quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O post do desassosego

Ou o não-post

Eu adoro essa palavra. Pra mim ela soa bem diferente de ansiedade. Quando penso em ansiedade me dá vontade de roer as unhas, no desassosego, tenho vontade de trabalhar, dançar, ir tomar uma cerva com os amigos, mas ficar à espreita, só olhando.

Essa palavra não surgiu aí a toa. Foi inspirada no livro do desassossego do Fernando Pessoa - o esquizofrênico mais criativo que eu já vi. Bom, eu o chamo assim porque ao ler seus heterônimos separadamente e desavisadamente pode-se muito bem achar que se tratam de 3 escritores distintos. Inclusive eu faço a mesma pergunta que muitos: Será que o próprio Pessoa não é um heterônimo? Afinal, pessoa vem de persona, a máscara do teatro grego. Acho que só com essa explanação já posso ter plantado a semente do desassossego em vcs. Enfin, esse livro, ou não livro como Pessoa o chamou, é enorme e eu não li nem 1/3 dele ainda, mas já me deixou por demais desassossegada. Vou colocar aqui o primeiro trecho do livro para que vcs se sintam tão desassossegados quanto eu.

"1. Nasci em um tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a haviam tido - sem saber porquê. E então, porque o espírito humano tende naturalmente para criticar por que sente, e não por que pensa, a maioria desses jovens escolheu a Humanidade para sucedâneo de Deus. Pertenço, porém, àquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem, nem vêem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado. Por isso nem abandonei Deus tão amplamente como eles, nem aceitei nunca a Humanidade. Considerei que Deus, sendo improvável, poderia ser, podendo pois dever ser adorado; mas que a Humanidade, sendo uma mera idéia biológica, e não significando mais que uma espécie animal humana, não era mais digna de adoração do que qualquer outra espécie animal. Este culto da Humanidade, com seus ritos de Liberdade e Igualdade, pareceu-me sempre uma revivescência dos cultos antigos, em que animais eram como deuses, ou os deuses tinham cabeças de animais.

Assim, não sabendo crer em Deus, e não podendo crer numa soma de animais, fiquei, como outros da orla das gentes, naquela distância de tudo que comummente se chama Decadência. A Decadência é a perda total da inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida. O coração, se pudesse pensar, pararia."

Livro do desassossego - Bernardo Soares (ou Fernando Pessoa)


Acho que a principal diferença entre nós, aqui, é que para ele houve um tempo em que se acreditava em Deus, esse Deus que fazia girar o sol em torno da Terra. No meu tempo, ele já havia morrido, sido esquecido.

Um comentário:

Glória Maria Vieira disse...

Ah que bacana, Drixz! Sabe, isso de religião anda me deixando muito confusa. Uma vez eu disse ser agnóstica, mas agora, nesses últimos dias, não sei o que sou... não sei é nada. :~

/andei sumida, num foi? mas eu acho que você já sabe o motivo. :/ MAS estou de volta! hihi :)