver no mundo de algumas pessoas onde todo mundo é feliz e não existe pobreza e injustiça e todo mundo que rouba é mau e merece ir para o inferno. Quem usa drogas é fraco e merece morrer tbm. Naquele mundo onde as mulheres podem tudo, até serem presidentes. Ai ai! Ia ser mesmo uma beleza.

Talvez esse mundo exista, mas é um universo paralelo ao nosso, como naquelas historinhas em quadrinhos. Gente, esse mundo não é aqui, muito menos no Brasil. Vou falar do que eu entendo, que é sexismo. Porque eu sou mulher, né. Recentemente tive um problema com a imobiliaria que aluga o apê pra mim e bom, tinha umas coisas duvidosas no contrato e fiquei com medo do cara se aproveitar. Ele quis aumentar o aluguel ano passado injustamente, e o maridão caiu na conversa pq o cara disse que se ele aumentou com o índice negativo, o maridon podia negociar um aumento mais baixo quando o índice estivesse em alta. Aconteceu isso esse ano, o índice em alta e, bom, pensamos em negociar. Mas o maridão queria que eu falasse com o cara pq sou menos flexivel e o cara é um bronco. Bom, o cara se ofendeu de estar sendo contestado por uma "mulherzinha", ofendeu meu caráter e tudo só porque eu exigi q ele falasse com o proprietário sobre a nossa recusa em aceitar o aumento. Acho q ficou puto porque eu disse "Não quero saber o que você acha que o proprietário vai falar, quero que fale com ele." O cara não falou. Me ligou 10min depois com uma conversa fiada, mas eu não queria discutir e contactei meu advogado. Olha a resposta que recebi dele sobre como proceder ao devolver o apartamento para não ter problemas:

Quanto aos defeitos, vc deve notificar a imobiliária por escrito exigindo a reparação, sob pena de levar o caso à justiça. Tire fotos, chame o porteiro e o sindico pra ver. Eles poderão testemunhar a seu favor mais adiante.

Quando vc tiver de saída, observe o que diz a cláusula XVI. Este povo é chato mesmo, tem de dar duro, comparar a vistoria inicial com a final e discutir muito. Não vá só, vá com seu marido ou outra pessoa, de preferência homem.
Não é discriminação, é verdade, eles abusam da compreensão e da fragilidade feminina.

Além disso, em regra, o que eles (imobiliária) conseguirem tirar de vc em excesso é deles, ou seja, muitas vezes eles enganam o proprietário e o locatário.


Não é preconceito não, minha gente. Apenas meu advogado me ensinando como as coisas são. Eu posso dizer que é normal devido ao fato das mulheres não serem afeitas às coisas práticas ou ao mundo dos negócios. Mas olha só, eu já morei só com uma amiga, e o contrato de aluguel estava no nome da minha mãe (se não me engano, uma mulher). Minha mãe, embora não boa administradora, cuida dos seus bens melhor do que o meu pai cuidava. Tem uma casa própria e um automóvel. E ela é uma mulher só. Minha tia, irmã da minha mãe está na mesma situação e ainda tem um apartamento na praia. Ambas foram "trocadas" por outras por seus maridos, sustentaram as famílias e terminaram de criar os filhos. A maior parte das minhas amigas, compra carros no seu próprio nome. Tenho uma que tem um apartamento quase quitado no seu nome. Outra, recebeu de herança um da mãe, que aluga para complementar as despesas de sua vida em outro país. Essa última acho que é a única que não cuida pessoalmente dos negócios pq seu pai é vivo e como quando a mãe dela morreu e ela era muito nova para cuidar das finanças, virou hábito. Além do mais, ela confia no pai.

Tenho amigas mais velhas que cuidam dos filhos, dos ex-maridos, dos pais e etc. Onde está a fragilidade? É claro que eu entendi o que o advogado quis dizer. Que as imobiliárias enrolam até os homens, quiçá as mulheres, que parecem naturalmente mais despreparadas? Mas eu realmente não concordo. Acho que acontece o que aconteceu comigo ao argumentar com o proprietário da imobiliária - orgulho ferido. Como uma mulher pode discordar ainda de um jeito petulante? É, eu fico petulante quando sei que estou certa (é raro eu achar que estou certa). Mas é que eu penso, se a lei está do meu lado, porque tenho que "puxar o saco" de quem deveria estar pedindo desculpas? A verdade é que o homem não me deixou nem terminar de falar. O orgulho dele ficou tão ferido que disse que eu poderia sair do apartamento naquele mesmo mês que não cobraria multa, que se sentiria avisado sobre a saída. Pensa se eu vou fazer isso com um destemperado desses? Claro que quando eu sair vou avisar direitinho, porque a vontade dele me ferrar vai ser enorme depois da contestação. Mas enfim, pode parecer uma coisa boba, se é, porque o advogado fez questão que colocar em negrito no e-mail?

Tenho outro causo que aconteceu tbm comigo que já nem me lembro se contei. Mas quando o meu pai faleceu, já tinha vendido umas terras que tinha pelos interiores de Brasília. Mas como tudo do meu pai é enrolado, tinha gente morando nas terras. Talvez ele tenha feito um acordo com o proprietário para essa gente continuar lá. Como a gente não consegue falar com o comprador, tentamos falar com o povo que mora lá. Eu estava encarregada do inventário de mi padre. Fui com o meu irmão pq não tenho carro. Enfim, eu tbm vivia indo naquelas terras com o meu pai e aquelas pessoas me conheciam tanto quando ao meu irmão. Começamos a prosear, tomamos vários cafés, vimos várias galinhas e começamos a contar o problema para aquelas pessoas. Aquele terreno não pode ser loteado. Tínhamos que fazer um acordo entre o comprador e eles e queríamos fazer algo formal para deixá-los amparados. O meu irmão nunca chega no assunto. Eu fui direto pq não aguentava mais beber café - vcs tem algum documento da terra? Todos tinham. Posso ver? Ninguém deixou. O meu irmão pediu, ninguém deixou, mas eles não falaram comigo. Só falavam com o meu irmão. Eu dizia uma coisa, ninguém respondia, meu irmão repetia o que eu havia dito, eles falavam. Não gente, não estamos no Oriente onde homens não negociam com mulheres, estamos no Brasil.

Agora, se isso não é preconceito, alguém pode me explicar qual é o nome da coisa que eu tenho que combater?

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O Buzão de Murphy

Eu fui ao cinema hoje assistir Tropa de Elite 2 (talvez algum dia eu faça um comentário aqui, pq não é sobre ele que quero falar agora, apesar de ter gostado) no cinema mais perto da minha casa onde posso ir de Baú. Na hora de voltar (antes da 9:30 da noite), eu e o Marcos passamos pela maravilhosa experiência de se pegar ônibus de noite em Brasília. O primeiro que passou era o nosso. Ficamos acenando loucamente porque a W3 Norte é um putero depois das 10hs e não queríamos conviver com as tias porque elas não andam com boas companhias. Ele passou tão rápido na faixa oposta a da parada que furou o sinal como um raio. Depois passaram mais dois no mesmo esquema. O Marcos não queria arriscar, então se jogou na frente do ônibus para que ele parasse. Não sei se ele parou por causa do Marcos ou porque a câmera do meu celular tem um puta flash. Sei que fiquei com medo de ficar viúva antes dos 30. Quando cheguei em casa me lembrei que tinha um texto de 2007 sobre isso que estava terminado (a maioria dos meus textos estão incompletos). Então resolvi compartilhar com vcs:

***

Andar de ônibus em Brasília é uma aventura. A cidade planejada de ruas largas não foi planejada para pessoas, ônibus, chuva, e sim para prédios, carros, monumentos e só. Quem se aventura a andar de ônibus por aqui lida com dois problemas: a competência do governo local e Murphy ( não o Dr. Doolittle, o da lei de Murphy). A menos que você pegue ônibus na W3 para ir para W3, acredite, vai ter problemas. Primeiro que você vai andar uns 10 minutos até chegar na parada. Mas isso não é ruim, uma forma de fazer um exercício, já que academia não é coisa pra quem anda de ônibus, não por aqui, pelo menos. O problema é que invariavelmente, a menos que você esteja na W3 e vá para W3, provavelmente vai levar no mínimo uns 15 minutos esperando pelo seu ônibus. Quando ele chegar, a chance dele estar vazio é mínima (lembre da lei). Mas não sejamos pessimistas, ele quase sempre vai estar cheio, mas se não for horário de rush ele não vai estar lotado. O problema é que ele vai parar em todas as paradas até chegar ao seu destino (o seu não o dele) porque ele vai passar pela W3 (TODOS OS MALDITOS ÔNIBUS DE BRASÍLIA PASSAM PELA W3 - menos quando vc quer ir para lá), mais um monte de gente não vai estar indo pra W3 e ele pode parar ainda mais se estiver na W3, mas indo para outro lugar que não ela.

Nisso você leva no mínimo meia hora pra chegar aonde quer. Somando os 10 minutos do trajeto até a parada, os 15 até pegar o baú, os 30 da viajem e ainda adicionando uns 15 (e isso sendo otimista) do trajeto da parada final até onde você quer ir e contando nesses 15 algum pequeno atraso dos números anteriores são já 1 hora e 10 minutos. Isso quer dizer que se você demora uma hora pra acordar, tomar banho e tomar o café da manhã você tem que acordar duas horas antes do horário de entrada no trabalho ou na escola. Se você, como a maioria das pessoas normais, que não é funcionário público, entra às 8hs no trampo terá que acordar às 6hs. Seis horas da manhã é desumano!

Mas as coisas não são sempre assim. Quem disse que os ônibus passam de 10 em 10 minutos? O Guará passa de 15 em 15 considerando condições ideais, sem chuva, sem ônibus quebrado, engarrafamento ou acidente. O Cruzeiro é de 20 em 20 na teoria porque na prática é de meia em meia hora, mas ninguém divulga porque teoricamente o Cruzeiro não é periferia, então teria que ser tão bem servido quanto o Guará em matéria de ônibus, mas não é. Não vou nem comentar se você mora na Octogonal ou no Sudoeste, se você está nessa situação aumente 10 minutos em cada intervalo de tempo que ainda estará dentro da margem otimista da situação. Depois de analisar rapidamente tudo isso, entra Murphy, que ao contrário do governo sempre segue a sua própria lei. Mas não se preocupe, se você mora nesses dois últimos lugares não precisará do ônibus pois terá um carro e não discuta com o governo. VOCÊ NÃO PRECISA DE ÔNIBUS!

Sempre que você quiser ir pra W3 Norte só vai passar ônibus ou para Rodoviária ou para W3 Sul. Num outro dia quando você for para um desses dois outros lugares você vai chegar na parada feliz pensando que vai ter sorte e que assim que chegar o seu ônibus vai passar – esqueça! Só vai passar W3 Norte. E as autoridades, ingenuamente se perguntam porque o grande volume de veículos nas ruas com somente uma pessoa. Ou porque houve um aumento escandaloso na venda de motos. Dá vontade de dar 10 reais para elas e manda-las irem e voltarem do trabalho, chegando na hora, antes de fazer uma pergunta idiota como essa.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Nepotismo não é só político

O nepotismo é uma prática desonesta e injusta. Ele elimina a competição e não avalia as capacidades individuais. Muitos brasileiros recorrem a essa prática mesmo tendo qualificações suficientes para conseguir um posto sozinhos. Recorrem a ela porque é mais fácil e "garantido". Muitos desses brasileiros depois reclamam do nepotismo na política. Vai entender...

Existe outro tipo de nepotismo, o intelectual. Nele apenas as pessoas que sempre tiveram acesso ao discurso são autorizadas e emitir juízos e opiniões. Quando há alguma mudança em quem pode falar notamos que sai da mão de um poderoso para a de seu protegido e/ou filho, esposa, sobrinho. O problema dessa prática é que além de colocar muitas pessoas sem competência controlando os meios intelectuais, ela inibe, reduz ou barra a diversidade de idéias e opiniões. Promove hoje o efeito "intelectual no carro importado", uma versão mais moderna do intelctual na torre de marfim. Esse novo intelectual conhece um pouco mais do mundo, saí de casa e chega até a ver os problemas de sua cidade, mas dentro de seu carro importado com película e ar condicionado digamos que sua persepção da realidade fica bastante comprometida.

O nepotismo artístico é um velho conhecido. Quantos cantores e atores que estão em voga não são filhos de outros? Muitos deles tem talento, é certo. Mas será que aqueles que não tem saem da mídia por causa disso? Os que não tem talento tem dinheiro para esconder a falta dele. Podem contratar um bom produtor, letrista, uma boa banda, e pronto, tá aí o talento $. Entre os atores a situação é mais gritante ainda quando temos uma emissora que detém uma enorme fatia do mercado cultural brasileiro atuando inclusive no cinema e promovendo uma dezena de novelas ruíns, programas sem conteúdo e nenhum desafio para seus atores. Mas realmente eles não parecem se importar em ficarem guardados na gaveta recebendo um bom salário e um por fora para aparecerem na balada. O mais engraçado, que no lugar de participarem da intelectualidade brasileira, eles ficam alheios de todos os processos sociais e usam a imagem e o alcance que ela tem para promover apenas a eles mesmos. Não são todos, é verdade, mas aqueles que não são "globais" são tão locais que quase ninguém repara. É uma pena.

Seguindo o pensamento de Terry Eagleton, que muita gente cita, mas pouca gente segue; enquanto deixarmos apenas os mal intencionados tomarem conta do processo estaremos sendo coniventes com tudo o que fizerem. Não podemos deixar apenas os nepotistas fazerem parte do processo, temos que abrir uma fresta para a competência e a honestidade entrarem.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A luz do fim do túnel

Um pouco da tensão está ficando pra trás. Esse climinha chuvoso me ajuda a concentrar e é boa a sensação de que os deadlines não vão me matar. Muito da raiva que descontei no post passado, passou. Afinal, todo professor acaba se acostumando com gente que tem preguiça de pensar. Só fico um pouco triste disso não ser motivo de vergonha, mas tenho esperança. Outro dia vi na TV que a OAB quer arroxar com os plagiadores. Quem sabe o exemplo não se estenda para outros domínios?

Se por um lado me senti lesada, por outro elogiada. Vou encarar esse episódio como um incentivo para montar meu próprio material, do jeito que eu quero. Quem sabe alguém se interesse em publicá-lo? Outra coisa que me anima é saber que terei tempo para revisar minha dissertação. Não paro de sonhar com a banca me descascando. Vai ser bom ter tempo para me preparar para sabatina.

Mas enfim, sem muita inspiração pois acabei de trabalhar a pouco e foram mais de 10 horas de trabalho. Difícil ter uma insight criativo nessas condições.

É isso. Por hoje é só, pessoal!

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Gente cara de pau

É mesmo foda. Eu não sei definir se é cara de pau ou folgado mesmo. Pode ser também que seja preguiça, o que me deixa mais p*** ainda. Sei que aconteceu o seguinte comigo. Primeiro eu estava dando aula de Francês Instrumental na UnB pq NINGUÉM queria dar o curso. Muito trampo, muitas turmas, não tem material e talz.

Eu topei a parada pq sou meio louca mesmo. Me matei de trabalhar feito um burro de carga e consegui montar uma apostila. Recebi uns conselhos valiosos das colegas do francês, mas ninguém fez nada pra mim. Até dei uma olhada no material preparado por uma colega, mas só queria mesmo ter noção de como eram estruturados os exercícios. Pois bem. No meu primeiro semestre como professora, comi o pão que o diabo amassou. Arrumei uma monitora que não valia nada e quase sumiu com os trabalhos dos alunos. Depois peguei uma porção de alunos picaretas tentando colar e se sentindo os donos da verdade. Aprendi muito na prática como estruturar um curso, e finalmente, a não dar mais tarefas do que vc pode corrigir. Eu não aprendi a ser picareta pq sempre detestei esses professores quando era aluna.

Pois bem, muito tempo depois, recebi um e-mail de uma colega pedindo um auxílio sobre como montar uma prova de francês instrumental. Ela não deixou muito claro no e-mail, mas disse que tinha recebido uma proposta para trabalhar com francês instrumental e queria umas dicas. Eu enviei o link da minha pasta com o material e dei umas explicações por e-mail, me colocando a disposição para tirar qualquer dúvida. Não tinha porque não fazer isso, afinal, conhecia a pessoa (não muito bem), e meu material foi montado, na maior parte, com textos livres de jornais e sites da internet. De qualquer modo, era algo que qualquer um poderia fazer desde que tivesse tempo, conhecimento e paciência pra isso.

Pouco tempo depois eu encontrei a colega que veio me agradecer a ajuda. Nessa ocasião ela me explicou o motivo do e-mail: montar a prova da seleção do mestrado da sociologia (ou ciências socias, não me lembro). Ai eu não sei, me deu um sentimento de otarice da minha parte. Não sei se me enganei, mas achava que o mais correto seria ela ter passado pro pessoal o meu contato, já que não entendia nada de francês intrumental. Para dar aula eu até tava de boa, afinal não tem ninguém além de mim e uma outra professora com algum entendimento do assunto na cidade. Mas enfim, pensei que estava sendo invejosa e deixei pra lá. Afinal, ela tinha os contatos, eu não.

O problema, que fez esse sentimento voltar, foi outro e-mail dela que recebi. Era sobre um curso de capacitação que uma instituição de renome de Brasília ia dar aos professores e ela queria oferecer o meu material. Eu fiquei um pouco desconfiada então respondi que não me importaria, desde que a responsável pelo curso entrasse em contato comigo pessoalmente para criar um vínculo formal. Afinal, meu material estava ajudando seleções de mestrado, cursos de formação e eu não estava ganhando nenhum crédito por isso. Adivinhem o que aconteceu? Nada. Nenhuma mensagem de resposta. Fico até com medo de ter sido ignorada. Por via das dúvidas, eu bloqueei o acesso a pasta, mas pode ter sido tarde demais. Sabe, eu não me importava em emprestar, mas pelo que percebi, não queriam fazer como eu fiz, montar o meu próprio material a partir de idéias de outros materias. Queriam apenas usar, copiar, e sabe-se lá, levar crédito por isso. Sabe o que me deixa mais p*** ainda? Eu nem tinha arrumado ele do jeito que queria. Era meu trabalho pra depois do mestrado. Tbm nem achava que ele tava bom. Talvez tenha sido isso que me fez prostituir o coitado.

Bom, depois dessa ainda aconteceu outra coisa com outra colega, mas prefiro nem comentar. Se essa foi ruim a outra nem se fala.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O maior cego é aquele que não quer ver

Fugindo um pouco do debate político, mas resvalando nele, eu estive pensando no assunto que parece importar - fé dos candidatos. Parece que principalmente pro Serra, o importante é convencer de que ele é realmente um temente a deus. Pois bem, eu acho muito estranho dizer "católico não praticante".

Quer dizer, acredito, mas não pratico a minha fé. É um tipo de blasfêmia, não? Traduzindo melhor essa expressão ela quer dizer, eu acredito só pra vc que pergunta não me olhar torto e ter lá no fundo uma paz de espírito que me conforta com a idéia de que se existir um céu, eu tô garantido. É aquela coisa, já que duvidar da existência de deus é pecado, eu me garanto com ele achando que acredito e a minha preguiça e descrença em praticar a religião ficam perdoadas porque tenho fé.

Uma das minha melhores amigas é católica praticante. Ela é tão praticante que vai a missa sozinha, e não por imposição da família, que também é católica. Nós somos amigas desde a adolescência. E passamos muito tempo discutindo religião. Ela sentia uma certa dificuldade em entender a minha descrença e eu a crença dela. Pelo que eu entendi a fé é acreditar em algo sem provas, uma confiança cega. Depois que eu entendi isso percebi que a única fé que eu tinha era nas pessoas (constantemente abalada, mas sempre renovável).

Ela queria me levar para igreja dela, achava que meus conflitos familiares iriam melhorar se eu frequentasse a igreja. Eu era mesmo uma jovem triste e obscura. Fui umas duas vezes realmente procurando um conforto. As palavras batiam em mim e voltavam. Podem dizer que eu não "abri meu coração". Mas ele estava realmente sangrando de tão aberto e a igreja não conseguiu penetrar. Eu não tenho essa fé religiosa. Mas não perdi a amiga. Depois de muitas conversas ela entendeu que seria muito pior eu frequentar a igreja sem ter convicção naquilo. Eu cheguei a dizer a essa minha amiga que não conseguiria ser hipócrita a esse ponto porque eu achava que para os crentes aquilo era coisa séria. Porque eu iria invadir aquele lugar sem acreditar naquilo? Para mim isso é um desrespeito. A mesma coisa nos cultos evangélicos. Já fui em alguns. Todos dizem que faz uma enorme diferença de um para o outro e etc. Pra mim é a mesma coisa da missa, só que as pessoas cantam mais e o sermão é mais acessível.

Realmente o que eu acho é que as pessoas tem tanta dificuldade para conversar com os vizinhos, serem amáveis e fazerem amizade que muitas recorrem a religião apenas para fazer parte de uma comunidade. Os que realmente acreditam naquilo são uma parcela muito pequena. A maioria quer amigos e um "alívio rápido para consciência". Além daqueles que acham que podem cometer os maiores pecados e indiferença que basta comer uma hóstia ou dizer "aleluia" que pronto, passou. Existem pessoas que realmente acreditam, como é o caso dessa minha amiga. Mas eu realmente acho que essas pessoas estão tão realizadas com a própria fé que não tem necessidade de reafirmá-la a todo instante nem tão pouco angariar ovelhas para o seu rebanho (ou fundos para seu investimento).

Podem ainda me lembrar que minha amiga tentou me convencer a fazer parte da igreja dela. Bom, era algo que a fazia bem e ela achou que poderia me ajudar. Também era uma fase de questionamentos para ela e eu acho que as conversas comigo a ajudaram a reafirmar a própria fé e aprendar a não julgar os outros por causa disso. Além disso ela descobriu que eu tinha minhas próprias convicções. Quando para ela era um mandamento para mim era lógico, respeitar o próximo como eu gostaria de ser respeitada e assim por diante.

Daí eu me pergunto, que religiosos são esses que preferem uma mentira deslavada ao respeito às suas crenças? Que religiões são essas intolerantes e superficiais?

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Fogoooo!

Só pra ver se chamava atenção.

NÃO É HORA DE RETROCESSOS!!!

Quero colocar aqui um manifesto contra essa exploração retrógada que está sendo feita com o tema do aborto. Estão tentando retirar nossos direitos já adquiridos e transformar um tema de direitos humanos e saúde pública em promessa de campanha. Não podemos que a religião de alguns custe a vida de outros.


Para apoiar, deve-se clicar AQUI


MANIFESTO: "NÃO É HORA DE RETROCESSOS" !

Nós, cidadãs e cidadãos, defensores dos direitos humanos e conscientes das desigualdades de gênero que afetam negativamente o cotidiano das mulheres brasileiras, vimos a público expressar indignação pela forma como a questão do aborto está sendo instrumentalizada no atual período eleitoral.

O aborto é uma grave questão de saúde pública. Esse entendimento e o respeito à dignidade das mulheres levaram os dois últimos governantes que ocuparam a presidência da República a garantir avanços significativos nesse campo, com a aprovação de duas normas técnicas, pelo Ministério da Saúde.
A Norma Técnica Prevenção e Tratamento dos Agravos Resultantes de Violência Sexual contra Mulheres e Adolescentes, de 1998, assegura assistência imediata a mulheres vítimas de violência que queiram interromper uma gravidez não apenas indesejada, mas imposta pela desonra de um estupro. O Código Penal de 1940 assim o permite. A Norma Técnica de Atenção Humanizada ao Abortamento, de 2004, orienta sobre o acolhimento e tratamento digno que toda mulher em processo de abortamento, espontâneo ou inseguro, tem direito ao ser atendida no Sistema Único de Saúde.

O processo brasileiro de democratização já se revelou maduro e plural o suficiente para não sucumbir a pressões eleitoreiras e conservadoras que pretendem tão-somente ocultar e desprezar o sofrimento de milhões de mulheres para quem o aborto é o último recurso. Por isso mesmo, o aborto não deve ser pago ao custo de sofrimento, solidão, enfermidade ou mesmo a morte. Deste modo, a consolidação e o aprofundamento democrático no Brasil requerem, de modo premente, a preservação do princípio constitucional do Estado laico, e da liberdade religiosa como direito importante para que as pessoas possam professar sua fé e agir de acordo com suas consciências.

É amplamente reconhecido que são mais prejudicadas nesse contexto as mulheres pobres, que recorrem ao SUS com complicações decorrentes de um aborto feito em condições precárias, com risco elevado de comprometimento de seu bem-estar futuro.

Da mesma forma que a realização de um aborto em condições dignas e seguras não deve ser o divisor de águas entre as mulheres brasileiras, em função de sua classe social, não é aceitável que essa questão seja usada nos processos eleitorais com o objetivo de que prevaleça um Brasil arcaico, hipócrita e conservador sobre interesses republicanos e de promoção da igualdade entre os sexos.

É dever do Estado garantir o acesso amplo e irrestrito aos métodos contraceptivos para regulação da fecundidade para homens e mulheres no âmbito do Sistema Único de Saúde. A Constituição Brasileira e a Lei 9.253/1996 estabelecem que o planejamento familiar é um direito das pessoas e que cabe ao Estado fornecer as informações e os meios para o controle voluntário da fecundidade.

Não é hora de retrocessos. Não podemos caminhar na contramão da maior parte dos países democráticos, que vêm considerando este um sério problema de saúde pública e garantindo legislações que preservam a dignidade das mulheres que se vêem diante de tais circunstâncias. Ser contra a criminalização do aborto é reconhecer o direito à justiça e evitar o sofrimento de milhões de mulheres neste país.

Para quem esqueceu assinar é só clicar AQUI

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Pfffff

As vezes é muito difícil conectar as ideias, outras, explicar as conexões. Na minha cabeça fica tudo lindo, mas no papel parece o Frankstein. Para tentar sair do problema resta ler e reler a bibliografia. Só faz aumentar os pedaços do meu monstro. Nessas horas sou sempre atacada pela alteridade da banca. "Pq vc não usou o fulaninho? O ciclaninho? Eu não gosto desse conceito. Eu não concordo com essa nomenclatura..." É, como diria Sartre, "o inferno são os outros". E eles habitam minha cabeça.

Sou uma pessoa chata agora. Meu trabalho me tira o assunto. Agora eu entendo porque me sentia tão entediada com determinados colegas do meu marido que estavam nessa fase. O trabalho nos consome e só nos resta deixarmos nos consumir. Pra que falar de política, se eu estou prestes a salvar... minha pele? Pelo menos não precisarei fazer análise tão cedo. Talvez uma análise da análise.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Será que erramos?

Eu estava aqui pensando no aumento da desigualdade entre os sexos no Brasil, no crescimento da bancada evangélica na Câmara e na recente polêmica em torno das eleições que conseguiu reduzir todo o processo numa decisão que parece acreditar que o melhor candidato à presidência deve ser o mais religioso e retrógado.

Eu sempre defendi a liberdade de expressar idéias e crenças. Muitas vezes fui desrespeitada por acharem que ser ateu é estar indeciso e não uma "crença" em não crer. Vivo num país laico que oferece a própria constituição a deus (vide preâmbulo). Em meio a todas essas contradições as minorias parecem estar ficando cada vez menores. Existe uma série de permissões para religiosos. Se eu fosse adventista poderia fazer o vestibular em horário especial para respeitar o 7 dia. Não acho isso errado. Não sou a favor da proibição do véu na França. Mas também não acho que os religiosos devam tomar decisões para o país de acordo com suas próprias crenças. O governante deve governar para cristãos, umbandistas, espíritas, ateus e tudo mais. Eu não sou muito boa de datas, mas acho que no século XVII Estado e Igreja se separaram e foi um avanço. A democracia não combina com um governo religioso. Luis XIV era o chefe do estado e da igreja. Eu imagino se os parlamentares forem cada vez mais religiosos se não vamos perder nossa liberdade além de ter que orar antes das solenidades públicas.

O que eu acho mais interessante é que se discute religião numa eleição e perde-se espaço para se discutir as propostas para o país. Perde-se o foco, que é discutir POLÍTICA. Vamos ser realistas. Ser ou não religioso nunca foi sinônimo de bondade ou honestidade. Inclusive a maior parte das crenças pregam a verdade (delas), isso faz com que o crente seja muitas vezes mais coercivo do que o não-crente. Ele pode acreditar que o deus dele é o único e verdadeiro e que não acreditar em seu deus é um pecado imperdoável. Sendo assim, não há mal em matar um pecador em nome de um bem maior. Como diria o Pearl Jam "I can kill because in God I trust".

Alguém lembra dos deputados da câmara legislativa do DF orando para agradecer a propina? A religiosidade dos israelenses não os impede de tomar o espaço dos palestinos, nem tão pouco bloquear o envio de ajuda humanitária. Os protestantes nos Estados Unidos conseguiram proibir o ensino da Teoria da Evolução nas escolas. E isso tudo porque? Porque nós, que não partilhamos dessas crenças ou que achamos que religião não combina com política deixamos os religiosos cada vez mais ocuparem espaço na política. Muitos deles parecem não ter a mesma tolerância que nós e quando ocupam um cargo importante, legislam em causa própria, não respeitando as diferenças e acreditando que suas crenças são a verdade e que aqueles que divergem são pobres coitados que merecem ajuda. Bom, o último governante forte que era a verdade, a religião e a lei era...

*Editado posteriormente.
Eu não quero dizer que todos os religiosos sejam proselitistas ou fundamentalistas, mas aqueles que parecem interessados em tornar a religião um assunto político, sim.

Então eu me pergunto, será que erramos ao defender uma liberdade que parece nos condenar ao silêncio e a marginalidade? Será que não está na hora de nos lembrarmos que "o pessoal é político"?

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Porque o aborto é tão polêmico?

Recentemente vimos pela rede centenas de boatos referentes a posição da candidata Dilma sobre o aborto. Independente da posição dela o que era visível no tom de grande parte dos comentários era algo insinuando que caso ela assumisse publicamente que era a favor teria sua candidatura ameaçada. Temos que admitir que grande parte da população assume publicamente que é contra o aborto, mesmo que não seja. Algo como "católico não praticante".

Porque isso acontece? É extremamente mal visto ser ateu assim como ser a favor do aborto. O caso do aborto é ainda pior, porque o ateu tem salvação, pode encontrar Jesus. Mas a pessoa que é a favor do aborto se torna automaticamente um criminoso em potencial. A palavra que vem à nossa mente é "assassino". Mesmo o argumento mais plausível parece ser descartado quando se trata de aborto. É uma opinião senso comum que impede a maioria da população de pensar realmente sobre o tema.

Quando se fala em legalização do aborto não se espera que TODAS as mulheres façam um aborto. Muita gente vê inclusive uma necessidade em regulamentar a prática. Outra questão que parece não chegar a mente da população é que mesmo com toda essa criminalização e desprezo pelas mulheres que abortam essa é uma prática que não tem queda. A unica coisa que aumenta é o número de mulheres que morrem em decorrência do aborto. Esse número não pode ser ignorado. Isso é uma pressão clara entre a verdade e o senso comum. A realidade diz que se não se tormar alguma providência mais e mais mulheres vão continuar morrendo. Não importa a sua opinião nem a do Estado. Elas continuam praticando o aborto. A questão é que quando a mulher aborta e morre são duas vidas perdidas, se ela sobrevive, pelo menos uma é salva. Se você acredita que deus não permite, deixe que ela se entenda com ele quando for para o paraíso, ou que vá para o inferno, seja lá o que que vc acredite. Mas não deixe que uma pessoa já viva e nascida morra por causa da sua intransigencia. Se você é contra o aborto o não pratique, mas tornar essa proibição uma lei torna você cumplice dessas mortes.

Parece pesado, não? Mas pesado é imaginar que todas as mulheres tem condição de apertar um pouco o orçamento e conseguir criar um filho. Injusto é imaginar que todas as mulheres acreditam em deus. Limitado é pensar que todas as mulheres podem catar papel na rua para o seu sustento com uma barriga de oito meses. Alienado é achar que todas as crianças colocadas para adoção terão uma vida digna. Eu acho injusto condenar mães e filhos a uma situação dessas só porque as pessoas não tem capacidade de se colocar numa posição dessas e pensar com franquesa "Será que eu, nessas condições teria um filho"? Muitas vezes as mães temem que seus filhos tenham o mesmo destino. Existem pessoas que não tem uma vida digna, mas pimenta nos olhos dos outros é refresco.

É muito confortável sentar na sua cadeira em frente a sua tevê de LCD e pensar que a sorte sorri pra todos e o que parece decente e deixa sua consciência tranquila condena mães e filhos ou a morte ou a miséria. Também podemos pensar em milhões de outras possibilidades. Uma menina estuprada pelo marido da irmã mais velha, única pessoa que ela tem no mundo, obrigada a obortar numa clínica suja pela família vai parar no hospital de base por complicações e acaba morrendo porque os médicos ficaram com medo de serem presos. Isso já passou pela sua cabeça?

Porque então o aborto é tão polêmico? Eu acredito que as pessoas não sabem a realidade do aborto no Brasil. No mundo inteiro ele não para de ser praticado com proibições legais. Tem gente que prefere impor as suas crenças achando que é o certo e o melhor pra todo mundo. A questão é que o aborto não fere você e se fere as suas crenças não o pratique. O que você tem feito pelas crianças abandonadas, pedintes, pelas mulheres de rua com seis filhos nas costas para proibir o aborto e dar a eles uma vida digna?

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Vou ser do contra!

Sei que está todo mundo pensando em política, falando em política e querendo política, mas minha cabeça está poluída demais com minha dissetação para conseguir escrever um post decente sobre o assunto. Quero falar de sexo. De política eu já falo o ano inteiro.

A gente vai escrevendo e pensando nas possíveis perguntas que vai escutar e formando possíveis respostas. Fico imaginado, por exemplo, que a minha banca vai querer me dar uma rasteira e me perguntar o que eu entendo por gênero, papéis de gênero e crítica psicanalítica. Outra infinidade de conceitos podem ser um calo no meu pé. Por exemplo, discursos sociais. Posso também ser surpreendida por uma pergunta perturbadora. Algo como "porque você acredita que a maternidade é responsável pela manutenção dos papéis de gênero e a repressão sexual feminina?". Essa é muito fácil de responder, mas ao mesmo tempo, se for um homem a fazer a pergunta ele pode simplesmente ignorar toda uma realidade. Afinal a educação de meninos e meninas é beeem diferente.

Meu pai dizia "prenda a sua cabra que eu soltei meu bode", tentando me fazer entender qual era o meu lugar. Eu não contei para minha mãe quando eu perdi minha virgindade e nunca tive coragem de pedir uma camisinha para ela. Eu ouvi os maiores desaforos do mundo a primeira vez que dormi na casa de um namorado. Fui chamada de piranha pra baixo, pela minha mãe. Quando era adolescente meus pais desconfiavam do fato de eu ter mais amigos homens do que mulheres. Nem o fato de eu andar com o meu irmão ajudou a responder. Minha mãe achava que os meus amigos tinham segundas intenções. Que pegava mal eu andar no meio dos homens. E para ser bem sincera, a minha mãe não era das mais repressoras que eu conheci. O mais engraçado, porém, é aquilo que dão o nome de duplo nó. Ao mesmo tempo que a minha mãe me controlava ela detestava a minha avó pelas coisa que ela fez com ela. As mesmas que ela fazia comigo. A minha mãe não conseguia ver o paradoxo. O sonho dela era ter morado sozinha antes de casar, mas quando eu saí de casa ela fez uma tromba enorme e não foi me visitar, embora tenha me emprestado seu nome para o aluguel. Ela só começou a me ver como adulta depois que eu me casei. E agora me conta tudo aquilo que eu gostaria de ter sabido aos 15 anos de idade e que agora não me serve para mais nada.

Tudo isso porque? Porque eu precisava cumprir as etapas de uma mulher decente. O mais importante é casar, depois ter filhos. Hoje em dia precisamos de um emprego também, mas se somos casadas é menos pior. Antes disso, minha educação tinha que ser a de uma moça de família e eu estava vulnerável a ser uma perdida. Uma vez eu fui parar na psicóloga porque falava o que pensava. Eu acho que era na verdade porque eu falava a verdade. Eu compreendo bem melhor a minha mãe agora, mas será que era impossível ela me fazer endendê-la antes? É difícil dizer. O que ela poderia falar? "Filha, ser mulher é muito difícil e você nunca vai ser igual ao seu irmão. Você gosta do seu pai, mas ele não vai fazer sua vida melhor e eu não posso fazer nada por você. Vão te julgar e menosprezar. Vão ignorar o que você fala mesmo estando certa apenas porque não é homem."

domingo, 3 de outubro de 2010

É o fim do mundo?

Blogando pela noite escura com a areia tentando fechar meus olhos sinto uma quietude absoluta em minha volta. Apenas um alarme teima em tocar, mas o carro continua lá. Mas e nós? Me pego pensando se a aceleração histórica causada pelo uso macisso da internet como meio de comunicação é capaz de nos fazer sentir mais rápido as mudanças. Verdade que Dilma e Agnelo ainda irão para o segundo turno, mas um novo panorama de delineia, apesar de Weslian. Verdade que alguns recalcitrantes foram reeleitos. Queria eu acreditar que por um pequeno lapso do eleitor que guardou a mesma cola da eleição passada. Mas muita coisa parece ter mudado para homo brasiliensis. Esperamos que o DF não tenha do que se envergonhar no Congresso. Renovação? Não, não sou mais tão inocente assim. Amadurecimento? Talvez. Mas um amadurecimento político bem particular, que legitima uma jovem família de coronéis com duas filhas eleitas e uma mãe no segundo turno.

Esperamos então o dia amanhecer.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Ossos do ofício

Estava procurando os dados da porcentagem de mulheres na população brasileira. Quantas delas são economicamente ativas e etc. Encontrei até bem fácil no site do IBGE, mas os indicadores socias de gênero (o filtro) não estavam funcionando. Então... google it! E achei o site da spm onde você pode acessar os dados on line e descobrir todas essas maravilhosas estatísticas que regem a nossa vida.

Para quem quiser se "divertir" como eu, aqui vai: http://200.130.7.5/snig/

E descobrir também que mesmo sendo a maioria da população em idade ativa somos apenas 49,7% da força de trabalho.

Já que a eleição é amanhã e eu vou demorar a pegar o ritmo de trabalho, resolvi fazer algumas perguntas aos candidatos que eu sei que nunca serão respondidas.

1- Quais serão os mecanismos legais utilizados para a punição de políticos e servidores públicos?
2- Como será feita a reforma política (se será feita)? Quais as principais mudanças?
3- Uma reforma tributária é essencial para o pais. Onde se concentrarão as mudanças?
4- Qual é a política de transporte público a nivel federal? Mais rodovias para carros?
5- Quando será aprovado o voto aberto para senadores e deputados?
6- O lobby será legalizado algum dia?

Para você que vai votar amanhã com esperanças de ver algumas dessas perguntas respondidas. Que tem esperança de alguém que será eleito amanhã realizar algum desses feitos, sinto lhe informar que não. Nada disso irá acontecer. Então, tanto faz votar em um ou no outro. Eles só estão preocupados em promoção pessoal, enriquecimento ilícito e fazer amigos (tráfico de influências).

E se a esperança é a última que morre, aguém traz um desfibrilador pois a minha está em choque.

Boa sorte, Brasil! É só com ela que poderemos contar na segunda-feira, porque com esses políticos...

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Contra o estatuto do nascituro!


Estou fazendo parte da campanha contra esse estatuto absurdo que prevê, dentre outras coisas, a proibição do aborto em casos de estupro. Ou seja, é um retrocesso legal. Além disso garante a absoluta prioridade do nascituro (que passa a existir a partir da concepção) na garantia de seus direitos à saúde, inclusive psicológica. Mesmo em casos como o tratamento de doenças graves que a mãe venha a ter, se ameaçar a saúde do nascituro ela deverá morrer pois ele tem prioridade.

O texto da lei é cheio de pegadinhas para se usurpar o direito das mães. Dependendo da situação, pode-se interpretar que ir ao trabalho represente uma ameaça ao nascituro e a mãe deverá ser punida.

Eu aconselho muito que leiam a lei e a crítica no blog feito contra o estatuto. Esse projeto não pode passar. É a perda dos poucos direitos que conseguimos garantir nesse país atrasado onde religião interfere dessa forma no Estado.

O link para petição está aqui.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Surrealismo contemporâneo

Esposas-marionetes com possibilidades reais de serem manipuladas no governo do DF, quando direitos necessitam de 3 instâncias e uma infinita burocracia para se fazerem valer, nada mais normal que sacos de plásticos voarem pela minha janela, no terceiro andar.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Mi Buenos Aires querido!

Mudando um pouco o tom.

É, pessoal, fui "sequestrada" pelo meu marido para recuperar minha sanidade fazendo finalmente nossa viajem de lua de mel. Isso pra gente quer dizer ir para uma cidade sem nenhum conhecido ou parente pois somos especialistas em arrumar compromissos sociais. Claro que é porque gostamos deles, mas precisávamos relaxar.

Adorei a cidade. Super charmosa, cheia de vida com um transporte público decente e uma comida maravilhosa, mas nada saudável. Tem opções saudáveis, em muitos lugares carne de soja e talz, mas eu tirei uma folga da dieta também. Sabe como é, tinha que provar o churrasco argentino, o bife de chorizzo e as famosas papas. Sem falar nos vinhos que custavam em média 40,00 pesos e faziam a alegria do casal. A parte das compras que todos falam eu realmente não sei dizer. Não valia a pena pra mim comprar algo que eu não queria ou não precisava por um preço que ainda era caro por mais que fosse a metade do que era aqui no Brasil.

O que vale a pena é que Buenos Aires tem milhares de coisas para se fazer, n lugares para se visitar e meios viáveis para se chegar lá. Os museus são muito legais. Eu vi o Abaporu (sou fã da Tarsila). Mas adorei conhecer o Berni. Sou uma negação em modernismo latino-americano e tenho vergonha disso. Quando defender vou estudar mais a História da América Latina em geral. E olha que isso não é promessa de final de ano! Infelizmente o Museu do cinema estava fechado para reformas. O meu guia estava um pouco desatualizado e nós perdemos alguns passeios. Vale a pena conhecer a rosa, mas vá até o Museu de Belas Artes que fica em frente (muita gente não faz isso). Inclusive eles aceitaram minha carteirinha de estudante brasileira e eu paguei meia ;)!

San Telmo é bem legal porque não é tão turístico assim. Detesto passeio "pra inglês ver". Claro que visitei os pontos turísticos, mas esse negócio de ir de van com um monte de gente e um guia que para sempre estrategicamente numa lojinha e no restaurante não me diverte muito. O bom é esbarrar num restaurante super simpático onde ninguém fala português e vc tem que apontar os pratos e tentar se comunicar em portunhol. Não fomos enrolados como o pessoal falou. Talvez tenhamos sorte, mas os taxistas foram honestos, os garçons, as pessoas na rua... Minha experiência foi muito boa. Eu realmente recomendo.

sábado, 11 de setembro de 2010

Preciso falar!

Sei que havia prometido e dito que ia postar meus contos no blog, mas uma semana lendo intensivamente sobre os mitos da maternidades motivaram minha recalcitrância. Preciso postar!

No meio do caminho, entre as leituras feministas e literárias, me perguntei "porque estou estudando maternidade?". Parece um tema tão batido. Se pararmos para pensar, Simone de Beauvoir já falava nela como principal "defasagem" feminina em relação aos homens. Podemos colocar na lista Badinter, Chodorow e recentemente eu descobri Aminatta Forna. Filosofia, psicanálise ou jornalismo, seja qual for a linguagem essas mulheres concordam que o amor materno é uma invenção. Aliás, as mulheres relutaram muito em "assumir o posto". Aproximadamente 200 anos. Para se ter uma idéia, a amamentação era teimosamente combatida pelas mulheres cultas do século XVI ao XVIII, mesmo com as enormes taxas de mortalidade dos bebês que ficavam ao encargo das amas. Além disso o discurso filosófico, moral e médico variava em obrigar ou não esse ato que hoje nos parece óbvio ser necessário.

Fato é que os homens "tiveram" que nos ensinar algo que nos é "natural". Eles sabiam o que era uma boa mãe desde Rousseua até Freud. Nós só engolimos os discursos, não com uma certa ânsia, como a História mostra. Se toda a mulher deve ser mãe, se tem um "relógio biológico" que fatalmente vai chegar a essa hora, porque ainda é preciso ressaltar as qualidades e recompensas de ser mãe? Ainda sofremos hoje com discursos semelhantes aqueles que circularam entre o séc. XVIII e XIX para nos fazer voltar ao lar e às funções domésticas.

Eu estou exagerando? Outro dia vi no jornal comentando sobre a extensão da licença paternidade e apenas 2 das 6 pessoas entrevistadas foram a favor. Claro que isso é um universo ínfimo, mas não sei se o brasileiro está muito convencido da importância do papel do pai no desenvolvimento da criança. Talvez só se ache que as obrigações paternas começam quando a criança começa a falar, andar e etc. Afinal, enquanto mama é só a mãe, certo? Bom, daí surge a desculpa esfarrapada da psicanálise que afirma que as crianças "precisam" da mãe na primeira infância para poderem ter ela como objeto de amor pelo qual vão se livrar na fase edipiana. Besteira. A taxa de mortalidade no parto das mulheres de antigamente não causou uma epidemia de psicopatas. Aliás, o cuidado exclusivo da criança pela mãe parece ser muito mais problemático para ambos. Se a separação é necessária para o amadurecimento, porque torná-la tão difícil fazendo a criança se afeiçoar apenas pela mãe? Bom, Aminatta Forna, que foi criada em Serra Leoa pelo que chama de "família extendida" onde todos os adultos da família, inclusive amigos, são responsáveis pelo cuidado das crianças, ela mostra como esse tipo de cuidado pode ser muito mais saudável para a mãe e a criança. A mãe pode trabalhar e ter tempo pra si e a criança tem uma melhor experiência de socialização desenvolvendo melhor as habilidades de convivência. Muitos antropólogos afirmam isso, mas insistimos em pregar a maternidade ocidental como única, verdadeira e certa.

O problema é que essa maternidade não mudou muito. As mulheres ainda são definidas como "mães em potencial". Outro dia fomos a um almoço de família eu e o Marcos. Numa mesa estavam os adultos e na outra as crianças (que já estão mais para adolescentes). mas na prática, a mesa dos adultos era a dos casais com filhos e para as pessoas que babavam por crianças. Nós nos sentamos na mesa das crianças, mas nos sentimos meio sem lugar pois somos velhos para eles, não sabíamos os nomes dos jogos ou desenhos que eles gostavam, mas também não estávamos por dentro do papo dos adultos, pois eu acho extremamente entediante esse papo de falar de criança. Os adultos sem filhos não tem lugar na mesa. Até conseguirmos falar de política ficamos excluídos. Até porque se você é casado e não tem filhos causa estranheza nos demais. As perguntas começam "Quando vem o de vcs?" ou podem ser ameaças como "Vcs são os próximos...". O que me intriga é que sempre ouço um deles reclamando de ter tido filho.

As mulheres, pelo menos as jovens mães que eu conheço, são dignas de pena. Não conseguem nem fazer o marido lavar uma louça carregam a casa e o cuidado com os filhos sozinhas. Quando eu falo que eu e o Marcos dividimos tudo em casa e que ele cozinha na maioria das vezes porque eu não gosto de cozinhar me olham como se eu fosse um ET. Eu quase perguntei como elas tiveram coragem de ter filho se não tinham outra pessoa para cuidar da casa ou dividir as tarefas. Mas eu sou a diferente e seria indelicado da minha parte dizer isso, afinal, existe um pacto de não questionar a "normalidade" das divisões de papéis em público. Em resumo, porque mostrar pra pessoa que a vida dela é uma merda e ela está sendo explorada? Nos casos em que conheço, as mulheres são capazes de compreender isso por conta própria, só não o fazer porque teriam que recomeçar do zero. É melhor fingir que se é feliz, afinal, a sociedade não discute que a mãe merece algum reconhecimento.

As revistas e programas de televisão até hoje se regozijam em mostrar mulheres que tinham uma carreira brilhante e decidiram abandonar tudo para ser mãe. Ninguém discute o porque uma união dessas parece impossível. Eu detesto ver na legenda de uma entrevistada o nome seguido de "mãe da fulana ou do fulano". Muitas vezes não aparece nem o nome, só "mãe do fulano". E sua magestade a criança aparece coroada e invariavalemente a mãe parece uma abestada. Muita gente vai falar que eu reclamo ou desdenho porque não sou mãe. Eu preciso ser? Porque? Depois que eu for perderei minha individualidade com medo de ser taxada de egoísta ou de uma mãe má? E se não gostar da função, faço o que? É um problema, pois dizem que mesmo que uma mulher não goste de crianças ela será "tocada" pelo amor materno quando tiver seu próprio filho. E se ela resolver testar e seu "botão" estiver estragado? Fará o que? Com certeza a tomarão por doente. Eu conheço casos assim. O pior, poderão acusá-la de golpe da barriga. Que teve o filho para "segurar" o marido. Imagina se num casamento uma criança chorando o tempo todo e precisando de cuidados quase o tempo todo pode ajudar em alguma coisa. Me parece meio estúpido.

Não discordo que exista amor nessa relação, mas como ele pode surgir, aflorar normalmente com a alta taxa de imposições feitas às mulheres? Mesmo eu que divido as tarefas as vezes me pego com as pressões sociais atuando na minha cabeça. A casa está bagunçada eu ouço um "vc tem que arrumar". Imagina quando se é mãe o quanto essas pressões não são mais fortes? Será que as mulheres querem ser mães ou acham que devem ser? Afinal, todos são hunânimes em dizer que devemos ter essa experiência antes que gastemos todos os nossos óvulos.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Tirando os escritos da gaveta, ou do HD

Como estou beem sem tempo de postar e morrendo de vontade de fazê-lo resolvi publicar um conto meu. (que medo!) Mas um amigo me disse certa vez para não ser uma escritora de gaveta, ou de HD. Honestamente, tenho coisas melhores, mas inacabadas.
Esse é um dos muitos que tenho escrito sobre minha cidade, Brasília. Antes que me descasquem gostaria de lembrá-los que sou uma amadora. Espero apenas distraí-los. Alguns erros de concordância e ortografia são propositais, no futuro serão estilo. Outros, desatenção.

Um conto, encontro

Ela chegou elegantemente cinco minutos atrasada. Eu já havia chegado. Tinha no rosto uma expressão difusa que variava entre a indecisão de chegar tarde e parecer indiferente ou chegar cedo e denunciar a ansiedade. Sorria um pouco nervosamente. Eu, por outro lado não me lembrei bem se falei algo, pois sua figura me atraiu mais do que pude esperar. Fui surpreendido por uma mulher de calça jeans, sapatos baixos e camisa branca como alguém que diz “esta sou eu, decifra-me ou devoro-te”. Talvez eu deva ter balbuciado algumas palavras ou frases naquele ambiente intimidador. Era a primeira vez que marcava um encontro real numa exposição de arte. De fotos. Sei lá. Não entendia nada de arte, mas ela parecia bem à vontade. Tão à vontade que era quase um crime desviá-la da contemplação. Agora me lembro. Foi essa atitude dela que me fez passar quase uma hora apenas a contemplando. De fato ela me parecia bem mais atraente que fotos de “chão” cinza e sujo. Devia ser São Paulo. Brasília é muito bonita para alguém se recusar a olhar pra frente, pra cima. Taí outra coisa que pra mim não era Brasília: um encontro numa exposição de fotos. Como não entendia bem o porque das fotos, continuei tentando decifrar minha companhia. Era realmente peculiar. Não me parecia em nada com a maioria das mulheres daqui. Tinha cabelos enrolados e curtos, talvez. De um castanho variável. Eles estavam presos de uma forma que não revelava o tamanho real dos cabelos, mas dava um ar leveza ao seu rosto. Olhos brilhantes e penetrantes. Ela não olhava pra minha boca quando falava com ela. Seu olhar era direto. Mas isso eu descobri no final do encontro, porque até então eu me dividi na complicada tarefa de observá-la sem que percebesse e estar atento para olhar para uma foto sempre que ela olhasse pro meu lado. O que me deixou mais intrigado foi o fato dela não ser feia. Um encontro assim, às cegas, marcado numa exposição de fotos me parecia mais algo de uma matrona metida a intelectual. Eu estava acostumado a marcar encontros pela internet, mas esse foi, com certeza, o mais original. Continuei olhando a composição do quadro. Era mesmo uma obra de arte. Depois de olhar atentamente percebi o objetivo da roupa: esconder os atributos. Não era como se usasse um moletom para disfarçar a barriga ela tinha busto, mas não usava decote e a combinação da camisa social com a calça jeans disfarçava a cintura e as formas perfeitamente onduladas das coxas e da “brasilidade”. A única coisa chamativa nela era o grande anel em forma de rosa vermelha na mão. Talvez ele fosse o ponto de equilíbrio da obra. O de fuga, pelo menos da minha, eram os olhos. Me davam vontade de fugir e ficar ao mesmo tempo, “decifra-me ou devoro-te”. Ela então começou a comentar as fotos. Não sei bem quanto tempo se passou. Nesses lugares o tempo passa mais devagar, no silêncio e na calma. Fazia comentários engraçados e interessantes ao mesmo tempo. Fez até uma piadinha ao ver uma tampa de bic encostada num meio-fio dizendo “Será que é aí que todas vão parar?”. Começamos aos poucos a jogar conversa fora e decidimos ir tomar um café. Graças a deus aquele lugar tinha um café! Mas os preços eram esplêndidos, tal o tamanho da palavra. Mas eu só precisava ir tomando um café depois do outro. E foi exatamente o que eu fiz. Depois do quarto expresso e já com uma asia que estava quase para a denunciar eu decidi convidá-la para irmos a outro lugar. Perguntei então se ela estava com fome. Caso a resposta fosse sim, a convidaria para um lugar aconchegante (e mais barato) onde tivéssemos mais opções de comida e que sabe até um vinho. Estranhamente a resposta dela foi “não muito”. O quê eu faria agora? “Não muito” é sim ou não? Tinha que tomar alguma atitude, mais um café e eu estaria eliminado, vencido, direto pro banheiro. Que resposta enigmática era essa? “Não muito”? Não podia esperar mais, tinha que agir antes da cafeína. Mas onde? Um bar? A mulher me chama para uma exposição de fotos e eu a levo num boteco? Mas era o melhor que o meu gene brasiliensis podia pensar. Estava me apressando para dizer isso quando ela fez menção de falar. Parecia que ia dar sua sugestão. Eu já me sentia aliviado quando ela tirou a carteira da bolsa e deixou a sua parte na conta se desculpando por ter que ir embora. Eu estava tão surpreso quanto da primeira vez que nos vimos naquele dia. Foi quando percebi que por baixo da flor do seu anel havia uma aliança dourada. Não me contive e segurei-lhe delicadamente o pulso esquerdo fazendo-a perceber com o meu olhar que havia visto a aliança. Ela disse, um pouco constrangida, que não queria flertar nem brincar comigo. Queria apenas conhecer gente nova, que não a julgasse por ser casada. Acho que a minha cara devia estar mais confusa do que antes porque ela continuou se explicando. Eu ainda não tinha me dado conta do que estava acontecendo até que se desculpou pela última vez e disse então frase do enigma: “- … !”. Devorou-me e eu nunca mais a vi. Não devia mesmo ser de Brasília.