terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Raul Seixas, insubstituível!

Eu acho o tratamento de muitos, principalmente da crítica, em relação ao Raul Seixas uma injustiça. Por ser dono de uma filosofia simples e compreensível é muitas vezes taxado de simplório e popular. Digo popular sim, mas simplório jamais! Na minha opinião parcial de fã eu digo que Raulzito era sim profético. Posso dizer que talvez esse desprezo também seja devido ao fato do Raul Seixas ser baiano, de classe média, não tendo mais do que o primário.

Resolvi fazer esse post para mostrar um pouco do Raul para aqueles que só conhecem Mosca na Sopa e Maluco Beleza. O repertório do Raul Seixas é composto de mais de 200 músicas que iam muito além das baladinhas. Carimbador Maluco, por exemplo, é uma prova de como a situação da época era burra demais para entender o nosso artista, pois ele foi chamado para cantá-la em rede nacional. Uma música que críticava claramente a censura.

A respeito da política econômica brasileira dizia:

A solução pro nosso povo
Eu vou dá
Negócio bom assim
Ninguém nunca viu
Tá tudo pronto aqui
É só vim pegar
A solução é alugar o Brasil!...

Nós não vamo paga nada
Nós não vamo paga nada
É tudo free!
Tá na hora agora é free
Vamo embora
Dá lugar pros gringo entrar
Esse imóvel tá prá alugar
Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!...

Os estrangeiros
Eu sei que eles vão gostar
Tem o Atlântico
Tem vista pro mar
A Amazônia
É o jardim do quintal
E o dólar dele
Paga o nosso mingau...


Já com relação ao meio ambiente (e outras cositas mas) As aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor:

Tá rebocado meu compadre
Como os donos do mundo piraram
Eles já são carrascos e vítimas
Do próprio mecanismo que criaram

O monstro SIST é retado
E tá doido pra transar comigo
E sempre que você dorme de touca
Ele fatura em cima do inimigo

A arapuca está armada
E não adianta de fora protestar
Quando se quer entrar
Num buraco de rato
De rato você tem que transar

Buliram muito com o planeta
E o planeta como um cachorro eu vejo
Se ele já não aguenta mais as pulgas
Se livra delas num sacolejo


Hoje a gente já nem sabe
De que lado estão certos cabeludos
Tipo estereotipado
Se é da direita ou dá traseira
Não se sabe mais lá de que lado

Eu que sou vivo pra cachorro
No que eu estou longe eu tô perto
Se eu não estiver com Deus, meu filho
Eu estou sempre aqui com o olho aberto

A civilização se tornou complicada
Que ficou tão frágil como um computador
Que se uma criança descobrir
O calcanhar de Aquiles
Com um só palito pára o motor

Tem gente que passa a vida inteira
Travando a inútil luta com os galhos
Sem saber que é lá no tronco
Que está o coringa do baralho

Quando eu compus fiz Ouro de Tolo
Uns imbecis me chamaram de profeta do apocalipse
Mas eles só vão entender o que eu falei
No esperado dia do eclipse

Acredite que eu não tenho nada a ver
Com a linha evolutiva da Música Popular Brasileira
A única linha que eu conheça
É a linha de empinar uma bandeira

Eu já passei por todas as religiões
Filosofias, políticas e lutas
Aos 11 anos de idade eu já desconfiava
Da verdade absoluta

Raul Seixas e Raulzito
Sempre foram o mesmo homem
Mas pra aprender o jogo dos ratos
Transou com Deus e com o lobisomem


Quanto à política e o serviço militar obrigatório, a clássica; Cowboy fora da lei:

Mamãe, não quero ser prefeito
Pode ser que eu seja eleito
E alguém pode querer me assassinar
Eu não preciso ler jornais
Mentir sozinho eu sou capaz
Não quero ir de encontro ao azar
Papai não quero provar nada
Eu já servi à Pátria amada
E todo mundo cobra minha luz
Oh, coitado, foi tão cedo
Deus me livre, eu tenho medo
Morrer dependurado numa cruz

Eu não sou besta pra tirar onda de herói
Sou vacinado, eu sou cowboy
Cowboy fora da lei
Durango Kid só existe no gibi
E quem quiser que fique aqui
Entrar pra historia é com vocês!


E outra do lado B, Mamãe eu não queria:

Larga dessa cantoria menino
Música não vai levar você lugar nenhum
Peraí mamãe, güenta aí

Mamãe, eu não queria
Mamãe, eu não queria
Mamãe, eu não queria
Servir o exército

Não quero bater continência (Trá-lá-lá-lá)
Nem pra sargento, cabo ou capitão (Trá-lá-lá-lá)
Nem quero ser sentinela, mamãe
Que nem cachorro vigiando o portão
Não!

Mamãe, eu não queria
Mamãe, eu não queria

Desculpe, Vossa Excelência
A falta de um pistolão
É que meu velho é soldado
E minha mãe pertence ao Exército de Salvação
Não!

Marcha soldado, cabeça de papel
Se não marchar direito vai preso pro quartel

Sei que é uma bela carreira
Mas não tenho a menor vocação
Se fosse tão bom assim mainha
Não seria imposição
Não!

Mamãe, eu não queria
Mamãe, eu não queria
Não, não, não
Servir o exército

Você sabe muito bem que é obrigatório
E além do mais você tem que cumprir com seu
dever com orgulho
Mamãe eu não queria

Você sabe muito bem que é obrigatório
E além do mais você tem que cumprir com seu
dever com orgulho e dedicação
Mamãe eu morreria
Pela causa meu filho, pela causa

Mamãe eu não queria
Mamãe, mamãe
O exército é o único emprego pra quem não
tem nenhuma vocação, mulé
Mamãe, mamãe
Eu...



Contra o serviço público, ou conformismo, Meu amigo Pedro:


Muitas vezes, Pedro, você fala
Sempre a se queixar da solidão
Quem te fez com ferro, fez com fogo, Pedro
É pena que você não sabe não

Vai pro seu trabalho todo dia
Sem saber se é bom ou se é ruim
Quando quer chorar vai ao banheiro
Pedro as coisas não são bem assim

Toda vez que eu sinto o paraíso
Ou me queimo torto no inferno
Eu penso em você meu pobre amigo
Que só usa sempre o mesmo terno

Pedro, onde você vai eu também vou
Mas tudo acaba onde começou

Tente me ensinar das tuas coisas
Que a vida é séria, e a guerra é dura
Mas se não puder, cale essa boca, Pedro
E deixa eu viver minha loucura

Lembro, Pedro, aqueles velhos dias
Quando os dois pensavam sobre o mundo
Hoje eu te chamo de careta, Pedro
E você me chama vagabundo

Pedro, onde você vai eu também vou
Mas tudo acaba onde começou

Todos os caminhos são iguais
O que leva à glória ou à perdição
Há tantos caminhos tantas portas
Mas somente um tem coração

E eu não tenho nada a te dizer
Mas não me critique como eu sou
Cada um de nós é um universo, Pedro
Onde você vai eu também vou

Pedro, onde você vai eu também vou
Mas tudo acaba onde começou

É que tudo acaba onde começou
Meu amigo Pedro



Contra o conformismo, a ditadura, etc, Não Pare na Pista:


Não pare na pista
É muito cêdo
Prá você se acostumar
Amor não desista
Se você pára
O carro pode te pegar
Bibi! Fonfon! Pepê!
Se você pára
O carro pode te pegar...(2x)

Você me xingando
De louco pirado
E o mundo girando
E a gente parado
Meu bem me dê a mão
Que eu vou te levar
Sem carro e sem mêdo
Pr'o guarda multar
Meu bem me dê a mão
Que eu vou te levar
Sem carro e sem mêdo
Prá outro lugar...

Não pare na pista
É muito cêdo
Prá você se acostumar
Amor não desista
Se você pára
O carro pode te pegar
Bibi! Fonfon! Pepê!
Se você pára
O carro pode te pegar...

Você me xingando
De louco pirado
E o mundo girando
E a gente parado
Meu bem me dê a mão
Que eu vou te levar
Sem carro e sem mêdo
Pr'o guarda multar
Meu bem me dê a mão
Que eu vou te levar
Sem carro e sem mêdo
Prá outro lugar...

Não pare na pista
É muito cêdo
Prá você se acostumar
Amor não desista
Se você pára
O carro pode te pegar
Bibi! Fonfon! Pepê!
Se você pára
O carro pode te pegar
Mamãe! Papai! Irmão!
Se você pára
O carro pode te pegar
Vovó! Nené! Lili!
Se você pára
O carro pode te pegar...


A para mim, a maior prova da mente profética de Raulzito; Pastor João e a Igreja invisível, já prevendo o crescimento das religiões de mercado:


Eu não sei se é o céu ou o inferno
Qual dos dois você vai ter que encarar
E foi pra não lhe deixar no horror
Que eu vim para lhe acalmar

Se o pecado anda sempre ao seu lado
E o demônio vive a lhe tentar
Chegou a luz no fim do seu túnel, minha filha
O meu cajado vai lhe purificar

Pois eu transformo água em vinho,
Chão em céu, pau em pedra, cuspe em mel
Pra mim não existe impossível
Pastor João e a igreja invisível (4x)

Para os pobres e deseperados
E todas as almas sem lar
Vendo barato a minha nova água benta
Três prestações, qualquer um pode pagar

O sucesso da minha existência
Está ligado ao exercício da fé
Pois se ela remove montanhas
Também tráz grana e um monte de mulher.

Pois eu transformo água em vinho,
Chão em céu, pau em pedra, cuspe em mel
Pra mim não existe impossível
Pastor João e a igreja invisível (2x)

Haa! Pastor João e a igreja invisível (3x)


Aqui estão algumas interpretações bem rápidas e superficiais do Raulzito, mas já dá para se ter uma idéia de algumas características do nosso rei do rock. Debochado, inteligente, perspicaz... Infelizmente ele não tinha olhos verdes nem era bonitão. Tão pouco vinha de família abastada e poderia escrever operetas, mas para mim, não faz a menor diferença. O Raul é um dos maiores gênios da música popular brasileira sim e não se limitava somente ao rock.

A, e sim ele era feminista, apesar de não entender muito bem as lésbicas:

Se esse amor
Ficar entre nós dois
Vai ser tão pobre amor
Vai se gastar...

Se eu te amo e tu me amas
Um amor a dois profana
O amor de todos os mortais
Porque quem gosta de maçã
Irá gostar de todas
Porque todas são iguais...

Se eu te amo e tu me amas
E outro vem quando tu chamas
Como poderei te condenar
Infinita tua beleza
Como podes ficar presa
Que nem santa num altar...

Quando eu te escolhi
Para morar junto de mim
Eu quis ser tua alma
Ter seu corpo, tudo enfim
Mas compreendi
Que além de dois existem mais...

Amor só dura em liberdade
O ciúme é só vaidade
Sofro, mas eu vou te libertar
O que é que eu quero
Se eu te privo
Do que eu mais venero
Que é a beleza de deitar...

Quando eu te escolhi
Para morar junto de mim
Eu quis ser tua alma
Ter seu corpo, tudo enfim
Mas compreendi
Que além de dois existem mais...

Amor só dura em liberdade
O ciúme é só vaidade
Sofro, mas eu vou te libertar
O que é que eu quero
Se eu te privo
Do que eu mais venero
Que é a beleza de deitar...


Fonte das letras: http://letras.terra.com.br/raul-seixas/

3 comentários:

caso.me.esqueçam disse...

realmente, muito foda! :)

mas nao entendi porque tu falasse que a maca era feminista... ou que tinha a ver com lesbianismo...

Drixz disse...

Falei da maçã por causa do trecho em que ele prega a liberdade sexual: Amor só dura em liberdade
O ciúme é só vaidade
Sofro, mas eu vou te libertar
O que é que eu quero
Se eu te privo
Do que eu mais venero
Que é a beleza de deitar...

Mas pode ser uma forçada de barra da minha parte, reconheço. Quanto o fato dele não entender as lésbicas, vem daquela famosa música, Rock das Aranhas.

Letrando disse...

Eu compreendo essa letra do Raul, partindo do pressuposto de que ele, embora não tenha sido um simpatizante assumido das causas feministas, mas já compreendia a mulher numa ótica de igualdade. Nessa música ele admite uma visão naturalizada do homem como um sujeito livre sexualmente, podendo se relacionar com mais de uma mulher, confirmando, assim, o discurso machista reproduzido socialmente, no entanto, ele também confere á mulher o direito de liberdade, de forma que a isente de julgamentos. Bom, Raul é, de fato, um cara que enxergava aquém do seu tempo. Embora ele não se reconhecesse apoiador das causas feministas, ele, de certa forma, nessa letra colocou a mulher numa posição de igualdade perante o homem. Viva! Viva! Viva! <3