terça-feira, 12 de outubro de 2010

Será que erramos?

Eu estava aqui pensando no aumento da desigualdade entre os sexos no Brasil, no crescimento da bancada evangélica na Câmara e na recente polêmica em torno das eleições que conseguiu reduzir todo o processo numa decisão que parece acreditar que o melhor candidato à presidência deve ser o mais religioso e retrógado.

Eu sempre defendi a liberdade de expressar idéias e crenças. Muitas vezes fui desrespeitada por acharem que ser ateu é estar indeciso e não uma "crença" em não crer. Vivo num país laico que oferece a própria constituição a deus (vide preâmbulo). Em meio a todas essas contradições as minorias parecem estar ficando cada vez menores. Existe uma série de permissões para religiosos. Se eu fosse adventista poderia fazer o vestibular em horário especial para respeitar o 7 dia. Não acho isso errado. Não sou a favor da proibição do véu na França. Mas também não acho que os religiosos devam tomar decisões para o país de acordo com suas próprias crenças. O governante deve governar para cristãos, umbandistas, espíritas, ateus e tudo mais. Eu não sou muito boa de datas, mas acho que no século XVII Estado e Igreja se separaram e foi um avanço. A democracia não combina com um governo religioso. Luis XIV era o chefe do estado e da igreja. Eu imagino se os parlamentares forem cada vez mais religiosos se não vamos perder nossa liberdade além de ter que orar antes das solenidades públicas.

O que eu acho mais interessante é que se discute religião numa eleição e perde-se espaço para se discutir as propostas para o país. Perde-se o foco, que é discutir POLÍTICA. Vamos ser realistas. Ser ou não religioso nunca foi sinônimo de bondade ou honestidade. Inclusive a maior parte das crenças pregam a verdade (delas), isso faz com que o crente seja muitas vezes mais coercivo do que o não-crente. Ele pode acreditar que o deus dele é o único e verdadeiro e que não acreditar em seu deus é um pecado imperdoável. Sendo assim, não há mal em matar um pecador em nome de um bem maior. Como diria o Pearl Jam "I can kill because in God I trust".

Alguém lembra dos deputados da câmara legislativa do DF orando para agradecer a propina? A religiosidade dos israelenses não os impede de tomar o espaço dos palestinos, nem tão pouco bloquear o envio de ajuda humanitária. Os protestantes nos Estados Unidos conseguiram proibir o ensino da Teoria da Evolução nas escolas. E isso tudo porque? Porque nós, que não partilhamos dessas crenças ou que achamos que religião não combina com política deixamos os religiosos cada vez mais ocuparem espaço na política. Muitos deles parecem não ter a mesma tolerância que nós e quando ocupam um cargo importante, legislam em causa própria, não respeitando as diferenças e acreditando que suas crenças são a verdade e que aqueles que divergem são pobres coitados que merecem ajuda. Bom, o último governante forte que era a verdade, a religião e a lei era...

*Editado posteriormente.
Eu não quero dizer que todos os religiosos sejam proselitistas ou fundamentalistas, mas aqueles que parecem interessados em tornar a religião um assunto político, sim.

Então eu me pergunto, será que erramos ao defender uma liberdade que parece nos condenar ao silêncio e a marginalidade? Será que não está na hora de nos lembrarmos que "o pessoal é político"?

2 comentários:

Palavras Vagabundas disse...

Drixz,
o que realmente me surpreende é se discutir convicção religiosa numa eleição de um país laico! Mesmo sendo uma gota no oceano, tenho respondido todo email que confunde religião/política, óbvio que estou perdendo alguns amigos, mas há outros que começaram a abrir os olhos, teve uma que me pediu desculpas simplesmente tinha reenviado o email sem ler direito.
Pensar e discutir essa dicotomia é muito bom, você não acha?
abs
Jussara

Drixz disse...

Eu concordo. Não sou tão pessimista assim, mas acho que as pessoas, como nós, que não concordam com a mistura de religião e política tem que se manifestar mais. Acho que estamos perdendo espaço. Tanto que a eleição chegou a esse ponto.