quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Era inofensivo, mas virou piada.

Hoje resolvi dedicar mais tempo que o habitual encarafunchando o facebook. Péssima pedida, diga-se de passagem. O problema do facebook, na minha opinião é a rapidez com que as informações são divulgadas. Sim, por ser essa a vantagem, é também a maior desvantagem. Isso porque muitas vezes você compartilha suas primeiras impressões sem refletir. E sim, pensar é preciso, minha gente!

Vou citar um exemplo do que eu considero um "tapa com luva de pelica". É ofender alguém de tal forma que a pessoa não tenha como se defender porque não foi formalmente agredida. Qual a melhor forma de fazer isso? No Brasil, eu acho que a piada é a melhor, pois quando a pessoa percebe a ofensa e todo preconceito por trás da piadinha o agressor se defende e se safa dizendo "mas era apenas uma piada, não tinha intenção de ofender". Mas se não era para ofender era para fazer oque? Rir da minha miséria? Molière usava o gênero com maestria habilidade para ofender os costumes da época.

Uma piadinha dos nossos tempos:



Super divertida. Vamos pensar sobre ela em vez de apenas "rir". Qual é a "grande" sacada da piada? Ela faz referência a duas coisas muito comuns hoje em dia: a violência contra a mulher e o medo masculindo de comprometimento. Na minha opinião existe muitos problemas na parte engraçada da piada. A primeira é admitir que o cara que está disposto a agredir uma mulher, vai realmente ouvir o que ela tem a dizer. Outra coisa é assumir que o homem que agride uma mulher não tem nenhum comprometimento com ela. Ambas são falsas.

Ainda encontramos o estereótipo da mulher casadoira. Sim, todas as mulheres querem um compromisso, nunca tem um sexo casual. Em suma, estamos sempre querendo namorar, casar e ter filhos. E quando estamos num relacionamento sempre temos que discutir a relação.

Não sou contra a crítica, muito menos contra a comédia, mas não entenda mal, o ofendido vai exigir uma reparação e falar que não quis ofender, é, no mínimo, ingênuo (para não dizer hipócrita) da parte do "comediate". Aguente as críticas e responda-as com humor, ou reconheça que a piada é uma merda, racista, sexista ou o que for. O ruim é que quando piadas desse tipo são reveladas, frequentemente somos taxadas de "sem senso de humor". Eu fico me perguntando o que seria isso, um mecanismo que bloqueia o seu cérebro no momento da piada e faz você rir de algo que te ofende sem entender. Ou apenas é algo que faz você rir de algo sem graça apenas para fazer parte do grupo ou ser "cool".

Onde está a piada então? Vou tentar achar graça me imaginando numa situação dessas e dizendo para o estuprador "casa comigo! Ou, você tem que ligar para sua mãe"? Existe piadas para rir e piadas para ridicularizar os outros. Essa ridiculariza uma situação que não tem nada de engraçada. Tanta coisa para fazer piada...

Bom, lembrei desse vídeo do Feminist Frequency que comenta mais sobre anúncios de televisão, mas acho que o que eles falam a respeito de irionia pode ser aplicado ao caso.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Raul Seixas, insubstituível!

Eu acho o tratamento de muitos, principalmente da crítica, em relação ao Raul Seixas uma injustiça. Por ser dono de uma filosofia simples e compreensível é muitas vezes taxado de simplório e popular. Digo popular sim, mas simplório jamais! Na minha opinião parcial de fã eu digo que Raulzito era sim profético. Posso dizer que talvez esse desprezo também seja devido ao fato do Raul Seixas ser baiano, de classe média, não tendo mais do que o primário.

Resolvi fazer esse post para mostrar um pouco do Raul para aqueles que só conhecem Mosca na Sopa e Maluco Beleza. O repertório do Raul Seixas é composto de mais de 200 músicas que iam muito além das baladinhas. Carimbador Maluco, por exemplo, é uma prova de como a situação da época era burra demais para entender o nosso artista, pois ele foi chamado para cantá-la em rede nacional. Uma música que críticava claramente a censura.

A respeito da política econômica brasileira dizia:

A solução pro nosso povo
Eu vou dá
Negócio bom assim
Ninguém nunca viu
Tá tudo pronto aqui
É só vim pegar
A solução é alugar o Brasil!...

Nós não vamo paga nada
Nós não vamo paga nada
É tudo free!
Tá na hora agora é free
Vamo embora
Dá lugar pros gringo entrar
Esse imóvel tá prá alugar
Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!...

Os estrangeiros
Eu sei que eles vão gostar
Tem o Atlântico
Tem vista pro mar
A Amazônia
É o jardim do quintal
E o dólar dele
Paga o nosso mingau...


Já com relação ao meio ambiente (e outras cositas mas) As aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor:

Tá rebocado meu compadre
Como os donos do mundo piraram
Eles já são carrascos e vítimas
Do próprio mecanismo que criaram

O monstro SIST é retado
E tá doido pra transar comigo
E sempre que você dorme de touca
Ele fatura em cima do inimigo

A arapuca está armada
E não adianta de fora protestar
Quando se quer entrar
Num buraco de rato
De rato você tem que transar

Buliram muito com o planeta
E o planeta como um cachorro eu vejo
Se ele já não aguenta mais as pulgas
Se livra delas num sacolejo


Hoje a gente já nem sabe
De que lado estão certos cabeludos
Tipo estereotipado
Se é da direita ou dá traseira
Não se sabe mais lá de que lado

Eu que sou vivo pra cachorro
No que eu estou longe eu tô perto
Se eu não estiver com Deus, meu filho
Eu estou sempre aqui com o olho aberto

A civilização se tornou complicada
Que ficou tão frágil como um computador
Que se uma criança descobrir
O calcanhar de Aquiles
Com um só palito pára o motor

Tem gente que passa a vida inteira
Travando a inútil luta com os galhos
Sem saber que é lá no tronco
Que está o coringa do baralho

Quando eu compus fiz Ouro de Tolo
Uns imbecis me chamaram de profeta do apocalipse
Mas eles só vão entender o que eu falei
No esperado dia do eclipse

Acredite que eu não tenho nada a ver
Com a linha evolutiva da Música Popular Brasileira
A única linha que eu conheça
É a linha de empinar uma bandeira

Eu já passei por todas as religiões
Filosofias, políticas e lutas
Aos 11 anos de idade eu já desconfiava
Da verdade absoluta

Raul Seixas e Raulzito
Sempre foram o mesmo homem
Mas pra aprender o jogo dos ratos
Transou com Deus e com o lobisomem


Quanto à política e o serviço militar obrigatório, a clássica; Cowboy fora da lei:

Mamãe, não quero ser prefeito
Pode ser que eu seja eleito
E alguém pode querer me assassinar
Eu não preciso ler jornais
Mentir sozinho eu sou capaz
Não quero ir de encontro ao azar
Papai não quero provar nada
Eu já servi à Pátria amada
E todo mundo cobra minha luz
Oh, coitado, foi tão cedo
Deus me livre, eu tenho medo
Morrer dependurado numa cruz

Eu não sou besta pra tirar onda de herói
Sou vacinado, eu sou cowboy
Cowboy fora da lei
Durango Kid só existe no gibi
E quem quiser que fique aqui
Entrar pra historia é com vocês!


E outra do lado B, Mamãe eu não queria:

Larga dessa cantoria menino
Música não vai levar você lugar nenhum
Peraí mamãe, güenta aí

Mamãe, eu não queria
Mamãe, eu não queria
Mamãe, eu não queria
Servir o exército

Não quero bater continência (Trá-lá-lá-lá)
Nem pra sargento, cabo ou capitão (Trá-lá-lá-lá)
Nem quero ser sentinela, mamãe
Que nem cachorro vigiando o portão
Não!

Mamãe, eu não queria
Mamãe, eu não queria

Desculpe, Vossa Excelência
A falta de um pistolão
É que meu velho é soldado
E minha mãe pertence ao Exército de Salvação
Não!

Marcha soldado, cabeça de papel
Se não marchar direito vai preso pro quartel

Sei que é uma bela carreira
Mas não tenho a menor vocação
Se fosse tão bom assim mainha
Não seria imposição
Não!

Mamãe, eu não queria
Mamãe, eu não queria
Não, não, não
Servir o exército

Você sabe muito bem que é obrigatório
E além do mais você tem que cumprir com seu
dever com orgulho
Mamãe eu não queria

Você sabe muito bem que é obrigatório
E além do mais você tem que cumprir com seu
dever com orgulho e dedicação
Mamãe eu morreria
Pela causa meu filho, pela causa

Mamãe eu não queria
Mamãe, mamãe
O exército é o único emprego pra quem não
tem nenhuma vocação, mulé
Mamãe, mamãe
Eu...



Contra o serviço público, ou conformismo, Meu amigo Pedro:


Muitas vezes, Pedro, você fala
Sempre a se queixar da solidão
Quem te fez com ferro, fez com fogo, Pedro
É pena que você não sabe não

Vai pro seu trabalho todo dia
Sem saber se é bom ou se é ruim
Quando quer chorar vai ao banheiro
Pedro as coisas não são bem assim

Toda vez que eu sinto o paraíso
Ou me queimo torto no inferno
Eu penso em você meu pobre amigo
Que só usa sempre o mesmo terno

Pedro, onde você vai eu também vou
Mas tudo acaba onde começou

Tente me ensinar das tuas coisas
Que a vida é séria, e a guerra é dura
Mas se não puder, cale essa boca, Pedro
E deixa eu viver minha loucura

Lembro, Pedro, aqueles velhos dias
Quando os dois pensavam sobre o mundo
Hoje eu te chamo de careta, Pedro
E você me chama vagabundo

Pedro, onde você vai eu também vou
Mas tudo acaba onde começou

Todos os caminhos são iguais
O que leva à glória ou à perdição
Há tantos caminhos tantas portas
Mas somente um tem coração

E eu não tenho nada a te dizer
Mas não me critique como eu sou
Cada um de nós é um universo, Pedro
Onde você vai eu também vou

Pedro, onde você vai eu também vou
Mas tudo acaba onde começou

É que tudo acaba onde começou
Meu amigo Pedro



Contra o conformismo, a ditadura, etc, Não Pare na Pista:


Não pare na pista
É muito cêdo
Prá você se acostumar
Amor não desista
Se você pára
O carro pode te pegar
Bibi! Fonfon! Pepê!
Se você pára
O carro pode te pegar...(2x)

Você me xingando
De louco pirado
E o mundo girando
E a gente parado
Meu bem me dê a mão
Que eu vou te levar
Sem carro e sem mêdo
Pr'o guarda multar
Meu bem me dê a mão
Que eu vou te levar
Sem carro e sem mêdo
Prá outro lugar...

Não pare na pista
É muito cêdo
Prá você se acostumar
Amor não desista
Se você pára
O carro pode te pegar
Bibi! Fonfon! Pepê!
Se você pára
O carro pode te pegar...

Você me xingando
De louco pirado
E o mundo girando
E a gente parado
Meu bem me dê a mão
Que eu vou te levar
Sem carro e sem mêdo
Pr'o guarda multar
Meu bem me dê a mão
Que eu vou te levar
Sem carro e sem mêdo
Prá outro lugar...

Não pare na pista
É muito cêdo
Prá você se acostumar
Amor não desista
Se você pára
O carro pode te pegar
Bibi! Fonfon! Pepê!
Se você pára
O carro pode te pegar
Mamãe! Papai! Irmão!
Se você pára
O carro pode te pegar
Vovó! Nené! Lili!
Se você pára
O carro pode te pegar...


A para mim, a maior prova da mente profética de Raulzito; Pastor João e a Igreja invisível, já prevendo o crescimento das religiões de mercado:


Eu não sei se é o céu ou o inferno
Qual dos dois você vai ter que encarar
E foi pra não lhe deixar no horror
Que eu vim para lhe acalmar

Se o pecado anda sempre ao seu lado
E o demônio vive a lhe tentar
Chegou a luz no fim do seu túnel, minha filha
O meu cajado vai lhe purificar

Pois eu transformo água em vinho,
Chão em céu, pau em pedra, cuspe em mel
Pra mim não existe impossível
Pastor João e a igreja invisível (4x)

Para os pobres e deseperados
E todas as almas sem lar
Vendo barato a minha nova água benta
Três prestações, qualquer um pode pagar

O sucesso da minha existência
Está ligado ao exercício da fé
Pois se ela remove montanhas
Também tráz grana e um monte de mulher.

Pois eu transformo água em vinho,
Chão em céu, pau em pedra, cuspe em mel
Pra mim não existe impossível
Pastor João e a igreja invisível (2x)

Haa! Pastor João e a igreja invisível (3x)


Aqui estão algumas interpretações bem rápidas e superficiais do Raulzito, mas já dá para se ter uma idéia de algumas características do nosso rei do rock. Debochado, inteligente, perspicaz... Infelizmente ele não tinha olhos verdes nem era bonitão. Tão pouco vinha de família abastada e poderia escrever operetas, mas para mim, não faz a menor diferença. O Raul é um dos maiores gênios da música popular brasileira sim e não se limitava somente ao rock.

A, e sim ele era feminista, apesar de não entender muito bem as lésbicas:

Se esse amor
Ficar entre nós dois
Vai ser tão pobre amor
Vai se gastar...

Se eu te amo e tu me amas
Um amor a dois profana
O amor de todos os mortais
Porque quem gosta de maçã
Irá gostar de todas
Porque todas são iguais...

Se eu te amo e tu me amas
E outro vem quando tu chamas
Como poderei te condenar
Infinita tua beleza
Como podes ficar presa
Que nem santa num altar...

Quando eu te escolhi
Para morar junto de mim
Eu quis ser tua alma
Ter seu corpo, tudo enfim
Mas compreendi
Que além de dois existem mais...

Amor só dura em liberdade
O ciúme é só vaidade
Sofro, mas eu vou te libertar
O que é que eu quero
Se eu te privo
Do que eu mais venero
Que é a beleza de deitar...

Quando eu te escolhi
Para morar junto de mim
Eu quis ser tua alma
Ter seu corpo, tudo enfim
Mas compreendi
Que além de dois existem mais...

Amor só dura em liberdade
O ciúme é só vaidade
Sofro, mas eu vou te libertar
O que é que eu quero
Se eu te privo
Do que eu mais venero
Que é a beleza de deitar...


Fonte das letras: http://letras.terra.com.br/raul-seixas/

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Violência contra mulher - Kav Magá nela!

Essa é uma piadinha muito triste que rola entre eu e o meu marido. Comentei com ele que mais de 40% das mulheres brasileiras já foi vítima de violência. O índice de punição não passa nem perto, mesmo dos casos que chegam a ser denunciados. Diante dos relatos que eu já ouvi sobre os absurdos processuais que são cometidos contra as vítimas, que passam de vítimas a incitadoras da violência cometida contra elas, eu e o maridão chegamos a simples conclusão: se tivermos uma filha ela via fazer krav magá desde pequena.

Sinto muito, mas não vou colocar os números aqui, mas sabe-se que a maioria dos casos acaba em nada. A mulher só consegue que justiça seja feita quando o agressor quase a mata. Eu fico muito feliz por não ter passado por nenhuma situação dessas, mas conheço muita gente que se calou ou por medo de impunidade ou por medo de ficar com uma fama de vagabunda porque mudou de idéia quando já estava dentro do quarto do motel.

A minha sorte talvez se deva aos ensinamentos do meu pai, não baixar a cabeça para ninguém. "Olha no olho e encara com raiva", era o que papai falava. Dizia ainda, "Ou o cara pensa que você está armada ou que é louca. Nas duas ocasiões você vai ter tempo para agir. Se você ver que o cara não vai embora, você foge, se ele for, melhor". Meu pai também era um doce, dizia para o meu irmão mais velho "Se você bater na sua irmã eu te quebro, sabe muito bem que é covardia bater em mulher". Nunca bateu na minha mãe, apesar dos dois terem brigas homéricas, mas já na gente, ninguém tinha pudores de bater.

Essa "proteção" me dava confiança para não levar desaforo para casa mesmo quando não tinha ninguém da família por perto. As vezes confesso que queria mesmo que acontecesse uma briga, pelo menos assim eu poderia extravasar toda raiva que sentia por ser o saco de pancadas dos meus pais. Acho que por isso escapava mesmo, devia ter cara de doida. Eu nunca precisei de ajuda em situações sociais, mas confesso que não eram raras as vezes que meus amigos se sentiam impelidos a defenderem a mim e as meninas da turma de investidas mais agressivas em baladas.

Eu me incomodava muito com isso. Quem é de balada sabe que um homem repele o outro. Mesmo que vc esteja com um amigo, as chances de um cara se aproximar de vc se reduzem quase a zero. O cara fica com medo de ser seu namorado ou bater nele por achar que ele está sendo inconveniente. Por outro lado, quando está sozinha fica sujeita a todo tipo de investida. Os caras as vezes acham que vc está implorando por uma cantada, desesperada. Seguram, puxam cabelo, alguns chegam ao ponto de te rodear com uma série de amigos e forçar um beijo. Patético, mas verídico.

Isso implica que no fundo as mulheres não tem liberdade para ir e vir. É um corpo que te prende numa situação inconveniente. A todo momento vc é lembrada de seu sexo porque vc é o seu sexo. Sua personalidade se esvai e te colocam quase sempre entre duas categorias, puta ou santa. E a linha entre elas é relativa e ténue. Que mulher nunca desejou ser homem pelo menos uma vez? Ou para ter liberdade de sair pela rua sem ouvir nenhuma gracinha ou para poder sair sem dar mil explicações para não cair no grupo das putas? Sim, pois os nossos pais e a sociedade estão o tempo todo nos vigiando para não nos perdermos. Sexo, sexo, sexo! Não queremos nem pensar nele, mas ele tá ali, tachado de sexo frágil. Frágil como a felicidade de uma mulher que sai para balada sozinha para dançar e se divertir.


Mas esse sexo frágil tem dona e é a mulher. Só para ilustrar, eu gostaria de mostrar uma cena de um filme que eu não gosto, mas tem essa sacada fantástica do cara que se fantasia de mulher e sente toda invasão e arrogância dessas cantadas que dizem que no fundo não passam de um recado "eu posso atacar vc".

Assistam ao 1'39"de sorority boys

O que eu queria deixar claro aqui, é que não devemos nos amedrontar. Vamos lutar contra isso. Não vamos legitimar opiniões e preconceitos que incitem a violência. Não vamos julgar outras mulheres baseadas em preconceitos. Não vamos ser cúmplices de homens violentos. Vamos denunciar, relatar, ajudar aquelas que precisam de orientação. Não vamos dar brecha para coisas do tipo "ela tava pedindo para apanhar". Nada justifica covardia. E só para explicar o porque da minha filha (se a tiver) fazer Krav Magá!

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Exatas x Humanas = todos saem perdendo

Não é preciso demorar-se muito no meu blog para constatar que eu sou das humanas. Sempre gostei de ler, de artes, de história e geo-política. Nunca me dei bem com números e, devo confessar, certo tipo de lógica matemática me desconcerta. Entretanto, consigo fazer árvores gerativas de deixar alguns chocados. Embora atualmente, posso dizer modestamente, que minhas atividades são compostas de um tanto de crítica literária e outro tanto de prática docente.

Começo o texto falando de mim não por acaso, mas porque tenho grandes amigos que fazem parte desse misterioso e também fascinante universo da chamada "Ciência", ou "Exatas" como muitos erroneamente insistem em chamar. Eu, inclusive, sou casada com um biólogo (uma das disciplinas mais humanas das exatas). Devido a minha experiência pessoal, muitas vezes ouvi sem ter como revidar, ou por medo de perder os amigos ou por falta de maturidade intelectual, argumentos do tipo "as humanas não servem para nada". Ou, "eu até entendo a psicologia, mas literatura... afe!". O que sempre me intrigou é que muitas dessas pessoas aversas às humanas gostavam de ir ao cinema, ler um livro, assistir um concerto ou ver uma exposição, mas era incapazes de associar uma coisa a outra.

Cheguei a pensar que era um pouco de inveja, pois nós fazíamos algo de que realmente gostávamos e todos partilham do pensamento comum que trabalho só serve para ganhar dinheiro e tem necessariamente que ser chato. Se você gosta do seu trabalho, deve haver algo errado. Para resolver o problema dessa "equação" supõe-se assim que nós não trabalhamos. O que é, no mínimo, errado.

Outra possível explicação para o problema seria dizer que o pessoal das exatas acha que as humanas não servem para nada porque não as entendem, daí também não entenderem sua utilidade. Eu vou tentar exemplicar para que serve a literatura no final desse post, mas antes gostaria de pedir uma "licença histórica".

Vou atribuir o início do ensino como algo institucionalizado aos gregos, simplesmente porque compreendo mais a História a partir deles. Enfim, na Grécia havia a principal "disciplina" ou área do conhecimento que era a filosofia. Dela faziam parte a matemática, a física, a lógica e a biologia. Sim, coisas que parecem hoje absolutamente distintas tem a mesma origem formal. Por exemplo, Pitágoras, aquele do triângulo era um filósofo. A especialização de cada área do conhecimento fez com que as disciplinas se separarem paulatinamente até chegarmos o dia de hoje onde parece ser ilusório supor que um engenheiro tenha algum conhecimento de filosofia ou que já tenha lido Aristóteles.

Não nego porém, que existam muitos profissionais em todas as áreas que tenha um diverso conhecimento do mundo. Mas de onde vem essa hipótese de que as humanas não servem para nada? Bom, quando pensamentos no nome dado para elas, humanas, e nós como seres humanos, deveríamos em si adorar uma disciplina que tem o humano como foco. Mas não é bem assim. As humanas muitas vezes criticam o modus operandi de nossa sociedade, do pensamento, do senso comum e etc. E, ver o humano demasiado humano não é tarefa fácil. Mexe com egos, certezas e zonas de conforto.

Eu acho porém que a principal crítica dos exatos aos humanos é que nós parecemos não nos encaixarmos nessa lógica de mercado e produção que se adequa tão bem às exatas. Você tem uma demanda e cria um produto. O produto é o resultado do seu trabalho. Nós, "humanos" temos produtos, mas muitas vezes eles não são mercadorias, não tem valor de comércio, muitas vezes. Não é um produto químico, um remédio, um celular, uma cadeira, um eletrodoméstico, um carro. Podemos vender obras de arte, algumas com valores muitos superiores à um carro, por exemplo, mas a utilidade do carro é facilmente compreendida por qualquer um - a locomoção. Já o que muitos pensam da obra de arte é que um objeto apenas estético. Se o nosso produto do nosso trabalho não tem valor, pode-se fazer a analogia de que o nosso trabalho também não.

Isso para mim é o como o senso comum entende a arte e as humanas em geral. Mas então eu me pergunto, o que seria do mundo sem nenhuma ciência humana? Podemos nós virarmos apenas consumidores acéfalos? Existe algo nas relações humanas que não se baseie em comprar e vender? Somos homo sapiens, ou homo trabalhus? E sabedoria é apenas saber fazer contas, entender movimentos, compostos, particulas? Não estou dizendo que os cientistas não tenham senso crítico, mas a distância entre as disciplinas e a recente competição estimulada por avaliações feitas com base em apenas parâmetros quantitativos tem prejudicado à todos, mas principalmente as humanas.

Porque? Bom, acho eu que a pesquisa em geral tem um papel social, seja de compreender um fenômeno ou até mesmo resolver um problema. Mas muitas outras questões se apropriam dessa simples natureza. A pesquisa das humanas dificilmente é de interesse do Estado como as pesquisas ou das empresas (que no Brasil aproveitam muito mal nossos pesquisadores). Inclusive, elas podem ser do desinteresse, em determinados aspectos. Mas o interesse do Estado, muitas vezes é contrário ao da sociedade em geral. O problema, a meu ver, é que quando os exatos não tem qualquer interesse em conhecer um pouco mais das humanas, pode entender que está de fato cumprindo uma grande parte do seu papel social, pois está fazendo o seu trabalho. Por exemplo, construindo uma hidreéletrica no Xingu, sem entender que pode estar sendo co-resposável por desabrigar centenas de pessoas que virão a morar ninguém sabe onde. Mas ele estava fazendo apenas o trabalho dele. Não se pode apenas inventar coisas e negar o uso que elas terão. Negar o humano da ciência seria como desenvolver a bomba atômica supondo apenas que ela será usada para fazer a paz e negar o quanto de pessoas elas podem matar.

O que poucos sabem é que a maior parte dos cientistas não estão construindo pontes, enviando satélites e curando o câncer. Muitas das descobertas são feitas por acaso e muitos estudos que estão sendo feito hoje em dia só serão aplicados em alguns anos. Claro que eles devem ser feitos. Mas eu não entendo porque o cara estudar algo agora para ser usado (se for) só daqui há 5 anos é mais relevante do que algo que está acontecendo aqui e agora e que pode ser observado. Também não entendo porque tudo deve ser comparado, humanas versus exatas.

Para que servem as humanas? Fiquei de responder essa pergunta. Vou falar por mim e resumidamente pela minha área. A literatura serve para muitas coisas: distrair, encantar, ensinar, mudar, dar voz e silenciar. Podemos disceminar preconceitos, mas também respoder a críticas e injustiças. A literatura serve para desenvolver a imaginação, deixar um legado, falar em primeira pessoa. Podemos encontrar conforto ou desconforto. Podemos imaginar mundos e fazer previsões futuristicas. Eu consigo imaginar um mundo sem deus, mas não imagino um sem literatura. Deus é um produto literário, o cinema, as revistas em quadrinhos, a música, somos todos parceiros de palavras em diferentes linguagens. Tire a literatura de sua vida e veja que não sobram nem belas palavras para falar ao seu amado. A literatura é a expressão íntima humana/social.

Para encerrar, uma frase de um físico que vcs devem conhecer de nome, César Lattes:

“O homem como cientista é amoral. Só é moral como homem, não se preocupa se o que descobre vai ser usado para o bem ou para o mal. Como toda descoberta científica dá mais poderes sobre a natureza, ela pode aumentar o bem ou o mal.”

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Dia da consciência negra

Foi ontem, mas sempre tem espaço para atrasados...

Não quero entrar muito na questão política, ando meio farta disso no momento. Mas vou pontuar algumas questões. Vc é da classe média? Estudou em colégio particular? Quantos amigos negros você teve no colégio? Quantos no trabalho, na universidade pública?

Na maioria dos casos, eu acho que a resposta será: poucos. Guarde isso.

Outro dia estava mostrando algumas fotos do Brasil para minha roomate, uma doutora em ecologia que sonha em conhecer a Amazônia (antes da gente destruí-la). Como alguns lugares que eu queria mostrar não tinham fotos legais na net, pelo menos não tão fáceis que minha (in)habilidade pudesse encontrar, entrei no meu picasa e comecei a mostrar algumas das fotos de viagens que eu fiz pelo país. Ela comentou dos meus cachos, perguntou se eram naturais. Eu disse que sim, e comecei a mostrar os diferentes cortes que o meu cabelo já teve. Ela parou para fazer um comentário de que um dos meus amigos que compareceu à minha festa de aniversário não parecia ser brasileiro. Ele, com certeza, acharia isso uma ofensa, mas muitos brasileiros achariam que isso é um elogio. Porque? Guarde essa resposta.

Quais são os principais argumentos contra as cotas para negros nas universidades públicas? Você pode encontrar mais argumentos iguais aos seus nesse site, um pequeno exemplo. Você certamente se sentiria muito bem e justo ao pensar "a injustiça é contra os pobre, se a cota fosse apenas para pobres, pois eles são os mais excluídos.

Tudo bem, então analisa porque a maior parte dos ricos e da classe média é branca? Se vc seguir alguns dos argumentos do site que eu citei, vai achar brilhante dizer que a escravidão só acabou há 100 anos e é muito pouco tempo para que os negros conquistassem seu espaço. Mas alguns ilustres, mesmo assim, conseguiram. Bom, o feito de poucos não pode ser extendido a todos. Certamente se todo mundo quisesse mesmo ficar rico, ficaria, né? Só não consegue porque não quer.

Só fazendo um parênteses, a Finlândia se tornou independente da Russia há 100 anos e já teve tempo de virar uma potência. Porque o Brasil ainda está engatinhando? Não esqueça de levar o IDH em consideração na sua resposta.

Agora se mais de 50% da população brasileira é negra, tem algo muito errado nos negros serem uma minoria.

Porque algumas famílias de classe média tentaram derrubar por meio de liminares as cotas? Estão baseadas num princípio constitucional e numa injustiça social. No fundo querem apenas que seus "pimpolhos" tenham ainda mais uma chance de passarem a pública.

Agora faça um exame de consciência. Porque minha amiga achou que meu amigo não tinha o estereótipo de um brasileiro? Quem nós, os brasileiros que temos "voz" estamos querendo apagar? Com quem estamos querendo nos identificar? Porque?

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Cabelos enrolados podem acabar com seu relacionamento?

Parece absurdo, mas não é. Esse é o título de uma postagem de um site especializado em cabelos cacheados. O depoimento era de uma leitora que enquanto grávida decidiu "assumir" os cachos pela praticidade. Reproduzo aqui um trecho do depoimento que pode ser encontrado no site natural curlly:

CurlyNikki recently shared a painful story about a woman who found the future of her marriage in jeopardy based on her decision to wear her hair natural. Although her husband agreed that she had more to offer to the relationship than her hair, and that their daughter’s naturally curly hair was “beautiful,” he still felt his pregnant wife’s “nappy” hair was unattractive.

For better or for worse, she agreed to wear more straight hairstyles, allowing the couple to reach a boggling agreement
that insured that his happiness and comfort would not be compromised by her appearance. Of course, what followed this courageous confession was a hailstorm of angry, confused, offended and empathetic comments by users who could barely stand the audacity of a man’s ultimatum towards his pregnant wife. But is this an isolated situation, or can having curly hair really be a deciding factor in whether or not a marriage can stand the test of time?


tradução:

"(...) recentemente compartilhou a dolorosa história de uma mulher que encontrou o futuro do seu casamento baseado na decisão de usar seu cabelo ao natural. Apesar do seu marido concordar que ela tinha mais para oferecer ao relacionamento do que apenas seu cabelo e concordar que o cabelo de sua filha naturalmente enrolado fosse bonito, ele ainda sentia o cabelo de sua esposa grávida bagunçado não fosse atraente.

Para melhor ou pior, ela concordou em usar mais seu cabelo liso, permitindo que ao casal alcançar um complexo acordo asegurando que sua felicidade e conforto não fosse comprometido pela sua aparência. Claro, o que se seguiu à sua corajosa confissão foi uma avalanche de comentários raivosos, confusos, ofensivos e enfáticos por usuários dizendo como o homem poderia ter a audácia de dar tal ultimato à sua esposa grávida. Mas essa é uma situação isolada ou pode mesmo o cabelo enrolado ser um fator decisivo ou o casamento não pode suportar o teste do tempo?


Em outra reportagem do site o título trazia a reflexão: o cabelo natural pode te fazer "enegrecer"?

Por essas duas rápidas leituras podemos inferir que existem pelo menos 2 preconceitos em relação aos cabelos enrolados: cabelo enrolado é feio e afro (ou talvez seja feio por ser afro).

Bom, nem preciso dizer o quão ruim e anti-natural esse padrão de beleza ariano-escandinavo (aliás, se o povo soubesse o quanto meus cachos fazem sucesso na Suécia...) Enfim, o que mais me deixou enojada foi a idéia das pessoas ligarem cabelos enrolados aos negros e por isso eles serem feios ou desprezados. É um absurdo, mas também verdade. Por essas não temos como negar que o racismo está mais presente no nosso dia a dia do que imaginamos. Afinal, uma minoria das mulheres brasileiras tem cabelos naturalmente lisos, mas uma rápida visualizada dentro de qualquer salão em qualquer lugar do país vemos que a maior procura é por escovas à base do secador ou tratamentos químicos para alisar os cabelos, as chamadas "progressivas". E quantas loiras! Alguns lugares parecem até uma sucursal sueca.

Não podemos negar que algumas mulheres queiram fazer o que bem entenderem de suas madeixas, mas o fato de dispensarem a maior parte do seu dinheiro tentanto ter as madeixas lisas e loiras me faz achar que não querem ser diferentes, e sim iguais. Iguais às européias e diferente da maioria das brasileiras, sobretudo das negras. A escravidão é uma mancha na nossa história, mas parece que o stigma negro nos traços é que tem de ser evitado, tentando fingir que ela nunca aconteceu. Os índios tem cabelo natualmente liso e uma mística ligada ao bom selvagem, o héroi nacional, o guarani. Não vou nem entrar no mérito indígena e do quem vem sido usado como desculpa para apagar toda a questão indígena.

Eu não tinha me tocado de toda essa discussão até ser alertada por um comentário de uma das BF's que foi quem achou a citação no site. Então, como boa representante dos cabelos afros, fui fazendo uma retrospectiva da minha história capilar. Tenho fotos linda de infância com meus cachinhos livres e soltos. Não lembro quando a tortura começou, mas de uma hora para outra meus cachos passaram a ficar "rebeldes". Estava decidido, meu cabelo deveria ser "domado". Vieram então as marias-chiquinha e rabos-de-cavalo que de tão apertados me deixavam com dor de cabeça. A idéia era puxar bastante a raiz para ver se o cabelo acostumava a ficar liso. Depois, no início da minha adolescência era época do relaxamento "Amacihair teen", que transformava meu cabelo cacheado em ondulado e deixava minha cabeça fedendo a amônia por uns 3 meses. Mas eu me submetia a isso porque ouvia da minha mãe que meu cabelo era feio. Tinhamos que fazer alguma coisa!

Na época dela, ela colocava a cabeça na tábua de passar e passava o cabelo a ferro. Hoje temos a chapinha. Mas na minha adolescência ainda não tinha chapinha. Eu cansei de ficar com a cabeça fedendo e deixei o meu cabelo crescer, pois segundo minhas fontes, com o peso meus cachos ficariam menos rebeldes. Mas eu não queria ter cabelos lisos, só não queria que as pessoas me olhassem como se eu fosse uma maluca saída do hospício. Sim, pois era assim que eu me sentia toda vez que deixava meu cabelo secar ao vento ou naturalmente. Eu então fazia uma enorme trança com ele molhado e quando o cabelo secava, estava ondulado. Mas era um trampo. Um cabelo daquele tamanho demorava 24 horas para secar. As vezes eu queria usar meu cabelão todo bagunçado, enrolado, livre e solto. Mas as comparações com Clara Nunes e Maria Bethania me desencorajavam, afinal, eu não era fã delas na época e elas estavam muito longe de ser o padrão de beleza de uma adolescente metaleira.

Sempre tive dor de cabeça ao prender meus cabelos apertados, o jeito mais fácil de domá-los. Algumas vezes recorria a touca, um método onde vc penteia o cabelo em torno da cabeça com auxílio de granpos. Pode secá-los ou dormir com uma touca de meia na cabeça, mas tem que virar para o outro lado, pois senão ele fica muito estranho. O problema dos secadores, para mim, sempre foi o barulho. Mesmo os mais silenciosos não são nada agradáveis. Tenho por mim que parte do "zumbido" que a minha mãe reclama do ouvido dela fazer é por causa das longas sessões imersa num secador de cabeça mais barulhento que um carro de fórmula 1, que disconfio que ela usaria até hoje se ele não tivesse quebrado após 20 anos de uso.

Bom, acho que apenas por esse rápido histórico, dá para perceber que se adequar ao padrão não é tão fácil. Além de requerer tempo e dinheiro, muitas vezes requer saúde, pois durante a gravidez e alguns tratamentos, as mulheres não podem fazer progressivas ou mesmo pintar o cabelo. As mulheres simplesmente alisam o cabelo porque acham que vai ser mais prático, mais simples, que ficarão mais bonitas. A verdade é que existe muito preconceito contra cabelos enrolados, inclusive essa falácia de que é mais fácil lidar com cabelos lisos. Daí voltamos ao caso lá de cima, da mulher que teve o casamento abalado por assumir seus cachos. Seria muito simples eu falar que a mulher apenas pode decidir não mais alisar os cabelos. Em teoria, mas na prática quantas mulheres alisam o cabelo por motivos que passam até pelo "profissionalismo"? Quando eu trabalhava em loja, minha gerente me disse que se eu não tivesse o cabelo curto, provavelmente me mandaria fazer escova, pois cabelo enrolado parece desleixo. Existem uma série de fatores externos que mexem com a auto-estima de uma mulher que tem cabelos enrolados.

Se você reparar, vai ver que durante todo o post, tem fotos minhas com minhas madeixas originais. Hoje, do meu lugar de fala, não me sinto mais obrigada a alisar meus cabelos. Mas isso foi um processo longo. Dá para perceber que eu sou branca, então não posso dizer que sofri racismo por causa dos meus cabelos, mas já ouvi coisas do tipo "Você fica mais bonita de escova". Acho que o precesso é tão longo, que quando alguma amiga me vê de escova, simplesmente diz "nossa, você fica tão estranha de cabelo liso"! Eu não sei se vcs lembram do meu post sobre ser baixinha. Não era fácil me achar uma mulher bonita sendo tão diferente do padrão, baixinha e de cabelos enrolados. E olha que quando eu me comparo com outras mulheres acho até que tenho poucos problemas.

Mas eu tenho uma carreira que me permite usar meus cabelos enrolados. Posso dizer até, que com minhas experiências de vida, consigo chegar para alguém e dizer, com toda propriedade, o quanto é ridículo aliar o modo com que uso meus cabelos com a minha competência. Mas quantas pessoas não tem essa oportunidade? Quantos chefes usam o cabelo como uma desculpa para "branquiar" seus funcionários? Sabemos que não é mais permitido selecionar funcionários pela aparência, mas critérios ainda muito subjetivos, como "se encaixar no perfil da empresa" ainda são usados. O que isso quer dizer no final? Eu queria perguntar qual é o real problema com os cabelos enrolados? Qual é o desleixo em eriçar em vez de pentear? Em afofar no lugar de prender? Estamos realmente atentos a malícia escondida por um simples conceito de beleza?

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Não a usina de Belo Monte

Gente, se até os globais estão preocupados... hehehe Mas vale a pena ver o vídeo. A discussão deveria ter sido feita com a sociedade e não com os empreiteiros. Como pode, um país tão abençoado pelo SOL depender de alagar a diversidade para gerar energia???

Para assinar a petição, clique aqui

É a Gota D' Água +10 from Movimento Gota d' Agua on Vimeo.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Em matéria de sexo, elas tem o poder e eles sabem

O título do post não é tanto uma verdade quanto uma provocação. Sobre uma reportagem no CB, que foi meio en passant a respeito da liberdade sexual feminina. Me atenho ao seguinte ponto: porque os homens tem tanto medo da liberdade sexual feminina?

Aliás, esse sempre foi o meu ponto. O que tem demais uma mulher exercer sua sexualidade livremente? Procurar meios para saciar suas vontades?


A sexualidade masculina ainda se baseia em virilidade, quantidade e porque não dizer também individualidade. Talvez esse seja o conflito entre homens e mulheres. Se a sexualidade masculina se baseia nesses 3 pontos ela parte da premissa que a sexualidade feminina seja por conseguinte frágil, restrita e subalterna. Quer dizer, isso é o que conhecemos de longa data, mas nada quer dizer que a nova sexualidade feminina dê cabo da sexualidade masculina. Talvez ela precise ser, digamos, revista.

Por exemplo, o homem viril, no Brasil colonial, era aquele que tinha muitos filhos, tanto legítimos quanto bastardos. Essa virilidade se associava ainda com a quantidade. O homem tinha relações com várias mulheres, para poder apagar o seu "fogo", dar conta dele - quantidade. A individualidade é que muitas vezes esse homenzão, macho pacas, não queria nem saber se a mulher estava gostando ou não. O importante era satisfazer suas próprias necessidades. Além disso, as mulheres eram proibidas, entre outras coisas, de falar de sexo. O homem ficava então seguro de si pois não tinha ninguém para contradizê-lo. Digo verbalmente, pois as puladas de cerca são tão velhas quanto os próprios seres humanos. Freud que me desculpe, mas sim, as mulheres gostam de sexo. Mas naquela ocasião, não tinham como reinvindicar qualquer direito ao prazer. Além do mais, para que bater de frente com o patriarca? Mulheres traiam e escondiam. Talvez o coronel pudesse até defender sua própria honra (De que?...), mas os menos afortunados, tinham que aceitar filhos de botos, pregos, e outros mais.

Graças! Os tempos barbaros já eram! Hoje temos o divórcio, a quase extinção das práticas brutais em defesa da honra, a pílula, e a comercialização em larga escala de camisinhas. Mas ainda temos muitos pensamentos "saudosistas" em termos de sexualidade. Pois as mulheres ainda não podem exercer sua sexualidade livremente. E as amarras morais soam cada vez mais sem sentido, um apelo desesperado de homens que não sabem mais como "conversar" com as mulheres. Ou talvez, homens que não amem as mulheres, como bem caracteriza o livro de Stieg Larsson.

Sendo muito simplista, o que mais as mulheres tem medo em termos de sexualidade, de forma geral, é de ficarem mal faladas. É, minha gente, já diria Sartre, o inferno são os outros. Mas eu acho, e aqui é minha opinião pessoal, que as mulheres tem medo de ficarem mal faladas per si, mas sim de perderem o controle sobre si mesmas e sua liberdade individual. Nesse caso, posso citar o que aconteceu com a mulher que foi molestada na boate porque tinha tatuagem. Ah?? É, meu povo, isso está acontecendo! Ou por aquela, mais famosa, que teve seu braço quebrado em dois lugares porque o outro mala não gostou de levar um fora.

Parece que exercer sua sexualidade como bem enteder para a mulher significa, aos olhos dos homens (sei que não são todos, mas infelizmente parece que são muitos) não ser mais proprietária do seu próprio corpo. Estranho isso. Não parece ter muita lógica. Isso porque a sexualidade da mulher é vista ainda como algo a ser pertencido por algum homem, como diria Bourdieu, o valor simbólico de uma mulher é aquele que pode acrescer o valor do homem, ou o chamado vulgarmente de "mulher troféu". Se a mulher não tem um homem para "controlar" sua sexualidade, quer dizer que não é de ninguém, ou, que é de todo mundo. Um exemplo tosco dessa idéia pode ser visto aqui.


Outra coisa que podemos também inferir de tudo isso é que quando o cara fala mal de uma mulher (não posso dizer com toda propriedade, pois nunca participei dessas reuniões secretas), algo de presumível como uma traição ou uma decepção em algum aspecto aconteceu. Em suma, ou alguém não foi correspondido em termos amorosos e/ou sexuais. No caso do homem falar mal, podemos ainda dizer que ele pode estar querendo contar vantagem e preencher um daqueles pré-requisitos citados lá em cima, o da quantidade. Sim, pois na cabeça do cara, se ele "menosprezar" uma mulher com quem teve relações, digamos, íntimas, é sinal de que aquela mulher ou aquela relação é dispensável, e não faz falta. Pois outras virão para completar o "placar". Ou ainda aquele mais antigo, falar mal para parecer superior.

Então, porque será que existe essa falácia de que a mulher é quem escolhe o parceiro, ou tem o poder de ter sexo a hora que quiser? Diferentemente das passarinhas, que são agradadas com toda a espécie de mimo, a fêmea humana vem sofrendo de uma enorme carência de displays masculinos adaptados aos tempos modernos. Mas digamos que ainda, um pouquinho de "poder" sexual nos resta. Cuma? Isso porque toda sexualidade masculina se baseia naqueles pré-requisitos que citei lá em cima, então, por mais auto-suficientes que os homens possam parecer, eles atualmente se defrontam com algo nunca dantes imaginado: a crítica feminina. Pois se para mulher ser mal falada é um pesadelo, para o homem, além de ser ruim de cama, ele ainda pode ter o pênis pequeno, ejaculação precoce entre outras. E bom, embora as mulheres sejam, na maioria muito discretas para "difamar" um homem em público, digamos que as vezes, pode ser, que elas venham a alertar as amigas. Por isso, meus caros, em vez de aprederem a lutar "xuxixo" só para impressionar as gatinhas e ficar sem traquejo para conversar com elas e acabar quebrando o braço e acabando com a sorte, tente melhorar a qualidade do seu display, tanto social, quanto sexual.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Quanto vale uma boa educação?

Recentemente me chamou a atenção um comentário na reportagem da Folha da sub-síndica de um prédio da Vila Mariana em São Paulo sobre a educação dos condôminos. Na ocasião, houve uma confusão na frente do prédio pois um menor de idade que morava no prédio anunciou uma festa através de uma rede social e super lotou a cobertuda do local. "De acordo com a subsíndica, o fato de haver bebida para menores era inaceitável. "São jovens de escolas boas. E os pais pagam uma fortuna pra isso?", disse."

Eu fiquei me perguntando exatamente para que os pais desses jovens pagam uma fortuna. Alguém tem alguma idéia? Bom, talvez a primeira preocupação dos pais seja com a educação em si. As disciplinas, o conteúdo. Sim, pois eu não me lembro exatamente de nenhuma disciplina da grade curricular dizendo que os adolescentes não devam beber ou fazerem festas. Se pararmos para pensar, se o governo não tivesse tanto medo de ensinar um pouco sobre direito civil (ou constitucional) nas escolas isso até poderia ser discutido, afinal, o consumo de álcool no Brasil por menores de 18 é proíbido por lei. Mas isso não é matéria da escola. Pelo menos não fazia parte da grade curricular no meu tempo. Acho que agora existe sociologia, mas não sei que é o enfoque da matéria.

Mas o que mais me chamou a atenção foi a outra possível interpretação dessa frase. Aquela de que supõe-se que frequentar a escola, sendo uma escola cara, é sinônimo de boa educação. Eu lembro de minha mãe dizendo "boa educação vem de berço" como sinônimo de algo que se aprende em casa. Talvez educação agora seja outra coisa, não mais uma obrigação familiar. Parece que ter dinheiro para pagar a escola vai resolver o enorme encargo da família com a educação. Coitada dessa família, não sabe da missa a metade. Poucas são as escolas particulares empenhadas em algo além de aprovar seus alunos no vestibular. Senso crítico, cidadania, civilidade, meio ambiente? Alguém pode até responder que está dentro das "missões" da escola. Pode até estar escrito no Projeto Pedagógico, mas se a família participasse mais veria que no máximo, separa-se o lixo em algumas escolas.

O que se quer hoje, nessa educação lucrativa, são números, lucros e poucos dividendos. Paga-se para ter resultados. Esquece-se do caráter humano, pula-se etapas. Que adolescente já decidiu com 13, 14 anos o que quer da vida? Quantas crianças gostam mais de estudar do que de brincar? Eu gostava da subjetividade do ensino, de estimular o senso crítico, a multiplicidade. Mas o negócio agora é a resposta certa, é fazer pontos, o vestibular, o vestibular! Depois se aprende a viver, afinal de contas, brasileiro estudado, mora com os pais até os trinta, não vai ficar endividado.

Pensado que seus filhos serão educados pela escola, os pais de hoje talvez percebam o estrago e sejam mais "condenscendentes" com seus jovens adultos, mimando-os um pouquinho mais. Afinal, agora, aposentados, podemos dar a atenção que deveríamos ter dado antes,mas estávamos ocupados demais trabalhando, vendo televisão, para dar. Depois dizem que o estado é paternalista, que injustiça. Estranho que alguém esqueceu de avisar aos cursos de licenciatura para prepararem os professores para "educarem" os filhos dos outros. Estranho ainda é que hoje em dia os professores não tem mais quase nenhum poder ou respeito dentro de sala de aula, mas mesmo assim, vai tentar. Em meio ao seu cronograma apertado, cheio de informações entre compostos, logarítimos e machadianos, tentar atingir alguma das outras metas do suposto projeto pedagagatico. E se não der, que pena, fique só no conteúdo do vestibular mesmo, é mais imediato, entende?

E assim caminha a brasilidade: "estudando", repetindo e decorando, em nome de uma boa educação. Mas se o filho reprovar, a culpa nunca é dele não. Foi o professor que não cumpriu a meta, justa causa nele, então.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O golpe da barriga, ou a faca de dois gumes

Quem nunca ouviu alguma história sobre alguma mulher que engravidou para segurar o namorado? Recentemente com a notícia da pílula masculina algumas mulheres levantaram a questão: "E se o cara falar que tá tomando a pílula só para transar sem camisinha?"

Eu confesso que demorei um pouco para entender essa hipótese pois precisou entrar mais uma desculpa no meio de tantas que os caras já dão para transar com uma mulher sem camisinha. Pois eles já usam aquela do "eu só tenho vc na minha vida", ou "se vc me ama, confia em mim". E acreditem se quiser, até os caras que pegam mais de uma, mesmo quando as meninas já sabem, ainda usam a seguinte "mas eu só faço sem camisinha com vc". Agora acrescentamos mais essa ao repertório dos caras de pau "mas eu tô tomando pílula, vc não vai ficar grávida".

Vamos e convenhamos que não é tão ruim para o cara engravidar uma mulher. Se ele não quiser nem saber do filho ele pode, é moralmente e legalmente aceitável, contanto que pague uma parcela ridícula de seu salário para a mãe (que muitas vezes é vista como uma aproveitadora) e não dispense nenhum minuto de sua vida com carinho e atenção ao bebê/filhx/criança.

Porque a mulher é vista como uma aproveitadora? Voltemos ao famoso golpe da barriga. O que a mulher quer com isso? Um casamento, uma pensão? Vamos lá; caso a mulher engravide de um milhonário, vai ganhar uma pensão, gorda, talvez, mas não chega a ser grande coisa para o cara. Não lembro os números, mas ouve uma expeculação tempos atrás de que um jogador de futebol pagaria uma pensão de aproximadamente 45 mil reais para a ex com o filho. Muita gente chamou a mulher de aproveitadora, mas se esqueceu que o cara ganhava mais de 2 milhões por mês. Dentro desse quadro isso é pouco. Porque? Bom, primeiro porque se a mulher não cuidar do filho, provavelmente perde a pensão. Mas em se tratando de um milhonário, o cara não é obrigado a casar com a mulher, pode simplesmente "reparar" os danos. Se casou, é porque queria, não?

Mas e quando o cara não tem dinheiro, o que ele perde? É engraçado, mas a lógica do casamento por motivo de gravidez é sempre a da perda, e nunca a dos ganhos. Parece que o homem só perde, mas uma coisa que muita gente esquece de levar em consideração quando acha que uma mulher é golpista é que ela perde mais num casamento ocorrido nessas circunstâncias do que o homem. Por exemplo, acho que para uma mulher se enquadrar no termo golpista deve ser antes de tudo jovem. Se ela é jovem, está na idade de estudar, se formar, começar ou no começo da carreira de trabalho. Na maioria dos casos, quando ocorre esse "golpe" parece que fica acordado informalmente que o cara casa, mas a mulher cuida da criança. Isso implica, o marido primeiro, o filho segundo e a mulher por último. Consequentemente, muitas largam o estudo e/ou o trabalho pois sua principal obrigação é cuidar da casa e da criança. É uma espécie de dívida de gratidão. Só que o homem continua trabalhando e cedo ou tarde progride, afinal, tem uma esposa para cuidar de todo o resto. O homem só precisa trabalhar. Como a mulher não tem renda, tudo que o casal tem, por mais que a lei diga que é do casal, é visto socialmente como bem do homem pois foi ele quem comprou. Na hora do divórcio muita gente acha que a mulher não tem direito porque "não fez nada". Mas poucos são aqueles que contabilizam as perdas que a mulher teve porque casou nessas circunstâncias.

Eu acho, e aí posso estar falando uma baita besteira, que o golpe da barriga é um mal negócio para as mulheres e elas só percebem quando já estão casadas. Não acho porém que muitas mulheres façam isso de propósito. Algo do tipo maquiavélico "Tenho o plano perfeito, vou engravidar e ele será obrigado a casar e dividir seu patrimônio comigo, hahahah!" estilo vilã de novela da Globo. Acho que muitas são ingênuas a ponto de estarem bobocamente apaixonadas e pensam "se eu engravidar, ele vai, pelo menos, ficar perto de mim pra sempre". Algumas nem pensam em casamento ou em termos práticos. Afinal de contas, o que é uma adolescente apaixonada? Acho até que muitas meninas gostam tanto do cara que aceitam casar só para ficar junto do namoradinho e tomam resignadamente o papel de mãe e dona de casa como uma forma de agradecer o cara por eles terem se casado. Mas o que elas perdem? Uma liberdade que nunca tiveram, pois são ainda poucas as mulheres brasileiras que saem da casa dos pais para morarem sozinhas antes de se casarem. A juventude, não aquela que está aliada a beleza, mas aquela que te dá gaz para ter dois empregos, estudar e ainda ir para balada com as amigas na quinta-feira à noite (sem ter o braço quebrado por um mala, por favor). E independência, porque não dizer isso, pois ter o próprio dinheiro te deixa livre, por exemplo, para comprar aquela coisa super inútil e super cara que vc quer sem ter que dar satisfação para ninguém.

Tem uma lógica maquiavélica por trás desse "golpe da barriga". Sempre parece que o homem é aquele cara livre com um futuro brilhante que foi brutalmente interrompido pela aproveitadora que engravidou dele de propósito. Até parece que o cara não sabia das consequências de se fazer sexo sem camisinha. Eu não sei, mas chego a pensar que esse golpe seja mais praticado por homens do que por mulheres. Algo que o cara pensa "Eu quero sair da casa da minha mãe, mas ainda quero ter alguém para cozinhar pra mim e lavar a minha roupa. Hum, ter um filho também parece legal. Ah, bora casar então". E o melhor é que a sociedade ainda tá do lado do cara, então é como fazer a arte e ainda sair por cima.

Sabe o que isso me diz? Que tem alguém achando que as mulheres tem controle total de seu aparelho reprodutivo. Eu nunca soube quando estava ovulando ou não. E olha, vou contar um segredo. Os sintomas pré-menstruais são muito parecidos com os da gravidez porque vc incha, se sente casada, indisposta, algumas mulheres enjoam... Olha que sacanagem, a gente achando que tá pra ficar menstruada e de repende descobre que tá grávida. Mas enfim, as coisas não são bem assim, a responsabilidade de evitar o filho é dos dois. Então, se o cara transou sem camisinha porque a mulher disse que estava tomando pílula e ela engravidou, ele também tem culpa. Afinal, a pílula não é 100% infalível e a mulher não é 100% responsável. Ela pode esquecer. Mas parece que esquecimento nesse caso é proposital, né.

Por outro lado, se a pílula masculina sair mesmo e se os caras começarem a usar será que vai ter algum aproveitador deixando de usar só para engravidar uma mulher? Ou será que a história não vai continuar a mesma e a culpada vai continuar sendo a mulher que acreditou no cara e, de novo, engravidou porque quis?

Por fim, o que eu acho da pílula masculina: demorou! Mas, mulheres, continuem usando métodos contraceptivos e camisinha, afinal, o filho é o menor dos males. Você pode acabar casando com um aproveitador.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Liberdade de expressão, um conceito vazio

Sempre que ouvimos a palavra "censura" ficamos no mínimo um pouco incomodados. Vinte anos de ditadura fazem muitos brasileiros esbravejarem aliviados por o Brasil ser um país livre e erroneamente felizes pela mídia não ser mais controlada pelo governo. Quando o governo faz mensão de censurar algo, por mais absurdo que esse algo seja, sempre aparece alguém defendendo a famosa "liberdade de expressão". Mas o que seria isso?

Muitos resumem esse conceito, deveras preenchido de significados, dizendo que é a liberdade de falar aquilo que pensa. Talvez a máxima que diz que devemos pensar antes de falar ou escrever algo derive daí. Bom, se juntarmos ambas as idéias, vemos que elas não são mesmo contraditórias. Podemos falar o que pensamos, mas não podemos falar qualquer coisa. Muito se confunde então o primeiro conceito, de liberdade de expressão com liberdade de falar o que vem a cabeça, sem pensar.

Mas porque devemos pensar antes de falar? As pessoas se comunicam por diversas razões, desde as mais simples até as mais complexas. A premissa da comunicação é que deve existir um transmissor (um locutor), um receptor (interlocutor), uma mensagem e um vetor (fala, escrita, rádio, televisão), se me lembro bem dos termos. Para que a comunicação seja completa, precisamos de todos os elementos. Não adianta falar se ninguém escuta, não serve de nada ter 3 dos elementos se não temos mensagem. Então eu vou resumir muito rapidamente que o objetivo das pessoas em se comunicarem é passar uma mensagem para alguém. A mensagem tem um significado, que muitas vezes pode ser o daquela pessoa que está dando ou apenas algum que ela está reproduzindo consciente ou inconscientemente.

Por isso devemos tomar cuidado com aquilo que falamos e ouvimos. Devemos pensar se aquela mensagem é realmente a que queremos (re)transmitir. A comunicação é muito poderosa. Existem personagens marcados pelos erros e acertos em suas mensagens. No mundo atual, a repercursão de uma mensagem pode ser instantânea e ter consequências desagradáveis. Ao mesmo tempo, por vetores normais, nem todos tem voz para se exprimirem. As minorias são descartadas, ignoradas e muitas vezes ridicularizadas quando tentam falar algo. Outras tantas vezes tem suas vozes dubladas por aqueles que querem dar à sua mensagem uma outra forma.

A mídia, ou melhor, a televisão é o principal vetor de comunicação brasileiro. Todos sabemos que o governdo concede o direito de uso e exploração às emissoras, mas o que elas tem feito com esse poder é bastante diferente daquilo que muitas vezes pregam. Talvez o objetivo maior da mídia em geral é poder e dinheiro e muitas vezes o discurso (a mensagem) que veicula serve para manter aquilo que está trazendo frutos. Ela tenta valorizar seu tempo para que os anunciantes saibam que vale a pena pagar por aquele espaço na determinada emissora porque x milhões de pessoas vão assistir, logo, as chances de vender aquele produto aumentarão. Não sente no seu sofá e ligue a televisão para relaxar pois esse é o último dos objetivos daqueles que estão por trás daquela tela, até a tranquila propaganda de margarina foi feita com um propósito, vender margarina.

Existem profissionais que passam 4 anos estudando técnicas para fazer vc comprar algo, para convencer vc de alguma coisa, que precisa de algo, mas vc não passa 4 anos aprendendo a como não levar esses caras a sério, a separar o joio do trigo. Não existe um curso para defender vc, consumidor/espectador. Isso baseando-se no fato de que apenas produtos, e não idéias são vendidos pelos meios de comunicação. Quando um órgão como o CONAR acata representações de entidades civis para censurar uma propaganda é porque tem gente que não assiste a televisão para ficar tranquilo tentando te alertar. Nessa hora, pare e pense. Talvez essa batalha seja um tanto injusta quando se está sozinho contra isso tudo. Não acho que o governo deveria controlar a mídia, sou totalmente contra isso. Mas acho que ele deveria intervir em alguns casos

Aqueles que defendem a liberdade de expressão quando abusiva, raramente defendem que o locutor arque com as consequências do que falou. Do ponto de vista cru da coisa, todos temos liberdade para dizermos aquilo que nos dá na telha e temos total liberdade e também a obrigação de arcar com as consequências desse ato. É ridículo alguém falar pra mim que o Rafinha Bastos foi injustiçado. Ele falou o que queria e agora está sofrendo as consequências. Na minha opinião, assim como acontece nas campanhas políticas quando um candidato ofende o outro ou inventa algo deve ceder seu espaço para o concorrente, o CQC deveria ser obrigado a ceder seu espaço para Wanessa Camargo ou pelo menos para que o dito cujo que a ofendeu se desculpasse, não sei se isso já aconteceu.

Aliás, para vc que acha o CQC um programa com humor inteligente, sabia que ele não passa de um enlatado copiado da Argentina?

domingo, 16 de outubro de 2011

Gisele Bünchen e a campanha da Hope

Dentro da enorme discussão que gerou a propaganda da Hope onde Gisele Bünchen aparece ensinando mulheres a explorarem seus maridos com a lingerie da marca aparece outro ponto que merece ser observado além do estímulo ao consumismo feminino. Esse ponto é um dos pontos cruciais do feminismo atual: afimar sua importância. Muitos ainda tentam dizer que o feminismo é uma luta ultrapassada, mesmo sabendo dos números alarmantes de violência doméstica. Propagandas como essas da Hope fazem com que feministas do mundo inteiro fiquem de cabelo em pé. Ao brincar com a relação de marido e mulher a empresa colocou de forma irônica algo muito perigoso. No comercial fica evidente quem manda e o que a pobre loira sensual tenta fazer e trocar seu sexo e seu corpo por um poder de barganha.

O comercial tenta passar isso de modo divertido, mas é deprimente. Imagine numa situação real essa mulher seria totalmente dependente do marido não tendo voz nenhuma para dialogar. Porque ela quer que o marido não se zangue? Na realidade de muitas mulheres, desagradar o marido significa apanhar. E, bom, sejamos francos, muitas mulheres da high society apanham mesmo sendo maravilhosas, gostosas e usarem chanel. Elas apanham caladas pois muitas delas casaram para terem uma vida melhor. Não é isso que a nossa sociedade vende? Que dinheiro é tudo? Então, quando uma mulher que tem dinheiro apanha do marido rico tem que ficar calada.

Muitas mães ensinam suas filhas que um bom partido é um cara que tenha dinheiro acima de tudo. Isso é uma prostituição assistida. Mas o que me irrita na questão da propaganda é muitos tentam atacar apenas a Gisele. Não podemos ataca-lá, pois isso é o que ela sabe fazer, vender a imagem. Falando assim parece pesado, mas se analisarmos que o trabalho de modelo consiste em vender apenas a imagem feminina (e do corpo feminino) preenchida de significados pelos discursos patriarcais, podemos encarar, se não como uma prostituição, uma exploração em muitos sentidos, sexual. Para maiores informações, sugiro que assitam esse documentário. Sim, pois ela não está passando a imagem de uma pessoa que é independente e dona de si. Não dá nem um pouco para pensar naquela situação como uma brincadeira entre casais. Aquilo é humilhante. E o mais "irônico" é uma mulher, com toda a fama e dinheiro que tem ainda ficar fazendo campanhas sexistas vendendo a imagem de uma mulher que precisa "agradar" o marido para poder ter dinheiro.

Isso acontece porque as mulheres não são autorizadas pelos discursos econômicos a falarem por si próprias. O corpo feminino é objeto do discurso médico, comercial, mas quem fala nessas instâncias é sempre o homem. Gisele estava apenas seguindo um roteiro que passaram para ela. Mas quem escreveu? Aposto que se perguntarem para ela porque usar a lingerie ela vai dizer tudo, menos isso. Se perguntassem sobre a lingerie, as mulheres responderiam, confortável e básica pois combina com qq roupa e não marca. É isso que uma mulher quer de uma lingerie e não perdão do marido. Até porque a Hope não fabrica lingeries sexys. Se realmente perguntassem para as mulheres porque usamos alguma coisa, as propagandas seriam muito diferentes. Por exemplo, as de absorvente que colocam uma mulher andando maravilhosa, feliz e contente com um vestido branco arrancando olhares dos homens por onde passa porque pode confiar que seu absorvente não vai vazar é ridícula. O que mulher quase nunca quer ter que passar durante a menstruação é uma cantada idiota. No meio das preocupações do dia a dia a gente quer, pelo menos, não se preocupar com o absorvente.

Eu não acho que o humor deve ser ofensivo. Existe muito humor inteligente, aquele que ofende é simplório, coisa de quem não consegue ler um texto com mais de 140 palavras e faz pose de intelectual. Não concordo com a defensivas à propaganda. E bom, se me perguntarem o que eu acho de uma mulher que defende esse tipo de "humor" eu digo que ela é uma idiota, que não sabe que está sendo ofendida. Mas porque ainda existem mulheres que agem dessa forma? Será que é mesmo necessário se encaixar no rótulo de "feminista" par se incomodar com o comercial?

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Não é preciso ser mãe para falar de maternidade

Essa é a questão. Em toda discussão sobre aborto e maternidade sempre aparece uma hora ou outra comentários do tipo "Eu tenho x filhos, decidi (ou não) tê-los e estou muito feliz com isso". Bom, primeiro que muito raramente alguma mulher tem coragem de dizer que se arrependeu de ter filhos ou que a maternidade era pior do que esperava. Muitos podem pensar que a ausencia de comentários negativos se dá devido a perfeita adequação da mulher com a função materna e que as poucas que se arrependem sofrem de problemas psicológicos, mentais e etc.

Bem, eu não concordo com isso. Estou aqui falando do ponto de vista de uma filha, que teve uma mãe e viu a experiência dela de perto (e que ajudou a criar a própria irmã). A maternidade é uma função desvalorizada socialmente. Basta ver os incentivos de governo brasileiro para as mães. Além disso, maternar é apenas mais uma das funções desvalorizadas que a mulher é obrigada a enfrentar diariamente. Somam-se a essa, as tarefas domésticas. Que todos podemos notar que não são compartilhadas pela maioria dos homens brasileiros. Além disso, o cuidado com o bebê é algo cada vez mais complicado, pois a mulher é responsável pela saúde física e mental do feto (pois não pode beber, comer gordura enquanto está grávida), além de ter toda responsabilidade pelo desenvolvimento psicológico do filho. Isso eu li num livro, mas constatei de perto quando minha cunhada ficou grávida. Cada recomendação absurda que as pessoas faziam para ela...

Só que as pessoas esquecem de um pequeno detalhe. Nem toda mulher é igual e nem toda mulher tem aspirações parecidas. Além disso, a realização de uma pessoa tem mais fatores do que apenas a parentalidade. Sejamos francos, vivemos num mundo materialista e individualista e o modelo de maternidade vai contra tudo que a sociedade de consumo prega. Eu não sou a favor desse modelo de sociedade, mas concordo que a maternação não é tarefa exclusiva para a mulher. Eu sou uma que gosto de trabalhar e não sei se me sentiria confortavel dividindo minha vida apenas com um único ser que ainda não desenvolveu nem sua coordenação motora. Para falar a verdade, conheço muitas mulheres que parecem parar de pensar quando deixam de trabalhar apenas para cuidarem dos filhos. Algumas perdem suas habilidades sociais e quando saem de casa são motivo de vergonha, pois não conseguem dar conta de uma conversa adulta e civilizada. Muitas deixam a companhia de pessoas da própria idade, inclusive de outras mães, para brincarem com as crianças. Além de outros pais extremamente chatos que não sabem falar de outra coisa além dos próprios filhos. Eu entendo estar orgulhoso e feliz, mas vamos e convenhamos, algumas crianças não interagem direito com os outros até uns dois anos de idade, e é algo meio chato ser coagido a babar como os pais só porque o moleque falou "agu"? Ele só está fazendo o que todas as crianças fazem.

Tem uma amiga minha que acha crianças extremamente brochantes. Ela não entende como alguém pode ficar bobalhão e sair correndo para abraçar e tirar foto de uma criança que não é sua ou da sua família. Outra coisa engraçada que ela fala é que ela acha que crianças não deveriam ser trazidas para eventos sociais, a menos que elas saibam ficar caladas e não mexer onde não devem. Eu as vezes me irrito com as crianças alheias, principalmente porque alguns pais parecem querer apenas incomodar. Deixam o muleque esguelar, encher o saco, gritar, chorar... As vezes tenho a impressão que eles são como aqueles caras com cartazes dizendo "O mundo vai acabar em ...". Só que os cartazes são os filhos e eles dizem "Salve-se, não tenha filhos", outros querem apenas se esquecer dos moleques por algum tempo.

Mas nem tudo é assim. Existem crianças extremamente divertidas e inteligentes. As crianças europeias são, no geral, extremamente independentes e não ficam na aba dos pais como as brasileiras. Eu acho isso fantástico, pois se vc levar seu filho ao parquinho com um casal de amigos que tenha filhos, todos podem se divertir, tanto os pais quanto os filhos, pois quando os adultos se cansarem, sim, adultos são velhos, as crianças brincam entre si, sem aborrecer. Parece loucura, mas conheço mesmo crianças muito chatas que só brincam com adultos e vc tem que inventar a brincadeira pro muleque e ele ainda tem que sair ganhando.

Outra questão é que a sociedade vê como bom pai e marido aquele que faz o mínimo e como uma mãe normal, aquela que faz no mínimo o máximo. Não tá meio errada essa conta? Se o material genético da criança é 50/50 de cada um porque só um dos pais tem que ter a responsabilidade pelo cuidado? Vamos pensar no aspecto econômico também, será que a sociedade pode se dar ao luxo de desprezar a mão de obra mais qualificada que tem (e que ainda por cima, custa menos)? Ninguém vai convencer uma mulher de negócios a ter filhos se ela sabe que corre o risco de ser demitida porque vai ser obrigada a tirar a licença maternidade por 4 meses sem poder nem ao menos trabalhar meio expediente e que no máximo poderá contar com 1 mês e 2 semanas de ajuda do pai, se o cara quiser emendar as férias com a licença (mas eu acho que nem isso pode mais).

Todo mundo fala "Quando vc tiver filho vc vai entender". Será que isso é uma maldição? Só podemos entender a maternidade depois que tivermos filhos? Isso é um modo de deixar as mulheres curiosas e fazerem elas terem filhos? Será que pelo fato de acharmos que só podemos falar dela depois de passarmos por ela, estamos deixando de trabalhar por ela, de fazer com que a maternidade seja um encargo menor para mulher e que tenha uma maior participação da sociedade como um todo? Será que é por isso que estamos a esperar alguém que resolva esse problema por nós, porque depois de sermos mães, será muito tarde para questioná-la?

Também não é preciso ser mãe para maternar.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Se homem engravidasse pílula seria doce e aborto seria fácil

Estou me antecipando na blogagem coletiva pois estarei uma semana fora do ar. Espero que curtam o post e tenham paciência. Semana que vem respondo os comentários.

Sabe, quando se é feminista há um certo tempo existem temas que se tornam exaustivos, mas nem por isso menos importantes. Principalmente porque todo mundo entende mais e melhor de feminismo do que vc, que estudou o assunto. Mas realmente não acho que precise ser um expert no assunto ou ser feminista para concordar com alguns pontos do movimento. A legalização aborto foi uma das primeiras reinvindicações do movimento feminista brasileiro, mas até hoje está longe de se tornar uma conquista.

Eu sempre escuto autoridades testemunhando que são contra o aborto por serem a favor da vida. Gostaria de esclarecer que nenhuma pessoa a favor do aborto é contra a vida, a diferença é que somos a favor da vida da mulher e aqueles que são contra são a favor apenas da vida do feto. A argumentação contra, na maioria das vezes, passa para um aspecto impalpavel e inexplicável: quando podemos considerar o feto um ser vivo. Bom, eu prefiro trabalhar com o que eu tenho de concreto e certo, a vida da mulher, que é o ser que já está vivo no momento da discussão. Além disso, quando passamos a discurtir a vida do feto trazemos para uma questão política e de saúde pública um aspecto metafísico que não deveria fazer parte da discussão.

O Estado tem a capacidade de respeitar que uma testemunha de jeová rejeite tratamento médico e que um adventista do sétimo dia faça prova do vestibular em horário especial, mas não pode respeitar uma mulher que não quer ser mãe, ou não tem condições de sê-lo a carregar essa imensa obrigação porquê? Porque é a favor da vida??? Da autoridade, o bebê. Sim, ele começa a mandar na vida da mãe antes mesmo de nascer. E isso é tão maravilhoso que todo ano mais ou menos 3 milhões de mulheres morrem vítimas das consequências de abortos mal feitos no Brasil. Esse número só tende a aumentar junto com o crecimento das obrigações de ser mãe. São duas forças contrárias que sempre existiram. Uma é o que a sociedade ensina e mostra sobre a maternidade e a outra a realidade cruel do dia a dia. Sim, pois se a maternidade tem coisas maravilhosas, pode ter certeza que tem coisas hororosas na mesma proporção. Porque raios as mulheres fazem um aborto? Existem pessoas com diferentes objetivos e personalidades no mundo, mas a sociedade ainda pretende que todas as mulheres sejam iguais? Ou melhor dizendo, mães? Sim, porque só existe um jeito certo de ser mãe perante a sociedade e esse jeito é ser mãe e nada mais. Deixar de comer para dar para o filho, deixar de trabalhar porque a criança precisa da mãe para se desenvolver, deixar de ser preguiçosa porque a criança precisa que vc faça tudo por ela. Deixar de lado qualquer característica que vá contra o pacote propaganda-de-margarina-filme-da-disney mãe.

A questão é que a identidade feminina tem sido atrelada a maternidade há mais de 200 anos. Uma propaganda pesada em bonecas, contos de fada, filmes... A planta nasce, cresce, amadurece, gera frutos e morre. A mulher nasce para gerar frutos. Só que hoje em dia a mulher já encontrou outras opções de vida e pode não estar interessada em ser mãe, mas ninguém pode imaginar tamanha perdição. Se perguntar porque a qualquer mulher que não quer ou não tem filhos tenho certeza de que ouviria respostas mais plausíveis e racionais do que de muitas mulheres que dizem querer ser mães, mas ninguém está interessado em ouvir. O Brasil já julgou e já condenou. Não só aquela mulher que decidiu não ser mãe como aquela que só pensou no assunto tarde demais e se arrependeu. Eu sou daquelas que acredito que a maternidade deve ser pensanda e ponderada, mesmo que aconteça inesperadamente. Mas quando falamos da legalização ou descriminalização do aborto não estamos falando de mim ou de você que tem estudo, internet, sabe usar uma pílula ou camisinha. Estamos falando de pessoas sem acesso à informção, saúde, aos seus próprios direitos e que estão morrendo. Estamos falando de mulheres pobres que muitas vezes dormem na rua, são violentadas e carregam consigo uma legião de filhos miseráveis vendo essas crianças passarem fome, dormirem ao relento. Para essas crianças existe o estatuto da criança e do adolescente, a pastoral da criança e etc e para essas mães? Quem liga? São apenas mulheres, elas engravidaram, elas merecem?

Eu acho que o Estado tem que dar informação, dignidade e muito mais, mas enquanto isso? Essas mulheres devem morrer? Devem ser presas? Eu já falei aqui e repito que tive sorte, eu classe média, estudada e talz. Sorte porque já achei que estava grávida quando era adolescente e não estava. Mas nesse interím me toquei que a culpa não era toda minha. Eu não tive nenhuma aula que ensinasse a gente a usar camisinha ou outros métodos contraceptivos. Só me ensinaram o que eram e como agiam no corpo. Minha mãe se recusou a me levar no ginecologista até os meus 17 anos, pois ela não queria que eu fizesse nenhuma "besteira". Mas eu achei que tinha engravidado bem antes disso e tinha na minha mente que se isso fosse sério eu abortaria. Agora, imagina como eu, que nem mesada dos meus pais ganhava, ia fazer um aborto? E se eu não fizesse, minha gente, ia morar na pqp, ganhando uma mesada da mãe do meu ex-namorado (pq a gente não ia ficar junto só por causa do bebê), trabalhando de sei lá o que 10 horas por dia para poder pagar a creche do menino e a conta de água. Por isso, quando falam que a feminização da pobreza é um fenômeno crescente eu entendo. E o meu estomago revira toda vez que eu vejo alguém rico e engravatado (por cima e por baixo) falando que é contra o aborto porque é a favor da vida. A favor da própria boa vida. Da boa vida dos homens que não perdem emprego por estarem grávidos ou apenas por poderem, um dia, engravidar. Que não ganham menos só porque podem, um dia ter que sair mais cedo ou faltar porque tem que cuidar do filho. Tem que cuidar do filho porque o cara lá é a favor da boa vida dele e não faz nada. Não troca fralda, não dá mamadeira... Ah, não pode mamadeira. A mãe tem que ficar lá seis meses amamentando porque ela não tem nada para fazer, né?

Nessas horas, quando meu estômago revira eu penso "se homem ficasse grávido a pílula seria super avançada, aborto seria uma injeção indolor e sem efeito colateral e creche seria igual posto de gasolina, uma em cada esquina".

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Rede de mulheres

Houve um tempo em que muitos diziam não haver amizade sincera entre mulheres, que mulheres competiam umas contra as outras por tudo; as melhores roupas, pelo mesmo homem... Sim, as mulheres competem, quando não são amigas, ou quando tem que competir, como no meio de trabalho. Mas as mulheres se ajudam e eu me arrisco a dizer que acho que o fazem mais do que os homens. Quando cheguei aqui na Suécia, no meu primeiro dia de aula, um grupo de mulheres sentadas numa das mesas da cafeteria me convidaram para tomar café com elas, sem nem ao menos saber que eu era. E elas me disseram que estávamos todas aqui mais ou menos na mesma situação e que precisávamos nos ajudar.

O mesmo acontece com minhas amigas no Brasil. A vida corrida do dia a dia muitas vezes tenta nos engolir e ficamos sem tempo para os amigos ou para fazermos algo de que realmente gostamos. Então, quando alguém tem um problema, convoca as amigas e nós abrimos um horário na agenda, aparecemos de madrugada na casa de alguém, irritamos os vizinhos, vamos para o buteco na segunda, mas estamos lá quando é preciso. Uma vez eu fiquei acordada até de madrugada só para falar com elas no skype, mas a minha internet pré-paga acabou bem na hora de descobrir o que estava acontecendo com minha amiga.

Estou passando por um momento decisivo na minha carreira. Tenho menos de seis meses para decidir meu futuro profissional e ao mesmo tempo tenho que começar a produzir para ontem. Estava ficando louca, pois não dá para sentar com minhas amigas aqui na Suécia e pedir um conselho. Cada uma se formou num país diferente, numa área diferente. Então, mandei um e-mail para as blogueiras feministas (grupo do qual eu preguiçosamente faço parte), e foi surpreendente o número de respostas e bons conselhos de muita gente que está passando ou já passou pelo que eu estou passando. Daí comecei a pensar no poder das redes sociais. Lembro que quando minha amiga Lud falava, eu tentava imaginar e não conseguia.

Sempre fui meio tacanha e discrente no que diz respeito as redes sociais. Mas cada dia que passa dou mais um pedaço do meu braço a torcer. As redes sociais são um vetor forte de mudança social. Uma forma da sociedade civil se organizar. Não é à toa que o governo brasileiro sorrateiramente vem tentando cortar nossas asinhas internáuticas (mais informções aqui). Dizem até que os revoltosos libianos, egípicios e etc se organizaram via internet. A internet tem poder e se tudo der certo, cada dia vai poder mais.

Mais voltando as redes femininas, é impressionante como elas tem muito poder. Desde aquela antiga conversa de comadres à beira do fogão à lenha onde uma contava para outra "fala lá pro seu menino passar na minha cumadre Jandira e fala com o marido dela que ele arruma um trabaio pro menino". Até hoje quando eu vejo na rede uma blogueira com problemas arrajando advogada pela lista para cuidar de problemas jurídicos. Gente, isso é demais! Sim, porque mandar um e-mail para lista gera tantas respostas positivas. Eu já vi gente comprar carro por uma bagatela em outra lista que participo pq sabe, ninguém tava querendo explorar ninguém e ao mesmo tempo, vc sabe que a pessoa é de confiança, porque senão, não consegue mais fazer parte da lista.

Espero que as redes de mulheres cresçam cada vez mais e que muitas mulheres injustiçadas nesse mundo consigam fazer valer seus direitos! com uma ajudinha da internet, quem sabe? ;)

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Ridiculous!

Se tem uma coisa que eu não gosto é um fato histórico distorcido. Sei que é difícil contar a História de forma única e muita vezes não se tem fatos e sim vestígios. Mas até certo ponto é possível se ater aos fatos, por exemplo, na Roma antiga se falava...

INGLÊS, minha gente! Você não sabia? Eu também não. E olha que estudei latim na faculdade e eles disseram que na Roma antiga existia até o latim culto e o vulgar. Mas pra que tanta informação galera. Quer produzir um seriado de época? Faça como a rede Bobo, coloque um monte de ator bonitinho falando com um sotaque parecido com aquele que eles acham ser italiano e pronto! Ah, peraí, pelo menos a rede Bobo coloca atores para parecerem falar a língua certa que eles querem. Pode ser hindu, italiano, espanhol. Mas num certo seriado famoso que tem por aí nem isso os caras conseguiram.

Na Roma antiga desses caras o mais velho que eles conhecem é o inglês britânico! Ai ai! Tenho ganas de matar esse produtor toda vez que escuto a chamada da porcaria do seriado "Spartacus, blood and sand! The gods of the arena." Tudo bem, eu vou me controlar, vai ver que o cara baseou o seriado naquele filme homônimo super velhor onde também os gladiadores falvam inglês. Ops, pode ser que seja com sotaque australiano (inglês é algo meio novo pra mim...). Mas gente, isso é muito ruim. Sabe, os caras constroem um cenário fictício, contratam apenas atores bonitinhos contracenando com bons atores que fazem os malvados pq são feios e vendem como algo supostamente baseado em algum vestígio de veracidade.

Bom, eu não estudo mais pós-colonialismo há pelo menos um ano e estou longe de todos os meus livros, mas posso fazer aqui uma análise bastante superficial da coisa. Sabe o que isso tudo diz para mim? Dentre muitas, diz que o vencedor impõe sua vontade, sua história e sua cultura acima (e em cima) dos vencidos. O império Britânico pode não ter a mesma forma, não colocar mais navios piratas para aterrorizar o mar. Ingleses e americanos podem ter suas rixas, mas tá tudo em casa. Sabia que em alguns lugares dos Estados Unidos os jovens não sabem que eles foram a primeira e ÚNICA nação a lançar uma bomba atômica com fins bélicos em DUAS cidades inteiras? Não, eles não sabem. O que eles sabem é Pearl Harbor com Ben Aflec. Isso para mim é uma forma de distorcer a verdade. Tudo bem que o adolescente pode pegar um livro na escola e ler, mas será que ele vai fazer isso? Quantos professores hoje em dia não usam filmes ditos hitóricos como forma de ilustrar um ponto?

Sabe outra coisa que esse seriado diz para mim? Atores italianos são incapazes de fazer uma série sobre a própria história, segundo alguns. Não diz para mim, por exemplo que a língua de onde vem o inglês era considerada pelos romanos como bárbara. Isso me diz, por exemplo, que os filhos do império britânico estão tentando colocar o nome deles no mais remoto passado, tentando não escrever a história, mas sim reescrever o passado. E já que não há muito como colocar vitoriosos anglo-saxões naquela época naquele lugar, vamos colocá-los todos para falar inglês, como se dissessem agora que o único meio de conhecermos parte da história do império romano é através deles.

Por fim, eu odeio seriados ingleses e americanos pseudo-históricos. Gosto, entretando, dos Thudors (esse sim pode ser protagonizado em inglês sem problemas).

"Minha pátria é a minha língua"
Fernando Pessoa

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Desigualdade social, um problema bem atual.

Ontem estava quase à toa em casa... Na verdade tinha um monte de coisas para fazer, mas não consegui despregar meus olhos da TV durante o programa "How the Other Half Life", do canal 4 inglês, que passou no canal 4 sueco ontem. A idéia do programa parece estranha, mas de fato ele é muito bem executado. Uma família rica patrocina uma família pobre durante um tempo e troca correspondências com ela. Num determinado ponto do patrocínio, eles se conhecem pessoalmente, uma família visita a outra em sua própria casa. Durante esse processo acontecem muitas filmagens na casa de ambas.

As famílias ricas justificam o patrocínio na maioria das vezes dizendo que tem sorte e que gostariam de ajudar alguém a ter uma vida melhor. Além disso, querem que os filhos tenham consciência do qual bem aventurados eles são. No caso das pobres, o que aparece e como eles fazem para sobreviver dia a dia, os maiores medos e previsões para o futuro.

O episódio que assisti, o primeiro da segunda temporada, não está disponível ainda na internet, mas vou coloquei o primeiro da série para vcs terem uma idéia. Vou tentar fazer um resumo para vcs e depois faço minhas observações. Acho que no final acabou sendo um efeito contrário ao que programa esperava, não fosse pelo fato da mãe da menina ter de fato arrumado um emprego por causa do programa. No início, a família rica recebeu uma filmagem com Iris apresentando sua casa e sua mãe. A menina doce e alegre mostra seu brinquedo favorito, que custou 5 pences, e que ela ama e o quarto onde dorme. A menina mostra tudo muito feliz e orgulhosa pois antes ela e a mãe viviam num trailler. Ela diz que a única coisa chata na vida dela é que a mãe não tem dinheiro e por isso trabalha muito e fica muito cansada e que nem todos os brinquedos custam 5 pences. Mas o fato é que ela só tem noção do quanto é pobre e do quão é ruim ser pobre depois que visita a casa da família rica.

Em um certo ponto do programa o pai da família rica tenta ajudar a mãe da garotinha a arrumar um emprego, afinal, ela não precisa ser patrocinada a vida toda, pois é uma mulher estudada, tem mestrado com honras em direito. Mas na Inglaterra, para exercer a profissão, um advogado precisa primeiro de ter um prática jurídica e essa parte eu não entendi muito bem como funciona. O que deu para entender é que a pessoa meio que tem que ser convidada (ou aceita) para a prática, e que na prática, só os filhos de famílias ricas conseguem. E o cara, o pai da família rica, um milionário, não tem influência suficiente para conseguir que ela entre na "panelinha".

Isso me fez lembrar de um amigo meu que mora aqui na Suécia há uns 10 anos. Ele me disse uma vez que por um lado, tem vontade de voltar para o Brasil, mas por outro não sabe se ainda consegue conviver com esse abismo existente entre os ricos e os pobres. Um lugar onde os clientes nem sequer olham na cara da pessoa que lhe serve, onde o cara que trabalha numa loja está (quase sempre) muito longe de ser seu vizinho. É realmente muito triste saber que a maioria das empregadas domésticas comem no mesmo lugar que o cachorro, onde a única diferença é a mesa. O que será que estamos fazendo para diminuir essa diferença? Quantas vezes alguém ainda vai ouvir um "Você sabe com quem está falando?" e ter que ficar calado? Por quanto tempo mais o mais importante sobre alguém vai ser o que essa pessoa tem e não o que ela é?

sábado, 3 de setembro de 2011

O que o mundo sabe sobre o Brasil

Depois de algumas experiências pela Europa, decidi revelar para meus compatriotas alguns chavões ainda vivos em mente estrangeira a respeito da nossa terra natal.

Bom, talvez o mais famoso seja a respeito da nossa capital, Rio de Janeiro. Sim, é isso que muita gente ainda pensa sobre o Brasil (isso quando acertam uma cidade que fica de fato dentro do Brasil e não jogam um "Buenos Aires"). Não é de se espantar que a visão que a maioria das pessoas tem do Brasil seja tão caótica, afinal, se na própria capital tem arrastões, favelas e top less, imagina o resto do país? Essa eu até engulo porque de fato, antes da mudança da capital para Brasília, a nossa capital era o Rio. Mas tem gente que fala São Paulo. Cara, não sei se sou ruim de História ou sei lá, mas São Paulo já foi a capital do Brasil? Eu acho que não...

Outro cliché super em voga: nos falamos espanhol, gente. Portanto, aprendam! Afinal, se vc chegar no Peru e não entender nada do que o povo tá falando, tem alguma disfunção, porque é a mesma língua, gente. Se não entendeu, ou é preconceito ou má vontade. É a mesma coisa de um parisiense que não entende o québequois... E eu perdendo tempo, sofrendo a minha vida toda para entender as regras de acentuação do português...

Outra coisa que não é cliché, mas que na verdade o povo não faz idéia, é o que comemos no Brasil. Alguns conhecem açaí, outros conhecem o guaraná (daquela nossa marca famosa), mas não sabem que é brasileiro. Gente, eu sinto pena, mas muita gente nesse mundo NUNCA comeu um pão de queijo. Que vida triste, nó (minha nossa senhora do perpétuo socorro)!!!! E a mandioca? Como alguém pode basear sua alimentação em batata e não conhecer a mandioca? Tem gente que acha que é africana. Ai ai... A mandioca é da terrinha, minha gente, 100%. Mas tudo bem, aceito o erro daqueles que acham que ela veio da África, afinal o maior produtor é a Nigéria (os nigerianos sabem das coisas!).

Agora pensa, o povo não sabe o que é queijo coalho, leitão a pururuca, muqueca capixaba, sarapatel, tucupi, tacacá, virada paulista... Daí para todo lugar que eu olho tem um restaurante indiano. Blerc! Mas porque isso? Será que os brasileiros não gostam da própria comida? Será que não temos mercado para ela?

Voltando aos clichés, vem o futebol. Nasceu no Brasil? É homem? É um Ronaldo em potencial.

Nasceu no Brasil, é mulher? Mulata globeleza! Samba aí e tira a roupa, mulher fácil!

Mas como diria Mouthogh "I'm too old for this shit!"


Some reall important information about Brazil: It is the biggest country in Latin America and the laguange is PORTUGUESE, okay? If you try to speak spanish with someone who cames form Brazil they will problably laugh, but only because we are very polite. But actually it is probably because of two reasons: We probably think you are stupid and never went to school or if you did than you just suck in Geography. The second can be because you probably look ridiculous trying to speak your poor spanish with a non-native spanish speaker.

If you just want to learn something, the capital city of Brazil is Brasilia (you can die if you don't know this precious information, remember that scary movie...). But, if you are from some developed imperialist country and want to invader with lousy excuse or fantasy of nuclear arms or terrorism, for you, the capital of Brazil can still been Buenos Aires.

In case you are trying to find a woman to get mary, because you are a chauvinist and cannot find a wife in your own country, live us alone, okay? We have a lot of problems to handle in our own country and our own gender difference problems, violence, sexual violence... We really don't need more people trying to exploit us. But if you are a gentle guy who knowns how to treat a women, how to cook, clean the house, take care of the kids... in this case, you are welcome. I actually have some single friends...

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Os dilemas da vida adulta

Eu lembro muito de minhas reflexões adolescentes. Outro dia estava escutando Raul Seixas e lembrando o quanto as músicas dele me tocavam. O que eu mais queria era sair da aba dos meus pais, ou usar meu "sapato 37". A minha vida se resumia a técnicas para alcançar esse objetivo. Eu pensava que uma lambreta e um apê alugado seriam minha felicidade eterna. Eu tinha planos apenas para esse estágio. Agora estou reescrevendo meus sonhos. E isso leva tempo para sair da bruma dos pensamentos e tomar forma.

Hoje me dei conta que passei muito tempo no mesmo caminho, tentando apenas conquistar minha independência. Muitas vezes ouço os sonhos das minhas amigas e tento me lembrar se algum dia sonhei com algo assim. E até certo ponto fico feliz em perceber que ganhei da vida muito mais do que esperava. Por muitas razões, que não vou explicar aqui, achei que era incapaz de amar e ser amada. Sempre respondia quando me perguntavam se eu queria casar e ter filhos que apenas o faria se encontrasse a pessoa perfeita, mas caso isso não acontecesse eu seria feliz com minha vida e talvez comprasse um gato para me fazer companhia.

Não era egoísmo da minha parte, mas nunca sonhei com meu casamento ou com meus filhos. Acho que de certa forma eu tentava provar, assim como a Carie Bradshaw, que era possível ser feliz solteira. E eu fui, até meus 20 e poucos (sou péssima com datas...). Hoje sou muito feliz casada e não sei se vou seguir o script tradicional. Acho que até hoje eu não sigo. De uma certa forma eu casar foi mais do que inesperado, tanto para mim quanto para todos que me conhecem bem. Talvez fosse o contrário, todos esparassem que eu seguisse o "destino" de toda mulher... Mas o fato é que, como já diria Peter Pan, "nunca diga nunca". Afinal, eu achei que nunca fosse ser feminista, e cá estou eu.

Ninguém tem obrigação de fazer o que a sociedade ou a família espera que façamos. Não devemos perseguir sonhos que não são nossos. E hoje em dia eu acho que muita gente põe o carro na frente dos bois. Não acho que casar muito novo ou constuir família jovem demais é uma boa idéia. Se por um lado se tem juventude, por esse mesmo lado juventude significa imaturidade. E fazer as coisas na pressa não dá tempo para pensar se é isso mesmo que queremos para o nosso futuro. Quem nunca morou sozinho não tem idéia do quanto cuidar de uma casa dá trabalho.

Não acho que eu sigo exatamente a prescrição de vida de toda a mulher. Acho que as mulheres podem ser o que quiserem. E não me vejo como apenas um apêndice ao lado do nome do meu marido. Aliás, as vezes fico puta em saber que se por um lado é mais prático ser formalmente casada, por outro é um tanto quanto sacal. O casal, para a justiça, é uma pessoa incompleta, afinal para tudo que um faz, o outro precisa assinar. Gostaria que fosse como na Suécia, onde para o governo e para Receita Federal o casal são pessoas independentes vivendo juntas e como elas se organizam, se pagam ou não as contas, se compram um carro sem contar para o parceiro, é problema delas. E também não é apenas porque me casei que fiquei "careta" ou "old school", ou que eu vá fazer exatamente o que querem que eu faça, afinal se cada pessoa é um universo, um casal são dois universos gerando um universo paralelo.

Hoje não tenho sonhos definidos, sei mais ou menos em que direção eles vão, mas não vou cometer o erro de sonhar colorido demais, afinal, é sempre bom deixar uma brecha para as boas surpresas da vida (porque as más vem sem serem convidadas).