terça-feira, 23 de novembro de 2010

Dia 2

Bullying ou sexismo?

Seguindo a postagem coletiva, vou comentar uma reportagem que assisti ontem no jornal da Record. A reportagem era sobre bullying, a nova moda entre os psicólogos e educadores. Ela era até interessante, mostrava a história da filha da escritora Nelma Penteado, que sofria bullying na escola apenas por ter um quilos além do padrão anorexico.

A reportagem mostrou resumidamente os tipos de agressão verbal que as meninas sofriam. Ser gordinha e ter o cabelo enrolado era recorrente. Era eu na adolescência. Mas o engraçado é que durante a reunião contra o bullying não havia nenhuma menina com os cabelos enrolados. Eu achei estranho. Como se combate o bullying? Se adequando ao padrão de beleza antinatural que nos é imposto?

Só para ilustrar, o padrão de beleza que nós seguimos é europeu, o que não se adapta muito bem por aqui, afinal, não somos altas, brancas ou temos cabelos lisos e olhos claros. Até o DNA de quem se acha branco tem índio e negro. A questão é que eu também não quero ser alta ou ter o cabelo liso e loiro. Eu não me incomodo com o que sou, afinal, sou brasileira. E para falar a verdade, procure uma adolescente magrela e de cabelos alisados e loiros (ou com luzes) e veja quantas você acha. Agora procure uma gordinha de cabelos enrolados. As gordinhas se destacam. Talvez, também por isso, sofram tanto.


Bom, e existe uma razão para não sermos branquelos. Alguém já ouviu falar de uma comunidade de pescadores albinos que existe no nordeste? Assisti uma reportagem sobre eles uma vez, mas vou ficar devendo. Tem uma pescadora que o trabalho dela é levar água potável para as casas. Ela muitas vezes tem que fazer isso de dia, conclusão: corre um grande risco de pegar câncer de pele. Na estrevista dessa pescadora a reporter pergunta porque ela não usa roupas de manga comprida para fugir do sol. Ela diz que não usa porque os outros ficam "mangando" dela.

Voltando a reportagem do bullying, a questão passa para o comportamente dentro de casa. Muitas vezes os pais praticam o bullying em quem o pratica na escola. Aquela questão que o menino que apanha em casa bate nos colegas na escola. Pois bem, eu posso falar que acho que a questão da menina que sofre bullying vai muito mais além do fato dela ser gordinha ou ter o cabelo enrolado.

As meninas são uma espécie de produto. A vida delas gira em torno dos garotos. Isso porque devemos aprender cedo como conquistar um marido. E para isso devemos ter uma aparência e uma postura que justifique a escolha de um homem rico e poderoso. Os homens não precisam ser bonitos, por isso sofrem muito menos com o bullying. Para quem acha que eu estou no século errado, vou contar um causo da minha adolescência. Quando eu era adolescente, adorava rock e usava só camiseta de banda com calças largas. Tinha o cabelo na cintura e ele sempre foi enrolado, desde que nasci. Minha mãe ficava louca. Tentava de tudo para me arrumar. Quando suas táticas de me xingar não funcionavam ela apelava para seu último recurso: "assim vc nunca vai arrumar um namorado". Uma vez saí da escola para a parada de ônibus com os fones no ouvido. No meio do caminho as pilhas acabaram e eu continuei com os fones pq deu preguiça de guardar. Foi quando percebi dois meninos da minha sala atrás de mim conversando. Eles falvam algo assim "Nossa, essa menina é muito feia, ridícula. Dá vontade de enxer ela de porrada, ela é muito feia."

Agora me respondam: Porque a maior parte das críticas à Dilma reforçavam a mesma coisa, que ela era feia e autoritária? Porque mulheres não podem ser feias e autoritárias. Isso é coisa pra homem. Mulher tem que ser um bibelô. Ser bonita e doce.

*só pra avisar que eu estou atrasada no cronograma das postagens. Minha semana sempre começou na segunda.

8 comentários:

Iara disse...

Nossa, eu concordo tanto! Outro dia eu tava pensando nisso, no quanto as meninas são obrigadas a se reprimerem, a parecerem bibelôs. Eu tenho um vizinho no prédio, que deve ter uns 13 anos, que faz um escândalo quando o Corinthians faz gol. Tipo, bem moleque ridículo, é muito engraçado! E fiquei pensando no quanto meninas deixam de se divertir pra parecerem atraentes. Que uma menina dificilmente se expõe ao riso alheio por diversão. Também sofri muito bullying, e durante um tempo ser bonita virou obsessão. Não ser deslumbrante, pq isso não ia rolar mesmo, mas ser aprovada pelo olhar masculino. E não que os homens não queiram ser atraentes, pq sei que querem. Eles não querem ser feios. Mas não é uma disputa de o mais bonitão, eles não são educados pra agradar a todo mundo. Mas a gente, quando não agrada precisa ouvir. Eu não consigo imaginar um roda de meninas sacaneando um menino que achem feio - mas elas fazem isso com outras meninas. E eles fazem isso com as meninas. Enfim, eu poderia escrever um livro aqui sobre bullying por conta da aparência. Curioso que, se alguém me perguntasse se já fui vítima de alguma forma de violência de gênero, eu ia dizer que não - porque bullying sofrem os gordos, os homossexuais, os nerds. Mas sou obrigada a rever e pensar que eu que sempre fui até bem dentro do padrãozinho (nem gorda, nem gay, nem deficiente, nem nerd e branca) só sofri bulliyng porque não era bonita - e essa os meninos não sofrem.

Drixz disse...

Pois é, bullying, pra mim, é violência de gênero e uma puta violência. Eu fui bem muleca na infância, mas sofria muito quando meu gênero servia como desculpa para os meninos me excluírem das brincadeiras e me taxarem de "café com leite". Agora eu vejo as meninas comprando sandálias que trazem de brinde uma bolsa e fico pensando em quando isso vai parar. Quando vamos deixar de criar barbies?

Strepsiades disse...

Drix, sorry, mãããs, que discursinho de gênero ultrapassado, hein? Parece a galera da Tânia Navarro, na minha época de unb... erggg...

Drixz disse...

Ah é. Pq?

Strepsiades disse...

Bem, pq vc tá levantando pressupostos que não se comprovam na sua argumentação. Vc tá utilizando exemplos específicos para ilustrar um ponto de vista que vc assume como certo. Mas, cadê a contra argumentação?

Bulllying vai muito além de sexismo. Não dá para reduzir essa manifestação nisso, até pq ele, em ambiente escolar, é algo extremamente frequente (se não em sua maioria) dentre pessoas do mesmo gênero.

Dar como resposta o combate ao bullying a "adequação ao padrão de beleza que é imposto" é uma condução tendenciosa, e que, suspeito, não ilustre o problema em si, mas uma de suas vertentes (já que tudo hoje em dia virou bullying). É querer sair do específico para explicar o geral.

Isso sem contar o exemplos desconexos no texto... (novamente, tudo virando bullying).

Agora o maior traço de "Navarrismo" é o reducionismo das questões levantadas ao sexismo e questões de gênero. Exemplo no último parágrafo: em nenhum momento as maiores críticas à Dilma foram o fato dela ser feia (que É, e MUITO) ou ser autoritária (IDEM). Isso não passou nem perto do debate em si... debate fraquíssimo que se arrastou para o lado de valores morais e conservadorismo. Não de padrões estéticos ou autoritarismo da candidata (essa discussão foi partidária, e não personalista).

É isso. Cuidado com as especializações. Elas podem acabar colocando antolhos na nossa visão de mundo...

Borboletas nos Olhos disse...

Drixz,
eu ia fazer um longo e elogioso comentário, mas a Iara já disse tanto do que eu ia dizer! Mesmo atrasada sua contribuição para minhas reflexões segue lá no topo...Beijos carinhosos

Drixz disse...

Márcio, isso é uma crítica. Não o primeiro comentário que fez. Mas é engraçado vc falar isso pq o Bullying é um termo que tem sido estendido para abarcar diversas formas de preconceito. Eu tratei uma que acho que se alia ao fato das vítimas serem mulheres, pois realmente, mesmo que vc discorde, a exigencia da beleza faz parte dos discursos da mídia pseudo especializada.

Meus textos no blog, em contrapartida, não tem pretenção de serem artigos acadêmicos nem tão pouco seguidores de autores. São reflexões que tentam elucidar outros pontos de vistas sobre questões. Muitas vezes a intenção é apenas fazer pensar ou lançar a dúvida. Não tenho pretenções de deter a verdade. Mas não deixe de se ater ao fato de que isso é um blog.

Não acho que é ruim passar de uma questão a outra, afinal, a pescadora albina sofria do que chamam de bullying, assim como eu, e bom, o caso da Dilma foi para reforçar a questão do padrão de beleza. E essa exigência talvez seja um motivo pelo qual as meninas sofram "esse" tipo de bullying. Achei que tinha colocado a questão de tudo ser bullying, mas realmente só assumi que era a "nova moda".

A questão do reducionismo é bem mais complicada. Porque por um lado, pode se deixar de ver um aspecto recorrente em questões como o bullying apenas por medo de cair nele. Como também o universalismo e o relativismo são prejudiciais. Mas não vou cair na ansiedade pós-moderna. Se atente aos "pode ser", "talvez" e "quem sabe" do meu texto e de repente as coisas fiquem menos ameaçadoras. E de qualquer forma que vc queira interpretar isso, eu estou muito longe de uma Tania Navarro.

E quanto ao fato de texto ser tendencioso, só para quem acredita na existência de uma opinião imparcial. O que pra mim é uma falácia.

L. disse...

Para o moço que cunhou o termo "Navarrismo" para empreender a crítica suspeito que primeiro não conheça a produção nem da historiadora nem do filósofo Foucault. Digo isso porque Strepsiades confunde categorias epistemológicas e pensa nas relações de forças, poder como algo negativo, segregador. Acontece que o biopoder é poliformo, positivo e tanto a misoginia como o bullying escolar atuam na regulação das subjetividades, corpos...
Ah, só para constar nos autos virtuais fui aluna da Tânia Navarro Swain como tantas outras mestras, doutoras que ainda hoje tem a generosidade de debater, discutir, desconstruir pressupostos ancorados no senso comum, no dispositivo de sexualidade e blá, blá, blá...
bjo pra todxs!!
Mais uma dose (de café velho) é claro que eu tô afim...