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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Cabelos enrolados podem acabar com seu relacionamento?

Parece absurdo, mas não é. Esse é o título de uma postagem de um site especializado em cabelos cacheados. O depoimento era de uma leitora que enquanto grávida decidiu "assumir" os cachos pela praticidade. Reproduzo aqui um trecho do depoimento que pode ser encontrado no site natural curlly:

CurlyNikki recently shared a painful story about a woman who found the future of her marriage in jeopardy based on her decision to wear her hair natural. Although her husband agreed that she had more to offer to the relationship than her hair, and that their daughter’s naturally curly hair was “beautiful,” he still felt his pregnant wife’s “nappy” hair was unattractive.

For better or for worse, she agreed to wear more straight hairstyles, allowing the couple to reach a boggling agreement
that insured that his happiness and comfort would not be compromised by her appearance. Of course, what followed this courageous confession was a hailstorm of angry, confused, offended and empathetic comments by users who could barely stand the audacity of a man’s ultimatum towards his pregnant wife. But is this an isolated situation, or can having curly hair really be a deciding factor in whether or not a marriage can stand the test of time?


tradução:

"(...) recentemente compartilhou a dolorosa história de uma mulher que encontrou o futuro do seu casamento baseado na decisão de usar seu cabelo ao natural. Apesar do seu marido concordar que ela tinha mais para oferecer ao relacionamento do que apenas seu cabelo e concordar que o cabelo de sua filha naturalmente enrolado fosse bonito, ele ainda sentia o cabelo de sua esposa grávida bagunçado não fosse atraente.

Para melhor ou pior, ela concordou em usar mais seu cabelo liso, permitindo que ao casal alcançar um complexo acordo asegurando que sua felicidade e conforto não fosse comprometido pela sua aparência. Claro, o que se seguiu à sua corajosa confissão foi uma avalanche de comentários raivosos, confusos, ofensivos e enfáticos por usuários dizendo como o homem poderia ter a audácia de dar tal ultimato à sua esposa grávida. Mas essa é uma situação isolada ou pode mesmo o cabelo enrolado ser um fator decisivo ou o casamento não pode suportar o teste do tempo?


Em outra reportagem do site o título trazia a reflexão: o cabelo natural pode te fazer "enegrecer"?

Por essas duas rápidas leituras podemos inferir que existem pelo menos 2 preconceitos em relação aos cabelos enrolados: cabelo enrolado é feio e afro (ou talvez seja feio por ser afro).

Bom, nem preciso dizer o quão ruim e anti-natural esse padrão de beleza ariano-escandinavo (aliás, se o povo soubesse o quanto meus cachos fazem sucesso na Suécia...) Enfim, o que mais me deixou enojada foi a idéia das pessoas ligarem cabelos enrolados aos negros e por isso eles serem feios ou desprezados. É um absurdo, mas também verdade. Por essas não temos como negar que o racismo está mais presente no nosso dia a dia do que imaginamos. Afinal, uma minoria das mulheres brasileiras tem cabelos naturalmente lisos, mas uma rápida visualizada dentro de qualquer salão em qualquer lugar do país vemos que a maior procura é por escovas à base do secador ou tratamentos químicos para alisar os cabelos, as chamadas "progressivas". E quantas loiras! Alguns lugares parecem até uma sucursal sueca.

Não podemos negar que algumas mulheres queiram fazer o que bem entenderem de suas madeixas, mas o fato de dispensarem a maior parte do seu dinheiro tentanto ter as madeixas lisas e loiras me faz achar que não querem ser diferentes, e sim iguais. Iguais às européias e diferente da maioria das brasileiras, sobretudo das negras. A escravidão é uma mancha na nossa história, mas parece que o stigma negro nos traços é que tem de ser evitado, tentando fingir que ela nunca aconteceu. Os índios tem cabelo natualmente liso e uma mística ligada ao bom selvagem, o héroi nacional, o guarani. Não vou nem entrar no mérito indígena e do quem vem sido usado como desculpa para apagar toda a questão indígena.

Eu não tinha me tocado de toda essa discussão até ser alertada por um comentário de uma das BF's que foi quem achou a citação no site. Então, como boa representante dos cabelos afros, fui fazendo uma retrospectiva da minha história capilar. Tenho fotos linda de infância com meus cachinhos livres e soltos. Não lembro quando a tortura começou, mas de uma hora para outra meus cachos passaram a ficar "rebeldes". Estava decidido, meu cabelo deveria ser "domado". Vieram então as marias-chiquinha e rabos-de-cavalo que de tão apertados me deixavam com dor de cabeça. A idéia era puxar bastante a raiz para ver se o cabelo acostumava a ficar liso. Depois, no início da minha adolescência era época do relaxamento "Amacihair teen", que transformava meu cabelo cacheado em ondulado e deixava minha cabeça fedendo a amônia por uns 3 meses. Mas eu me submetia a isso porque ouvia da minha mãe que meu cabelo era feio. Tinhamos que fazer alguma coisa!

Na época dela, ela colocava a cabeça na tábua de passar e passava o cabelo a ferro. Hoje temos a chapinha. Mas na minha adolescência ainda não tinha chapinha. Eu cansei de ficar com a cabeça fedendo e deixei o meu cabelo crescer, pois segundo minhas fontes, com o peso meus cachos ficariam menos rebeldes. Mas eu não queria ter cabelos lisos, só não queria que as pessoas me olhassem como se eu fosse uma maluca saída do hospício. Sim, pois era assim que eu me sentia toda vez que deixava meu cabelo secar ao vento ou naturalmente. Eu então fazia uma enorme trança com ele molhado e quando o cabelo secava, estava ondulado. Mas era um trampo. Um cabelo daquele tamanho demorava 24 horas para secar. As vezes eu queria usar meu cabelão todo bagunçado, enrolado, livre e solto. Mas as comparações com Clara Nunes e Maria Bethania me desencorajavam, afinal, eu não era fã delas na época e elas estavam muito longe de ser o padrão de beleza de uma adolescente metaleira.

Sempre tive dor de cabeça ao prender meus cabelos apertados, o jeito mais fácil de domá-los. Algumas vezes recorria a touca, um método onde vc penteia o cabelo em torno da cabeça com auxílio de granpos. Pode secá-los ou dormir com uma touca de meia na cabeça, mas tem que virar para o outro lado, pois senão ele fica muito estranho. O problema dos secadores, para mim, sempre foi o barulho. Mesmo os mais silenciosos não são nada agradáveis. Tenho por mim que parte do "zumbido" que a minha mãe reclama do ouvido dela fazer é por causa das longas sessões imersa num secador de cabeça mais barulhento que um carro de fórmula 1, que disconfio que ela usaria até hoje se ele não tivesse quebrado após 20 anos de uso.

Bom, acho que apenas por esse rápido histórico, dá para perceber que se adequar ao padrão não é tão fácil. Além de requerer tempo e dinheiro, muitas vezes requer saúde, pois durante a gravidez e alguns tratamentos, as mulheres não podem fazer progressivas ou mesmo pintar o cabelo. As mulheres simplesmente alisam o cabelo porque acham que vai ser mais prático, mais simples, que ficarão mais bonitas. A verdade é que existe muito preconceito contra cabelos enrolados, inclusive essa falácia de que é mais fácil lidar com cabelos lisos. Daí voltamos ao caso lá de cima, da mulher que teve o casamento abalado por assumir seus cachos. Seria muito simples eu falar que a mulher apenas pode decidir não mais alisar os cabelos. Em teoria, mas na prática quantas mulheres alisam o cabelo por motivos que passam até pelo "profissionalismo"? Quando eu trabalhava em loja, minha gerente me disse que se eu não tivesse o cabelo curto, provavelmente me mandaria fazer escova, pois cabelo enrolado parece desleixo. Existem uma série de fatores externos que mexem com a auto-estima de uma mulher que tem cabelos enrolados.

Se você reparar, vai ver que durante todo o post, tem fotos minhas com minhas madeixas originais. Hoje, do meu lugar de fala, não me sinto mais obrigada a alisar meus cabelos. Mas isso foi um processo longo. Dá para perceber que eu sou branca, então não posso dizer que sofri racismo por causa dos meus cabelos, mas já ouvi coisas do tipo "Você fica mais bonita de escova". Acho que o precesso é tão longo, que quando alguma amiga me vê de escova, simplesmente diz "nossa, você fica tão estranha de cabelo liso"! Eu não sei se vcs lembram do meu post sobre ser baixinha. Não era fácil me achar uma mulher bonita sendo tão diferente do padrão, baixinha e de cabelos enrolados. E olha que quando eu me comparo com outras mulheres acho até que tenho poucos problemas.

Mas eu tenho uma carreira que me permite usar meus cabelos enrolados. Posso dizer até, que com minhas experiências de vida, consigo chegar para alguém e dizer, com toda propriedade, o quanto é ridículo aliar o modo com que uso meus cabelos com a minha competência. Mas quantas pessoas não tem essa oportunidade? Quantos chefes usam o cabelo como uma desculpa para "branquiar" seus funcionários? Sabemos que não é mais permitido selecionar funcionários pela aparência, mas critérios ainda muito subjetivos, como "se encaixar no perfil da empresa" ainda são usados. O que isso quer dizer no final? Eu queria perguntar qual é o real problema com os cabelos enrolados? Qual é o desleixo em eriçar em vez de pentear? Em afofar no lugar de prender? Estamos realmente atentos a malícia escondida por um simples conceito de beleza?

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Não é preciso ser mãe para falar de maternidade

Essa é a questão. Em toda discussão sobre aborto e maternidade sempre aparece uma hora ou outra comentários do tipo "Eu tenho x filhos, decidi (ou não) tê-los e estou muito feliz com isso". Bom, primeiro que muito raramente alguma mulher tem coragem de dizer que se arrependeu de ter filhos ou que a maternidade era pior do que esperava. Muitos podem pensar que a ausencia de comentários negativos se dá devido a perfeita adequação da mulher com a função materna e que as poucas que se arrependem sofrem de problemas psicológicos, mentais e etc.

Bem, eu não concordo com isso. Estou aqui falando do ponto de vista de uma filha, que teve uma mãe e viu a experiência dela de perto (e que ajudou a criar a própria irmã). A maternidade é uma função desvalorizada socialmente. Basta ver os incentivos de governo brasileiro para as mães. Além disso, maternar é apenas mais uma das funções desvalorizadas que a mulher é obrigada a enfrentar diariamente. Somam-se a essa, as tarefas domésticas. Que todos podemos notar que não são compartilhadas pela maioria dos homens brasileiros. Além disso, o cuidado com o bebê é algo cada vez mais complicado, pois a mulher é responsável pela saúde física e mental do feto (pois não pode beber, comer gordura enquanto está grávida), além de ter toda responsabilidade pelo desenvolvimento psicológico do filho. Isso eu li num livro, mas constatei de perto quando minha cunhada ficou grávida. Cada recomendação absurda que as pessoas faziam para ela...

Só que as pessoas esquecem de um pequeno detalhe. Nem toda mulher é igual e nem toda mulher tem aspirações parecidas. Além disso, a realização de uma pessoa tem mais fatores do que apenas a parentalidade. Sejamos francos, vivemos num mundo materialista e individualista e o modelo de maternidade vai contra tudo que a sociedade de consumo prega. Eu não sou a favor desse modelo de sociedade, mas concordo que a maternação não é tarefa exclusiva para a mulher. Eu sou uma que gosto de trabalhar e não sei se me sentiria confortavel dividindo minha vida apenas com um único ser que ainda não desenvolveu nem sua coordenação motora. Para falar a verdade, conheço muitas mulheres que parecem parar de pensar quando deixam de trabalhar apenas para cuidarem dos filhos. Algumas perdem suas habilidades sociais e quando saem de casa são motivo de vergonha, pois não conseguem dar conta de uma conversa adulta e civilizada. Muitas deixam a companhia de pessoas da própria idade, inclusive de outras mães, para brincarem com as crianças. Além de outros pais extremamente chatos que não sabem falar de outra coisa além dos próprios filhos. Eu entendo estar orgulhoso e feliz, mas vamos e convenhamos, algumas crianças não interagem direito com os outros até uns dois anos de idade, e é algo meio chato ser coagido a babar como os pais só porque o moleque falou "agu"? Ele só está fazendo o que todas as crianças fazem.

Tem uma amiga minha que acha crianças extremamente brochantes. Ela não entende como alguém pode ficar bobalhão e sair correndo para abraçar e tirar foto de uma criança que não é sua ou da sua família. Outra coisa engraçada que ela fala é que ela acha que crianças não deveriam ser trazidas para eventos sociais, a menos que elas saibam ficar caladas e não mexer onde não devem. Eu as vezes me irrito com as crianças alheias, principalmente porque alguns pais parecem querer apenas incomodar. Deixam o muleque esguelar, encher o saco, gritar, chorar... As vezes tenho a impressão que eles são como aqueles caras com cartazes dizendo "O mundo vai acabar em ...". Só que os cartazes são os filhos e eles dizem "Salve-se, não tenha filhos", outros querem apenas se esquecer dos moleques por algum tempo.

Mas nem tudo é assim. Existem crianças extremamente divertidas e inteligentes. As crianças europeias são, no geral, extremamente independentes e não ficam na aba dos pais como as brasileiras. Eu acho isso fantástico, pois se vc levar seu filho ao parquinho com um casal de amigos que tenha filhos, todos podem se divertir, tanto os pais quanto os filhos, pois quando os adultos se cansarem, sim, adultos são velhos, as crianças brincam entre si, sem aborrecer. Parece loucura, mas conheço mesmo crianças muito chatas que só brincam com adultos e vc tem que inventar a brincadeira pro muleque e ele ainda tem que sair ganhando.

Outra questão é que a sociedade vê como bom pai e marido aquele que faz o mínimo e como uma mãe normal, aquela que faz no mínimo o máximo. Não tá meio errada essa conta? Se o material genético da criança é 50/50 de cada um porque só um dos pais tem que ter a responsabilidade pelo cuidado? Vamos pensar no aspecto econômico também, será que a sociedade pode se dar ao luxo de desprezar a mão de obra mais qualificada que tem (e que ainda por cima, custa menos)? Ninguém vai convencer uma mulher de negócios a ter filhos se ela sabe que corre o risco de ser demitida porque vai ser obrigada a tirar a licença maternidade por 4 meses sem poder nem ao menos trabalhar meio expediente e que no máximo poderá contar com 1 mês e 2 semanas de ajuda do pai, se o cara quiser emendar as férias com a licença (mas eu acho que nem isso pode mais).

Todo mundo fala "Quando vc tiver filho vc vai entender". Será que isso é uma maldição? Só podemos entender a maternidade depois que tivermos filhos? Isso é um modo de deixar as mulheres curiosas e fazerem elas terem filhos? Será que pelo fato de acharmos que só podemos falar dela depois de passarmos por ela, estamos deixando de trabalhar por ela, de fazer com que a maternidade seja um encargo menor para mulher e que tenha uma maior participação da sociedade como um todo? Será que é por isso que estamos a esperar alguém que resolva esse problema por nós, porque depois de sermos mães, será muito tarde para questioná-la?

Também não é preciso ser mãe para maternar.

sábado, 11 de setembro de 2010

Preciso falar!

Sei que havia prometido e dito que ia postar meus contos no blog, mas uma semana lendo intensivamente sobre os mitos da maternidades motivaram minha recalcitrância. Preciso postar!

No meio do caminho, entre as leituras feministas e literárias, me perguntei "porque estou estudando maternidade?". Parece um tema tão batido. Se pararmos para pensar, Simone de Beauvoir já falava nela como principal "defasagem" feminina em relação aos homens. Podemos colocar na lista Badinter, Chodorow e recentemente eu descobri Aminatta Forna. Filosofia, psicanálise ou jornalismo, seja qual for a linguagem essas mulheres concordam que o amor materno é uma invenção. Aliás, as mulheres relutaram muito em "assumir o posto". Aproximadamente 200 anos. Para se ter uma idéia, a amamentação era teimosamente combatida pelas mulheres cultas do século XVI ao XVIII, mesmo com as enormes taxas de mortalidade dos bebês que ficavam ao encargo das amas. Além disso o discurso filosófico, moral e médico variava em obrigar ou não esse ato que hoje nos parece óbvio ser necessário.

Fato é que os homens "tiveram" que nos ensinar algo que nos é "natural". Eles sabiam o que era uma boa mãe desde Rousseua até Freud. Nós só engolimos os discursos, não com uma certa ânsia, como a História mostra. Se toda a mulher deve ser mãe, se tem um "relógio biológico" que fatalmente vai chegar a essa hora, porque ainda é preciso ressaltar as qualidades e recompensas de ser mãe? Ainda sofremos hoje com discursos semelhantes aqueles que circularam entre o séc. XVIII e XIX para nos fazer voltar ao lar e às funções domésticas.

Eu estou exagerando? Outro dia vi no jornal comentando sobre a extensão da licença paternidade e apenas 2 das 6 pessoas entrevistadas foram a favor. Claro que isso é um universo ínfimo, mas não sei se o brasileiro está muito convencido da importância do papel do pai no desenvolvimento da criança. Talvez só se ache que as obrigações paternas começam quando a criança começa a falar, andar e etc. Afinal, enquanto mama é só a mãe, certo? Bom, daí surge a desculpa esfarrapada da psicanálise que afirma que as crianças "precisam" da mãe na primeira infância para poderem ter ela como objeto de amor pelo qual vão se livrar na fase edipiana. Besteira. A taxa de mortalidade no parto das mulheres de antigamente não causou uma epidemia de psicopatas. Aliás, o cuidado exclusivo da criança pela mãe parece ser muito mais problemático para ambos. Se a separação é necessária para o amadurecimento, porque torná-la tão difícil fazendo a criança se afeiçoar apenas pela mãe? Bom, Aminatta Forna, que foi criada em Serra Leoa pelo que chama de "família extendida" onde todos os adultos da família, inclusive amigos, são responsáveis pelo cuidado das crianças, ela mostra como esse tipo de cuidado pode ser muito mais saudável para a mãe e a criança. A mãe pode trabalhar e ter tempo pra si e a criança tem uma melhor experiência de socialização desenvolvendo melhor as habilidades de convivência. Muitos antropólogos afirmam isso, mas insistimos em pregar a maternidade ocidental como única, verdadeira e certa.

O problema é que essa maternidade não mudou muito. As mulheres ainda são definidas como "mães em potencial". Outro dia fomos a um almoço de família eu e o Marcos. Numa mesa estavam os adultos e na outra as crianças (que já estão mais para adolescentes). mas na prática, a mesa dos adultos era a dos casais com filhos e para as pessoas que babavam por crianças. Nós nos sentamos na mesa das crianças, mas nos sentimos meio sem lugar pois somos velhos para eles, não sabíamos os nomes dos jogos ou desenhos que eles gostavam, mas também não estávamos por dentro do papo dos adultos, pois eu acho extremamente entediante esse papo de falar de criança. Os adultos sem filhos não tem lugar na mesa. Até conseguirmos falar de política ficamos excluídos. Até porque se você é casado e não tem filhos causa estranheza nos demais. As perguntas começam "Quando vem o de vcs?" ou podem ser ameaças como "Vcs são os próximos...". O que me intriga é que sempre ouço um deles reclamando de ter tido filho.

As mulheres, pelo menos as jovens mães que eu conheço, são dignas de pena. Não conseguem nem fazer o marido lavar uma louça carregam a casa e o cuidado com os filhos sozinhas. Quando eu falo que eu e o Marcos dividimos tudo em casa e que ele cozinha na maioria das vezes porque eu não gosto de cozinhar me olham como se eu fosse um ET. Eu quase perguntei como elas tiveram coragem de ter filho se não tinham outra pessoa para cuidar da casa ou dividir as tarefas. Mas eu sou a diferente e seria indelicado da minha parte dizer isso, afinal, existe um pacto de não questionar a "normalidade" das divisões de papéis em público. Em resumo, porque mostrar pra pessoa que a vida dela é uma merda e ela está sendo explorada? Nos casos em que conheço, as mulheres são capazes de compreender isso por conta própria, só não o fazer porque teriam que recomeçar do zero. É melhor fingir que se é feliz, afinal, a sociedade não discute que a mãe merece algum reconhecimento.

As revistas e programas de televisão até hoje se regozijam em mostrar mulheres que tinham uma carreira brilhante e decidiram abandonar tudo para ser mãe. Ninguém discute o porque uma união dessas parece impossível. Eu detesto ver na legenda de uma entrevistada o nome seguido de "mãe da fulana ou do fulano". Muitas vezes não aparece nem o nome, só "mãe do fulano". E sua magestade a criança aparece coroada e invariavalemente a mãe parece uma abestada. Muita gente vai falar que eu reclamo ou desdenho porque não sou mãe. Eu preciso ser? Porque? Depois que eu for perderei minha individualidade com medo de ser taxada de egoísta ou de uma mãe má? E se não gostar da função, faço o que? É um problema, pois dizem que mesmo que uma mulher não goste de crianças ela será "tocada" pelo amor materno quando tiver seu próprio filho. E se ela resolver testar e seu "botão" estiver estragado? Fará o que? Com certeza a tomarão por doente. Eu conheço casos assim. O pior, poderão acusá-la de golpe da barriga. Que teve o filho para "segurar" o marido. Imagina se num casamento uma criança chorando o tempo todo e precisando de cuidados quase o tempo todo pode ajudar em alguma coisa. Me parece meio estúpido.

Não discordo que exista amor nessa relação, mas como ele pode surgir, aflorar normalmente com a alta taxa de imposições feitas às mulheres? Mesmo eu que divido as tarefas as vezes me pego com as pressões sociais atuando na minha cabeça. A casa está bagunçada eu ouço um "vc tem que arrumar". Imagina quando se é mãe o quanto essas pressões não são mais fortes? Será que as mulheres querem ser mães ou acham que devem ser? Afinal, todos são hunânimes em dizer que devemos ter essa experiência antes que gastemos todos os nossos óvulos.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

O Brasil assombrado pelos demônios

A PLC 122, projeto que prevê a punição para crimes de descriminação contra diversos grupos, está dando o que falar. No site do centro de mídia independente existe até um artigo tratando da posição dos evangélicos fundamentalistas contra o texto. A discussão é tão acirrada que ao procurar o texto da lei na internet tive uma certa dificuldade em encontrá-lo pois havia uma enxurrada de sites fundamentalistas pregando que a lei não pode de jeito nenhum ser aprovada.

A questão principal gira em torno de dois artigos, o 8 e o 20 (não tenho os símbolos legais no teclado). O primeiro (8) prevê reclusão de 2 a 5 anos para aquele que proibir a livre manifestação de afetividade do homossexual quando esta é permitida aos demais cidadãos, ou seja, se aos heterossexuais é permitido andar de mãos dadas (e/ou etc), aos outros também será. Se não, não. O segundo (20)"Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero: Parágrafo 5º: o disposto neste artigo envolve a prática de qualquer tipo de ação violenta, constrangedora, intimidatória ou vexatória, de *ordem moral, ética, filosófica ou psicológica*".

Eu não consigo ver nada demais na lei. Os evangélicos estão atacados talvez por não poderem mais incitar o ódio ou a doença homossexual. Seria o fim da intolerância entre eles? Claro que não. A lei apenas protege o homossexual, mas todos sabemos que os evangélicos continuarão condenar a prática homossexual de outras formas. Todos sabemos que apenas a lei não é suficiente para mudar a sociedade, mas a recusa em aprovar a lei por 49% da sociedade é realmente a constatação da cegueira e da intransigência desses grupos, uma volta à Idade Média. "Bruxas e homossexuais na fogueira!".

Inclusive eu alerto que à lei foram sugeridas modificações pelos grupos radicais evangélicos que alteram justamente esses dois artigos sobrando aqueles que defendem a manifestação religiosa (além da proíbição da discriminação de cor, gênero, etnia...). Fica claro que eles usam da força para se beneficiarem prejudicando assim os homossexuais. Pois se sua discriminação não for mais proíbida nas formas descritas no artigo 20 a lei não tem razão de ser.

As justificativas desses grupos revelam que no fundo eles tem mais medo de perderem o direito de serem intolerantes e preconceituosos do que realmente o "fim da liberdade de expressão". Eu aconselho a todos que leiam o texto da lei e vejam realmente se existe algo preconceituoso nela. Acho um absurdo e um crime essa resistência. É um passo para trás. Como eles pode querer manter algo na vida real que conseguiu ser descrito na lei com o nome de "prática de qualquer tipo de ação violenta, constrangedora, intimidatória ou vexatória, de ordem moral, ética, filosófica ou psicológica"? Quer dizer que em nome da continuidade de uma prática dessas esses cidadãos conseguem alegar que a aprovação de uma lei dessas seria uma "mordaça gay" ou uma "ditadura gay" onde eles não teriam direitos?! E quantos direitos os grupos LGTB tem hoje?

domingo, 19 de julho de 2009

Forma x conteúdo (ou a anã de circo)

Encerrada a nossa grande e profunda enquete me sinto na obrigação de fazer algumas considerações sobre o tema. Jogados assim sem contexto fica um pouco difícil decidir entre um ou outro. Se pensarmos em objetos talvez a forma seja mais importante que o conteúdo, mas se for comprar uma caixa de bomboms concerteza é o conteúdo que lhe interessa. Muita gente marcou os dois, forma e conteúdo foram os vencedores da enquete (\o/).

Agora quando se trata de pessoas, será que podemos colocar ambos no mesmo patamar. Não é justo considerar a forma de alguém. Até porque forma está ligada a um padrão que é arbitrário e exclusivo. Pensemos em beleza. É algo natural que nos salta aos olhos... Na minha opinião não. Padrões e formas são impostos. Temos que nos adaptar e desejar a forma. Muita gente anda esquecendo o conteúdo...

Só para exemplificar vou contar uma história que se passou comigo. Estava eu num barzinho bem descolado em Brasília comemorando o aniversário da minha cunhada que é uma pessoa de quem realmente gosto muito. Já saí pra butecar algumas vezes com os amigos dela e do meu cunhado que são igualmente pessoas muito legais agradáveis e divertidas. Coincidentemente todas as vezes que encontrei com eles estava no meu normal: calça jeans, camiseta (algumas vezes bata) e tennis (na maior parte das vezes surrado mesmo). Nesse dia, o do aniversário eu estava beeem mais arrumada do que o normal. Nada demais tbm, mas o pessoal notou a diferença. Sentamos na mesa e começamos a conversar com o povo.

Na mesa a minha frente estava minha cunhada conversando com um casal. Passei meus olhos de relance e vi. Depois de algum tempo percebi que todos, ela e o casal olhavam na minha direção. Pensei: "Ela deve estar comentando que sou a esposa do irmão do marido dela, normal". Mas então me dei conta de que olhavam com uma certa insistência, demorando mais do que um papo desses demoraria. No mesmo instante algumas pessoas que estavam sentadas na mesa conosco foram embora e nós decidimos mudar de lugar para ficarmos mais próximos dos outros. Tive assim que passar na frente da minha cunhada e do casal que estava a essa hora olhando fixamente pra mim. Achei que a infalível tática de olhar meio pra baixo e passar rápido ia me deixar menos constrangida, mas quando realizava o movimento a moça do casal pos o braço na minha frente e disse "Desculpe a indelicadeza, mas posso falar com vc um instante?" Eu para ser educada disse: "Claro, isso não é indelicadeza nenhuma", desfechei a minha cara e me preparei para ouvir. Minha cunhada nos apresentou (o casal era composto por colegas de trabalho do meu cunhado - tradutores da Unesco). Minha cunhada pediu licença e se afastou me deixando sozinha com eles. E então a conversa começou (será que era pertinente dizer que tomei uma Bohemia Weiss e mais dois chopps caseiros de cerva tipo Ale? Acho que não, vcs vão perceber que não faz muito diferença no curso da conversa, apenas talvez que meu raciocínio ficou um pouco lento).

A moça então começou: "Eu estava reparando em vc, vc é a esposa do irmão do Cris não é?" Eu repondi: "Sim, e falei meu nome pra ajudar a conversa...", ela continuou: "Pois é, a gente tava reparando em vc, tão bonita... (eu pensei n besteiras nesse minuto, mas só consegui olhar para os lados e perceber que não tinha ninguém pra me socorrer) ... É que eu tenho uma filha mais ou menos do seu tamanho... (Eu juro que pensei que ela ia falar idade, mas realmente era difícil, a minha interlocutora era muito jovem para ter uma filha de 26). Quando me toquei no que ela havia falado: "Tamanho?, putz, lá vou eu ouvir histórias de uma menina de 12 anos (a idade que eu parei de crescer)." Nessa hora a moça se levantou e eu percebi que ela deveria ser um palmo maior do que eu, mas parecia maior porque usava salto. "É que eu fiquei reparando em vc toda arrumada e super tranquila sem salto..." Ela preparou o terreno e chutou a bola: "A minha filha tem uns 16 anos e é baixinha que nem vc." Nessa hora eu pensei: Vai perguntar o nome do meu terapeuta, como pode uma baixinha ser feliz com a aparência, só com tarja preta!. Mas foi um pouco diferente...

A moça continuou: "Ela também esta com um probleminha hormonal e está um pouco cheinha, mas ela está um pouco traumatizada, vc sabe, essa fase é difícil, as meninas ficam muito preocupadas com a aprencia, por causa dos rapazes..." Bom, eu já não estava mais entendendo o objetivo quando ela continuou: "Sabe dá pra ver que ela está infeliz com a aprência, mas não quer usar salto, só usa blusa larga... E eu vi vc assim toda arrumadinha sem problema nenhum em ser baixinha queria muito que ela visse vc, (Faltou ela falar "Existe vida na tampice! Minha filha pode ser feliz!) nem usa salto, não está nem aí para a altura e tá aí, casada sem problemas...

Nessa hora quase saiu da minha boca o meu raciocínio que foi o seguinte:

Desde que saí do circo a minha vida melhorou muito, afinal a vida de anã de circo não é fácil, mas agora, para que me preocuparia com uma coisa tão besta?

Mas a santa cerva me impediu, eu acho. Mas não fechei a noite em branco. Minha resposta foi: Me desculpa a indelicadeza, mas eu vou falar porque não tenho problema com a altura. Tenho 1,52, se colocar um salto de 10cm vou ficar com 1,62 ou seja, continuarei baixinha, mas uma baixinha de salto e com a diferença de estar completamente desconfortável. Quanto à sua filha, acho que vc deveria falar pra ela não se preocupar, ela pode ser uma mulher bonita mesmo sendo baixinha. E desculpa acrescentar outra coisa, mas eu acho os padrões de beleza atuais muito rígidos e despropositados. Não tem lógica querer que as brasileiras sejam loiras de cabelo liso quando se sabe que genéticamente a maioria de nós tem cabelo enrolado. Imagine, tacar formol na cabeça só pra ficar na moda? Outra coisa que eu acho, é uma questão de personalidade. Você olha para a maioria das mulheres na TV e nas revistas e elas são todas iguais, cabelo liso, loiro, luzes, quer dizer, sua filha tem bem mais chance de chamar a atenção sendo ela mesma. Não tem nenhum problema ela ser baixinha, quem ligar pra altura que fique longe dela, pois certamente será um idiota vazio! Ela não tem que mudar para agradar os outros, isso é ridículo.

Acabei de falar e me dei conta de um fato engraçado: a minha interlocutora era uma baixinha de salto e era loira. Não sei dizer se falsa ou não, mas descobri que ela era holandesa, ou seja, devia dar muita importância para a altura, imagine uma holandesa com 1,60? Acredito que ela deva ter sofrido e não consiga acreditar em alguém que não sofra com isso.

E agora me diga, o que é importante para você, forma ou conteúdo?