terça-feira, 7 de julho de 2009

Impressões

Eu lembro de quando lia mais poesia e achava fantástica a capacidade que algumas tinham de olhar para objetos simples e dar uma profundidade inimaginável àquele objeto. Outras conseguiam captar uma emoção ou impressão tão fluída e analisar o que se passa na nossa mente ou no coração em um átimo de segundo. Me peguei pensando então se essas coisas acontecem com quem não lê poesia. É um pouco a reflexão do Discurso sobre o Método, do Sérgio Sant'anna.

Eu pensei nisso porque ontem, ao esperar dar a hora da minha aula, pois sempre acabo chegando uns cinco minutos mais cedo, olhei para a portaria do prédio da frente e lembrei da casa da minha mãe. A portaria era revestida de madeira e coincidentemente com a mesma decoração, um vaso de plantas e um espelho. Acho que muitas portarias são daquele jeito, mas aquela me pareceu incrivelmente igual a de mamãe. Lembre da época que morava lá e estranhamente me veio uma memória "objetal". Lembrei do meu primeiro quarto que dividia com a minha irmã, do poster do Guns que fui obrigada a tirar pois a picurrucha tinha medo. Lembrei das duas camas iguais com a cômoda no centro e o armário que era mais antigo e vinha da nossa outra casa e cujas portas estavam rabiscadas por dentro de palavrões e desenhos que eu e o Betinho fazíamos. Lembrei da maçaneta que vivia saindo na nossa mão e da prateleira que arrancou metade da parede por causa da minha teimosia em colocar todos os meus livros no meu quarto.

Acabei fazendo outra associação de idéias. Faz pouco mais de um ano que saí da casa da minha mãe e quando vou lá tudo parece tão diferente. Algumas vezes parece que faz séculos que não moro mais lá e outras tantas chego a ter a impressão de que a casa que morei não é aquela. Levo alguns minutos para achar os copos e ela já nem pede para eu ajudar a colocar a mesa pois demoro tanto para encontrar as coisas que acabo sendo inútil. Sempre tive a sensação de que aquela casa não era minha, mas agora ela estão tão distante das minhas lembranças. A comparação me faz ver que realmente me separei. Não só da família, mas da adolescência (ou da imaturidade, se vcs preferirem). Claro que muitas coisas ainda vão se resolver nesse meio tempo, outras tantas podem mudar, mas sinto como se o meu futuro estivesse tomando uma forma mais autônoma daquela que ligava todos nós naquela casa e naquela família.

3 comentários:

Mari disse...

Eu acho que podemos ser vários num só. A filhinha que mora com mamãe, a mulher independente, a esposa, a adolescente... não sinto necessidade de me separar de nenhuma das minhas facetas =)

Drixz disse...

Podemos sim, mas se não mudarmos demais a nossa relação com o ambiente. Acho que não são facetas. Vc não vai ser ou querer ser a menininha da mamãe pra sempre em todas as ocasiões.

Marcela disse...

Às vezes nós não temos escolha: algumas facetas simplesmente passam a pertencer apenas ao passado e não fazem mais parte de nós.