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quarta-feira, 28 de março de 2012

Escrever ou não sobre o aborto, de novo?

Eu posterguei muito essa postagem, por vários motivos que exporei aqui. Mas enfim decidi me manifestar. Agora não mais poderei expor minha opinião livremente, pois o endurecimento de algumas posturas em relação à posições colocadas na internet e também com uma demonização da prática do aborto, posso estar correndo algum risco. Acredito (ou espero), entretanto, que isso não se aplique, pois nunca disse que as mulheres devam fazer um aborto, obrigatoriamente, mas que elas deveriam ser livres para o fazerem se assim decidirem.

Mas eu realmente não quero que o aborto seja o assunto principal do post, e sim a tolerância e o respeito. Isso é o que está por trás da questão do aborto, na minha opinião. O Estado brasileiro enxerga as mulheres através da condição de mães. Tudo que é feito em matéria de políticas públicas para as mulheres ganha força quando visa a mulher-mãe. A ênfase no papel materno é tanta que as políticas de saúde da mulher, visam a mãe, as políticas de habitação colocam as casas no nome das mulheres, pois como mães, elas ficarão com os filhos e portanto a casa fica na família. Outra questão, por exemplo, é que muitas políticas da saúde dão ênfase na mulher como mãe/esposa-cuidadora, alertando-a para os problemas que seus familiares possam ter, ela eficazmente mobiliza àqueles à sua volta a se tratarem. Claro, as políticas são feitas com base em estudos. O problema de muitas dessas políticas não são seus objetivos e sim seus métodos, melhor dizendo, como elas pretendem resolver o problema.

Mas quando o cidadão mulher passa a só existir para o Estado através da maternidade nós vemos o que estamos vendo agora, a demonização da mulher que não quer ser mãe. A mulher que nega a maternidade deve ser punida. Das punições sociais sofre aquela que consegue abrir mão por meios modernos, evitando a gravidez. Para as outras (a maior parte, talvez?) que recorrem ao aborto, resta a penalização legal. Porque? Muitos vão alegar motivos religiosos. O que não se aplica, pois em teoria, o Brasil é um país laico. A religião de uns não pode ser usada pelo Estado para punir outros. Se na sua crença o aborto é crime, o adultério, que em muitas também é, deixou de ser punido pelo Estado para ser algo que marido, mulher e Deus resolverão no juízo final.

Qual a diferença então entre o adultério e o aborto para a opinião pública? Bom, eu vou ser simplista agora e dizer que o adultério pode ser cometido por homens, já o aborto não. Eu me pergunto às vezes se o homem que agride uma mulher até que ela aborte espontaneamente é condenado por aborto também, além da agressão? Mesmo que a resposta seja sim, o aborto é majoritariamente um crime feminino.

Muitos vão dizer que o aborto é um assassinato. É engraçado então esse ser o ÚNICO caso em que a religião e a ciência concordem. Ou melhor, a ciência tenta estabelecer quando a vida começa e a religião quer saber quando a alma entra dentro do corpo. O que acontece, na verdade, é que como a ciência ainda não tem uma resposta concreta, a igreja usa a dúvida científica para apoiar seu argumento. Do ponto de vista religioso, a coisa piora um pouco, pois Deus não se preocupou nadinha com as mulheres e para ele, não deveríamos nem poder evitar ter filhos, de forma alguma. Estranho que planejamento familiar possa e aborto não. Inclusive esse último é uma forma de planejamento familiar, o defeito é ele ser unilateral. Vamos propor outra lei então de cunho religioso semelhante? Vamos proibir a vasectomia?

Voltando ao assunto, a meu ver, como a mulher só passa a ser uma cidadã plena para o Estado depois que é mãe. Sim, pois para a sociedade não é mais necessário que a mulher se case, o Estado assumiu o papel de provedor com os programas sociais, tendo a mulher sob sua tutela, mas se ela não for mãe, ela passa a disputar um status de cidadão simbolicamente igual ao do homem (e arrisco eu a dizer, fica fora das políticas do estado). A sociedade não sabe definir essa mulher fora do "titia". O que é engraçado, porque se é tão maravilhoso ser mãe, porque existem mulheres que não querem sê-lo? É realmente necessário que TODAS as mulheres exerçam esse papel?

A mulher ser vista pelo prisma da maternidade é limitador, controlador e sufocante. A maternidade é cada dia mais responsabilizada por todas as mazelas da sociedade. Chego até a pensar que essa recente coerção das mulheres que praticam o aborto é algo para nos lembrar de sermos mães, mesmo que seja à força. A sociedade não percebe a sucessão de fenômenos que só podem provocar no coração de muitas mulheres o medo. Sim, pois a maternidade é uma responsabilidade tamanha que se formos "falíveis e humanas" poderemos reproduzir monstros para a nossa tão perdida sociedade. Caso tentemos, desesperadamente, fugir dessa responsabilidade eterna e exclusiva, vamos ser presas. Ou seja, de qualquer modo, é um caminho sem volta. A culpa é nossa. Estamos entra a cruz e a caldeirinha.

Minha pergunta é: será que esse é o melhor caminho? "Search and destroy"? Isso me lembra a Revolta da Vacina, quando em vez perder tempo explicando para as pessoas porque elas deveriam ser vacinadas, o governo do Rio de Janeiro preferiu fazer à força. A diferença é que no caso da maternidade, como o Estado e grande parte dos homens são omissos com relação à criação das crianças eles não tem explicações para dar do porque mesmo temos que ser mães. Solução encontrada, proibir o aborto.


segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Desigualdade social, um problema bem atual.

Ontem estava quase à toa em casa... Na verdade tinha um monte de coisas para fazer, mas não consegui despregar meus olhos da TV durante o programa "How the Other Half Life", do canal 4 inglês, que passou no canal 4 sueco ontem. A idéia do programa parece estranha, mas de fato ele é muito bem executado. Uma família rica patrocina uma família pobre durante um tempo e troca correspondências com ela. Num determinado ponto do patrocínio, eles se conhecem pessoalmente, uma família visita a outra em sua própria casa. Durante esse processo acontecem muitas filmagens na casa de ambas.

As famílias ricas justificam o patrocínio na maioria das vezes dizendo que tem sorte e que gostariam de ajudar alguém a ter uma vida melhor. Além disso, querem que os filhos tenham consciência do qual bem aventurados eles são. No caso das pobres, o que aparece e como eles fazem para sobreviver dia a dia, os maiores medos e previsões para o futuro.

O episódio que assisti, o primeiro da segunda temporada, não está disponível ainda na internet, mas vou coloquei o primeiro da série para vcs terem uma idéia. Vou tentar fazer um resumo para vcs e depois faço minhas observações. Acho que no final acabou sendo um efeito contrário ao que programa esperava, não fosse pelo fato da mãe da menina ter de fato arrumado um emprego por causa do programa. No início, a família rica recebeu uma filmagem com Iris apresentando sua casa e sua mãe. A menina doce e alegre mostra seu brinquedo favorito, que custou 5 pences, e que ela ama e o quarto onde dorme. A menina mostra tudo muito feliz e orgulhosa pois antes ela e a mãe viviam num trailler. Ela diz que a única coisa chata na vida dela é que a mãe não tem dinheiro e por isso trabalha muito e fica muito cansada e que nem todos os brinquedos custam 5 pences. Mas o fato é que ela só tem noção do quanto é pobre e do quão é ruim ser pobre depois que visita a casa da família rica.

Em um certo ponto do programa o pai da família rica tenta ajudar a mãe da garotinha a arrumar um emprego, afinal, ela não precisa ser patrocinada a vida toda, pois é uma mulher estudada, tem mestrado com honras em direito. Mas na Inglaterra, para exercer a profissão, um advogado precisa primeiro de ter um prática jurídica e essa parte eu não entendi muito bem como funciona. O que deu para entender é que a pessoa meio que tem que ser convidada (ou aceita) para a prática, e que na prática, só os filhos de famílias ricas conseguem. E o cara, o pai da família rica, um milionário, não tem influência suficiente para conseguir que ela entre na "panelinha".

Isso me fez lembrar de um amigo meu que mora aqui na Suécia há uns 10 anos. Ele me disse uma vez que por um lado, tem vontade de voltar para o Brasil, mas por outro não sabe se ainda consegue conviver com esse abismo existente entre os ricos e os pobres. Um lugar onde os clientes nem sequer olham na cara da pessoa que lhe serve, onde o cara que trabalha numa loja está (quase sempre) muito longe de ser seu vizinho. É realmente muito triste saber que a maioria das empregadas domésticas comem no mesmo lugar que o cachorro, onde a única diferença é a mesa. O que será que estamos fazendo para diminuir essa diferença? Quantas vezes alguém ainda vai ouvir um "Você sabe com quem está falando?" e ter que ficar calado? Por quanto tempo mais o mais importante sobre alguém vai ser o que essa pessoa tem e não o que ela é?

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Fogoooo!

Só pra ver se chamava atenção.

NÃO É HORA DE RETROCESSOS!!!

Quero colocar aqui um manifesto contra essa exploração retrógada que está sendo feita com o tema do aborto. Estão tentando retirar nossos direitos já adquiridos e transformar um tema de direitos humanos e saúde pública em promessa de campanha. Não podemos que a religião de alguns custe a vida de outros.


Para apoiar, deve-se clicar AQUI


MANIFESTO: "NÃO É HORA DE RETROCESSOS" !

Nós, cidadãs e cidadãos, defensores dos direitos humanos e conscientes das desigualdades de gênero que afetam negativamente o cotidiano das mulheres brasileiras, vimos a público expressar indignação pela forma como a questão do aborto está sendo instrumentalizada no atual período eleitoral.

O aborto é uma grave questão de saúde pública. Esse entendimento e o respeito à dignidade das mulheres levaram os dois últimos governantes que ocuparam a presidência da República a garantir avanços significativos nesse campo, com a aprovação de duas normas técnicas, pelo Ministério da Saúde.
A Norma Técnica Prevenção e Tratamento dos Agravos Resultantes de Violência Sexual contra Mulheres e Adolescentes, de 1998, assegura assistência imediata a mulheres vítimas de violência que queiram interromper uma gravidez não apenas indesejada, mas imposta pela desonra de um estupro. O Código Penal de 1940 assim o permite. A Norma Técnica de Atenção Humanizada ao Abortamento, de 2004, orienta sobre o acolhimento e tratamento digno que toda mulher em processo de abortamento, espontâneo ou inseguro, tem direito ao ser atendida no Sistema Único de Saúde.

O processo brasileiro de democratização já se revelou maduro e plural o suficiente para não sucumbir a pressões eleitoreiras e conservadoras que pretendem tão-somente ocultar e desprezar o sofrimento de milhões de mulheres para quem o aborto é o último recurso. Por isso mesmo, o aborto não deve ser pago ao custo de sofrimento, solidão, enfermidade ou mesmo a morte. Deste modo, a consolidação e o aprofundamento democrático no Brasil requerem, de modo premente, a preservação do princípio constitucional do Estado laico, e da liberdade religiosa como direito importante para que as pessoas possam professar sua fé e agir de acordo com suas consciências.

É amplamente reconhecido que são mais prejudicadas nesse contexto as mulheres pobres, que recorrem ao SUS com complicações decorrentes de um aborto feito em condições precárias, com risco elevado de comprometimento de seu bem-estar futuro.

Da mesma forma que a realização de um aborto em condições dignas e seguras não deve ser o divisor de águas entre as mulheres brasileiras, em função de sua classe social, não é aceitável que essa questão seja usada nos processos eleitorais com o objetivo de que prevaleça um Brasil arcaico, hipócrita e conservador sobre interesses republicanos e de promoção da igualdade entre os sexos.

É dever do Estado garantir o acesso amplo e irrestrito aos métodos contraceptivos para regulação da fecundidade para homens e mulheres no âmbito do Sistema Único de Saúde. A Constituição Brasileira e a Lei 9.253/1996 estabelecem que o planejamento familiar é um direito das pessoas e que cabe ao Estado fornecer as informações e os meios para o controle voluntário da fecundidade.

Não é hora de retrocessos. Não podemos caminhar na contramão da maior parte dos países democráticos, que vêm considerando este um sério problema de saúde pública e garantindo legislações que preservam a dignidade das mulheres que se vêem diante de tais circunstâncias. Ser contra a criminalização do aborto é reconhecer o direito à justiça e evitar o sofrimento de milhões de mulheres neste país.

Para quem esqueceu assinar é só clicar AQUI