segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Vou ser do contra!

Sei que está todo mundo pensando em política, falando em política e querendo política, mas minha cabeça está poluída demais com minha dissetação para conseguir escrever um post decente sobre o assunto. Quero falar de sexo. De política eu já falo o ano inteiro.

A gente vai escrevendo e pensando nas possíveis perguntas que vai escutar e formando possíveis respostas. Fico imaginado, por exemplo, que a minha banca vai querer me dar uma rasteira e me perguntar o que eu entendo por gênero, papéis de gênero e crítica psicanalítica. Outra infinidade de conceitos podem ser um calo no meu pé. Por exemplo, discursos sociais. Posso também ser surpreendida por uma pergunta perturbadora. Algo como "porque você acredita que a maternidade é responsável pela manutenção dos papéis de gênero e a repressão sexual feminina?". Essa é muito fácil de responder, mas ao mesmo tempo, se for um homem a fazer a pergunta ele pode simplesmente ignorar toda uma realidade. Afinal a educação de meninos e meninas é beeem diferente.

Meu pai dizia "prenda a sua cabra que eu soltei meu bode", tentando me fazer entender qual era o meu lugar. Eu não contei para minha mãe quando eu perdi minha virgindade e nunca tive coragem de pedir uma camisinha para ela. Eu ouvi os maiores desaforos do mundo a primeira vez que dormi na casa de um namorado. Fui chamada de piranha pra baixo, pela minha mãe. Quando era adolescente meus pais desconfiavam do fato de eu ter mais amigos homens do que mulheres. Nem o fato de eu andar com o meu irmão ajudou a responder. Minha mãe achava que os meus amigos tinham segundas intenções. Que pegava mal eu andar no meio dos homens. E para ser bem sincera, a minha mãe não era das mais repressoras que eu conheci. O mais engraçado, porém, é aquilo que dão o nome de duplo nó. Ao mesmo tempo que a minha mãe me controlava ela detestava a minha avó pelas coisa que ela fez com ela. As mesmas que ela fazia comigo. A minha mãe não conseguia ver o paradoxo. O sonho dela era ter morado sozinha antes de casar, mas quando eu saí de casa ela fez uma tromba enorme e não foi me visitar, embora tenha me emprestado seu nome para o aluguel. Ela só começou a me ver como adulta depois que eu me casei. E agora me conta tudo aquilo que eu gostaria de ter sabido aos 15 anos de idade e que agora não me serve para mais nada.

Tudo isso porque? Porque eu precisava cumprir as etapas de uma mulher decente. O mais importante é casar, depois ter filhos. Hoje em dia precisamos de um emprego também, mas se somos casadas é menos pior. Antes disso, minha educação tinha que ser a de uma moça de família e eu estava vulnerável a ser uma perdida. Uma vez eu fui parar na psicóloga porque falava o que pensava. Eu acho que era na verdade porque eu falava a verdade. Eu compreendo bem melhor a minha mãe agora, mas será que era impossível ela me fazer endendê-la antes? É difícil dizer. O que ela poderia falar? "Filha, ser mulher é muito difícil e você nunca vai ser igual ao seu irmão. Você gosta do seu pai, mas ele não vai fazer sua vida melhor e eu não posso fazer nada por você. Vão te julgar e menosprezar. Vão ignorar o que você fala mesmo estando certa apenas porque não é homem."

Um comentário:

Iara disse...

Ai, difícil isso. Eu talvez tivesse uma educação bem parecida com a sua, não fosse meu pai um sujeito mais cabela aberta. Mas ainda assim não foi super fácil. E minha mãe se incomoda com o fato de eu não ser casada no papel, embora ela faça um esforço enorme pra não demonstrar. Esforço que eu reconheço e aprecio.