Eu posterguei muito essa postagem, por vários motivos que exporei aqui. Mas enfim decidi me manifestar. Agora não mais poderei expor minha opinião livremente, pois o endurecimento de algumas posturas em relação à posições colocadas na internet e também com uma demonização da prática do aborto, posso estar correndo algum risco. Acredito (ou espero), entretanto, que isso não se aplique, pois nunca disse que as mulheres devam fazer um aborto, obrigatoriamente, mas que elas deveriam ser livres para o fazerem se assim decidirem.
Mas eu realmente não quero que o aborto seja o assunto principal do post, e sim a tolerância e o respeito. Isso é o que está por trás da questão do aborto, na minha opinião. O Estado brasileiro enxerga as mulheres através da condição de mães. Tudo que é feito em matéria de políticas públicas para as mulheres ganha força quando visa a mulher-mãe. A ênfase no papel materno é tanta que as políticas de saúde da mulher, visam a mãe, as políticas de habitação colocam as casas no nome das mulheres, pois como mães, elas ficarão com os filhos e portanto a casa fica na família. Outra questão, por exemplo, é que muitas políticas da saúde dão ênfase na mulher como mãe/esposa-cuidadora, alertando-a para os problemas que seus familiares possam ter, ela eficazmente mobiliza àqueles à sua volta a se tratarem. Claro, as políticas são feitas com base em estudos. O problema de muitas dessas políticas não são seus objetivos e sim seus métodos, melhor dizendo, como elas pretendem resolver o problema.
Mas quando o cidadão mulher passa a só existir para o Estado através da maternidade nós vemos o que estamos vendo agora, a demonização da mulher que não quer ser mãe. A mulher que nega a maternidade deve ser punida. Das punições sociais sofre aquela que consegue abrir mão por meios modernos, evitando a gravidez. Para as outras (a maior parte, talvez?) que recorrem ao aborto, resta a penalização legal. Porque? Muitos vão alegar motivos religiosos. O que não se aplica, pois em teoria, o Brasil é um país laico. A religião de uns não pode ser usada pelo Estado para punir outros. Se na sua crença o aborto é crime, o adultério, que em muitas também é, deixou de ser punido pelo Estado para ser algo que marido, mulher e Deus resolverão no juízo final.
Qual a diferença então entre o adultério e o aborto para a opinião pública? Bom, eu vou ser simplista agora e dizer que o adultério pode ser cometido por homens, já o aborto não. Eu me pergunto às vezes se o homem que agride uma mulher até que ela aborte espontaneamente é condenado por aborto também, além da agressão? Mesmo que a resposta seja sim, o aborto é majoritariamente um crime feminino.
Muitos vão dizer que o aborto é um assassinato. É engraçado então esse ser o ÚNICO caso em que a religião e a ciência concordem. Ou melhor, a ciência tenta estabelecer quando a vida começa e a religião quer saber quando a alma entra dentro do corpo. O que acontece, na verdade, é que como a ciência ainda não tem uma resposta concreta, a igreja usa a dúvida científica para apoiar seu argumento. Do ponto de vista religioso, a coisa piora um pouco, pois Deus não se preocupou nadinha com as mulheres e para ele, não deveríamos nem poder evitar ter filhos, de forma alguma. Estranho que planejamento familiar possa e aborto não. Inclusive esse último é uma forma de planejamento familiar, o defeito é ele ser unilateral. Vamos propor outra lei então de cunho religioso semelhante? Vamos proibir a vasectomia?
Voltando ao assunto, a meu ver, como a mulher só passa a ser uma cidadã plena para o Estado depois que é mãe. Sim, pois para a sociedade não é mais necessário que a mulher se case, o Estado assumiu o papel de provedor com os programas sociais, tendo a mulher sob sua tutela, mas se ela não for mãe, ela passa a disputar um status de cidadão simbolicamente igual ao do homem (e arrisco eu a dizer, fica fora das políticas do estado). A sociedade não sabe definir essa mulher fora do "titia". O que é engraçado, porque se é tão maravilhoso ser mãe, porque existem mulheres que não querem sê-lo? É realmente necessário que TODAS as mulheres exerçam esse papel?
A mulher ser vista pelo prisma da maternidade é limitador, controlador e sufocante. A maternidade é cada dia mais responsabilizada por todas as mazelas da sociedade. Chego até a pensar que essa recente coerção das mulheres que praticam o aborto é algo para nos lembrar de sermos mães, mesmo que seja à força. A sociedade não percebe a sucessão de fenômenos que só podem provocar no coração de muitas mulheres o medo. Sim, pois a maternidade é uma responsabilidade tamanha que se formos "falíveis e humanas" poderemos reproduzir monstros para a nossa tão perdida sociedade. Caso tentemos, desesperadamente, fugir dessa responsabilidade eterna e exclusiva, vamos ser presas. Ou seja, de qualquer modo, é um caminho sem volta. A culpa é nossa. Estamos entra a cruz e a caldeirinha.
Minha pergunta é: será que esse é o melhor caminho? "Search and destroy"? Isso me lembra a Revolta da Vacina, quando em vez perder tempo explicando para as pessoas porque elas deveriam ser vacinadas, o governo do Rio de Janeiro preferiu fazer à força. A diferença é que no caso da maternidade, como o Estado e grande parte dos homens são omissos com relação à criação das crianças eles não tem explicações para dar do porque mesmo temos que ser mães. Solução encontrada, proibir o aborto.
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quarta-feira, 28 de março de 2012
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
Não é preciso ser mãe para falar de maternidade
Essa é a questão. Em toda discussão sobre aborto e maternidade sempre aparece uma hora ou outra comentários do tipo "Eu tenho x filhos, decidi (ou não) tê-los e estou muito feliz com isso". Bom, primeiro que muito raramente alguma mulher tem coragem de dizer que se arrependeu de ter filhos ou que a maternidade era pior do que esperava. Muitos podem pensar que a ausencia de comentários negativos se dá devido a perfeita adequação da mulher com a função materna e que as poucas que se arrependem sofrem de problemas psicológicos, mentais e etc.
Bem, eu não concordo com isso. Estou aqui falando do ponto de vista de uma filha, que teve uma mãe e viu a experiência dela de perto (e que ajudou a criar a própria irmã). A maternidade é uma função desvalorizada socialmente. Basta ver os incentivos de governo brasileiro para as mães. Além disso, maternar é apenas mais uma das funções desvalorizadas que a mulher é obrigada a enfrentar diariamente. Somam-se a essa, as tarefas domésticas. Que todos podemos notar que não são compartilhadas pela maioria dos homens brasileiros. Além disso, o cuidado com o bebê é algo cada vez mais complicado, pois a mulher é responsável pela saúde física e mental do feto (pois não pode beber, comer gordura enquanto está grávida), além de ter toda responsabilidade pelo desenvolvimento psicológico do filho. Isso eu li num livro, mas constatei de perto quando minha cunhada ficou grávida. Cada recomendação absurda que as pessoas faziam para ela...
Só que as pessoas esquecem de um pequeno detalhe. Nem toda mulher é igual e nem toda mulher tem aspirações parecidas. Além disso, a realização de uma pessoa tem mais fatores do que apenas a parentalidade. Sejamos francos, vivemos num mundo materialista e individualista e o modelo de maternidade vai contra tudo que a sociedade de consumo prega. Eu não sou a favor desse modelo de sociedade, mas concordo que a maternação não é tarefa exclusiva para a mulher. Eu sou uma que gosto de trabalhar e não sei se me sentiria confortavel dividindo minha vida apenas com um único ser que ainda não desenvolveu nem sua coordenação motora. Para falar a verdade, conheço muitas mulheres que parecem parar de pensar quando deixam de trabalhar apenas para cuidarem dos filhos. Algumas perdem suas habilidades sociais e quando saem de casa são motivo de vergonha, pois não conseguem dar conta de uma conversa adulta e civilizada. Muitas deixam a companhia de pessoas da própria idade, inclusive de outras mães, para brincarem com as crianças. Além de outros pais extremamente chatos que não sabem falar de outra coisa além dos próprios filhos. Eu entendo estar orgulhoso e feliz, mas vamos e convenhamos, algumas crianças não interagem direito com os outros até uns dois anos de idade, e é algo meio chato ser coagido a babar como os pais só porque o moleque falou "agu"? Ele só está fazendo o que todas as crianças fazem.
Tem uma amiga minha que acha crianças extremamente brochantes. Ela não entende como alguém pode ficar bobalhão e sair correndo para abraçar e tirar foto de uma criança que não é sua ou da sua família. Outra coisa engraçada que ela fala é que ela acha que crianças não deveriam ser trazidas para eventos sociais, a menos que elas saibam ficar caladas e não mexer onde não devem. Eu as vezes me irrito com as crianças alheias, principalmente porque alguns pais parecem querer apenas incomodar. Deixam o muleque esguelar, encher o saco, gritar, chorar... As vezes tenho a impressão que eles são como aqueles caras com cartazes dizendo "O mundo vai acabar em ...". Só que os cartazes são os filhos e eles dizem "Salve-se, não tenha filhos", outros querem apenas se esquecer dos moleques por algum tempo.
Mas nem tudo é assim. Existem crianças extremamente divertidas e inteligentes. As crianças europeias são, no geral, extremamente independentes e não ficam na aba dos pais como as brasileiras. Eu acho isso fantástico, pois se vc levar seu filho ao parquinho com um casal de amigos que tenha filhos, todos podem se divertir, tanto os pais quanto os filhos, pois quando os adultos se cansarem, sim, adultos são velhos, as crianças brincam entre si, sem aborrecer. Parece loucura, mas conheço mesmo crianças muito chatas que só brincam com adultos e vc tem que inventar a brincadeira pro muleque e ele ainda tem que sair ganhando.
Outra questão é que a sociedade vê como bom pai e marido aquele que faz o mínimo e como uma mãe normal, aquela que faz no mínimo o máximo. Não tá meio errada essa conta? Se o material genético da criança é 50/50 de cada um porque só um dos pais tem que ter a responsabilidade pelo cuidado? Vamos pensar no aspecto econômico também, será que a sociedade pode se dar ao luxo de desprezar a mão de obra mais qualificada que tem (e que ainda por cima, custa menos)? Ninguém vai convencer uma mulher de negócios a ter filhos se ela sabe que corre o risco de ser demitida porque vai ser obrigada a tirar a licença maternidade por 4 meses sem poder nem ao menos trabalhar meio expediente e que no máximo poderá contar com 1 mês e 2 semanas de ajuda do pai, se o cara quiser emendar as férias com a licença (mas eu acho que nem isso pode mais).
Todo mundo fala "Quando vc tiver filho vc vai entender". Será que isso é uma maldição? Só podemos entender a maternidade depois que tivermos filhos? Isso é um modo de deixar as mulheres curiosas e fazerem elas terem filhos? Será que pelo fato de acharmos que só podemos falar dela depois de passarmos por ela, estamos deixando de trabalhar por ela, de fazer com que a maternidade seja um encargo menor para mulher e que tenha uma maior participação da sociedade como um todo? Será que é por isso que estamos a esperar alguém que resolva esse problema por nós, porque depois de sermos mães, será muito tarde para questioná-la?
Também não é preciso ser mãe para maternar.
Bem, eu não concordo com isso. Estou aqui falando do ponto de vista de uma filha, que teve uma mãe e viu a experiência dela de perto (e que ajudou a criar a própria irmã). A maternidade é uma função desvalorizada socialmente. Basta ver os incentivos de governo brasileiro para as mães. Além disso, maternar é apenas mais uma das funções desvalorizadas que a mulher é obrigada a enfrentar diariamente. Somam-se a essa, as tarefas domésticas. Que todos podemos notar que não são compartilhadas pela maioria dos homens brasileiros. Além disso, o cuidado com o bebê é algo cada vez mais complicado, pois a mulher é responsável pela saúde física e mental do feto (pois não pode beber, comer gordura enquanto está grávida), além de ter toda responsabilidade pelo desenvolvimento psicológico do filho. Isso eu li num livro, mas constatei de perto quando minha cunhada ficou grávida. Cada recomendação absurda que as pessoas faziam para ela...
Só que as pessoas esquecem de um pequeno detalhe. Nem toda mulher é igual e nem toda mulher tem aspirações parecidas. Além disso, a realização de uma pessoa tem mais fatores do que apenas a parentalidade. Sejamos francos, vivemos num mundo materialista e individualista e o modelo de maternidade vai contra tudo que a sociedade de consumo prega. Eu não sou a favor desse modelo de sociedade, mas concordo que a maternação não é tarefa exclusiva para a mulher. Eu sou uma que gosto de trabalhar e não sei se me sentiria confortavel dividindo minha vida apenas com um único ser que ainda não desenvolveu nem sua coordenação motora. Para falar a verdade, conheço muitas mulheres que parecem parar de pensar quando deixam de trabalhar apenas para cuidarem dos filhos. Algumas perdem suas habilidades sociais e quando saem de casa são motivo de vergonha, pois não conseguem dar conta de uma conversa adulta e civilizada. Muitas deixam a companhia de pessoas da própria idade, inclusive de outras mães, para brincarem com as crianças. Além de outros pais extremamente chatos que não sabem falar de outra coisa além dos próprios filhos. Eu entendo estar orgulhoso e feliz, mas vamos e convenhamos, algumas crianças não interagem direito com os outros até uns dois anos de idade, e é algo meio chato ser coagido a babar como os pais só porque o moleque falou "agu"? Ele só está fazendo o que todas as crianças fazem.
Tem uma amiga minha que acha crianças extremamente brochantes. Ela não entende como alguém pode ficar bobalhão e sair correndo para abraçar e tirar foto de uma criança que não é sua ou da sua família. Outra coisa engraçada que ela fala é que ela acha que crianças não deveriam ser trazidas para eventos sociais, a menos que elas saibam ficar caladas e não mexer onde não devem. Eu as vezes me irrito com as crianças alheias, principalmente porque alguns pais parecem querer apenas incomodar. Deixam o muleque esguelar, encher o saco, gritar, chorar... As vezes tenho a impressão que eles são como aqueles caras com cartazes dizendo "O mundo vai acabar em ...". Só que os cartazes são os filhos e eles dizem "Salve-se, não tenha filhos", outros querem apenas se esquecer dos moleques por algum tempo.
Mas nem tudo é assim. Existem crianças extremamente divertidas e inteligentes. As crianças europeias são, no geral, extremamente independentes e não ficam na aba dos pais como as brasileiras. Eu acho isso fantástico, pois se vc levar seu filho ao parquinho com um casal de amigos que tenha filhos, todos podem se divertir, tanto os pais quanto os filhos, pois quando os adultos se cansarem, sim, adultos são velhos, as crianças brincam entre si, sem aborrecer. Parece loucura, mas conheço mesmo crianças muito chatas que só brincam com adultos e vc tem que inventar a brincadeira pro muleque e ele ainda tem que sair ganhando.
Outra questão é que a sociedade vê como bom pai e marido aquele que faz o mínimo e como uma mãe normal, aquela que faz no mínimo o máximo. Não tá meio errada essa conta? Se o material genético da criança é 50/50 de cada um porque só um dos pais tem que ter a responsabilidade pelo cuidado? Vamos pensar no aspecto econômico também, será que a sociedade pode se dar ao luxo de desprezar a mão de obra mais qualificada que tem (e que ainda por cima, custa menos)? Ninguém vai convencer uma mulher de negócios a ter filhos se ela sabe que corre o risco de ser demitida porque vai ser obrigada a tirar a licença maternidade por 4 meses sem poder nem ao menos trabalhar meio expediente e que no máximo poderá contar com 1 mês e 2 semanas de ajuda do pai, se o cara quiser emendar as férias com a licença (mas eu acho que nem isso pode mais).
Todo mundo fala "Quando vc tiver filho vc vai entender". Será que isso é uma maldição? Só podemos entender a maternidade depois que tivermos filhos? Isso é um modo de deixar as mulheres curiosas e fazerem elas terem filhos? Será que pelo fato de acharmos que só podemos falar dela depois de passarmos por ela, estamos deixando de trabalhar por ela, de fazer com que a maternidade seja um encargo menor para mulher e que tenha uma maior participação da sociedade como um todo? Será que é por isso que estamos a esperar alguém que resolva esse problema por nós, porque depois de sermos mães, será muito tarde para questioná-la?
Também não é preciso ser mãe para maternar.
sábado, 11 de setembro de 2010
Preciso falar!
Sei que havia prometido e dito que ia postar meus contos no blog, mas uma semana lendo intensivamente sobre os mitos da maternidades motivaram minha recalcitrância. Preciso postar!
No meio do caminho, entre as leituras feministas e literárias, me perguntei "porque estou estudando maternidade?". Parece um tema tão batido. Se pararmos para pensar, Simone de Beauvoir já falava nela como principal "defasagem" feminina em relação aos homens. Podemos colocar na lista Badinter, Chodorow e recentemente eu descobri Aminatta Forna. Filosofia, psicanálise ou jornalismo, seja qual for a linguagem essas mulheres concordam que o amor materno é uma invenção. Aliás, as mulheres relutaram muito em "assumir o posto". Aproximadamente 200 anos. Para se ter uma idéia, a amamentação era teimosamente combatida pelas mulheres cultas do século XVI ao XVIII, mesmo com as enormes taxas de mortalidade dos bebês que ficavam ao encargo das amas. Além disso o discurso filosófico, moral e médico variava em obrigar ou não esse ato que hoje nos parece óbvio ser necessário.
Fato é que os homens "tiveram" que nos ensinar algo que nos é "natural". Eles sabiam o que era uma boa mãe desde Rousseua até Freud. Nós só engolimos os discursos, não com uma certa ânsia, como a História mostra. Se toda a mulher deve ser mãe, se tem um "relógio biológico" que fatalmente vai chegar a essa hora, porque ainda é preciso ressaltar as qualidades e recompensas de ser mãe? Ainda sofremos hoje com discursos semelhantes aqueles que circularam entre o séc. XVIII e XIX para nos fazer voltar ao lar e às funções domésticas.
Eu estou exagerando? Outro dia vi no jornal comentando sobre a extensão da licença paternidade e apenas 2 das 6 pessoas entrevistadas foram a favor. Claro que isso é um universo ínfimo, mas não sei se o brasileiro está muito convencido da importância do papel do pai no desenvolvimento da criança. Talvez só se ache que as obrigações paternas começam quando a criança começa a falar, andar e etc. Afinal, enquanto mama é só a mãe, certo? Bom, daí surge a desculpa esfarrapada da psicanálise que afirma que as crianças "precisam" da mãe na primeira infância para poderem ter ela como objeto de amor pelo qual vão se livrar na fase edipiana. Besteira. A taxa de mortalidade no parto das mulheres de antigamente não causou uma epidemia de psicopatas. Aliás, o cuidado exclusivo da criança pela mãe parece ser muito mais problemático para ambos. Se a separação é necessária para o amadurecimento, porque torná-la tão difícil fazendo a criança se afeiçoar apenas pela mãe? Bom, Aminatta Forna, que foi criada em Serra Leoa pelo que chama de "família extendida" onde todos os adultos da família, inclusive amigos, são responsáveis pelo cuidado das crianças, ela mostra como esse tipo de cuidado pode ser muito mais saudável para a mãe e a criança. A mãe pode trabalhar e ter tempo pra si e a criança tem uma melhor experiência de socialização desenvolvendo melhor as habilidades de convivência. Muitos antropólogos afirmam isso, mas insistimos em pregar a maternidade ocidental como única, verdadeira e certa.
O problema é que essa maternidade não mudou muito. As mulheres ainda são definidas como "mães em potencial". Outro dia fomos a um almoço de família eu e o Marcos. Numa mesa estavam os adultos e na outra as crianças (que já estão mais para adolescentes). mas na prática, a mesa dos adultos era a dos casais com filhos e para as pessoas que babavam por crianças. Nós nos sentamos na mesa das crianças, mas nos sentimos meio sem lugar pois somos velhos para eles, não sabíamos os nomes dos jogos ou desenhos que eles gostavam, mas também não estávamos por dentro do papo dos adultos, pois eu acho extremamente entediante esse papo de falar de criança. Os adultos sem filhos não tem lugar na mesa. Até conseguirmos falar de política ficamos excluídos. Até porque se você é casado e não tem filhos causa estranheza nos demais. As perguntas começam "Quando vem o de vcs?" ou podem ser ameaças como "Vcs são os próximos...". O que me intriga é que sempre ouço um deles reclamando de ter tido filho.
As mulheres, pelo menos as jovens mães que eu conheço, são dignas de pena. Não conseguem nem fazer o marido lavar uma louça carregam a casa e o cuidado com os filhos sozinhas. Quando eu falo que eu e o Marcos dividimos tudo em casa e que ele cozinha na maioria das vezes porque eu não gosto de cozinhar me olham como se eu fosse um ET. Eu quase perguntei como elas tiveram coragem de ter filho se não tinham outra pessoa para cuidar da casa ou dividir as tarefas. Mas eu sou a diferente e seria indelicado da minha parte dizer isso, afinal, existe um pacto de não questionar a "normalidade" das divisões de papéis em público. Em resumo, porque mostrar pra pessoa que a vida dela é uma merda e ela está sendo explorada? Nos casos em que conheço, as mulheres são capazes de compreender isso por conta própria, só não o fazer porque teriam que recomeçar do zero. É melhor fingir que se é feliz, afinal, a sociedade não discute que a mãe merece algum reconhecimento.
As revistas e programas de televisão até hoje se regozijam em mostrar mulheres que tinham uma carreira brilhante e decidiram abandonar tudo para ser mãe. Ninguém discute o porque uma união dessas parece impossível. Eu detesto ver na legenda de uma entrevistada o nome seguido de "mãe da fulana ou do fulano". Muitas vezes não aparece nem o nome, só "mãe do fulano". E sua magestade a criança aparece coroada e invariavalemente a mãe parece uma abestada. Muita gente vai falar que eu reclamo ou desdenho porque não sou mãe. Eu preciso ser? Porque? Depois que eu for perderei minha individualidade com medo de ser taxada de egoísta ou de uma mãe má? E se não gostar da função, faço o que? É um problema, pois dizem que mesmo que uma mulher não goste de crianças ela será "tocada" pelo amor materno quando tiver seu próprio filho. E se ela resolver testar e seu "botão" estiver estragado? Fará o que? Com certeza a tomarão por doente. Eu conheço casos assim. O pior, poderão acusá-la de golpe da barriga. Que teve o filho para "segurar" o marido. Imagina se num casamento uma criança chorando o tempo todo e precisando de cuidados quase o tempo todo pode ajudar em alguma coisa. Me parece meio estúpido.
Não discordo que exista amor nessa relação, mas como ele pode surgir, aflorar normalmente com a alta taxa de imposições feitas às mulheres? Mesmo eu que divido as tarefas as vezes me pego com as pressões sociais atuando na minha cabeça. A casa está bagunçada eu ouço um "vc tem que arrumar". Imagina quando se é mãe o quanto essas pressões não são mais fortes? Será que as mulheres querem ser mães ou acham que devem ser? Afinal, todos são hunânimes em dizer que devemos ter essa experiência antes que gastemos todos os nossos óvulos.
No meio do caminho, entre as leituras feministas e literárias, me perguntei "porque estou estudando maternidade?". Parece um tema tão batido. Se pararmos para pensar, Simone de Beauvoir já falava nela como principal "defasagem" feminina em relação aos homens. Podemos colocar na lista Badinter, Chodorow e recentemente eu descobri Aminatta Forna. Filosofia, psicanálise ou jornalismo, seja qual for a linguagem essas mulheres concordam que o amor materno é uma invenção. Aliás, as mulheres relutaram muito em "assumir o posto". Aproximadamente 200 anos. Para se ter uma idéia, a amamentação era teimosamente combatida pelas mulheres cultas do século XVI ao XVIII, mesmo com as enormes taxas de mortalidade dos bebês que ficavam ao encargo das amas. Além disso o discurso filosófico, moral e médico variava em obrigar ou não esse ato que hoje nos parece óbvio ser necessário.
Fato é que os homens "tiveram" que nos ensinar algo que nos é "natural". Eles sabiam o que era uma boa mãe desde Rousseua até Freud. Nós só engolimos os discursos, não com uma certa ânsia, como a História mostra. Se toda a mulher deve ser mãe, se tem um "relógio biológico" que fatalmente vai chegar a essa hora, porque ainda é preciso ressaltar as qualidades e recompensas de ser mãe? Ainda sofremos hoje com discursos semelhantes aqueles que circularam entre o séc. XVIII e XIX para nos fazer voltar ao lar e às funções domésticas.
Eu estou exagerando? Outro dia vi no jornal comentando sobre a extensão da licença paternidade e apenas 2 das 6 pessoas entrevistadas foram a favor. Claro que isso é um universo ínfimo, mas não sei se o brasileiro está muito convencido da importância do papel do pai no desenvolvimento da criança. Talvez só se ache que as obrigações paternas começam quando a criança começa a falar, andar e etc. Afinal, enquanto mama é só a mãe, certo? Bom, daí surge a desculpa esfarrapada da psicanálise que afirma que as crianças "precisam" da mãe na primeira infância para poderem ter ela como objeto de amor pelo qual vão se livrar na fase edipiana. Besteira. A taxa de mortalidade no parto das mulheres de antigamente não causou uma epidemia de psicopatas. Aliás, o cuidado exclusivo da criança pela mãe parece ser muito mais problemático para ambos. Se a separação é necessária para o amadurecimento, porque torná-la tão difícil fazendo a criança se afeiçoar apenas pela mãe? Bom, Aminatta Forna, que foi criada em Serra Leoa pelo que chama de "família extendida" onde todos os adultos da família, inclusive amigos, são responsáveis pelo cuidado das crianças, ela mostra como esse tipo de cuidado pode ser muito mais saudável para a mãe e a criança. A mãe pode trabalhar e ter tempo pra si e a criança tem uma melhor experiência de socialização desenvolvendo melhor as habilidades de convivência. Muitos antropólogos afirmam isso, mas insistimos em pregar a maternidade ocidental como única, verdadeira e certa.
O problema é que essa maternidade não mudou muito. As mulheres ainda são definidas como "mães em potencial". Outro dia fomos a um almoço de família eu e o Marcos. Numa mesa estavam os adultos e na outra as crianças (que já estão mais para adolescentes). mas na prática, a mesa dos adultos era a dos casais com filhos e para as pessoas que babavam por crianças. Nós nos sentamos na mesa das crianças, mas nos sentimos meio sem lugar pois somos velhos para eles, não sabíamos os nomes dos jogos ou desenhos que eles gostavam, mas também não estávamos por dentro do papo dos adultos, pois eu acho extremamente entediante esse papo de falar de criança. Os adultos sem filhos não tem lugar na mesa. Até conseguirmos falar de política ficamos excluídos. Até porque se você é casado e não tem filhos causa estranheza nos demais. As perguntas começam "Quando vem o de vcs?" ou podem ser ameaças como "Vcs são os próximos...". O que me intriga é que sempre ouço um deles reclamando de ter tido filho.
As mulheres, pelo menos as jovens mães que eu conheço, são dignas de pena. Não conseguem nem fazer o marido lavar uma louça carregam a casa e o cuidado com os filhos sozinhas. Quando eu falo que eu e o Marcos dividimos tudo em casa e que ele cozinha na maioria das vezes porque eu não gosto de cozinhar me olham como se eu fosse um ET. Eu quase perguntei como elas tiveram coragem de ter filho se não tinham outra pessoa para cuidar da casa ou dividir as tarefas. Mas eu sou a diferente e seria indelicado da minha parte dizer isso, afinal, existe um pacto de não questionar a "normalidade" das divisões de papéis em público. Em resumo, porque mostrar pra pessoa que a vida dela é uma merda e ela está sendo explorada? Nos casos em que conheço, as mulheres são capazes de compreender isso por conta própria, só não o fazer porque teriam que recomeçar do zero. É melhor fingir que se é feliz, afinal, a sociedade não discute que a mãe merece algum reconhecimento.
As revistas e programas de televisão até hoje se regozijam em mostrar mulheres que tinham uma carreira brilhante e decidiram abandonar tudo para ser mãe. Ninguém discute o porque uma união dessas parece impossível. Eu detesto ver na legenda de uma entrevistada o nome seguido de "mãe da fulana ou do fulano". Muitas vezes não aparece nem o nome, só "mãe do fulano". E sua magestade a criança aparece coroada e invariavalemente a mãe parece uma abestada. Muita gente vai falar que eu reclamo ou desdenho porque não sou mãe. Eu preciso ser? Porque? Depois que eu for perderei minha individualidade com medo de ser taxada de egoísta ou de uma mãe má? E se não gostar da função, faço o que? É um problema, pois dizem que mesmo que uma mulher não goste de crianças ela será "tocada" pelo amor materno quando tiver seu próprio filho. E se ela resolver testar e seu "botão" estiver estragado? Fará o que? Com certeza a tomarão por doente. Eu conheço casos assim. O pior, poderão acusá-la de golpe da barriga. Que teve o filho para "segurar" o marido. Imagina se num casamento uma criança chorando o tempo todo e precisando de cuidados quase o tempo todo pode ajudar em alguma coisa. Me parece meio estúpido.
Não discordo que exista amor nessa relação, mas como ele pode surgir, aflorar normalmente com a alta taxa de imposições feitas às mulheres? Mesmo eu que divido as tarefas as vezes me pego com as pressões sociais atuando na minha cabeça. A casa está bagunçada eu ouço um "vc tem que arrumar". Imagina quando se é mãe o quanto essas pressões não são mais fortes? Será que as mulheres querem ser mães ou acham que devem ser? Afinal, todos são hunânimes em dizer que devemos ter essa experiência antes que gastemos todos os nossos óvulos.
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