quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Cabelos enrolados podem acabar com seu relacionamento?

Parece absurdo, mas não é. Esse é o título de uma postagem de um site especializado em cabelos cacheados. O depoimento era de uma leitora que enquanto grávida decidiu "assumir" os cachos pela praticidade. Reproduzo aqui um trecho do depoimento que pode ser encontrado no site natural curlly:

CurlyNikki recently shared a painful story about a woman who found the future of her marriage in jeopardy based on her decision to wear her hair natural. Although her husband agreed that she had more to offer to the relationship than her hair, and that their daughter’s naturally curly hair was “beautiful,” he still felt his pregnant wife’s “nappy” hair was unattractive.

For better or for worse, she agreed to wear more straight hairstyles, allowing the couple to reach a boggling agreement
that insured that his happiness and comfort would not be compromised by her appearance. Of course, what followed this courageous confession was a hailstorm of angry, confused, offended and empathetic comments by users who could barely stand the audacity of a man’s ultimatum towards his pregnant wife. But is this an isolated situation, or can having curly hair really be a deciding factor in whether or not a marriage can stand the test of time?


tradução:

"(...) recentemente compartilhou a dolorosa história de uma mulher que encontrou o futuro do seu casamento baseado na decisão de usar seu cabelo ao natural. Apesar do seu marido concordar que ela tinha mais para oferecer ao relacionamento do que apenas seu cabelo e concordar que o cabelo de sua filha naturalmente enrolado fosse bonito, ele ainda sentia o cabelo de sua esposa grávida bagunçado não fosse atraente.

Para melhor ou pior, ela concordou em usar mais seu cabelo liso, permitindo que ao casal alcançar um complexo acordo asegurando que sua felicidade e conforto não fosse comprometido pela sua aparência. Claro, o que se seguiu à sua corajosa confissão foi uma avalanche de comentários raivosos, confusos, ofensivos e enfáticos por usuários dizendo como o homem poderia ter a audácia de dar tal ultimato à sua esposa grávida. Mas essa é uma situação isolada ou pode mesmo o cabelo enrolado ser um fator decisivo ou o casamento não pode suportar o teste do tempo?


Em outra reportagem do site o título trazia a reflexão: o cabelo natural pode te fazer "enegrecer"?

Por essas duas rápidas leituras podemos inferir que existem pelo menos 2 preconceitos em relação aos cabelos enrolados: cabelo enrolado é feio e afro (ou talvez seja feio por ser afro).

Bom, nem preciso dizer o quão ruim e anti-natural esse padrão de beleza ariano-escandinavo (aliás, se o povo soubesse o quanto meus cachos fazem sucesso na Suécia...) Enfim, o que mais me deixou enojada foi a idéia das pessoas ligarem cabelos enrolados aos negros e por isso eles serem feios ou desprezados. É um absurdo, mas também verdade. Por essas não temos como negar que o racismo está mais presente no nosso dia a dia do que imaginamos. Afinal, uma minoria das mulheres brasileiras tem cabelos naturalmente lisos, mas uma rápida visualizada dentro de qualquer salão em qualquer lugar do país vemos que a maior procura é por escovas à base do secador ou tratamentos químicos para alisar os cabelos, as chamadas "progressivas". E quantas loiras! Alguns lugares parecem até uma sucursal sueca.

Não podemos negar que algumas mulheres queiram fazer o que bem entenderem de suas madeixas, mas o fato de dispensarem a maior parte do seu dinheiro tentanto ter as madeixas lisas e loiras me faz achar que não querem ser diferentes, e sim iguais. Iguais às européias e diferente da maioria das brasileiras, sobretudo das negras. A escravidão é uma mancha na nossa história, mas parece que o stigma negro nos traços é que tem de ser evitado, tentando fingir que ela nunca aconteceu. Os índios tem cabelo natualmente liso e uma mística ligada ao bom selvagem, o héroi nacional, o guarani. Não vou nem entrar no mérito indígena e do quem vem sido usado como desculpa para apagar toda a questão indígena.

Eu não tinha me tocado de toda essa discussão até ser alertada por um comentário de uma das BF's que foi quem achou a citação no site. Então, como boa representante dos cabelos afros, fui fazendo uma retrospectiva da minha história capilar. Tenho fotos linda de infância com meus cachinhos livres e soltos. Não lembro quando a tortura começou, mas de uma hora para outra meus cachos passaram a ficar "rebeldes". Estava decidido, meu cabelo deveria ser "domado". Vieram então as marias-chiquinha e rabos-de-cavalo que de tão apertados me deixavam com dor de cabeça. A idéia era puxar bastante a raiz para ver se o cabelo acostumava a ficar liso. Depois, no início da minha adolescência era época do relaxamento "Amacihair teen", que transformava meu cabelo cacheado em ondulado e deixava minha cabeça fedendo a amônia por uns 3 meses. Mas eu me submetia a isso porque ouvia da minha mãe que meu cabelo era feio. Tinhamos que fazer alguma coisa!

Na época dela, ela colocava a cabeça na tábua de passar e passava o cabelo a ferro. Hoje temos a chapinha. Mas na minha adolescência ainda não tinha chapinha. Eu cansei de ficar com a cabeça fedendo e deixei o meu cabelo crescer, pois segundo minhas fontes, com o peso meus cachos ficariam menos rebeldes. Mas eu não queria ter cabelos lisos, só não queria que as pessoas me olhassem como se eu fosse uma maluca saída do hospício. Sim, pois era assim que eu me sentia toda vez que deixava meu cabelo secar ao vento ou naturalmente. Eu então fazia uma enorme trança com ele molhado e quando o cabelo secava, estava ondulado. Mas era um trampo. Um cabelo daquele tamanho demorava 24 horas para secar. As vezes eu queria usar meu cabelão todo bagunçado, enrolado, livre e solto. Mas as comparações com Clara Nunes e Maria Bethania me desencorajavam, afinal, eu não era fã delas na época e elas estavam muito longe de ser o padrão de beleza de uma adolescente metaleira.

Sempre tive dor de cabeça ao prender meus cabelos apertados, o jeito mais fácil de domá-los. Algumas vezes recorria a touca, um método onde vc penteia o cabelo em torno da cabeça com auxílio de granpos. Pode secá-los ou dormir com uma touca de meia na cabeça, mas tem que virar para o outro lado, pois senão ele fica muito estranho. O problema dos secadores, para mim, sempre foi o barulho. Mesmo os mais silenciosos não são nada agradáveis. Tenho por mim que parte do "zumbido" que a minha mãe reclama do ouvido dela fazer é por causa das longas sessões imersa num secador de cabeça mais barulhento que um carro de fórmula 1, que disconfio que ela usaria até hoje se ele não tivesse quebrado após 20 anos de uso.

Bom, acho que apenas por esse rápido histórico, dá para perceber que se adequar ao padrão não é tão fácil. Além de requerer tempo e dinheiro, muitas vezes requer saúde, pois durante a gravidez e alguns tratamentos, as mulheres não podem fazer progressivas ou mesmo pintar o cabelo. As mulheres simplesmente alisam o cabelo porque acham que vai ser mais prático, mais simples, que ficarão mais bonitas. A verdade é que existe muito preconceito contra cabelos enrolados, inclusive essa falácia de que é mais fácil lidar com cabelos lisos. Daí voltamos ao caso lá de cima, da mulher que teve o casamento abalado por assumir seus cachos. Seria muito simples eu falar que a mulher apenas pode decidir não mais alisar os cabelos. Em teoria, mas na prática quantas mulheres alisam o cabelo por motivos que passam até pelo "profissionalismo"? Quando eu trabalhava em loja, minha gerente me disse que se eu não tivesse o cabelo curto, provavelmente me mandaria fazer escova, pois cabelo enrolado parece desleixo. Existem uma série de fatores externos que mexem com a auto-estima de uma mulher que tem cabelos enrolados.

Se você reparar, vai ver que durante todo o post, tem fotos minhas com minhas madeixas originais. Hoje, do meu lugar de fala, não me sinto mais obrigada a alisar meus cabelos. Mas isso foi um processo longo. Dá para perceber que eu sou branca, então não posso dizer que sofri racismo por causa dos meus cabelos, mas já ouvi coisas do tipo "Você fica mais bonita de escova". Acho que o precesso é tão longo, que quando alguma amiga me vê de escova, simplesmente diz "nossa, você fica tão estranha de cabelo liso"! Eu não sei se vcs lembram do meu post sobre ser baixinha. Não era fácil me achar uma mulher bonita sendo tão diferente do padrão, baixinha e de cabelos enrolados. E olha que quando eu me comparo com outras mulheres acho até que tenho poucos problemas.

Mas eu tenho uma carreira que me permite usar meus cabelos enrolados. Posso dizer até, que com minhas experiências de vida, consigo chegar para alguém e dizer, com toda propriedade, o quanto é ridículo aliar o modo com que uso meus cabelos com a minha competência. Mas quantas pessoas não tem essa oportunidade? Quantos chefes usam o cabelo como uma desculpa para "branquiar" seus funcionários? Sabemos que não é mais permitido selecionar funcionários pela aparência, mas critérios ainda muito subjetivos, como "se encaixar no perfil da empresa" ainda são usados. O que isso quer dizer no final? Eu queria perguntar qual é o real problema com os cabelos enrolados? Qual é o desleixo em eriçar em vez de pentear? Em afofar no lugar de prender? Estamos realmente atentos a malícia escondida por um simples conceito de beleza?

14 comentários:

Juliana Queiroz disse...

ótimo texto, Drix!!! Mas o que fazer quando vc adorava seus cachos da infância ena adolescencia resolveram desaparecer? Pois é, comigo foi o contrário... Invejo seus cachinhos! Vc alisando o cabelo após ficar mocinha e eu, de família baiana, louca por cachos, perdendo os meus! Meu cabelo ficou anelado, num tem mais os cachos de antes. Quando eu cacheava na faculdade, gastava uma grana c produtos importados p enrolá-lo mais e mais, fora o baby-liss!! Ah, mundo louco!!! Bitocas e venha logo se bronzear comigo!!! Separei sua lembrança de aniversário!

Drixz disse...

Amiga, curta suas ondas! ;)

Mariana K disse...

Eu era metaleira também, e do meu grupinho era a única que era loira e lisa natural. Eu pintava o cabelo de preto e super invejava as ondinhas e cachinhos das gurias, e dizia isso sempre que podia, porque várias delas estavam direto na chapinha e no relaxamento, e era visivelmente um sofrimento. Só que todas as novelas, revistas (sem falar nas famílias) diziam outra coisa... Espero que essa moda de "consertar defeitos" nas mulheres um dia passe, e as pessoas mudem porque querem e não porque acham que devem.

Glória Maria Vieira disse...

Ô Drixz! ='/
Estou com os olhos cheios d'água. Eu alisei meus cachinhos, sabe?! Não tem muito tempo. Foi em Julho desse ano. Não porque não gostasse dos meus encaracolados, mas porque, no fundo, essa atitude de alisá-los foi uma pressão do meio social que martelou tanto na minha cabeça que eu acabei cedendo...
Todas essas coisas que você relatou, eu passei quando os tinha. Não me importava tanto quanto outras pessoas, mas me feria, entende?! Feria ouvir que meu cabelo era um "inchu" de abelha...

Não vou me alongar muito, mas queria dizer a você que estou arrependida. Gosto de mim com lisos, mas foi preciso eu cair nessa besteira pra entender... =(( Eu quero meus bebês de volta. kkkk :/ (Nunca falei desse meu arrependimento a ninguém, a ninguém mesmo... Não quero ouvir da minha mãe que "eu te avisei" e etc, etc, etc...)

Tô pensando em fazer sabe o quê? Cortar não tão rente, mas quase, pra que eu volte as minhas origens. Será que voltam mesmo?! O que você acha?!:~ (Só acho que não ficarei muito bonitinha quase careca!=/)

Drixz disse...

Mariana, os meninos metaleiros são tão restritos quanto os outros. Eles vão ser seus amigos não importe o tipo de cabelo que tenha, mas a maioria dos meus amigos queria mesmo para namorar era uma patricinha metaleira. Foda!

Glória, se vc cortar curto, logo logo seus cachos voltam. Mas não economize no cabeleireiro não. Um corte bom é o segredo para cachos bonitos. ;)

Dária disse...

Baxinha com cachos, parece até que sou eu. Hoje uso o cabelo curto - mas os cachos permanecem claro. Quando era adolescente, contudo, deixava-os na cintura... e aí. Aí havia quem zoava dizendo que eu só tinha cabelo rss

Eu podia comentar mil coisas sobre este texto, mas vou só deixar um parabéns!! E um comentário: éstás linda nas fotos!

A propósito, a primeira foto, com uma praia atrás, é aqui em Natal?? Aquilo ali atrás é o morro do careca ou eu tô ficando louca???!

Drixz disse...

Dária, obrigada pelo elogio. A segunda foto foi sim tirada em Natal e aquele é o morro do careca. Adorei a cidade. Participei do simpósio Mulher e Literatura lá.

Natália disse...

Olá, nunca tinha tido o prazer de visitar seu site antes, mas lendo esta matéria, me emocionei muito com seu texto, muito bem escrito sem falar no assunto polêmico rs. Como você também sou baixinha e com o cabelo cacheado, passei por algumas de suas experiências, mas na infância o que mais me incomodava mesmo era o comprimento do meu cabelo, enquanto o de todas as minhas amigas eram no meio das costas o meu mal chegava aos ombros. E como nunca tive franja(minha mãe sempre disse que ficaria toda armada) também não suportava a ideia de fazer rabo de cavalo por "ficar com cara de menino". Mas parabéns pelo ótimo texto, muito sucesso!

Anônimo disse...

Tenho 23 anos e passei todos estes anos recusando ser quem eu sou, pois a sociedade diz que eu tenho que ter cabelo liso. Passei por vários episódios realmente embaraçosos,um bem marcante é que um salão se recusou a cortar o meu cabelo por ser enrolado. Quando finalmente sedi a toda esta pressão social e fiz relaxamento, me olhei no espelho e vi que aquela pessoa não era eu, não me senti feliz. Hoje em dia, assumi meu cabelo enrolado, sou bem mais feliz, gosto de mim e adoro meu país por causa dessa diversidade maravilhosa. É uma pena que haja esta lavagem cerebral eugênica, isto mata a nossa cultura. Agora estou à procura de um cabeleirero que corte o meu cabelo bem ( ele está com um péssimo corte, pois inúmeros cabelereiros fu***** com ele) e que não me ofereça uma progressiva assim que eu pise meus pés no salão. De verdade, tenho trauma de pisar em salão:me sinto uma espécie rara em extinção. Adorei ler seu texto. Sabe, é bom saber que existem pessoas que passaram pelo mesmo. Quando eu falo, muita gente diz que é coisa da minha cabeça...é horrível! Obrigada mesmo por expor seus sentimentos, não me senti sozinha...

Mirna disse...

A diversidade cultural não é um problema, mas uma bênção de Deus. Imagine se fosse tudo a mesma coisa? Eu amo meu país e todo o seu povo, mas às vezes sinto-me discriminada por ter o cabelos cacheados. Eu acho que nós temos que ter muita personalidade para suportar o abuso das pessoas. mal deve robotar

Tainara disse...

Quando li essa postagem lembrei dos meus cachos.Fui descriminada na escola a vida todo por não quer o cabelo liso e por isso usei a minha infância toda usando tranças e quando eu tinha uns 11 anos relaxaram meus cabelos que eram enormes e meus fios ficaram espigados e caíram.Na adolescência assumi meus cachos muitos diziam que meu cabelo era lindo,mas sempre tinha os que me colocavam apelidos ofensivos,acabei me rendendo a químicas e escovas e meus cachos não são tão bonitos como antes,fazem 7 meses que não relaxo os cabelos,estou disposta a parar com as químicas e assumir meu cabelo natural.Muito interessante a sua postagem!

Ana Carolina Batista Siqueira disse...

Me identifiquei com o texto. Quando faço chapinha ou escova e saio na rua percebo a diferença do olhar das pessoas; elas olham pra mim como se eu fosse muito mais bonita e interessante do que quando estou com meu cabelo cacheado. A sociedade não aceita, na verdade despreza esse tipo de cabelo. O meu caso é como o seu; sou visivelmente branca. Isso demonstra que a questão vai muito além de um racismo explícito.
Parabéns pelo texto! Bjo

Gisele Silva disse...

Engraçado.. Eu demorei 30 anos para assumir meus cachos e sinto este certo preconceito por parte de algumas pessoas próximas, bem próximas diga-se de passagem. Alguns amaram o fato de eu me assumir, outros nem tanto. Sabe, encarar comentários maldosos não é fácil, mas seria pior para mim se eu cedesse e voltasse a alisar meu cabelo, eu deixaria de ser a Gisele que sou física e psicologicamente...mas confesso que dói ouvir que seu cabelo está bagunçado e outras coisas mais...

Sibele disse...

Sempre tive cabelos mais lisos, mas com o tempo o fio engrossou e ele passou a ser algo entre ondulado e liso, dependendo do shampoo e condicionador usado na semana...com a onda das progressivas resolvi mantê-lo lisérrimo e gasto fortuna de três em três meses pra ficar assim: sem ondas e sem dar trabalho. Mas daí nasceu minha filha, que agora tem dois aninhos e cachinhos maravilhosos. Estou aprendendo a lidar com o cabelo dela, como pentear sem machucar, como torcer levemente as mechas para ficarem mais definidas em cachos, que produtos usar pra não deixar a raiz oleosa e as pontas secas... acho tudo lindo, mas já ouvi na escolinha e até na família que tenho que fazer isso ou aquilo pra ele "assentar". Quero que ela cresça com ele livre, mas não sei como protegê-la de um mundo que ainda acha que pode querer domar os cabelos, como se domavam as liberdades fundamentais das mulheres...