sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Não é preciso ser mãe para falar de maternidade

Essa é a questão. Em toda discussão sobre aborto e maternidade sempre aparece uma hora ou outra comentários do tipo "Eu tenho x filhos, decidi (ou não) tê-los e estou muito feliz com isso". Bom, primeiro que muito raramente alguma mulher tem coragem de dizer que se arrependeu de ter filhos ou que a maternidade era pior do que esperava. Muitos podem pensar que a ausencia de comentários negativos se dá devido a perfeita adequação da mulher com a função materna e que as poucas que se arrependem sofrem de problemas psicológicos, mentais e etc.

Bem, eu não concordo com isso. Estou aqui falando do ponto de vista de uma filha, que teve uma mãe e viu a experiência dela de perto (e que ajudou a criar a própria irmã). A maternidade é uma função desvalorizada socialmente. Basta ver os incentivos de governo brasileiro para as mães. Além disso, maternar é apenas mais uma das funções desvalorizadas que a mulher é obrigada a enfrentar diariamente. Somam-se a essa, as tarefas domésticas. Que todos podemos notar que não são compartilhadas pela maioria dos homens brasileiros. Além disso, o cuidado com o bebê é algo cada vez mais complicado, pois a mulher é responsável pela saúde física e mental do feto (pois não pode beber, comer gordura enquanto está grávida), além de ter toda responsabilidade pelo desenvolvimento psicológico do filho. Isso eu li num livro, mas constatei de perto quando minha cunhada ficou grávida. Cada recomendação absurda que as pessoas faziam para ela...

Só que as pessoas esquecem de um pequeno detalhe. Nem toda mulher é igual e nem toda mulher tem aspirações parecidas. Além disso, a realização de uma pessoa tem mais fatores do que apenas a parentalidade. Sejamos francos, vivemos num mundo materialista e individualista e o modelo de maternidade vai contra tudo que a sociedade de consumo prega. Eu não sou a favor desse modelo de sociedade, mas concordo que a maternação não é tarefa exclusiva para a mulher. Eu sou uma que gosto de trabalhar e não sei se me sentiria confortavel dividindo minha vida apenas com um único ser que ainda não desenvolveu nem sua coordenação motora. Para falar a verdade, conheço muitas mulheres que parecem parar de pensar quando deixam de trabalhar apenas para cuidarem dos filhos. Algumas perdem suas habilidades sociais e quando saem de casa são motivo de vergonha, pois não conseguem dar conta de uma conversa adulta e civilizada. Muitas deixam a companhia de pessoas da própria idade, inclusive de outras mães, para brincarem com as crianças. Além de outros pais extremamente chatos que não sabem falar de outra coisa além dos próprios filhos. Eu entendo estar orgulhoso e feliz, mas vamos e convenhamos, algumas crianças não interagem direito com os outros até uns dois anos de idade, e é algo meio chato ser coagido a babar como os pais só porque o moleque falou "agu"? Ele só está fazendo o que todas as crianças fazem.

Tem uma amiga minha que acha crianças extremamente brochantes. Ela não entende como alguém pode ficar bobalhão e sair correndo para abraçar e tirar foto de uma criança que não é sua ou da sua família. Outra coisa engraçada que ela fala é que ela acha que crianças não deveriam ser trazidas para eventos sociais, a menos que elas saibam ficar caladas e não mexer onde não devem. Eu as vezes me irrito com as crianças alheias, principalmente porque alguns pais parecem querer apenas incomodar. Deixam o muleque esguelar, encher o saco, gritar, chorar... As vezes tenho a impressão que eles são como aqueles caras com cartazes dizendo "O mundo vai acabar em ...". Só que os cartazes são os filhos e eles dizem "Salve-se, não tenha filhos", outros querem apenas se esquecer dos moleques por algum tempo.

Mas nem tudo é assim. Existem crianças extremamente divertidas e inteligentes. As crianças europeias são, no geral, extremamente independentes e não ficam na aba dos pais como as brasileiras. Eu acho isso fantástico, pois se vc levar seu filho ao parquinho com um casal de amigos que tenha filhos, todos podem se divertir, tanto os pais quanto os filhos, pois quando os adultos se cansarem, sim, adultos são velhos, as crianças brincam entre si, sem aborrecer. Parece loucura, mas conheço mesmo crianças muito chatas que só brincam com adultos e vc tem que inventar a brincadeira pro muleque e ele ainda tem que sair ganhando.

Outra questão é que a sociedade vê como bom pai e marido aquele que faz o mínimo e como uma mãe normal, aquela que faz no mínimo o máximo. Não tá meio errada essa conta? Se o material genético da criança é 50/50 de cada um porque só um dos pais tem que ter a responsabilidade pelo cuidado? Vamos pensar no aspecto econômico também, será que a sociedade pode se dar ao luxo de desprezar a mão de obra mais qualificada que tem (e que ainda por cima, custa menos)? Ninguém vai convencer uma mulher de negócios a ter filhos se ela sabe que corre o risco de ser demitida porque vai ser obrigada a tirar a licença maternidade por 4 meses sem poder nem ao menos trabalhar meio expediente e que no máximo poderá contar com 1 mês e 2 semanas de ajuda do pai, se o cara quiser emendar as férias com a licença (mas eu acho que nem isso pode mais).

Todo mundo fala "Quando vc tiver filho vc vai entender". Será que isso é uma maldição? Só podemos entender a maternidade depois que tivermos filhos? Isso é um modo de deixar as mulheres curiosas e fazerem elas terem filhos? Será que pelo fato de acharmos que só podemos falar dela depois de passarmos por ela, estamos deixando de trabalhar por ela, de fazer com que a maternidade seja um encargo menor para mulher e que tenha uma maior participação da sociedade como um todo? Será que é por isso que estamos a esperar alguém que resolva esse problema por nós, porque depois de sermos mães, será muito tarde para questioná-la?

Também não é preciso ser mãe para maternar.

8 comentários:

Mariana disse...

Euh... então Drixz, varias coisas! Não acho que ser mãe/pai seja necessario para que qualquer pessoa (mulher ou homem) se engaje na luta por uma sociedade mais justa em relação à maternidade/paternidade. Mas em geral, essa crise so se torna urgente depois que as pessoas tem filhos porque antes é problema dos outros. E o olhar diante dos problemas é diferente também. Eu pro exemplo acho que a licença maternidade não so deve ser obrigatoria como mais longa. Como estudante na França eu não tive direito a qualquer licença ou prazo diferenciado e posso afirmar sem rodeios: é absurdo se exigir isso de um ser humano! Meio periodo??? Desculpa mas hahahahha! Nos primeiros meses vc fica de plantão 24hs, não dorme quase nada, fica preocupada o tempo todo, tem pediatra toda hora... e assim, pensemos como um sistema capitalista fdp: "vamos retirar o obrigatoriedade da licença e logo poderemos exigir que todas as mães voltem à trabalhar apos uma semana com a justificativa de que é preciso estar comprometida com a produtividade e a competitividade do mercado". Entende? Agora, sobre a licença paternidade, ja é outra coisa. é um absurdo mesmo essas licenças descabidas de uma semana!!! E diante do fato de não ser obrigatoria tem muito homem que nem tira a licença... um absurdo!
A conta da educação das crianças a sociedade cobra sempre da mãe, não do pai e muitos homens se aproveitam disso e defendem a continuação dessa realidade. é revoltante a sociedade ficar passando a mão na cabeça da macharada totalmente alheia à educação dos proprios filhos! Mãe é um ser que é cobrado constantemente, sem qualquer misericordia ou bom senso. Agora, entender a maternidade antes de ser mãe? Sorry mas não da não. é como querer entender sexo antes de fazer sexo. Por exemplo: eu não sou do tipo babona mas entendo um pai ou uma mãe que baba quando o bebê faz "agu". Independente de outras crianças fazerem "agu", naquela hora é o SEU bebê fazendo "agu" pela primeira vez e isso é emocionante para VOCE, que acompanha cada cocô, cada vômito, cada gripe, cada unha cortada. E eu entendo também os pais das crianças que não são super divertidas independentes, calminhas, sociaveis e fofinhas. Entendo porqu sou mãe de uma criança absdurdamente ativa, que precisa ser entretida e cuidada constantemente. So depois que me tornei mãe fui entender tudo isso e todo o universo da maternidade. Ser mãe é uma ruptura na sua vida e na sua identidade. Podemos até ser sensiveis a isso antes de acontecer conosco mas entender... acho dificil!

bjus!

Drixz disse...

Oi, Mari. Te entendo totalmente. Mas quando eu disse dividir a maternidade em meio período eu estava pensando no modelo sueco, onde a licença é de 18 meses sendo que é compartilhada pelo casal ou companheiro. Apenas 2 meses são obrigatórios para o pai e a mãe. Então se a mãe quiser trabalhar meio período enquanto o menino está na creche, ela pode. E se ela quiser dividir meio a meio a licença, ela tbm pode.

Eu entendo essa parte de babar pelo seu filho, mas nem toda mãe/pai entende isso. Tipo, todo mundo tem que babar tbm. Eu não sou do tipo emocional, então, todo mundo me olha torto quando não babo por essas coisas. Tipo, eu não sou psicopata, só não sou muito chegada em crianças e cachorros, mas gosto deles quando são legais. Eu gosto das minhas sobrinhas e algumas outras crianças que acho interessantes, mas nem todas, entende? Tipo, todo mundo acha que a mãe interior (de existência obrigatória em todas as mulheres) tem que fazer vc babar por todas as crianças e bebês que vc vê na rua.

Eu tenho certeza que não dá para entender o que é ser mãe antes de sê-lo, mas devemos pensar a respeito, pois se não nos for permitido questionar a maternidade sem ser mãe, os problemas das mães continuarão sem solução. Não podemos entender o que é ser mãe, mas o que é o modelo de maternidade, sim.

Palavras Vagabundas disse...

Drixz,
antes de mais nada me parece que você só conhece criança chata, rs
Sim tem criança chata, mas antes dela chatos são os pais, que acreditam que precisam se infatilizar para apreciar (e não educar) os filhos. Tive duas filhas, porque queria ser mãe, tive uma carreira e cheguei muito longe, inclusive ganhando o melhor dos prêmios possível em minha área. Minha vida profissional não atrapalhou ser mãe consciente e nem ser mãe atrapalhou ser profissional. Sim, eu tive um marido parceiro em todos os sentidos. Atente que minha filha mais velha já tem 33 anos e de lá para cá só vejo esse modelo se ampliar.
Crianças choram, são resmungonas, são briguentas e remelentas, é preciso acompanhar os deveres escolar e as companhias que andam, ensinar ética e civilidade, pois são humanos em construção.
Na minha modesta opinião se você não gosta de criança, não quer assumir as inúmeras responsabilidades que vem com o pacote, se vai culpar a maternidade por não ter uma carreira ou liberdade:NÃO SEJA MÃE!
Isso não constitui crime de "lesa majestade", mesmo que a sociedade assim o diga, pelo simples fato que esse crime não pode ser julgado,rs
Isso tudo não significa que alguém que não queira ser mãe não possa ser ótima companhia para crianças à sua volta por algumas horas.
bjs
Jussara

Drixz disse...

Exato, Jussara, concordo com vc. Mas dentro dessa sociedade determinante dos papéis de gênero tradicionais, até onde as mulheres são livres para decidir não ter filhos? A que ponto a maternidade é questionada antes de ser vivida? Será que as mulheres estão se perguntando isso? E a minha questão é ainda mais contundente. Até que ponto as mães não se escondem por trás desse dever dizendo "vc só saberá o que é ser mãe depois de ser", para não responderem as perguntas daquelas que um dia podem vir a ter filhos? Será que todas as mães são felizes com a maternidade (não com os filhos, mas com o dever)? Se não, elas falariam?

Mariana disse...

Então Drixz, acho que muitas mulheres que ja são mães se questionam. Outras tantas evitam se questionar sobre isso porque depois de assumir a maternidade imagino que seja doloroso demais admitir que se era mais feliz antes dela ou que no fim, esse papel não lhe cabe. Não ha como voltar atras... Nesse sentido acho que as mulheres que não são mães devem sim pensar sobre a maternidade! Pensar se esse é um papel que elas realmente precisam assumir para serem felizes. Ou em que medida esse desejo é uma simples projeção de um modelo imposto pela sociedade. Isso tudo é extremamente saudavel e so pode ter consequências positivas para todas as mulheres. O meu argumento anterior foi no sentido de discutir o verbo entender. Não ha como entender sem passar por isso. E mais: a gente se surpreende muito nesse processo. Ja vi gente durona e sem o menor potencial pra babão virar papai coruja. Ja vi maria-mole virar mãe-quebra-tudo... A mater/paternidade muda as pessoas, a visão que elas tem do mundo, das suas vidas e das crianças em geral. E a gente passa a entender os babões, mesmo que não seja um deles...
Qto ao meio periodo, independente de creche, marido ou o que quer que seja, durante os primeiros meses a criança não dorme a noite toda, tem crises de colica constantes e se alimenta de 3 em 3 horas (qdo não em livre demanda!). é extenuante para a mãe (que muitas vezes também é quem fornece o leite) ter que assumir essa dupla jornada. Qto menor o bebê mais dependente ele é da mãe. Acho que deixar a criança (mesmo que por meio periodo) tão nova aos cuidados da creche pode ser prejudicial para o desenvolvimento dela e para o bem estar fisico psicologico da mãe, que geralmente é cobrada para compensar toda e qualquer ausência.
Acho cruel colocar uma opção dessas em pauta pelo perigo dela se tornar um padrão no mercado de trabalho.

bjus!

Mariana disse...

ps: eu não babo por todos os bebês que eu vejo na rua. Mas ja interajo com aqueles que se propõe a interagir comigo. me divirto com a criançada alheia. Ja os franceses não babam nem nos proprios filhos. Sem culpa nem ressentimento. Ninguém ta nem ae pra bebê nenhum.

Drixz disse...

É, eu não tinha pensado nisso. Tenho que estudar um pouco mais o sistema sueco e ver se a mãe pode tirar mais q dois meses direto sem ser "coagida" pela empresa. Mas assim pelo que entendi do sistema deles, tem pelo menos um dos pais em casa durante um ano e seis meses. A criança não precisa ir para creche. Mas os pais costumam economisar os últimos meses da licença para poder voltar mais cedo do trabalha pois quando são muito pequenos, as crianças só tem aula até às 3 da tarde.

Quanto a entender a maternidade, bom, eu tento entender os problemas que o modelo atual pode proporcionar a mulher, mas não consigo imaginar as transformações que a maternidade poderia ter em mim, por exemplo. Tanta coisa pode mudar a gente da água pro vinho (ou vice-versa) eu imagino o que a maternidade pode fazer com a gente. Tem gente que diz que eu seria uma ótima mãe, mas além de me achar muito nova, eu morro de medo de ter uma vida dependendo de mim. :/ Mas enfim, toda mulher deve pensar no assunto seriamente né, pois se um dia nos depararmos com ela, seria muito melhor ter uma sociedade mais adaptada à ela.

Vinicius disse...

O papo de só poder falar sobre a maternidade quem já foi mãe é como aquele em que homens não podem ser feministas por não sofrerem a opressão que as mulheres sofrem.