domingo, 19 de julho de 2009

Forma x conteúdo (ou a anã de circo)

Encerrada a nossa grande e profunda enquete me sinto na obrigação de fazer algumas considerações sobre o tema. Jogados assim sem contexto fica um pouco difícil decidir entre um ou outro. Se pensarmos em objetos talvez a forma seja mais importante que o conteúdo, mas se for comprar uma caixa de bomboms concerteza é o conteúdo que lhe interessa. Muita gente marcou os dois, forma e conteúdo foram os vencedores da enquete (\o/).

Agora quando se trata de pessoas, será que podemos colocar ambos no mesmo patamar. Não é justo considerar a forma de alguém. Até porque forma está ligada a um padrão que é arbitrário e exclusivo. Pensemos em beleza. É algo natural que nos salta aos olhos... Na minha opinião não. Padrões e formas são impostos. Temos que nos adaptar e desejar a forma. Muita gente anda esquecendo o conteúdo...

Só para exemplificar vou contar uma história que se passou comigo. Estava eu num barzinho bem descolado em Brasília comemorando o aniversário da minha cunhada que é uma pessoa de quem realmente gosto muito. Já saí pra butecar algumas vezes com os amigos dela e do meu cunhado que são igualmente pessoas muito legais agradáveis e divertidas. Coincidentemente todas as vezes que encontrei com eles estava no meu normal: calça jeans, camiseta (algumas vezes bata) e tennis (na maior parte das vezes surrado mesmo). Nesse dia, o do aniversário eu estava beeem mais arrumada do que o normal. Nada demais tbm, mas o pessoal notou a diferença. Sentamos na mesa e começamos a conversar com o povo.

Na mesa a minha frente estava minha cunhada conversando com um casal. Passei meus olhos de relance e vi. Depois de algum tempo percebi que todos, ela e o casal olhavam na minha direção. Pensei: "Ela deve estar comentando que sou a esposa do irmão do marido dela, normal". Mas então me dei conta de que olhavam com uma certa insistência, demorando mais do que um papo desses demoraria. No mesmo instante algumas pessoas que estavam sentadas na mesa conosco foram embora e nós decidimos mudar de lugar para ficarmos mais próximos dos outros. Tive assim que passar na frente da minha cunhada e do casal que estava a essa hora olhando fixamente pra mim. Achei que a infalível tática de olhar meio pra baixo e passar rápido ia me deixar menos constrangida, mas quando realizava o movimento a moça do casal pos o braço na minha frente e disse "Desculpe a indelicadeza, mas posso falar com vc um instante?" Eu para ser educada disse: "Claro, isso não é indelicadeza nenhuma", desfechei a minha cara e me preparei para ouvir. Minha cunhada nos apresentou (o casal era composto por colegas de trabalho do meu cunhado - tradutores da Unesco). Minha cunhada pediu licença e se afastou me deixando sozinha com eles. E então a conversa começou (será que era pertinente dizer que tomei uma Bohemia Weiss e mais dois chopps caseiros de cerva tipo Ale? Acho que não, vcs vão perceber que não faz muito diferença no curso da conversa, apenas talvez que meu raciocínio ficou um pouco lento).

A moça então começou: "Eu estava reparando em vc, vc é a esposa do irmão do Cris não é?" Eu repondi: "Sim, e falei meu nome pra ajudar a conversa...", ela continuou: "Pois é, a gente tava reparando em vc, tão bonita... (eu pensei n besteiras nesse minuto, mas só consegui olhar para os lados e perceber que não tinha ninguém pra me socorrer) ... É que eu tenho uma filha mais ou menos do seu tamanho... (Eu juro que pensei que ela ia falar idade, mas realmente era difícil, a minha interlocutora era muito jovem para ter uma filha de 26). Quando me toquei no que ela havia falado: "Tamanho?, putz, lá vou eu ouvir histórias de uma menina de 12 anos (a idade que eu parei de crescer)." Nessa hora a moça se levantou e eu percebi que ela deveria ser um palmo maior do que eu, mas parecia maior porque usava salto. "É que eu fiquei reparando em vc toda arrumada e super tranquila sem salto..." Ela preparou o terreno e chutou a bola: "A minha filha tem uns 16 anos e é baixinha que nem vc." Nessa hora eu pensei: Vai perguntar o nome do meu terapeuta, como pode uma baixinha ser feliz com a aparência, só com tarja preta!. Mas foi um pouco diferente...

A moça continuou: "Ela também esta com um probleminha hormonal e está um pouco cheinha, mas ela está um pouco traumatizada, vc sabe, essa fase é difícil, as meninas ficam muito preocupadas com a aprencia, por causa dos rapazes..." Bom, eu já não estava mais entendendo o objetivo quando ela continuou: "Sabe dá pra ver que ela está infeliz com a aprência, mas não quer usar salto, só usa blusa larga... E eu vi vc assim toda arrumadinha sem problema nenhum em ser baixinha queria muito que ela visse vc, (Faltou ela falar "Existe vida na tampice! Minha filha pode ser feliz!) nem usa salto, não está nem aí para a altura e tá aí, casada sem problemas...

Nessa hora quase saiu da minha boca o meu raciocínio que foi o seguinte:

Desde que saí do circo a minha vida melhorou muito, afinal a vida de anã de circo não é fácil, mas agora, para que me preocuparia com uma coisa tão besta?

Mas a santa cerva me impediu, eu acho. Mas não fechei a noite em branco. Minha resposta foi: Me desculpa a indelicadeza, mas eu vou falar porque não tenho problema com a altura. Tenho 1,52, se colocar um salto de 10cm vou ficar com 1,62 ou seja, continuarei baixinha, mas uma baixinha de salto e com a diferença de estar completamente desconfortável. Quanto à sua filha, acho que vc deveria falar pra ela não se preocupar, ela pode ser uma mulher bonita mesmo sendo baixinha. E desculpa acrescentar outra coisa, mas eu acho os padrões de beleza atuais muito rígidos e despropositados. Não tem lógica querer que as brasileiras sejam loiras de cabelo liso quando se sabe que genéticamente a maioria de nós tem cabelo enrolado. Imagine, tacar formol na cabeça só pra ficar na moda? Outra coisa que eu acho, é uma questão de personalidade. Você olha para a maioria das mulheres na TV e nas revistas e elas são todas iguais, cabelo liso, loiro, luzes, quer dizer, sua filha tem bem mais chance de chamar a atenção sendo ela mesma. Não tem nenhum problema ela ser baixinha, quem ligar pra altura que fique longe dela, pois certamente será um idiota vazio! Ela não tem que mudar para agradar os outros, isso é ridículo.

Acabei de falar e me dei conta de um fato engraçado: a minha interlocutora era uma baixinha de salto e era loira. Não sei dizer se falsa ou não, mas descobri que ela era holandesa, ou seja, devia dar muita importância para a altura, imagine uma holandesa com 1,60? Acredito que ela deva ter sofrido e não consiga acreditar em alguém que não sofra com isso.

E agora me diga, o que é importante para você, forma ou conteúdo?

4 comentários:

Mari disse...

Ixi amiga, é complicado isso... penso que conteúdo importa mais, mas a forma tb! Muitos padrões de beleza são mesmo arbitrários, mas de uma forma geral é a simetria e a harmonia que são consideradas belas. Por isso o lance do cabelo liso, é mais fácil de harmonizá-lo e tals... assim como usar cores que conversam entre si, ou roupas q não sejam espalhafatosas, ou ter um rosto simétrico... querendo ou não, a primeira coisa que vemos nos outros é a aparência, e querendo ou não julgamos as pessoas por isso. Normal tanto do ser humano quanto de outros animais. Nos objetos é a mesma coisa, se vc vai comprar uma cadeira não basta que ela satisfaça o objetivo (ser um lugar confortável pra sentar) mas a gente tb procura uma que agrade os olhos. É complicado, mas concordo que há vários tipos de beleza, e o que seria das morenas se todos gostassem de loiras? Ainda bem que tem gosto pra tudo hehehe bjoss

Anônimo disse...

Mari,
acho que esses argumentos são mais por uma questão de padronização do que verdades absolutas. Posso afirmar que as cores que conversam entre si são muitas vezes chatas aos olhos de alguns e surpreendentes aos olhos alheios. Coloco isso pois o meu cabelo escovado nunca me deixou harmônica como os cachos que carrego. Posso dar milhões de outros exemplos como as combinações de roxo com verde, verde e amarelo, verde e rosa, roupas espalhafatosas: o século 19 desconhecia a falta de harmonia dos vestidos vaporosos.
Dri,
mesmo com a maiga cerveja você conseguiu ser clara e precisa na sua argumentação.
Muito bom! Mas teria adorado se você tivesse dito a parte do circo.
Moca

Drixz disse...

Eu também acho forma um conceito de valor. Infelizmente não falei a parte do circo pq eu tenho uma veia cômica muito tímida que me impede de falar as coisas que penso. Mas essa história virou piada interna na família e rendeu muitas risadas. Eu só espero que a mãe tenha desistido de infernizar a filha...

Loreley disse...

Que essa filha encontre logo um circo para existir em espetáculos sem intervenções maniqueístas...
Por hora: votei no seu texto no blog da Lola. Vamos divulgá-lo mais!