Estou aqui há pouco mais de uma semana. Sol e calor me recepcionaram na chegada. Tudo lindo e maravilhoso, excetuando-se a marvada da fila na entrada. Era um tal de procura esteira, espera mala, carrega mala, entra na fila e... espera, espera, espera.
Isso não é de todo mal, afinal, todos temos que passar por isso. Os estrangeiros, ironicamente, talvez pelo número reduzido, não tiveram qualquer problema. Já nós, brasileiros... Somos vítimas de nossa própria capacidade de organização. Acho que para fugir de críticas internacionais, que seriam ouvidas, deixamos todo nosso potencial a serviço dos compatriotas, afinal, é de conhecimento geral, que nenhuma instituição publica ou privada liga patavinas para o que nós pensamos. Adoro essa palavra, patavinas.
Mas essa irritação pode ser fruto de uma longa espera e uma longa viagem. Não exageremos então. A família estava a espera, emocionada. Mamãe não conteve as lágrimas. Um ano fora deu uma adocicada na nossa relação, eu também chorei um pouco. Afinal, tem coisa melhor que chorar de felicidade? As amigas lá também estavam.
Nossa brancura foi motivo de piada. Mas como estar brozeada vivendo em terras nevadas?
Enfim, depois de tudo chegamos. Ou quase. Não deu para alugar nada. Afinal de contas, onde vivem pessoas desempregadas, sem fiadores e recém chegadas? Com o excesso de provas que somos obrigados a fornecer provando nossa inocência financeira, eu e o Marcos não poderíamos fazer nada além de admitir que seríamos de ante-mão considerados culpados. Sublocamos um quarto no apartamento de um amigo. O que causou estranheza em todas as famílias, a minha e a do Marcos (e a do nosso colega de casa tbm). É mais aceitável viver de favor na casa do sogro, ou aceitar que alguém pague nosso aluguel. Eu não sei, acho que colocaram meu cérebro invertido dentro da cabeça, pois não consigo ver isso como algo normal...
Uma semana não foram suficientes para reunir todos os nossos cacarecos no mesmo lugar. Ainda estamos arrumando as coisas.
Três semanas e os cacarecos estão quase todos aqui. Aqueles da vida passada, nem todos recuperados, afinal, tínhamos um status quo que virou fumaça. Mas eu acho bom. Não sou mesmo uma pessoa parada. Reclamo das mudanças porque esse ano elas foram mesmo exageradas. Três só esse ano. Mas se 3 é um número cabalístico, começamos bem. Três mudanças, 3 pessoas num apartamento de 3 quartos. Espero que dê sorte. ;)
No mais vamos voltando. Nos acostumando ao trânsito, à bagunça, improvisação (como eu gosto dessa!), ao sol, ao calor, às chuvas tropicais!
E quem sabe, no mês que vem tem mais?
Café Velho
Falando o óbvio requentado, ou seja, gosto amargado
sábado, 25 de fevereiro de 2012
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
A volta, uma mistura de ansiedade e medo
Morar um tempo fora parece o sonho de muita gente. O velho continente é sinônimo de cultura e civilização. Até hoje, por mais decadente que esteja em alguns aspectos, ainda dita as abstrações diárias nas quais baseamos nossas vidas. Muitos pensam que apenas o fato de deixar o Brasil para morar na Europa significa uma mudança de status. Em suma, minha vida ia automaticamente melhorar apenas por ter vindo para cá. Afinal de contas, trabalho no MacDonnalds aqui não é o mesmo que lá. Outros pensam que eu magicamente fiquei rica, pois como morar na Escandinávia é caro e nós estamos morando aqui, logo, somos ricos. Muitos se surpreenderiam em saber que os preços aqui não são muito diferentes do Brasil. Mas gostaria de esclarecer, para evitar futuros constrangimentos aqueles que pensam em pedir dinheiro emprestado, que não, não ficamos ricos nem melhoramos de vida. Mudamos de lugar no espaço, mas não na pirâmide social "universal". Também não precisam se preocupar, não passamos nenhuma dificuldade aqui.
O quê eu posso dizer que foi importante na minha vida nesse quase um ano de estadia sueca, foi a experiência de vida. Foi conhecer gente do mundo inteiro, diversas experiências, culturas e porque não dizer, artes. Sei que talvez soe como um clichê, mas morar fora te ajuda a entender melhor o seu país e perceber coisas que nunca lhe vieram a cabeça antes. Eu sempre gostei muito do meu país, embora reclame bastante dele e da minha cidade natal, Brasília. Não acho que para gostar do país devemos ser xenofóbicos, alienados e acríticos. Aprendi com o tempo e minhas experiências aqui a ser mais tolerante. Não tinha nenhuma amiga acadêmica o que foi bom para minha experiência feminista, mas interessante para conhecer diversos "sensos comuns", que para Geertz são mais importantes do que aquilo que meia dúzia de intelectuais considera como "conhecimento".
Em relação ao meu país, ficou muita saudade e tristeza. Apesar de lermos em várias línguas, não conseguíamos deixar de acompanhar as notícias brasileiras, que por vezes nos chegavam tão distorcidas pelos meios de (des)comunicação que nos faziam pensar "será que realmente queremos voltar". A preocupação era grande, pois uma coisa estava definida, íamos voltar! Vamos voltar. Por mais que olhos se arregalem, narizes se torçam e bocas se abram surpresas. Por mais que alguns digam "eu no seu lugar, não voltava nunca mais". Como diria meu pai, se vc que ser o cachorro do rei, o problema é seu. As pessoas escolhem ficar no exterior por diversos motivos desde amorosos até identitários. Existem aqueles que podem viver na cidade que adoram, outros são forçados por diferentes razões, desde políticas a financeiras. Mas decidir voltar causa muito mais espanto. Por quê?
Eu sempre fui muito crítica com relação a política e a sociedade brasileira. Mas criticar não é odiar, é tentar melhorar. E a gente só tenta melhorar aquilo que dá importância. Eu gosto do meu país e gostaria que ele fosse um lugar mais justo, porque não? Eu sei que meu país muitas vezes age como se não nos quisesse de volta com suas lambanças, incompetências e desorganizações. Mas tem a família, os amigos, a cultura, a comida, a paisagem, a língua... Mas afinal "posso sair daqui pra me organizar". Aqui, tá tudo dentro da caixinha, previsível, entediante.
Também tem o medo. Medo de voltar e não se adaptar novamente. Como voltar a andar de ônibus tendo que se jogar na frente do mesmo para que ele pare? Será que ainda sei me segurar enquanto o motorista tenta nos derrubar dentro do carro aos 80 km/h no mínimo? Ter que carregar dinheiro para pagar a passagem? Passar meia hora só esperando um ônibus que talvez passe? Andar de carro? Acho que faz uns 2 anos que não dirijo. Não sei como vai ser voltar a ser agressiva, passar ao menos duas horas sentada no banco de um carro, a caça pela vaga... Não, ai não. E as pessoas? Como será conviver com todos novamente? Será que eu mudei? Elas mudaram? Ou ambas?
Por outro lado, guardadas as devidas proporções, sempre me identifiquei com o pensamento de Edward Said. Ele diz que um intelectual é aquele que está sempre se sentindo desconfortável, fora do lugar. Ele não aceita senso comum sem refletir, ele desconcerta pois está sempre quebrando paradigmas. Questiona a tudo e a todos, inclusive a si mesmo. Não admite uma verdade única ou universal. O intelectual está sempre no exílio pois não existe zona de conforto para ele. Said fala de intelctual. Eu me vejo mais como eu mesma. Pois intelectual virou quase um partido. Aqueles que falam mal dos intelectuais colocam todos eles no mesmo bloco. Eixo do mal, PT, esquerda, marxista, comunista, feminista... Para "eles" é tudo a mesma coisa. Eu não preencho todos os pré-requisitos para ser um "intelectual", mas acho que talvez seja "incoformável" e "inconfortável". (Inclusive, segundo as estatísticas, eu teria que ser homem, branco, ter por volta de 40 anos, morar no Rio ou em São Paulo, achar que o mundo se resume a essas duas cidades e seus problemas, problemas de intelectual)
Então, não faz diferença eu ficar aqui ou no Brasil. A diferença é que no Brasil talvez façamos mais diferença, talvez tenhamos mais oportunidades de emprego numa economia crescente. E porque não dizer que nossa vida pelo ser pelo menos, um pouco mais fácil tendo a família e os amigos por perto para ajudar? Sem falar no clima...
O quê eu posso dizer que foi importante na minha vida nesse quase um ano de estadia sueca, foi a experiência de vida. Foi conhecer gente do mundo inteiro, diversas experiências, culturas e porque não dizer, artes. Sei que talvez soe como um clichê, mas morar fora te ajuda a entender melhor o seu país e perceber coisas que nunca lhe vieram a cabeça antes. Eu sempre gostei muito do meu país, embora reclame bastante dele e da minha cidade natal, Brasília. Não acho que para gostar do país devemos ser xenofóbicos, alienados e acríticos. Aprendi com o tempo e minhas experiências aqui a ser mais tolerante. Não tinha nenhuma amiga acadêmica o que foi bom para minha experiência feminista, mas interessante para conhecer diversos "sensos comuns", que para Geertz são mais importantes do que aquilo que meia dúzia de intelectuais considera como "conhecimento".
Em relação ao meu país, ficou muita saudade e tristeza. Apesar de lermos em várias línguas, não conseguíamos deixar de acompanhar as notícias brasileiras, que por vezes nos chegavam tão distorcidas pelos meios de (des)comunicação que nos faziam pensar "será que realmente queremos voltar". A preocupação era grande, pois uma coisa estava definida, íamos voltar! Vamos voltar. Por mais que olhos se arregalem, narizes se torçam e bocas se abram surpresas. Por mais que alguns digam "eu no seu lugar, não voltava nunca mais". Como diria meu pai, se vc que ser o cachorro do rei, o problema é seu. As pessoas escolhem ficar no exterior por diversos motivos desde amorosos até identitários. Existem aqueles que podem viver na cidade que adoram, outros são forçados por diferentes razões, desde políticas a financeiras. Mas decidir voltar causa muito mais espanto. Por quê?
Eu sempre fui muito crítica com relação a política e a sociedade brasileira. Mas criticar não é odiar, é tentar melhorar. E a gente só tenta melhorar aquilo que dá importância. Eu gosto do meu país e gostaria que ele fosse um lugar mais justo, porque não? Eu sei que meu país muitas vezes age como se não nos quisesse de volta com suas lambanças, incompetências e desorganizações. Mas tem a família, os amigos, a cultura, a comida, a paisagem, a língua... Mas afinal "posso sair daqui pra me organizar". Aqui, tá tudo dentro da caixinha, previsível, entediante.
Também tem o medo. Medo de voltar e não se adaptar novamente. Como voltar a andar de ônibus tendo que se jogar na frente do mesmo para que ele pare? Será que ainda sei me segurar enquanto o motorista tenta nos derrubar dentro do carro aos 80 km/h no mínimo? Ter que carregar dinheiro para pagar a passagem? Passar meia hora só esperando um ônibus que talvez passe? Andar de carro? Acho que faz uns 2 anos que não dirijo. Não sei como vai ser voltar a ser agressiva, passar ao menos duas horas sentada no banco de um carro, a caça pela vaga... Não, ai não. E as pessoas? Como será conviver com todos novamente? Será que eu mudei? Elas mudaram? Ou ambas?
Por outro lado, guardadas as devidas proporções, sempre me identifiquei com o pensamento de Edward Said. Ele diz que um intelectual é aquele que está sempre se sentindo desconfortável, fora do lugar. Ele não aceita senso comum sem refletir, ele desconcerta pois está sempre quebrando paradigmas. Questiona a tudo e a todos, inclusive a si mesmo. Não admite uma verdade única ou universal. O intelectual está sempre no exílio pois não existe zona de conforto para ele. Said fala de intelctual. Eu me vejo mais como eu mesma. Pois intelectual virou quase um partido. Aqueles que falam mal dos intelectuais colocam todos eles no mesmo bloco. Eixo do mal, PT, esquerda, marxista, comunista, feminista... Para "eles" é tudo a mesma coisa. Eu não preencho todos os pré-requisitos para ser um "intelectual", mas acho que talvez seja "incoformável" e "inconfortável". (Inclusive, segundo as estatísticas, eu teria que ser homem, branco, ter por volta de 40 anos, morar no Rio ou em São Paulo, achar que o mundo se resume a essas duas cidades e seus problemas, problemas de intelectual)
Então, não faz diferença eu ficar aqui ou no Brasil. A diferença é que no Brasil talvez façamos mais diferença, talvez tenhamos mais oportunidades de emprego numa economia crescente. E porque não dizer que nossa vida pelo ser pelo menos, um pouco mais fácil tendo a família e os amigos por perto para ajudar? Sem falar no clima...
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Era inofensivo, mas virou piada.
Hoje resolvi dedicar mais tempo que o habitual encarafunchando o facebook. Péssima pedida, diga-se de passagem. O problema do facebook, na minha opinião é a rapidez com que as informações são divulgadas. Sim, por ser essa a vantagem, é também a maior desvantagem. Isso porque muitas vezes você compartilha suas primeiras impressões sem refletir. E sim, pensar é preciso, minha gente!
Vou citar um exemplo do que eu considero um "tapa com luva de pelica". É ofender alguém de tal forma que a pessoa não tenha como se defender porque não foi formalmente agredida. Qual a melhor forma de fazer isso? No Brasil, eu acho que a piada é a melhor, pois quando a pessoa percebe a ofensa e todo preconceito por trás da piadinha o agressor se defende e se safa dizendo "mas era apenas uma piada, não tinha intenção de ofender". Mas se não era para ofender era para fazer oque? Rir da minha miséria? Molière usava o gênero com maestria habilidade para ofender os costumes da época.
Uma piadinha dos nossos tempos:
Super divertida. Vamos pensar sobre ela em vez de apenas "rir". Qual é a "grande" sacada da piada? Ela faz referência a duas coisas muito comuns hoje em dia: a violência contra a mulher e o medo masculindo de comprometimento. Na minha opinião existe muitos problemas na parte engraçada da piada. A primeira é admitir que o cara que está disposto a agredir uma mulher, vai realmente ouvir o que ela tem a dizer. Outra coisa é assumir que o homem que agride uma mulher não tem nenhum comprometimento com ela. Ambas são falsas.
Ainda encontramos o estereótipo da mulher casadoira. Sim, todas as mulheres querem um compromisso, nunca tem um sexo casual. Em suma, estamos sempre querendo namorar, casar e ter filhos. E quando estamos num relacionamento sempre temos que discutir a relação.
Não sou contra a crítica, muito menos contra a comédia, mas não entenda mal, o ofendido vai exigir uma reparação e falar que não quis ofender, é, no mínimo, ingênuo (para não dizer hipócrita) da parte do "comediate". Aguente as críticas e responda-as com humor, ou reconheça que a piada é uma merda, racista, sexista ou o que for. O ruim é que quando piadas desse tipo são reveladas, frequentemente somos taxadas de "sem senso de humor". Eu fico me perguntando o que seria isso, um mecanismo que bloqueia o seu cérebro no momento da piada e faz você rir de algo que te ofende sem entender. Ou apenas é algo que faz você rir de algo sem graça apenas para fazer parte do grupo ou ser "cool".
Onde está a piada então? Vou tentar achar graça me imaginando numa situação dessas e dizendo para o estuprador "casa comigo! Ou, você tem que ligar para sua mãe"? Existe piadas para rir e piadas para ridicularizar os outros. Essa ridiculariza uma situação que não tem nada de engraçada. Tanta coisa para fazer piada...
Bom, lembrei desse vídeo do Feminist Frequency que comenta mais sobre anúncios de televisão, mas acho que o que eles falam a respeito de irionia pode ser aplicado ao caso.
Vou citar um exemplo do que eu considero um "tapa com luva de pelica". É ofender alguém de tal forma que a pessoa não tenha como se defender porque não foi formalmente agredida. Qual a melhor forma de fazer isso? No Brasil, eu acho que a piada é a melhor, pois quando a pessoa percebe a ofensa e todo preconceito por trás da piadinha o agressor se defende e se safa dizendo "mas era apenas uma piada, não tinha intenção de ofender". Mas se não era para ofender era para fazer oque? Rir da minha miséria? Molière usava o gênero com maestria habilidade para ofender os costumes da época.
Uma piadinha dos nossos tempos:
Super divertida. Vamos pensar sobre ela em vez de apenas "rir". Qual é a "grande" sacada da piada? Ela faz referência a duas coisas muito comuns hoje em dia: a violência contra a mulher e o medo masculindo de comprometimento. Na minha opinião existe muitos problemas na parte engraçada da piada. A primeira é admitir que o cara que está disposto a agredir uma mulher, vai realmente ouvir o que ela tem a dizer. Outra coisa é assumir que o homem que agride uma mulher não tem nenhum comprometimento com ela. Ambas são falsas.
Ainda encontramos o estereótipo da mulher casadoira. Sim, todas as mulheres querem um compromisso, nunca tem um sexo casual. Em suma, estamos sempre querendo namorar, casar e ter filhos. E quando estamos num relacionamento sempre temos que discutir a relação.
Não sou contra a crítica, muito menos contra a comédia, mas não entenda mal, o ofendido vai exigir uma reparação e falar que não quis ofender, é, no mínimo, ingênuo (para não dizer hipócrita) da parte do "comediate". Aguente as críticas e responda-as com humor, ou reconheça que a piada é uma merda, racista, sexista ou o que for. O ruim é que quando piadas desse tipo são reveladas, frequentemente somos taxadas de "sem senso de humor". Eu fico me perguntando o que seria isso, um mecanismo que bloqueia o seu cérebro no momento da piada e faz você rir de algo que te ofende sem entender. Ou apenas é algo que faz você rir de algo sem graça apenas para fazer parte do grupo ou ser "cool".
Onde está a piada então? Vou tentar achar graça me imaginando numa situação dessas e dizendo para o estuprador "casa comigo! Ou, você tem que ligar para sua mãe"? Existe piadas para rir e piadas para ridicularizar os outros. Essa ridiculariza uma situação que não tem nada de engraçada. Tanta coisa para fazer piada...
Bom, lembrei desse vídeo do Feminist Frequency que comenta mais sobre anúncios de televisão, mas acho que o que eles falam a respeito de irionia pode ser aplicado ao caso.
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
Raul Seixas, insubstituível!
Eu acho o tratamento de muitos, principalmente da crítica, em relação ao Raul Seixas uma injustiça. Por ser dono de uma filosofia simples e compreensível é muitas vezes taxado de simplório e popular. Digo popular sim, mas simplório jamais! Na minha opinião parcial de fã eu digo que Raulzito era sim profético. Posso dizer que talvez esse desprezo também seja devido ao fato do Raul Seixas ser baiano, de classe média, não tendo mais do que o primário.
Resolvi fazer esse post para mostrar um pouco do Raul para aqueles que só conhecem Mosca na Sopa e Maluco Beleza. O repertório do Raul Seixas é composto de mais de 200 músicas que iam muito além das baladinhas. Carimbador Maluco, por exemplo, é uma prova de como a situação da época era burra demais para entender o nosso artista, pois ele foi chamado para cantá-la em rede nacional. Uma música que críticava claramente a censura.
A respeito da política econômica brasileira dizia:
A solução pro nosso povo
Eu vou dá
Negócio bom assim
Ninguém nunca viu
Tá tudo pronto aqui
É só vim pegar
A solução é alugar o Brasil!...
Nós não vamo paga nada
Nós não vamo paga nada
É tudo free!
Tá na hora agora é free
Vamo embora
Dá lugar pros gringo entrar
Esse imóvel tá prá alugar
Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!...
Os estrangeiros
Eu sei que eles vão gostar
Tem o Atlântico
Tem vista pro mar
A Amazônia
É o jardim do quintal
E o dólar dele
Paga o nosso mingau...
Já com relação ao meio ambiente (e outras cositas mas) As aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor:
Tá rebocado meu compadre
Como os donos do mundo piraram
Eles já são carrascos e vítimas
Do próprio mecanismo que criaram
O monstro SIST é retado
E tá doido pra transar comigo
E sempre que você dorme de touca
Ele fatura em cima do inimigo
A arapuca está armada
E não adianta de fora protestar
Quando se quer entrar
Num buraco de rato
De rato você tem que transar
Buliram muito com o planeta
E o planeta como um cachorro eu vejo
Se ele já não aguenta mais as pulgas
Se livra delas num sacolejo
Hoje a gente já nem sabe
De que lado estão certos cabeludos
Tipo estereotipado
Se é da direita ou dá traseira
Não se sabe mais lá de que lado
Eu que sou vivo pra cachorro
No que eu estou longe eu tô perto
Se eu não estiver com Deus, meu filho
Eu estou sempre aqui com o olho aberto
A civilização se tornou complicada
Que ficou tão frágil como um computador
Que se uma criança descobrir
O calcanhar de Aquiles
Com um só palito pára o motor
Tem gente que passa a vida inteira
Travando a inútil luta com os galhos
Sem saber que é lá no tronco
Que está o coringa do baralho
Quando eu compus fiz Ouro de Tolo
Uns imbecis me chamaram de profeta do apocalipse
Mas eles só vão entender o que eu falei
No esperado dia do eclipse
Acredite que eu não tenho nada a ver
Com a linha evolutiva da Música Popular Brasileira
A única linha que eu conheça
É a linha de empinar uma bandeira
Eu já passei por todas as religiões
Filosofias, políticas e lutas
Aos 11 anos de idade eu já desconfiava
Da verdade absoluta
Raul Seixas e Raulzito
Sempre foram o mesmo homem
Mas pra aprender o jogo dos ratos
Transou com Deus e com o lobisomem
Quanto à política e o serviço militar obrigatório, a clássica; Cowboy fora da lei:
Mamãe, não quero ser prefeito
Pode ser que eu seja eleito
E alguém pode querer me assassinar
Eu não preciso ler jornais
Mentir sozinho eu sou capaz
Não quero ir de encontro ao azar
Papai não quero provar nada
Eu já servi à Pátria amada
E todo mundo cobra minha luz
Oh, coitado, foi tão cedo
Deus me livre, eu tenho medo
Morrer dependurado numa cruz
Eu não sou besta pra tirar onda de herói
Sou vacinado, eu sou cowboy
Cowboy fora da lei
Durango Kid só existe no gibi
E quem quiser que fique aqui
Entrar pra historia é com vocês!
E outra do lado B, Mamãe eu não queria:
Larga dessa cantoria menino
Música não vai levar você lugar nenhum
Peraí mamãe, güenta aí
Mamãe, eu não queria
Mamãe, eu não queria
Mamãe, eu não queria
Servir o exército
Não quero bater continência (Trá-lá-lá-lá)
Nem pra sargento, cabo ou capitão (Trá-lá-lá-lá)
Nem quero ser sentinela, mamãe
Que nem cachorro vigiando o portão
Não!
Mamãe, eu não queria
Mamãe, eu não queria
Desculpe, Vossa Excelência
A falta de um pistolão
É que meu velho é soldado
E minha mãe pertence ao Exército de Salvação
Não!
Marcha soldado, cabeça de papel
Se não marchar direito vai preso pro quartel
Sei que é uma bela carreira
Mas não tenho a menor vocação
Se fosse tão bom assim mainha
Não seria imposição
Não!
Mamãe, eu não queria
Mamãe, eu não queria
Não, não, não
Servir o exército
Você sabe muito bem que é obrigatório
E além do mais você tem que cumprir com seu
dever com orgulho
Mamãe eu não queria
Você sabe muito bem que é obrigatório
E além do mais você tem que cumprir com seu
dever com orgulho e dedicação
Mamãe eu morreria
Pela causa meu filho, pela causa
Mamãe eu não queria
Mamãe, mamãe
O exército é o único emprego pra quem não
tem nenhuma vocação, mulé
Mamãe, mamãe
Eu...
Contra o serviço público, ou conformismo, Meu amigo Pedro:
Muitas vezes, Pedro, você fala
Sempre a se queixar da solidão
Quem te fez com ferro, fez com fogo, Pedro
É pena que você não sabe não
Vai pro seu trabalho todo dia
Sem saber se é bom ou se é ruim
Quando quer chorar vai ao banheiro
Pedro as coisas não são bem assim
Toda vez que eu sinto o paraíso
Ou me queimo torto no inferno
Eu penso em você meu pobre amigo
Que só usa sempre o mesmo terno
Pedro, onde você vai eu também vou
Mas tudo acaba onde começou
Tente me ensinar das tuas coisas
Que a vida é séria, e a guerra é dura
Mas se não puder, cale essa boca, Pedro
E deixa eu viver minha loucura
Lembro, Pedro, aqueles velhos dias
Quando os dois pensavam sobre o mundo
Hoje eu te chamo de careta, Pedro
E você me chama vagabundo
Pedro, onde você vai eu também vou
Mas tudo acaba onde começou
Todos os caminhos são iguais
O que leva à glória ou à perdição
Há tantos caminhos tantas portas
Mas somente um tem coração
E eu não tenho nada a te dizer
Mas não me critique como eu sou
Cada um de nós é um universo, Pedro
Onde você vai eu também vou
Pedro, onde você vai eu também vou
Mas tudo acaba onde começou
É que tudo acaba onde começou
Meu amigo Pedro
Contra o conformismo, a ditadura, etc, Não Pare na Pista:
Não pare na pista
É muito cêdo
Prá você se acostumar
Amor não desista
Se você pára
O carro pode te pegar
Bibi! Fonfon! Pepê!
Se você pára
O carro pode te pegar...(2x)
Você me xingando
De louco pirado
E o mundo girando
E a gente parado
Meu bem me dê a mão
Que eu vou te levar
Sem carro e sem mêdo
Pr'o guarda multar
Meu bem me dê a mão
Que eu vou te levar
Sem carro e sem mêdo
Prá outro lugar...
Não pare na pista
É muito cêdo
Prá você se acostumar
Amor não desista
Se você pára
O carro pode te pegar
Bibi! Fonfon! Pepê!
Se você pára
O carro pode te pegar...
Você me xingando
De louco pirado
E o mundo girando
E a gente parado
Meu bem me dê a mão
Que eu vou te levar
Sem carro e sem mêdo
Pr'o guarda multar
Meu bem me dê a mão
Que eu vou te levar
Sem carro e sem mêdo
Prá outro lugar...
Não pare na pista
É muito cêdo
Prá você se acostumar
Amor não desista
Se você pára
O carro pode te pegar
Bibi! Fonfon! Pepê!
Se você pára
O carro pode te pegar
Mamãe! Papai! Irmão!
Se você pára
O carro pode te pegar
Vovó! Nené! Lili!
Se você pára
O carro pode te pegar...
A para mim, a maior prova da mente profética de Raulzito; Pastor João e a Igreja invisível, já prevendo o crescimento das religiões de mercado:
Eu não sei se é o céu ou o inferno
Qual dos dois você vai ter que encarar
E foi pra não lhe deixar no horror
Que eu vim para lhe acalmar
Se o pecado anda sempre ao seu lado
E o demônio vive a lhe tentar
Chegou a luz no fim do seu túnel, minha filha
O meu cajado vai lhe purificar
Pois eu transformo água em vinho,
Chão em céu, pau em pedra, cuspe em mel
Pra mim não existe impossível
Pastor João e a igreja invisível (4x)
Para os pobres e deseperados
E todas as almas sem lar
Vendo barato a minha nova água benta
Três prestações, qualquer um pode pagar
O sucesso da minha existência
Está ligado ao exercício da fé
Pois se ela remove montanhas
Também tráz grana e um monte de mulher.
Pois eu transformo água em vinho,
Chão em céu, pau em pedra, cuspe em mel
Pra mim não existe impossível
Pastor João e a igreja invisível (2x)
Haa! Pastor João e a igreja invisível (3x)
Aqui estão algumas interpretações bem rápidas e superficiais do Raulzito, mas já dá para se ter uma idéia de algumas características do nosso rei do rock. Debochado, inteligente, perspicaz... Infelizmente ele não tinha olhos verdes nem era bonitão. Tão pouco vinha de família abastada e poderia escrever operetas, mas para mim, não faz a menor diferença. O Raul é um dos maiores gênios da música popular brasileira sim e não se limitava somente ao rock.
A, e sim ele era feminista, apesar de não entender muito bem as lésbicas:
Se esse amor
Ficar entre nós dois
Vai ser tão pobre amor
Vai se gastar...
Se eu te amo e tu me amas
Um amor a dois profana
O amor de todos os mortais
Porque quem gosta de maçã
Irá gostar de todas
Porque todas são iguais...
Se eu te amo e tu me amas
E outro vem quando tu chamas
Como poderei te condenar
Infinita tua beleza
Como podes ficar presa
Que nem santa num altar...
Quando eu te escolhi
Para morar junto de mim
Eu quis ser tua alma
Ter seu corpo, tudo enfim
Mas compreendi
Que além de dois existem mais...
Amor só dura em liberdade
O ciúme é só vaidade
Sofro, mas eu vou te libertar
O que é que eu quero
Se eu te privo
Do que eu mais venero
Que é a beleza de deitar...
Quando eu te escolhi
Para morar junto de mim
Eu quis ser tua alma
Ter seu corpo, tudo enfim
Mas compreendi
Que além de dois existem mais...
Amor só dura em liberdade
O ciúme é só vaidade
Sofro, mas eu vou te libertar
O que é que eu quero
Se eu te privo
Do que eu mais venero
Que é a beleza de deitar...
Fonte das letras: http://letras.terra.com.br/raul-seixas/
Resolvi fazer esse post para mostrar um pouco do Raul para aqueles que só conhecem Mosca na Sopa e Maluco Beleza. O repertório do Raul Seixas é composto de mais de 200 músicas que iam muito além das baladinhas. Carimbador Maluco, por exemplo, é uma prova de como a situação da época era burra demais para entender o nosso artista, pois ele foi chamado para cantá-la em rede nacional. Uma música que críticava claramente a censura.
A respeito da política econômica brasileira dizia:
A solução pro nosso povo
Eu vou dá
Negócio bom assim
Ninguém nunca viu
Tá tudo pronto aqui
É só vim pegar
A solução é alugar o Brasil!...
Nós não vamo paga nada
Nós não vamo paga nada
É tudo free!
Tá na hora agora é free
Vamo embora
Dá lugar pros gringo entrar
Esse imóvel tá prá alugar
Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!...
Os estrangeiros
Eu sei que eles vão gostar
Tem o Atlântico
Tem vista pro mar
A Amazônia
É o jardim do quintal
E o dólar dele
Paga o nosso mingau...
Já com relação ao meio ambiente (e outras cositas mas) As aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor:
Tá rebocado meu compadre
Como os donos do mundo piraram
Eles já são carrascos e vítimas
Do próprio mecanismo que criaram
O monstro SIST é retado
E tá doido pra transar comigo
E sempre que você dorme de touca
Ele fatura em cima do inimigo
A arapuca está armada
E não adianta de fora protestar
Quando se quer entrar
Num buraco de rato
De rato você tem que transar
Buliram muito com o planeta
E o planeta como um cachorro eu vejo
Se ele já não aguenta mais as pulgas
Se livra delas num sacolejo
Hoje a gente já nem sabe
De que lado estão certos cabeludos
Tipo estereotipado
Se é da direita ou dá traseira
Não se sabe mais lá de que lado
Eu que sou vivo pra cachorro
No que eu estou longe eu tô perto
Se eu não estiver com Deus, meu filho
Eu estou sempre aqui com o olho aberto
A civilização se tornou complicada
Que ficou tão frágil como um computador
Que se uma criança descobrir
O calcanhar de Aquiles
Com um só palito pára o motor
Tem gente que passa a vida inteira
Travando a inútil luta com os galhos
Sem saber que é lá no tronco
Que está o coringa do baralho
Quando eu compus fiz Ouro de Tolo
Uns imbecis me chamaram de profeta do apocalipse
Mas eles só vão entender o que eu falei
No esperado dia do eclipse
Acredite que eu não tenho nada a ver
Com a linha evolutiva da Música Popular Brasileira
A única linha que eu conheça
É a linha de empinar uma bandeira
Eu já passei por todas as religiões
Filosofias, políticas e lutas
Aos 11 anos de idade eu já desconfiava
Da verdade absoluta
Raul Seixas e Raulzito
Sempre foram o mesmo homem
Mas pra aprender o jogo dos ratos
Transou com Deus e com o lobisomem
Quanto à política e o serviço militar obrigatório, a clássica; Cowboy fora da lei:
Mamãe, não quero ser prefeito
Pode ser que eu seja eleito
E alguém pode querer me assassinar
Eu não preciso ler jornais
Mentir sozinho eu sou capaz
Não quero ir de encontro ao azar
Papai não quero provar nada
Eu já servi à Pátria amada
E todo mundo cobra minha luz
Oh, coitado, foi tão cedo
Deus me livre, eu tenho medo
Morrer dependurado numa cruz
Eu não sou besta pra tirar onda de herói
Sou vacinado, eu sou cowboy
Cowboy fora da lei
Durango Kid só existe no gibi
E quem quiser que fique aqui
Entrar pra historia é com vocês!
E outra do lado B, Mamãe eu não queria:
Larga dessa cantoria menino
Música não vai levar você lugar nenhum
Peraí mamãe, güenta aí
Mamãe, eu não queria
Mamãe, eu não queria
Mamãe, eu não queria
Servir o exército
Não quero bater continência (Trá-lá-lá-lá)
Nem pra sargento, cabo ou capitão (Trá-lá-lá-lá)
Nem quero ser sentinela, mamãe
Que nem cachorro vigiando o portão
Não!
Mamãe, eu não queria
Mamãe, eu não queria
Desculpe, Vossa Excelência
A falta de um pistolão
É que meu velho é soldado
E minha mãe pertence ao Exército de Salvação
Não!
Marcha soldado, cabeça de papel
Se não marchar direito vai preso pro quartel
Sei que é uma bela carreira
Mas não tenho a menor vocação
Se fosse tão bom assim mainha
Não seria imposição
Não!
Mamãe, eu não queria
Mamãe, eu não queria
Não, não, não
Servir o exército
Você sabe muito bem que é obrigatório
E além do mais você tem que cumprir com seu
dever com orgulho
Mamãe eu não queria
Você sabe muito bem que é obrigatório
E além do mais você tem que cumprir com seu
dever com orgulho e dedicação
Mamãe eu morreria
Pela causa meu filho, pela causa
Mamãe eu não queria
Mamãe, mamãe
O exército é o único emprego pra quem não
tem nenhuma vocação, mulé
Mamãe, mamãe
Eu...
Contra o serviço público, ou conformismo, Meu amigo Pedro:
Muitas vezes, Pedro, você fala
Sempre a se queixar da solidão
Quem te fez com ferro, fez com fogo, Pedro
É pena que você não sabe não
Vai pro seu trabalho todo dia
Sem saber se é bom ou se é ruim
Quando quer chorar vai ao banheiro
Pedro as coisas não são bem assim
Toda vez que eu sinto o paraíso
Ou me queimo torto no inferno
Eu penso em você meu pobre amigo
Que só usa sempre o mesmo terno
Pedro, onde você vai eu também vou
Mas tudo acaba onde começou
Tente me ensinar das tuas coisas
Que a vida é séria, e a guerra é dura
Mas se não puder, cale essa boca, Pedro
E deixa eu viver minha loucura
Lembro, Pedro, aqueles velhos dias
Quando os dois pensavam sobre o mundo
Hoje eu te chamo de careta, Pedro
E você me chama vagabundo
Pedro, onde você vai eu também vou
Mas tudo acaba onde começou
Todos os caminhos são iguais
O que leva à glória ou à perdição
Há tantos caminhos tantas portas
Mas somente um tem coração
E eu não tenho nada a te dizer
Mas não me critique como eu sou
Cada um de nós é um universo, Pedro
Onde você vai eu também vou
Pedro, onde você vai eu também vou
Mas tudo acaba onde começou
É que tudo acaba onde começou
Meu amigo Pedro
Contra o conformismo, a ditadura, etc, Não Pare na Pista:
Não pare na pista
É muito cêdo
Prá você se acostumar
Amor não desista
Se você pára
O carro pode te pegar
Bibi! Fonfon! Pepê!
Se você pára
O carro pode te pegar...(2x)
Você me xingando
De louco pirado
E o mundo girando
E a gente parado
Meu bem me dê a mão
Que eu vou te levar
Sem carro e sem mêdo
Pr'o guarda multar
Meu bem me dê a mão
Que eu vou te levar
Sem carro e sem mêdo
Prá outro lugar...
Não pare na pista
É muito cêdo
Prá você se acostumar
Amor não desista
Se você pára
O carro pode te pegar
Bibi! Fonfon! Pepê!
Se você pára
O carro pode te pegar...
Você me xingando
De louco pirado
E o mundo girando
E a gente parado
Meu bem me dê a mão
Que eu vou te levar
Sem carro e sem mêdo
Pr'o guarda multar
Meu bem me dê a mão
Que eu vou te levar
Sem carro e sem mêdo
Prá outro lugar...
Não pare na pista
É muito cêdo
Prá você se acostumar
Amor não desista
Se você pára
O carro pode te pegar
Bibi! Fonfon! Pepê!
Se você pára
O carro pode te pegar
Mamãe! Papai! Irmão!
Se você pára
O carro pode te pegar
Vovó! Nené! Lili!
Se você pára
O carro pode te pegar...
A para mim, a maior prova da mente profética de Raulzito; Pastor João e a Igreja invisível, já prevendo o crescimento das religiões de mercado:
Eu não sei se é o céu ou o inferno
Qual dos dois você vai ter que encarar
E foi pra não lhe deixar no horror
Que eu vim para lhe acalmar
Se o pecado anda sempre ao seu lado
E o demônio vive a lhe tentar
Chegou a luz no fim do seu túnel, minha filha
O meu cajado vai lhe purificar
Pois eu transformo água em vinho,
Chão em céu, pau em pedra, cuspe em mel
Pra mim não existe impossível
Pastor João e a igreja invisível (4x)
Para os pobres e deseperados
E todas as almas sem lar
Vendo barato a minha nova água benta
Três prestações, qualquer um pode pagar
O sucesso da minha existência
Está ligado ao exercício da fé
Pois se ela remove montanhas
Também tráz grana e um monte de mulher.
Pois eu transformo água em vinho,
Chão em céu, pau em pedra, cuspe em mel
Pra mim não existe impossível
Pastor João e a igreja invisível (2x)
Haa! Pastor João e a igreja invisível (3x)
Aqui estão algumas interpretações bem rápidas e superficiais do Raulzito, mas já dá para se ter uma idéia de algumas características do nosso rei do rock. Debochado, inteligente, perspicaz... Infelizmente ele não tinha olhos verdes nem era bonitão. Tão pouco vinha de família abastada e poderia escrever operetas, mas para mim, não faz a menor diferença. O Raul é um dos maiores gênios da música popular brasileira sim e não se limitava somente ao rock.
A, e sim ele era feminista, apesar de não entender muito bem as lésbicas:
Se esse amor
Ficar entre nós dois
Vai ser tão pobre amor
Vai se gastar...
Se eu te amo e tu me amas
Um amor a dois profana
O amor de todos os mortais
Porque quem gosta de maçã
Irá gostar de todas
Porque todas são iguais...
Se eu te amo e tu me amas
E outro vem quando tu chamas
Como poderei te condenar
Infinita tua beleza
Como podes ficar presa
Que nem santa num altar...
Quando eu te escolhi
Para morar junto de mim
Eu quis ser tua alma
Ter seu corpo, tudo enfim
Mas compreendi
Que além de dois existem mais...
Amor só dura em liberdade
O ciúme é só vaidade
Sofro, mas eu vou te libertar
O que é que eu quero
Se eu te privo
Do que eu mais venero
Que é a beleza de deitar...
Quando eu te escolhi
Para morar junto de mim
Eu quis ser tua alma
Ter seu corpo, tudo enfim
Mas compreendi
Que além de dois existem mais...
Amor só dura em liberdade
O ciúme é só vaidade
Sofro, mas eu vou te libertar
O que é que eu quero
Se eu te privo
Do que eu mais venero
Que é a beleza de deitar...
Fonte das letras: http://letras.terra.com.br/raul-seixas/
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
Violência contra mulher - Kav Magá nela!
Essa é uma piadinha muito triste que rola entre eu e o meu marido. Comentei com ele que mais de 40% das mulheres brasileiras já foi vítima de violência. O índice de punição não passa nem perto, mesmo dos casos que chegam a ser denunciados. Diante dos relatos que eu já ouvi sobre os absurdos processuais que são cometidos contra as vítimas, que passam de vítimas a incitadoras da violência cometida contra elas, eu e o maridão chegamos a simples conclusão: se tivermos uma filha ela via fazer krav magá desde pequena.
Sinto muito, mas não vou colocar os números aqui, mas sabe-se que a maioria dos casos acaba em nada. A mulher só consegue que justiça seja feita quando o agressor quase a mata. Eu fico muito feliz por não ter passado por nenhuma situação dessas, mas conheço muita gente que se calou ou por medo de impunidade ou por medo de ficar com uma fama de vagabunda porque mudou de idéia quando já estava dentro do quarto do motel.
A minha sorte talvez se deva aos ensinamentos do meu pai, não baixar a cabeça para ninguém. "Olha no olho e encara com raiva", era o que papai falava. Dizia ainda, "Ou o cara pensa que você está armada ou que é louca. Nas duas ocasiões você vai ter tempo para agir. Se você ver que o cara não vai embora, você foge, se ele for, melhor". Meu pai também era um doce, dizia para o meu irmão mais velho "Se você bater na sua irmã eu te quebro, sabe muito bem que é covardia bater em mulher". Nunca bateu na minha mãe, apesar dos dois terem brigas homéricas, mas já na gente, ninguém tinha pudores de bater.
Essa "proteção" me dava confiança para não levar desaforo para casa mesmo quando não tinha ninguém da família por perto. As vezes confesso que queria mesmo que acontecesse uma briga, pelo menos assim eu poderia extravasar toda raiva que sentia por ser o saco de pancadas dos meus pais. Acho que por isso escapava mesmo, devia ter cara de doida. Eu nunca precisei de ajuda em situações sociais, mas confesso que não eram raras as vezes que meus amigos se sentiam impelidos a defenderem a mim e as meninas da turma de investidas mais agressivas em baladas.
Eu me incomodava muito com isso. Quem é de balada sabe que um homem repele o outro. Mesmo que vc esteja com um amigo, as chances de um cara se aproximar de vc se reduzem quase a zero. O cara fica com medo de ser seu namorado ou bater nele por achar que ele está sendo inconveniente. Por outro lado, quando está sozinha fica sujeita a todo tipo de investida. Os caras as vezes acham que vc está implorando por uma cantada, desesperada. Seguram, puxam cabelo, alguns chegam ao ponto de te rodear com uma série de amigos e forçar um beijo. Patético, mas verídico.
Isso implica que no fundo as mulheres não tem liberdade para ir e vir. É um corpo que te prende numa situação inconveniente. A todo momento vc é lembrada de seu sexo porque vc é o seu sexo. Sua personalidade se esvai e te colocam quase sempre entre duas categorias, puta ou santa. E a linha entre elas é relativa e ténue. Que mulher nunca desejou ser homem pelo menos uma vez? Ou para ter liberdade de sair pela rua sem ouvir nenhuma gracinha ou para poder sair sem dar mil explicações para não cair no grupo das putas? Sim, pois os nossos pais e a sociedade estão o tempo todo nos vigiando para não nos perdermos. Sexo, sexo, sexo! Não queremos nem pensar nele, mas ele tá ali, tachado de sexo frágil. Frágil como a felicidade de uma mulher que sai para balada sozinha para dançar e se divertir.
Mas esse sexo frágil tem dona e é a mulher. Só para ilustrar, eu gostaria de mostrar uma cena de um filme que eu não gosto, mas tem essa sacada fantástica do cara que se fantasia de mulher e sente toda invasão e arrogância dessas cantadas que dizem que no fundo não passam de um recado "eu posso atacar vc".
Assistam ao 1'39"de sorority boys
O que eu queria deixar claro aqui, é que não devemos nos amedrontar. Vamos lutar contra isso. Não vamos legitimar opiniões e preconceitos que incitem a violência. Não vamos julgar outras mulheres baseadas em preconceitos. Não vamos ser cúmplices de homens violentos. Vamos denunciar, relatar, ajudar aquelas que precisam de orientação. Não vamos dar brecha para coisas do tipo "ela tava pedindo para apanhar". Nada justifica covardia. E só para explicar o porque da minha filha (se a tiver) fazer Krav Magá:
Sinto muito, mas não vou colocar os números aqui, mas sabe-se que a maioria dos casos acaba em nada. A mulher só consegue que justiça seja feita quando o agressor quase a mata. Eu fico muito feliz por não ter passado por nenhuma situação dessas, mas conheço muita gente que se calou ou por medo de impunidade ou por medo de ficar com uma fama de vagabunda porque mudou de idéia quando já estava dentro do quarto do motel.
A minha sorte talvez se deva aos ensinamentos do meu pai, não baixar a cabeça para ninguém. "Olha no olho e encara com raiva", era o que papai falava. Dizia ainda, "Ou o cara pensa que você está armada ou que é louca. Nas duas ocasiões você vai ter tempo para agir. Se você ver que o cara não vai embora, você foge, se ele for, melhor". Meu pai também era um doce, dizia para o meu irmão mais velho "Se você bater na sua irmã eu te quebro, sabe muito bem que é covardia bater em mulher". Nunca bateu na minha mãe, apesar dos dois terem brigas homéricas, mas já na gente, ninguém tinha pudores de bater.
Essa "proteção" me dava confiança para não levar desaforo para casa mesmo quando não tinha ninguém da família por perto. As vezes confesso que queria mesmo que acontecesse uma briga, pelo menos assim eu poderia extravasar toda raiva que sentia por ser o saco de pancadas dos meus pais. Acho que por isso escapava mesmo, devia ter cara de doida. Eu nunca precisei de ajuda em situações sociais, mas confesso que não eram raras as vezes que meus amigos se sentiam impelidos a defenderem a mim e as meninas da turma de investidas mais agressivas em baladas.
Eu me incomodava muito com isso. Quem é de balada sabe que um homem repele o outro. Mesmo que vc esteja com um amigo, as chances de um cara se aproximar de vc se reduzem quase a zero. O cara fica com medo de ser seu namorado ou bater nele por achar que ele está sendo inconveniente. Por outro lado, quando está sozinha fica sujeita a todo tipo de investida. Os caras as vezes acham que vc está implorando por uma cantada, desesperada. Seguram, puxam cabelo, alguns chegam ao ponto de te rodear com uma série de amigos e forçar um beijo. Patético, mas verídico.
Isso implica que no fundo as mulheres não tem liberdade para ir e vir. É um corpo que te prende numa situação inconveniente. A todo momento vc é lembrada de seu sexo porque vc é o seu sexo. Sua personalidade se esvai e te colocam quase sempre entre duas categorias, puta ou santa. E a linha entre elas é relativa e ténue. Que mulher nunca desejou ser homem pelo menos uma vez? Ou para ter liberdade de sair pela rua sem ouvir nenhuma gracinha ou para poder sair sem dar mil explicações para não cair no grupo das putas? Sim, pois os nossos pais e a sociedade estão o tempo todo nos vigiando para não nos perdermos. Sexo, sexo, sexo! Não queremos nem pensar nele, mas ele tá ali, tachado de sexo frágil. Frágil como a felicidade de uma mulher que sai para balada sozinha para dançar e se divertir.
Mas esse sexo frágil tem dona e é a mulher. Só para ilustrar, eu gostaria de mostrar uma cena de um filme que eu não gosto, mas tem essa sacada fantástica do cara que se fantasia de mulher e sente toda invasão e arrogância dessas cantadas que dizem que no fundo não passam de um recado "eu posso atacar vc".
Assistam ao 1'39"de sorority boys
O que eu queria deixar claro aqui, é que não devemos nos amedrontar. Vamos lutar contra isso. Não vamos legitimar opiniões e preconceitos que incitem a violência. Não vamos julgar outras mulheres baseadas em preconceitos. Não vamos ser cúmplices de homens violentos. Vamos denunciar, relatar, ajudar aquelas que precisam de orientação. Não vamos dar brecha para coisas do tipo "ela tava pedindo para apanhar". Nada justifica covardia. E só para explicar o porque da minha filha (se a tiver) fazer Krav Magá:
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
Exatas x Humanas = todos saem perdendo
Não é preciso demorar-se muito no meu blog para constatar que eu sou das humanas. Sempre gostei de ler, de artes, de história e geo-política. Nunca me dei bem com números e, devo confessar, certo tipo de lógica matemática me desconcerta. Entretanto, consigo fazer árvores gerativas de deixar alguns chocados. Embora atualmente, posso dizer modestamente, que minhas atividades são compostas de um tanto de crítica literária e outro tanto de prática docente.
Começo o texto falando de mim não por acaso, mas porque tenho grandes amigos que fazem parte desse misterioso e também fascinante universo da chamada "Ciência", ou "Exatas" como muitos erroneamente insistem em chamar. Eu, inclusive, sou casada com um biólogo (uma das disciplinas mais humanas das exatas). Devido a minha experiência pessoal, muitas vezes ouvi sem ter como revidar, ou por medo de perder os amigos ou por falta de maturidade intelectual, argumentos do tipo "as humanas não servem para nada". Ou, "eu até entendo a psicologia, mas literatura... afe!". O que sempre me intrigou é que muitas dessas pessoas aversas às humanas gostavam de ir ao cinema, ler um livro, assistir um concerto ou ver uma exposição, mas era incapazes de associar uma coisa a outra.
Cheguei a pensar que era um pouco de inveja, pois nós fazíamos algo de que realmente gostávamos e todos partilham do pensamento comum que trabalho só serve para ganhar dinheiro e tem necessariamente que ser chato. Se você gosta do seu trabalho, deve haver algo errado. Para resolver o problema dessa "equação" supõe-se assim que nós não trabalhamos. O que é, no mínimo, errado.
Outra possível explicação para o problema seria dizer que o pessoal das exatas acha que as humanas não servem para nada porque não as entendem, daí também não entenderem sua utilidade. Eu vou tentar exemplicar para que serve a literatura no final desse post, mas antes gostaria de pedir uma "licença histórica".
Vou atribuir o início do ensino como algo institucionalizado aos gregos, simplesmente porque compreendo mais a História a partir deles. Enfim, na Grécia havia a principal "disciplina" ou área do conhecimento que era a filosofia. Dela faziam parte a matemática, a física, a lógica e a biologia. Sim, coisas que parecem hoje absolutamente distintas tem a mesma origem formal. Por exemplo, Pitágoras, aquele do triângulo era um filósofo. A especialização de cada área do conhecimento fez com que as disciplinas se separarem paulatinamente até chegarmos o dia de hoje onde parece ser ilusório supor que um engenheiro tenha algum conhecimento de filosofia ou que já tenha lido Aristóteles.
Não nego porém, que existam muitos profissionais em todas as áreas que tenha um diverso conhecimento do mundo. Mas de onde vem essa hipótese de que as humanas não servem para nada? Bom, quando pensamentos no nome dado para elas, humanas, e nós como seres humanos, deveríamos em si adorar uma disciplina que tem o humano como foco. Mas não é bem assim. As humanas muitas vezes criticam o modus operandi de nossa sociedade, do pensamento, do senso comum e etc. E, ver o humano demasiado humano não é tarefa fácil. Mexe com egos, certezas e zonas de conforto.
Eu acho porém que a principal crítica dos exatos aos humanos é que nós parecemos não nos encaixarmos nessa lógica de mercado e produção que se adequa tão bem às exatas. Você tem uma demanda e cria um produto. O produto é o resultado do seu trabalho. Nós, "humanos" temos produtos, mas muitas vezes eles não são mercadorias, não tem valor de comércio, muitas vezes. Não é um produto químico, um remédio, um celular, uma cadeira, um eletrodoméstico, um carro. Podemos vender obras de arte, algumas com valores muitos superiores à um carro, por exemplo, mas a utilidade do carro é facilmente compreendida por qualquer um - a locomoção. Já o que muitos pensam da obra de arte é que um objeto apenas estético. Se o nosso produto do nosso trabalho não tem valor, pode-se fazer a analogia de que o nosso trabalho também não.
Isso para mim é o como o senso comum entende a arte e as humanas em geral. Mas então eu me pergunto, o que seria do mundo sem nenhuma ciência humana? Podemos nós virarmos apenas consumidores acéfalos? Existe algo nas relações humanas que não se baseie em comprar e vender? Somos homo sapiens, ou homo trabalhus? E sabedoria é apenas saber fazer contas, entender movimentos, compostos, particulas? Não estou dizendo que os cientistas não tenham senso crítico, mas a distância entre as disciplinas e a recente competição estimulada por avaliações feitas com base em apenas parâmetros quantitativos tem prejudicado à todos, mas principalmente as humanas.
Porque? Bom, acho eu que a pesquisa em geral tem um papel social, seja de compreender um fenômeno ou até mesmo resolver um problema. Mas muitas outras questões se apropriam dessa simples natureza. A pesquisa das humanas dificilmente é de interesse do Estado como as pesquisas ou das empresas (que no Brasil aproveitam muito mal nossos pesquisadores). Inclusive, elas podem ser do desinteresse, em determinados aspectos. Mas o interesse do Estado, muitas vezes é contrário ao da sociedade em geral. O problema, a meu ver, é que quando os exatos não tem qualquer interesse em conhecer um pouco mais das humanas, pode entender que está de fato cumprindo uma grande parte do seu papel social, pois está fazendo o seu trabalho. Por exemplo, construindo uma hidreéletrica no Xingu, sem entender que pode estar sendo co-resposável por desabrigar centenas de pessoas que virão a morar ninguém sabe onde. Mas ele estava fazendo apenas o trabalho dele. Não se pode apenas inventar coisas e negar o uso que elas terão. Negar o humano da ciência seria como desenvolver a bomba atômica supondo apenas que ela será usada para fazer a paz e negar o quanto de pessoas elas podem matar.
O que poucos sabem é que a maior parte dos cientistas não estão construindo pontes, enviando satélites e curando o câncer. Muitas das descobertas são feitas por acaso e muitos estudos que estão sendo feito hoje em dia só serão aplicados em alguns anos. Claro que eles devem ser feitos. Mas eu não entendo porque o cara estudar algo agora para ser usado (se for) só daqui há 5 anos é mais relevante do que algo que está acontecendo aqui e agora e que pode ser observado. Também não entendo porque tudo deve ser comparado, humanas versus exatas.
Para que servem as humanas? Fiquei de responder essa pergunta. Vou falar por mim e resumidamente pela minha área. A literatura serve para muitas coisas: distrair, encantar, ensinar, mudar, dar voz e silenciar. Podemos disceminar preconceitos, mas também respoder a críticas e injustiças. A literatura serve para desenvolver a imaginação, deixar um legado, falar em primeira pessoa. Podemos encontrar conforto ou desconforto. Podemos imaginar mundos e fazer previsões futuristicas. Eu consigo imaginar um mundo sem deus, mas não imagino um sem literatura. Deus é um produto literário, o cinema, as revistas em quadrinhos, a música, somos todos parceiros de palavras em diferentes linguagens. Tire a literatura de sua vida e veja que não sobram nem belas palavras para falar ao seu amado. A literatura é a expressão íntima humana/social.
Para encerrar, uma frase de um físico que vcs devem conhecer de nome, César Lattes:
“O homem como cientista é amoral. Só é moral como homem, não se preocupa se o que descobre vai ser usado para o bem ou para o mal. Como toda descoberta científica dá mais poderes sobre a natureza, ela pode aumentar o bem ou o mal.”
Começo o texto falando de mim não por acaso, mas porque tenho grandes amigos que fazem parte desse misterioso e também fascinante universo da chamada "Ciência", ou "Exatas" como muitos erroneamente insistem em chamar. Eu, inclusive, sou casada com um biólogo (uma das disciplinas mais humanas das exatas). Devido a minha experiência pessoal, muitas vezes ouvi sem ter como revidar, ou por medo de perder os amigos ou por falta de maturidade intelectual, argumentos do tipo "as humanas não servem para nada". Ou, "eu até entendo a psicologia, mas literatura... afe!". O que sempre me intrigou é que muitas dessas pessoas aversas às humanas gostavam de ir ao cinema, ler um livro, assistir um concerto ou ver uma exposição, mas era incapazes de associar uma coisa a outra.
Cheguei a pensar que era um pouco de inveja, pois nós fazíamos algo de que realmente gostávamos e todos partilham do pensamento comum que trabalho só serve para ganhar dinheiro e tem necessariamente que ser chato. Se você gosta do seu trabalho, deve haver algo errado. Para resolver o problema dessa "equação" supõe-se assim que nós não trabalhamos. O que é, no mínimo, errado.
Outra possível explicação para o problema seria dizer que o pessoal das exatas acha que as humanas não servem para nada porque não as entendem, daí também não entenderem sua utilidade. Eu vou tentar exemplicar para que serve a literatura no final desse post, mas antes gostaria de pedir uma "licença histórica".
Vou atribuir o início do ensino como algo institucionalizado aos gregos, simplesmente porque compreendo mais a História a partir deles. Enfim, na Grécia havia a principal "disciplina" ou área do conhecimento que era a filosofia. Dela faziam parte a matemática, a física, a lógica e a biologia. Sim, coisas que parecem hoje absolutamente distintas tem a mesma origem formal. Por exemplo, Pitágoras, aquele do triângulo era um filósofo. A especialização de cada área do conhecimento fez com que as disciplinas se separarem paulatinamente até chegarmos o dia de hoje onde parece ser ilusório supor que um engenheiro tenha algum conhecimento de filosofia ou que já tenha lido Aristóteles.
Não nego porém, que existam muitos profissionais em todas as áreas que tenha um diverso conhecimento do mundo. Mas de onde vem essa hipótese de que as humanas não servem para nada? Bom, quando pensamentos no nome dado para elas, humanas, e nós como seres humanos, deveríamos em si adorar uma disciplina que tem o humano como foco. Mas não é bem assim. As humanas muitas vezes criticam o modus operandi de nossa sociedade, do pensamento, do senso comum e etc. E, ver o humano demasiado humano não é tarefa fácil. Mexe com egos, certezas e zonas de conforto.
Eu acho porém que a principal crítica dos exatos aos humanos é que nós parecemos não nos encaixarmos nessa lógica de mercado e produção que se adequa tão bem às exatas. Você tem uma demanda e cria um produto. O produto é o resultado do seu trabalho. Nós, "humanos" temos produtos, mas muitas vezes eles não são mercadorias, não tem valor de comércio, muitas vezes. Não é um produto químico, um remédio, um celular, uma cadeira, um eletrodoméstico, um carro. Podemos vender obras de arte, algumas com valores muitos superiores à um carro, por exemplo, mas a utilidade do carro é facilmente compreendida por qualquer um - a locomoção. Já o que muitos pensam da obra de arte é que um objeto apenas estético. Se o nosso produto do nosso trabalho não tem valor, pode-se fazer a analogia de que o nosso trabalho também não.
Isso para mim é o como o senso comum entende a arte e as humanas em geral. Mas então eu me pergunto, o que seria do mundo sem nenhuma ciência humana? Podemos nós virarmos apenas consumidores acéfalos? Existe algo nas relações humanas que não se baseie em comprar e vender? Somos homo sapiens, ou homo trabalhus? E sabedoria é apenas saber fazer contas, entender movimentos, compostos, particulas? Não estou dizendo que os cientistas não tenham senso crítico, mas a distância entre as disciplinas e a recente competição estimulada por avaliações feitas com base em apenas parâmetros quantitativos tem prejudicado à todos, mas principalmente as humanas.
Porque? Bom, acho eu que a pesquisa em geral tem um papel social, seja de compreender um fenômeno ou até mesmo resolver um problema. Mas muitas outras questões se apropriam dessa simples natureza. A pesquisa das humanas dificilmente é de interesse do Estado como as pesquisas ou das empresas (que no Brasil aproveitam muito mal nossos pesquisadores). Inclusive, elas podem ser do desinteresse, em determinados aspectos. Mas o interesse do Estado, muitas vezes é contrário ao da sociedade em geral. O problema, a meu ver, é que quando os exatos não tem qualquer interesse em conhecer um pouco mais das humanas, pode entender que está de fato cumprindo uma grande parte do seu papel social, pois está fazendo o seu trabalho. Por exemplo, construindo uma hidreéletrica no Xingu, sem entender que pode estar sendo co-resposável por desabrigar centenas de pessoas que virão a morar ninguém sabe onde. Mas ele estava fazendo apenas o trabalho dele. Não se pode apenas inventar coisas e negar o uso que elas terão. Negar o humano da ciência seria como desenvolver a bomba atômica supondo apenas que ela será usada para fazer a paz e negar o quanto de pessoas elas podem matar.
O que poucos sabem é que a maior parte dos cientistas não estão construindo pontes, enviando satélites e curando o câncer. Muitas das descobertas são feitas por acaso e muitos estudos que estão sendo feito hoje em dia só serão aplicados em alguns anos. Claro que eles devem ser feitos. Mas eu não entendo porque o cara estudar algo agora para ser usado (se for) só daqui há 5 anos é mais relevante do que algo que está acontecendo aqui e agora e que pode ser observado. Também não entendo porque tudo deve ser comparado, humanas versus exatas.
Para que servem as humanas? Fiquei de responder essa pergunta. Vou falar por mim e resumidamente pela minha área. A literatura serve para muitas coisas: distrair, encantar, ensinar, mudar, dar voz e silenciar. Podemos disceminar preconceitos, mas também respoder a críticas e injustiças. A literatura serve para desenvolver a imaginação, deixar um legado, falar em primeira pessoa. Podemos encontrar conforto ou desconforto. Podemos imaginar mundos e fazer previsões futuristicas. Eu consigo imaginar um mundo sem deus, mas não imagino um sem literatura. Deus é um produto literário, o cinema, as revistas em quadrinhos, a música, somos todos parceiros de palavras em diferentes linguagens. Tire a literatura de sua vida e veja que não sobram nem belas palavras para falar ao seu amado. A literatura é a expressão íntima humana/social.
Para encerrar, uma frase de um físico que vcs devem conhecer de nome, César Lattes:
“O homem como cientista é amoral. Só é moral como homem, não se preocupa se o que descobre vai ser usado para o bem ou para o mal. Como toda descoberta científica dá mais poderes sobre a natureza, ela pode aumentar o bem ou o mal.”
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
Dia da consciência negra
Foi ontem, mas sempre tem espaço para atrasados...
Não quero entrar muito na questão política, ando meio farta disso no momento. Mas vou pontuar algumas questões. Vc é da classe média? Estudou em colégio particular? Quantos amigos negros você teve no colégio? Quantos no trabalho, na universidade pública?
Na maioria dos casos, eu acho que a resposta será: poucos. Guarde isso.
Outro dia estava mostrando algumas fotos do Brasil para minha roomate, uma doutora em ecologia que sonha em conhecer a Amazônia (antes da gente destruí-la). Como alguns lugares que eu queria mostrar não tinham fotos legais na net, pelo menos não tão fáceis que minha (in)habilidade pudesse encontrar, entrei no meu picasa e comecei a mostrar algumas das fotos de viagens que eu fiz pelo país. Ela comentou dos meus cachos, perguntou se eram naturais. Eu disse que sim, e comecei a mostrar os diferentes cortes que o meu cabelo já teve. Ela parou para fazer um comentário de que um dos meus amigos que compareceu à minha festa de aniversário não parecia ser brasileiro. Ele, com certeza, acharia isso uma ofensa, mas muitos brasileiros achariam que isso é um elogio. Porque? Guarde essa resposta.
Quais são os principais argumentos contra as cotas para negros nas universidades públicas? Você pode encontrar mais argumentos iguais aos seus nesse site, um pequeno exemplo. Você certamente se sentiria muito bem e justo ao pensar "a injustiça é contra os pobre, se a cota fosse apenas para pobres, pois eles são os mais excluídos.
Tudo bem, então analisa porque a maior parte dos ricos e da classe média é branca? Se vc seguir alguns dos argumentos do site que eu citei, vai achar brilhante dizer que a escravidão só acabou há 100 anos e é muito pouco tempo para que os negros conquistassem seu espaço. Mas alguns ilustres, mesmo assim, conseguiram. Bom, o feito de poucos não pode ser extendido a todos. Certamente se todo mundo quisesse mesmo ficar rico, ficaria, né? Só não consegue porque não quer.
Só fazendo um parênteses, a Finlândia se tornou independente da Russia há 100 anos e já teve tempo de virar uma potência. Porque o Brasil ainda está engatinhando? Não esqueça de levar o IDH em consideração na sua resposta.
Agora se mais de 50% da população brasileira é negra, tem algo muito errado nos negros serem uma minoria.
Porque algumas famílias de classe média tentaram derrubar por meio de liminares as cotas? Estão baseadas num princípio constitucional e numa injustiça social. No fundo querem apenas que seus "pimpolhos" tenham ainda mais uma chance de passarem a pública.
Agora faça um exame de consciência. Porque minha amiga achou que meu amigo não tinha o estereótipo de um brasileiro? Quem nós, os brasileiros que temos "voz" estamos querendo apagar? Com quem estamos querendo nos identificar? Porque?
Não quero entrar muito na questão política, ando meio farta disso no momento. Mas vou pontuar algumas questões. Vc é da classe média? Estudou em colégio particular? Quantos amigos negros você teve no colégio? Quantos no trabalho, na universidade pública?
Na maioria dos casos, eu acho que a resposta será: poucos. Guarde isso.
Outro dia estava mostrando algumas fotos do Brasil para minha roomate, uma doutora em ecologia que sonha em conhecer a Amazônia (antes da gente destruí-la). Como alguns lugares que eu queria mostrar não tinham fotos legais na net, pelo menos não tão fáceis que minha (in)habilidade pudesse encontrar, entrei no meu picasa e comecei a mostrar algumas das fotos de viagens que eu fiz pelo país. Ela comentou dos meus cachos, perguntou se eram naturais. Eu disse que sim, e comecei a mostrar os diferentes cortes que o meu cabelo já teve. Ela parou para fazer um comentário de que um dos meus amigos que compareceu à minha festa de aniversário não parecia ser brasileiro. Ele, com certeza, acharia isso uma ofensa, mas muitos brasileiros achariam que isso é um elogio. Porque? Guarde essa resposta.
Quais são os principais argumentos contra as cotas para negros nas universidades públicas? Você pode encontrar mais argumentos iguais aos seus nesse site, um pequeno exemplo. Você certamente se sentiria muito bem e justo ao pensar "a injustiça é contra os pobre, se a cota fosse apenas para pobres, pois eles são os mais excluídos.
Tudo bem, então analisa porque a maior parte dos ricos e da classe média é branca? Se vc seguir alguns dos argumentos do site que eu citei, vai achar brilhante dizer que a escravidão só acabou há 100 anos e é muito pouco tempo para que os negros conquistassem seu espaço. Mas alguns ilustres, mesmo assim, conseguiram. Bom, o feito de poucos não pode ser extendido a todos. Certamente se todo mundo quisesse mesmo ficar rico, ficaria, né? Só não consegue porque não quer.
Só fazendo um parênteses, a Finlândia se tornou independente da Russia há 100 anos e já teve tempo de virar uma potência. Porque o Brasil ainda está engatinhando? Não esqueça de levar o IDH em consideração na sua resposta.
Agora se mais de 50% da população brasileira é negra, tem algo muito errado nos negros serem uma minoria.
Porque algumas famílias de classe média tentaram derrubar por meio de liminares as cotas? Estão baseadas num princípio constitucional e numa injustiça social. No fundo querem apenas que seus "pimpolhos" tenham ainda mais uma chance de passarem a pública.
Agora faça um exame de consciência. Porque minha amiga achou que meu amigo não tinha o estereótipo de um brasileiro? Quem nós, os brasileiros que temos "voz" estamos querendo apagar? Com quem estamos querendo nos identificar? Porque?
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