É assim que alguns de meus amigos tem me apresentado a terceiros por aí. Eu achei bastante curioso da primeira vez, mas devido o meu baixo grau de sociabilidade presumida, apenas dei uma risadinha sem graça e cumprimentei a pessoa. Mas como isso ficou frequente, eu comecei a desconfiar que haveria algo mais por trás desse pensamento.
Outro dia tomando café da manhã com o roomie ele me falou algo que ajudou a matar a charada. Ele me disse que estava contando para mãe dele um pouco mais sobre os colegas de república e eis que ele fala "A Drica é feminista". E a mãe dele respondeu "Mas ela é casada e é tão normal!"
Outra amiga minha ficou um pouco constrangida ao mostrar os bicos de confeitar na minha presença. Ela disse "Sei que você não deve gostar dessas coisas, mas eu adoro". Eu achei estranho, pois até tenho alguns utensílios para confeitar, só não tenho habilidade para tal. Daí minha outra amiga acabou por me defender antes mesmo que eu soubesse que estava sendo de algum modo "acusada". Ela disse "O feminismo não tem nada a ver com negar a feminilidade, tem a ver com liberdade de escolha".
Pronto, eu entendi. Ainda aquela velha história de comparar feministas com mulheres mal realizadas, infelizes, masculinas. Ser feminista para mim é algo tão natural que as vezes esqueço de que as pessoas não sabem o que é o feminismo. Ou pior, fazem questão de estereotipar as feministas. Em parte eu concordo com o que minha amiga disse. Ser feminista é ser a favor da liberdade de escolha. Eu não sou contra a feminilidade e sim o que ela representa.
É a velha discussão, ser feminina deveria ser uma opção e não uma regra. Um comportamento que não deveria estar relacionado com uma característica "biológica". Mas o que é ser feminina? Ou, o que está por trás da feminilidade? Ser feminina é gostar de rosa, brincar de barbie, ser graciosa, submissa e servil? Ser feminina é ser mulher? Para aquelas que torcem o nariz para o feminismo, uma provocação: A feminilidade combina com o poder?
Outra dica, por mais que o feminismo seja considerado um termo pejorativo, as mulheres de hoje em dia, feministas ou não, gozam de privilégios adquiridos pelas lutas dos movimentos feministas. O voto, a pílula, a lei Maria da Penha... O próprio fato de nós podermos trabalhar e comprar bicos para confeitar é uma conquista adquirida através das lutas feministas. Antigamente as mulheres não podiam trabalhar sem autorização do marido. Dirigir, que eu sei que minhas amigas adoram, não era bem visto nem considerado "feminino".
Eu até acho graça ao ver a felicidade nos bicos de confeitar, mas mais por ignorância minha (eu não faço a menor idéia de como funciona todo aquele aparato) do que por desprezo. Uma feminista pode ser feminina? Algumas coisas são difíceis de mudar. Por exemplo, padrões de beleza. Eu, que já reneguei o feminismo, também já fui escrava do padrão. E talvez uma feminista que não seja "masculina" ajude um pouco as pessoas a desmistificarem a feminazi. Mas eu respeito todos, todas, todxs em seu estilo, modos de expressão e etc. Mas não me venha com essa de padrão. Mulher tem que ser assim ou assado. Mulher? O que é isso?
Eu não vou responder. Quero apenas dizer que ser feminista e legal não são coisas opostas. Eu não sei se sofreria do mesmo tipo de vocativo se fosse flamenguista ou petista ou comunista. Até entendo que sou uma das poucas feministas que meus amigos conheçem e talvez por isso a explicação "Ela é feminista, mas é legal". Mas se eu sou a única feminista que vc conhece e sou legal, porque não assumir que as feministas são legais? Talvez também as pessoas precisem de um espaço amostral maior para descobri que sim, feministas são legais.
Mas de novo, eu não posso generalizar. Afinal de contas, a liberdade de escolha está aí, para as feministas serem chatas, se elas quiserem. Mas elas não vão ser chatas porque feministas...
Para mais goles cafeinados de feminismo, eu recomendo, também especialidade da casa:
Ser feminista é como ser baixinha, partes 1 e 2
Feminista vegetariana
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terça-feira, 31 de julho de 2012
quarta-feira, 7 de março de 2012
É impossível viver com menos de ...R$
Não é a primeira nem a última vez que escuto isso, mas acho que sempre vai me incomodar. Muita gente vem até mim e/ou até o meu marido reclamado de grana. Não sei exatamente porque despertamos nos outros a confiança para falarem de suas vidas financeiras, mas as vezes acho que é pena.
As pessoas vêm reclamar do preço dos imóveis, do aluguel e afins. Esperam um apoio para reclamar que dão como certo da nossa parte. É, realmente reclamamos e muito do preço das coisas aqui em Brasília, mas nossa lógica as vezes desconcerta a lógica típica brasiliense, como alguns leitores devem ter notado. Quem disse, por exemplo, que o único meio de declarar a independência dos pais é comprando um apartamento no Plano Piloto? Qual o problema de morar de aluguel?
Muitos respondem que o preço do aluguel é o preço de uma prestação. Claro, mas quanto você tem que dar de entrada para conseguir uma prestação equivalente à um aluguel? Você certamente não paga aluguel na casa dos seus pais, mas perde em maturidade (além de falta de vergonha na cara em obrigar seus pais a te sustentarem até os 40 anos). Mas parece ser bem mais vergonhoso morar de alugar num lugar mais ou menos do que viver com os pais.
Pagar aluguel num lugar melhor e não ter carro = MORTE. Quase ninguém da classe média da cidade entende essa lógica. NÃO HÁ VIDA SEM CARRO NA CAPITAL!!! Todos(?) são unanimes. "Como vocês fazem para ir pro barzinho?" Não sei o que mais choca, a pergunta ou a resposta "Quando o bar é perto, vamos à pé, quando é longe, vamos de carona e às vezes, de taxi". O preço da corrida não dá duas cervas. E se tivesse mais gente para rachar a corrida com a gente, saia ainda mais barato.
Mas a melhor de todas, é quando a conversa chega no ponto onde surge a "oportunidade" de animar o nosso interlocutor dizendo que o fato dele ganhar uma soma "x" por mês no momento, não implica que deva necessariamente pular da ponte, pois nós, com a metade (às vezes 1/3) sobrevivemos satisfatoriamente. É sempre o clímax do assunto. Quando chega esse ponto, até as pessoas da mesa que estavam em papos mais interessantes e acalorados se viram para nós com uma mistura de espanto e incredulidade no olhar. Outros nos olham como se fossem escutar a receita de um milagre, mas a maioria tem dentro de si, no momento da revelação, a idéia pré-concebida de que nós estamos falando um absurdo. Todos partilham depois de outro fenômeno, a negação. Alguns repetem 3 vezes para afastar a praga "É impossível, é impossível, é impossível!"
A afirmação é tanto unanime quanto categórica: é impossível viver como vivemos. É engraçado, pois eu e o Marcos vivemos a 4 anos assim e não temos nenhuma dívida. Devo acrescentar ainda que raramente pedimos dinheiro emprestado, e quando pedimos, pagamos. Nunca ficamos no vermelho desde que moramos juntos. As pessoas não entendem mesmo a diferença entre viver e viver de forma confortável. Nós não queremos dizer que todos devam ter o mesmo padrão de vida que temos. Mas ofende as vezes essa idéia pré concebida de noivado em Paris, casamento na mansão das águas e apartamento no Sudoeste que a maioria das pessoas aqui tem. (Aliás, noivar na festa da Laje é muito mais legal!).
É difícil pensar fora da casinha. Todo mundo sonha com uma propaganda de margarina, inclusive um golden retriever na casinha do jardim. Mas a vida é muito mais do que isso. Precisar mesmo, a gente só precisa de um lugar para dormir e ter o que comer. Se a sua felicidade se resume a ter um iphone 4, eu não posso afirmar, mas posso arriscar a dizer que tem algo de errado com seus valores e/ou prioridades. Se para ter filho você precisa de dinheiro para a babá, acho que começou pelo lado errado.
Mas voltando a afirmação do começo, é impossível viver com XR$ por mês, eu gostaria de lembrar que o salário mínimo são 600 e alguma coisa. E existem muitas famílias que vivem com menos do que isso. Quando eu escuto essa informação ou vejo a reação de algumas pessoas tenho vontade de perguntar "Você quer que eu não exista?"
Outras coisas passam pela minha cabeça quando vejo a incredulidade no rosto dos que afirmam que é impossível viver com x reais por mês. As vezes acham que eu devo uma explicação a essas pessoas. Elas parecem querer que eu diga que sou louca ou que estou completamente equivocada e enganada. Querem que eu me retrate. "Como é possível viver com x reais por mês e estar feliz?" Como não ter vergonha em ser da classe C? No fundo o que elas realmente pensam, eu acho, é "Você não tem vergonha de ser pobre?".
Deixa eu só acrescentar um parágrafo, antes de concluir meu texto. Vergonha a gente tem que ter de roubar, de explorar os outros, de desrespeitar as leis, de não ter educação, de se prostituir num emprego que não gosta só por causa do dinheiro. A gente nunca deve ter vergonha de viver com verdade.
Mas é engraçado, quase todos são unanimes em afirmar, dinheiro não traz felicidade.
As pessoas vêm reclamar do preço dos imóveis, do aluguel e afins. Esperam um apoio para reclamar que dão como certo da nossa parte. É, realmente reclamamos e muito do preço das coisas aqui em Brasília, mas nossa lógica as vezes desconcerta a lógica típica brasiliense, como alguns leitores devem ter notado. Quem disse, por exemplo, que o único meio de declarar a independência dos pais é comprando um apartamento no Plano Piloto? Qual o problema de morar de aluguel?
Muitos respondem que o preço do aluguel é o preço de uma prestação. Claro, mas quanto você tem que dar de entrada para conseguir uma prestação equivalente à um aluguel? Você certamente não paga aluguel na casa dos seus pais, mas perde em maturidade (além de falta de vergonha na cara em obrigar seus pais a te sustentarem até os 40 anos). Mas parece ser bem mais vergonhoso morar de alugar num lugar mais ou menos do que viver com os pais.
Pagar aluguel num lugar melhor e não ter carro = MORTE. Quase ninguém da classe média da cidade entende essa lógica. NÃO HÁ VIDA SEM CARRO NA CAPITAL!!! Todos(?) são unanimes. "Como vocês fazem para ir pro barzinho?" Não sei o que mais choca, a pergunta ou a resposta "Quando o bar é perto, vamos à pé, quando é longe, vamos de carona e às vezes, de taxi". O preço da corrida não dá duas cervas. E se tivesse mais gente para rachar a corrida com a gente, saia ainda mais barato.
Mas a melhor de todas, é quando a conversa chega no ponto onde surge a "oportunidade" de animar o nosso interlocutor dizendo que o fato dele ganhar uma soma "x" por mês no momento, não implica que deva necessariamente pular da ponte, pois nós, com a metade (às vezes 1/3) sobrevivemos satisfatoriamente. É sempre o clímax do assunto. Quando chega esse ponto, até as pessoas da mesa que estavam em papos mais interessantes e acalorados se viram para nós com uma mistura de espanto e incredulidade no olhar. Outros nos olham como se fossem escutar a receita de um milagre, mas a maioria tem dentro de si, no momento da revelação, a idéia pré-concebida de que nós estamos falando um absurdo. Todos partilham depois de outro fenômeno, a negação. Alguns repetem 3 vezes para afastar a praga "É impossível, é impossível, é impossível!"
A afirmação é tanto unanime quanto categórica: é impossível viver como vivemos. É engraçado, pois eu e o Marcos vivemos a 4 anos assim e não temos nenhuma dívida. Devo acrescentar ainda que raramente pedimos dinheiro emprestado, e quando pedimos, pagamos. Nunca ficamos no vermelho desde que moramos juntos. As pessoas não entendem mesmo a diferença entre viver e viver de forma confortável. Nós não queremos dizer que todos devam ter o mesmo padrão de vida que temos. Mas ofende as vezes essa idéia pré concebida de noivado em Paris, casamento na mansão das águas e apartamento no Sudoeste que a maioria das pessoas aqui tem. (Aliás, noivar na festa da Laje é muito mais legal!).
É difícil pensar fora da casinha. Todo mundo sonha com uma propaganda de margarina, inclusive um golden retriever na casinha do jardim. Mas a vida é muito mais do que isso. Precisar mesmo, a gente só precisa de um lugar para dormir e ter o que comer. Se a sua felicidade se resume a ter um iphone 4, eu não posso afirmar, mas posso arriscar a dizer que tem algo de errado com seus valores e/ou prioridades. Se para ter filho você precisa de dinheiro para a babá, acho que começou pelo lado errado.
Mas voltando a afirmação do começo, é impossível viver com XR$ por mês, eu gostaria de lembrar que o salário mínimo são 600 e alguma coisa. E existem muitas famílias que vivem com menos do que isso. Quando eu escuto essa informação ou vejo a reação de algumas pessoas tenho vontade de perguntar "Você quer que eu não exista?"
Outras coisas passam pela minha cabeça quando vejo a incredulidade no rosto dos que afirmam que é impossível viver com x reais por mês. As vezes acham que eu devo uma explicação a essas pessoas. Elas parecem querer que eu diga que sou louca ou que estou completamente equivocada e enganada. Querem que eu me retrate. "Como é possível viver com x reais por mês e estar feliz?" Como não ter vergonha em ser da classe C? No fundo o que elas realmente pensam, eu acho, é "Você não tem vergonha de ser pobre?".
Deixa eu só acrescentar um parágrafo, antes de concluir meu texto. Vergonha a gente tem que ter de roubar, de explorar os outros, de desrespeitar as leis, de não ter educação, de se prostituir num emprego que não gosta só por causa do dinheiro. A gente nunca deve ter vergonha de viver com verdade.
Mas é engraçado, quase todos são unanimes em afirmar, dinheiro não traz felicidade.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Porque as pessoas são tão convencionais?
Ando me fazendo essa pergunta constantemente. Antigamente, quando tinha dinheiro sobrando para gastar com roupas, costumava me vestir de maneira bem peculiar. Muitas das minhas amigas me achavam "fashion". Hoje em dia, a moda é a última das minhas preocupações. Atrás das contas, do mercado, do trabalho... e olha que essas não são minhas prioridades.
Pois bem, ouvi uns rumores de que minhas amigas andam preocupadas com o fato d'eu não me casar de branco. Oh, meu deus! Realmente me parece muito importante, afinal, sou mesmo virgem né? O que eu ainda não entendi é o porquê. Eu não acho branco uma cor muito chamativa. Vou me casar no cartório, pombas. As vezes da vontade de fazer as coisas justamente para ser do contra. Todos se importam com isso, uma coisa estúpida, pois bem, vou me casar de calça jeans, camiseta e allstar.
Bom, uma amiga minha me ofereceu um vestido branco. Ainda não vi, mas ela tem muito bom gosto, deve ser mesmo lindo. Talvez eu que não combine com ele, afinal, não estou muito animada para me fantasiar, representar "a noiva" e agradar as convenções.
Talvez eu devesse explicar o que é o casamento para mim, que sou atéia. É garantir os meus direitos legais e os do meu companheiro perante a lei e terceiros, pois caso algo aconteça, é de minha vontade deixar algum suporte e amparo ao homem que eu amo. E futuramente, quem sabe, proteger nossos filhos de terceiros ávidos por trocados. É assim que eu enxergo o casamento que todos veem como um ritual, uma festa pomposa, vestido branco e buquê.
O ritual pra mim já aconteceu. Quando meu namorado me disse que queria casar comigo nós decidimos que independente de onde nossas vidas nos levassem dali por diante ficaríamos juntos. Sempre tentando estar na mesmo hora e no mesmo lugar, juntos. Foi como se ele dissesse "Caso largue tudo para ficar comigo na Inglaterra eu farei o possível para retribuir". Ele acabou ficando por aqui e eu fiz tudo que podia para recompensá-lo. Ninguém largou nada por ninguém, mas a vida já nos testou diversas vezes. Quando meu pai faleceu e eu vi minha tristeza estampada nos olhos dele tive certeza de que éramos mais do que apenas namorados. Quando eu fiquei ao seu lado sofrendo com a incerteza do futuro, minha agonia só acabou com a dele ao ver o resultado do seu exame de doutorado no Brasil. Isso pra mim foi o meu casamento. O primeiro cartão que recebi dele me faz chorar até hoje de emoção. Lembro de todas as coisas que compramos e ganhamos para a nossa casa juntos. Dos momentos difícies que já passamos, dos apertos financeiros, dos programas bobos e baratos que são mais valiosos que qualquer coisa. Podemos ficar a sós conversando sobre tudo e comendo pizza da sadia e tomando cerveja na cama.
Sabe quando eu me casei? Quando naquele famoso dia do qual não me lembro da data, mas me lembro dos detalhes, ele olhou bem no fundo dos meus olhos e disse "Andei pensando muito nesses dias que fiquei fora e não sei se vc vai aceitar, mas eu quero me casar com vc. Vc quer se casar comigo?". E então ele colocou no meu pescoço o seu colar preferido como se fosse uma aliança. Eu aceitei na hora e um amigo nosso tirou uma foto bem no momento em que nos beijamos. Eu estava com uma bermuda jeans, uma blusa preta com uma inscrição dizendo "Home is where the heart is...". Tbm me lembro da roupa que ele usava e de como seus olhos brilhavam naquele dia. Voilà, amigas! Aqui está a descrição do meu casamento. O momento especial, ritualístico, mítico pelo qual todas as mulheres espera a vida toda. É esse dia que eu estou comemorando. É por causa da felicidade que começou ali, com aquela mútua escolha, que eu quero festejar e não porque eu tenho que usar branco, carregar um buquê representando a minha fertilidade e blá, blá, blá.
Não esperem que eu me importe com tudo isso, porque pra mim o mais importante eu já tenho. Não se exasperem com o meu desinteresse. E não esperem que eu seja como todo mundo ou que eu faça o que esperem que eu faça porque sou EU e não outra pessoa quem está ali. As coisas não podem ser iguais porque as pessoas não são iguais. Eu só espero que vcs estejem tão felizes quanto eu e que possam comemorar com os corações plenos de alegria e vazios de convenções e expectativas triviais.
Talvez eu aceite o vestido, quem sabe. Mas não porque tem que ser branco, mas porque eu goste. Mas se ele for verde, amarelo, laranja ou vermelho, nada me impedirá de gostar dele também.
Pois bem, ouvi uns rumores de que minhas amigas andam preocupadas com o fato d'eu não me casar de branco. Oh, meu deus! Realmente me parece muito importante, afinal, sou mesmo virgem né? O que eu ainda não entendi é o porquê. Eu não acho branco uma cor muito chamativa. Vou me casar no cartório, pombas. As vezes da vontade de fazer as coisas justamente para ser do contra. Todos se importam com isso, uma coisa estúpida, pois bem, vou me casar de calça jeans, camiseta e allstar.
Bom, uma amiga minha me ofereceu um vestido branco. Ainda não vi, mas ela tem muito bom gosto, deve ser mesmo lindo. Talvez eu que não combine com ele, afinal, não estou muito animada para me fantasiar, representar "a noiva" e agradar as convenções.
Talvez eu devesse explicar o que é o casamento para mim, que sou atéia. É garantir os meus direitos legais e os do meu companheiro perante a lei e terceiros, pois caso algo aconteça, é de minha vontade deixar algum suporte e amparo ao homem que eu amo. E futuramente, quem sabe, proteger nossos filhos de terceiros ávidos por trocados. É assim que eu enxergo o casamento que todos veem como um ritual, uma festa pomposa, vestido branco e buquê.
O ritual pra mim já aconteceu. Quando meu namorado me disse que queria casar comigo nós decidimos que independente de onde nossas vidas nos levassem dali por diante ficaríamos juntos. Sempre tentando estar na mesmo hora e no mesmo lugar, juntos. Foi como se ele dissesse "Caso largue tudo para ficar comigo na Inglaterra eu farei o possível para retribuir". Ele acabou ficando por aqui e eu fiz tudo que podia para recompensá-lo. Ninguém largou nada por ninguém, mas a vida já nos testou diversas vezes. Quando meu pai faleceu e eu vi minha tristeza estampada nos olhos dele tive certeza de que éramos mais do que apenas namorados. Quando eu fiquei ao seu lado sofrendo com a incerteza do futuro, minha agonia só acabou com a dele ao ver o resultado do seu exame de doutorado no Brasil. Isso pra mim foi o meu casamento. O primeiro cartão que recebi dele me faz chorar até hoje de emoção. Lembro de todas as coisas que compramos e ganhamos para a nossa casa juntos. Dos momentos difícies que já passamos, dos apertos financeiros, dos programas bobos e baratos que são mais valiosos que qualquer coisa. Podemos ficar a sós conversando sobre tudo e comendo pizza da sadia e tomando cerveja na cama.
Sabe quando eu me casei? Quando naquele famoso dia do qual não me lembro da data, mas me lembro dos detalhes, ele olhou bem no fundo dos meus olhos e disse "Andei pensando muito nesses dias que fiquei fora e não sei se vc vai aceitar, mas eu quero me casar com vc. Vc quer se casar comigo?". E então ele colocou no meu pescoço o seu colar preferido como se fosse uma aliança. Eu aceitei na hora e um amigo nosso tirou uma foto bem no momento em que nos beijamos. Eu estava com uma bermuda jeans, uma blusa preta com uma inscrição dizendo "Home is where the heart is...". Tbm me lembro da roupa que ele usava e de como seus olhos brilhavam naquele dia. Voilà, amigas! Aqui está a descrição do meu casamento. O momento especial, ritualístico, mítico pelo qual todas as mulheres espera a vida toda. É esse dia que eu estou comemorando. É por causa da felicidade que começou ali, com aquela mútua escolha, que eu quero festejar e não porque eu tenho que usar branco, carregar um buquê representando a minha fertilidade e blá, blá, blá.
Não esperem que eu me importe com tudo isso, porque pra mim o mais importante eu já tenho. Não se exasperem com o meu desinteresse. E não esperem que eu seja como todo mundo ou que eu faça o que esperem que eu faça porque sou EU e não outra pessoa quem está ali. As coisas não podem ser iguais porque as pessoas não são iguais. Eu só espero que vcs estejem tão felizes quanto eu e que possam comemorar com os corações plenos de alegria e vazios de convenções e expectativas triviais.
Talvez eu aceite o vestido, quem sabe. Mas não porque tem que ser branco, mas porque eu goste. Mas se ele for verde, amarelo, laranja ou vermelho, nada me impedirá de gostar dele também.
domingo, 19 de julho de 2009
Forma x conteúdo (ou a anã de circo)
Encerrada a nossa grande e profunda enquete me sinto na obrigação de fazer algumas considerações sobre o tema. Jogados assim sem contexto fica um pouco difícil decidir entre um ou outro. Se pensarmos em objetos talvez a forma seja mais importante que o conteúdo, mas se for comprar uma caixa de bomboms concerteza é o conteúdo que lhe interessa. Muita gente marcou os dois, forma e conteúdo foram os vencedores da enquete (\o/).
Agora quando se trata de pessoas, será que podemos colocar ambos no mesmo patamar. Não é justo considerar a forma de alguém. Até porque forma está ligada a um padrão que é arbitrário e exclusivo. Pensemos em beleza. É algo natural que nos salta aos olhos... Na minha opinião não. Padrões e formas são impostos. Temos que nos adaptar e desejar a forma. Muita gente anda esquecendo o conteúdo...
Só para exemplificar vou contar uma história que se passou comigo. Estava eu num barzinho bem descolado em Brasília comemorando o aniversário da minha cunhada que é uma pessoa de quem realmente gosto muito. Já saí pra butecar algumas vezes com os amigos dela e do meu cunhado que são igualmente pessoas muito legais agradáveis e divertidas. Coincidentemente todas as vezes que encontrei com eles estava no meu normal: calça jeans, camiseta (algumas vezes bata) e tennis (na maior parte das vezes surrado mesmo). Nesse dia, o do aniversário eu estava beeem mais arrumada do que o normal. Nada demais tbm, mas o pessoal notou a diferença. Sentamos na mesa e começamos a conversar com o povo.
Na mesa a minha frente estava minha cunhada conversando com um casal. Passei meus olhos de relance e vi. Depois de algum tempo percebi que todos, ela e o casal olhavam na minha direção. Pensei: "Ela deve estar comentando que sou a esposa do irmão do marido dela, normal". Mas então me dei conta de que olhavam com uma certa insistência, demorando mais do que um papo desses demoraria. No mesmo instante algumas pessoas que estavam sentadas na mesa conosco foram embora e nós decidimos mudar de lugar para ficarmos mais próximos dos outros. Tive assim que passar na frente da minha cunhada e do casal que estava a essa hora olhando fixamente pra mim. Achei que a infalível tática de olhar meio pra baixo e passar rápido ia me deixar menos constrangida, mas quando realizava o movimento a moça do casal pos o braço na minha frente e disse "Desculpe a indelicadeza, mas posso falar com vc um instante?" Eu para ser educada disse: "Claro, isso não é indelicadeza nenhuma", desfechei a minha cara e me preparei para ouvir. Minha cunhada nos apresentou (o casal era composto por colegas de trabalho do meu cunhado - tradutores da Unesco). Minha cunhada pediu licença e se afastou me deixando sozinha com eles. E então a conversa começou (será que era pertinente dizer que tomei uma Bohemia Weiss e mais dois chopps caseiros de cerva tipo Ale? Acho que não, vcs vão perceber que não faz muito diferença no curso da conversa, apenas talvez que meu raciocínio ficou um pouco lento).
A moça então começou: "Eu estava reparando em vc, vc é a esposa do irmão do Cris não é?" Eu repondi: "Sim, e falei meu nome pra ajudar a conversa...", ela continuou: "Pois é, a gente tava reparando em vc, tão bonita... (eu pensei n besteiras nesse minuto, mas só consegui olhar para os lados e perceber que não tinha ninguém pra me socorrer) ... É que eu tenho uma filha mais ou menos do seu tamanho... (Eu juro que pensei que ela ia falar idade, mas realmente era difícil, a minha interlocutora era muito jovem para ter uma filha de 26). Quando me toquei no que ela havia falado: "Tamanho?, putz, lá vou eu ouvir histórias de uma menina de 12 anos (a idade que eu parei de crescer)." Nessa hora a moça se levantou e eu percebi que ela deveria ser um palmo maior do que eu, mas parecia maior porque usava salto. "É que eu fiquei reparando em vc toda arrumada e super tranquila sem salto..." Ela preparou o terreno e chutou a bola: "A minha filha tem uns 16 anos e é baixinha que nem vc." Nessa hora eu pensei: Vai perguntar o nome do meu terapeuta, como pode uma baixinha ser feliz com a aparência, só com tarja preta!. Mas foi um pouco diferente...
A moça continuou: "Ela também esta com um probleminha hormonal e está um pouco cheinha, mas ela está um pouco traumatizada, vc sabe, essa fase é difícil, as meninas ficam muito preocupadas com a aprencia, por causa dos rapazes..." Bom, eu já não estava mais entendendo o objetivo quando ela continuou: "Sabe dá pra ver que ela está infeliz com a aprência, mas não quer usar salto, só usa blusa larga... E eu vi vc assim toda arrumadinha sem problema nenhum em ser baixinha queria muito que ela visse vc, (Faltou ela falar "Existe vida na tampice! Minha filha pode ser feliz!) nem usa salto, não está nem aí para a altura e tá aí, casada sem problemas...
Nessa hora quase saiu da minha boca o meu raciocínio que foi o seguinte:
Desde que saí do circo a minha vida melhorou muito, afinal a vida de anã de circo não é fácil, mas agora, para que me preocuparia com uma coisa tão besta?
Mas a santa cerva me impediu, eu acho. Mas não fechei a noite em branco. Minha resposta foi: Me desculpa a indelicadeza, mas eu vou falar porque não tenho problema com a altura. Tenho 1,52, se colocar um salto de 10cm vou ficar com 1,62 ou seja, continuarei baixinha, mas uma baixinha de salto e com a diferença de estar completamente desconfortável. Quanto à sua filha, acho que vc deveria falar pra ela não se preocupar, ela pode ser uma mulher bonita mesmo sendo baixinha. E desculpa acrescentar outra coisa, mas eu acho os padrões de beleza atuais muito rígidos e despropositados. Não tem lógica querer que as brasileiras sejam loiras de cabelo liso quando se sabe que genéticamente a maioria de nós tem cabelo enrolado. Imagine, tacar formol na cabeça só pra ficar na moda? Outra coisa que eu acho, é uma questão de personalidade. Você olha para a maioria das mulheres na TV e nas revistas e elas são todas iguais, cabelo liso, loiro, luzes, quer dizer, sua filha tem bem mais chance de chamar a atenção sendo ela mesma. Não tem nenhum problema ela ser baixinha, quem ligar pra altura que fique longe dela, pois certamente será um idiota vazio! Ela não tem que mudar para agradar os outros, isso é ridículo.
Acabei de falar e me dei conta de um fato engraçado: a minha interlocutora era uma baixinha de salto e era loira. Não sei dizer se falsa ou não, mas descobri que ela era holandesa, ou seja, devia dar muita importância para a altura, imagine uma holandesa com 1,60? Acredito que ela deva ter sofrido e não consiga acreditar em alguém que não sofra com isso.
E agora me diga, o que é importante para você, forma ou conteúdo?
Agora quando se trata de pessoas, será que podemos colocar ambos no mesmo patamar. Não é justo considerar a forma de alguém. Até porque forma está ligada a um padrão que é arbitrário e exclusivo. Pensemos em beleza. É algo natural que nos salta aos olhos... Na minha opinião não. Padrões e formas são impostos. Temos que nos adaptar e desejar a forma. Muita gente anda esquecendo o conteúdo...
Só para exemplificar vou contar uma história que se passou comigo. Estava eu num barzinho bem descolado em Brasília comemorando o aniversário da minha cunhada que é uma pessoa de quem realmente gosto muito. Já saí pra butecar algumas vezes com os amigos dela e do meu cunhado que são igualmente pessoas muito legais agradáveis e divertidas. Coincidentemente todas as vezes que encontrei com eles estava no meu normal: calça jeans, camiseta (algumas vezes bata) e tennis (na maior parte das vezes surrado mesmo). Nesse dia, o do aniversário eu estava beeem mais arrumada do que o normal. Nada demais tbm, mas o pessoal notou a diferença. Sentamos na mesa e começamos a conversar com o povo.
Na mesa a minha frente estava minha cunhada conversando com um casal. Passei meus olhos de relance e vi. Depois de algum tempo percebi que todos, ela e o casal olhavam na minha direção. Pensei: "Ela deve estar comentando que sou a esposa do irmão do marido dela, normal". Mas então me dei conta de que olhavam com uma certa insistência, demorando mais do que um papo desses demoraria. No mesmo instante algumas pessoas que estavam sentadas na mesa conosco foram embora e nós decidimos mudar de lugar para ficarmos mais próximos dos outros. Tive assim que passar na frente da minha cunhada e do casal que estava a essa hora olhando fixamente pra mim. Achei que a infalível tática de olhar meio pra baixo e passar rápido ia me deixar menos constrangida, mas quando realizava o movimento a moça do casal pos o braço na minha frente e disse "Desculpe a indelicadeza, mas posso falar com vc um instante?" Eu para ser educada disse: "Claro, isso não é indelicadeza nenhuma", desfechei a minha cara e me preparei para ouvir. Minha cunhada nos apresentou (o casal era composto por colegas de trabalho do meu cunhado - tradutores da Unesco). Minha cunhada pediu licença e se afastou me deixando sozinha com eles. E então a conversa começou (será que era pertinente dizer que tomei uma Bohemia Weiss e mais dois chopps caseiros de cerva tipo Ale? Acho que não, vcs vão perceber que não faz muito diferença no curso da conversa, apenas talvez que meu raciocínio ficou um pouco lento).
A moça então começou: "Eu estava reparando em vc, vc é a esposa do irmão do Cris não é?" Eu repondi: "Sim, e falei meu nome pra ajudar a conversa...", ela continuou: "Pois é, a gente tava reparando em vc, tão bonita... (eu pensei n besteiras nesse minuto, mas só consegui olhar para os lados e perceber que não tinha ninguém pra me socorrer) ... É que eu tenho uma filha mais ou menos do seu tamanho... (Eu juro que pensei que ela ia falar idade, mas realmente era difícil, a minha interlocutora era muito jovem para ter uma filha de 26). Quando me toquei no que ela havia falado: "Tamanho?, putz, lá vou eu ouvir histórias de uma menina de 12 anos (a idade que eu parei de crescer)." Nessa hora a moça se levantou e eu percebi que ela deveria ser um palmo maior do que eu, mas parecia maior porque usava salto. "É que eu fiquei reparando em vc toda arrumada e super tranquila sem salto..." Ela preparou o terreno e chutou a bola: "A minha filha tem uns 16 anos e é baixinha que nem vc." Nessa hora eu pensei: Vai perguntar o nome do meu terapeuta, como pode uma baixinha ser feliz com a aparência, só com tarja preta!. Mas foi um pouco diferente...
A moça continuou: "Ela também esta com um probleminha hormonal e está um pouco cheinha, mas ela está um pouco traumatizada, vc sabe, essa fase é difícil, as meninas ficam muito preocupadas com a aprencia, por causa dos rapazes..." Bom, eu já não estava mais entendendo o objetivo quando ela continuou: "Sabe dá pra ver que ela está infeliz com a aprência, mas não quer usar salto, só usa blusa larga... E eu vi vc assim toda arrumadinha sem problema nenhum em ser baixinha queria muito que ela visse vc, (Faltou ela falar "Existe vida na tampice! Minha filha pode ser feliz!) nem usa salto, não está nem aí para a altura e tá aí, casada sem problemas...
Nessa hora quase saiu da minha boca o meu raciocínio que foi o seguinte:
Desde que saí do circo a minha vida melhorou muito, afinal a vida de anã de circo não é fácil, mas agora, para que me preocuparia com uma coisa tão besta?
Mas a santa cerva me impediu, eu acho. Mas não fechei a noite em branco. Minha resposta foi: Me desculpa a indelicadeza, mas eu vou falar porque não tenho problema com a altura. Tenho 1,52, se colocar um salto de 10cm vou ficar com 1,62 ou seja, continuarei baixinha, mas uma baixinha de salto e com a diferença de estar completamente desconfortável. Quanto à sua filha, acho que vc deveria falar pra ela não se preocupar, ela pode ser uma mulher bonita mesmo sendo baixinha. E desculpa acrescentar outra coisa, mas eu acho os padrões de beleza atuais muito rígidos e despropositados. Não tem lógica querer que as brasileiras sejam loiras de cabelo liso quando se sabe que genéticamente a maioria de nós tem cabelo enrolado. Imagine, tacar formol na cabeça só pra ficar na moda? Outra coisa que eu acho, é uma questão de personalidade. Você olha para a maioria das mulheres na TV e nas revistas e elas são todas iguais, cabelo liso, loiro, luzes, quer dizer, sua filha tem bem mais chance de chamar a atenção sendo ela mesma. Não tem nenhum problema ela ser baixinha, quem ligar pra altura que fique longe dela, pois certamente será um idiota vazio! Ela não tem que mudar para agradar os outros, isso é ridículo.
Acabei de falar e me dei conta de um fato engraçado: a minha interlocutora era uma baixinha de salto e era loira. Não sei dizer se falsa ou não, mas descobri que ela era holandesa, ou seja, devia dar muita importância para a altura, imagine uma holandesa com 1,60? Acredito que ela deva ter sofrido e não consiga acreditar em alguém que não sofra com isso.
E agora me diga, o que é importante para você, forma ou conteúdo?
quarta-feira, 1 de julho de 2009
Feminista vegetariana
"Nada pior que uma feminista vegetariana!". Era o que eu (isso mesmo, euzinha) costumava dizer assim que entrei na faculdade. Outro dia, quando escrevi o post sobre Antifeminismo, me diverti lembrando de como eu criticava "legitimamente" as feministas. Tentei recuperar o meu raciocínio na época e eu realmente achei coisas interessantes. Veja se você não caiu em algum desses.
Eu andava com meus amigos e muitos deles eram homens. Eu queria parecer descolada. Sabe como é, pela primeira vez na vida eu deixava de ser a esquizita e para "melhorar" a minha auto-estima ainda estava 13 kilos mais magra do que era no segundo grau. Os meninos tinham uma verdadeira hojeriza de feministas. Era praticamente uma hunanimidade que feministas eram mulheres mal-amadas, de suvaco cabeludo e lésbicas. Hoje em dia eu não vejo nenhum problema de uma mulher ser assim, mas realmente para mim que estava descobrindo a minha "feminilidade" esse estereótipo me parecia mais uma ameaça.
Além disso, eu andava muito com os amigos do meu irmão, que fazia História Eu era caloura de Letras, mal tinha começado a estudar e vinha aquele povo todo me falando em Foucault, Marx, Hobsbam e etc. Eu realmente não entendia xongas do que eles falavam, mas achava tudo uma teoria da conspiração, gente que ficava procurando sarna pra se coçar. Além disso não conseguia dar muita credibilidade para aquele bando de filhinho de papai que queria mudar o mundo fumando maconha no CA. Não conseguia ver muita rebeldia nisso. Para completar, o curso de História tinha uma pós-graduação em Estudos Feministas, mas até onde eu fiquei sabendo dos boatos ele acabou por desavenças internas. Outra coisa que eu não conseguia entender muito bem era como as feministas queriam melhorar a condição da mulher se não conseguiam entrar em concenso. Claro que eu era beeem mal informada à respeito dos acontecimentos internos da UnB...
Para piorar a imagem que eu tinha do feminismo conhecia algumas feministas vegetarianas extremamente intransigentes. Aquele tipo de pessoa que quando você está comendo faminta ela chega pra você e começa a descrever o modo como aquele pedaço de carne no seu prato foi abatido ou então te chama de assassino. Elas eram agressivas em suas posições políticas e eu sempre gostei de uma boa discussão. Achava que deveriam me convencer na conversa e pra mim isso era apelação. Outra coisa que me ajudou a ter um pouco de medo das feministas foi uma professora que eu tive que nem dava nada relacionado ao feminismo, mas era do grupo das feministas da História. Ela não tinha empatia, isso era fato. Ficava irritada porque as alunas falavam mal o francês em sala e não conseguiam discutir mais profundamente os temas, mas a culpa era parcialmente delas. Outra coisa que me deixava reticente eram umas exigências despropositadas do tipo "sentem direito na carteira". Pra quê? Eu me perguntava. E essas pequenas coisas me ajudavam a concordar com os preconceitos: feministas eram exageradas e procuravam sarna para se coçarem.
Depois de muito tempo eu fui descobrir mais profundamente que o feminismo não impedia a minha sexualidade ou a minha "vaidade", mas ele ia me fazer refletir profundamente nas implicações que isso teria. Ao ouvir, o até então meu ídolo, meu irmão dizer "Sabe porque o papai sempre me mandava comprar pão no seu lugar? Porque ele dizia: - Vá comprar pão. É um favor que você faz à sua irmã. Ela é mulher, já vai sofrer tanto na vida...". E o meu irmão concordava com isso porque achava que eu ignorava a inferioridade da minha posição e sofreria mais ainda por ser uma mulher "inconformada".
Comecei então a notar a perversidade desses argumentos que refutam o feminismo. São argumentos tão bem construídos que estão em voga até os dias de hoje. Parece que o feminismo distancia as mulheres da normalidade - isso quer dizer, os papéis tradicionais (mãe e dona-de-casa). Fala-se com euforia da pouca contribuição masculina das tarefas domésticas como uma vitória feminista quando na verdade não passam de uma tentativa de "calar a boca" das feministas. Comemora-se a entrada na mulher no mercado de trabalho esquecendo que muitas vezes elas o fazem por terem sido levadas a terem filhos e depois abandonadas por homens que são obrigados a pagarem somente 30% dos seus salários enquanto as mulheres devem abrir mão de si mesmas para os filhos. Fico chocada ao ver as mulheres perdendo os cabelos em salões de quinta para ficarem com o cabelo liso ou ver nos lugares chiques uma proliferação gigante de loiras oxigenadas todas com o mesmo corte de cabelo ou ver na vitrine da C&A uma coleção para mulheres adultas inspirada na BARBIE!!!
Eu reconheço que em alguns casos há um exagero na postura, mas não no argumento. O feminismo não é o mesmo dos anos 70, mas talvez nos falte um pouco mais daquela postura militante. Acho que devemos tentar esclarecer um pouco mais da teoria para os leigos, afinal se você é feminista é porque já se convenceu da importância de se debaterem certas questões por outra ótica. Quantas mulheres ainda sofrem por serem gordinhas ou terem pouco peito sem saber da perversidade desse padrão? Se não há injustiças porque aquele parecer favorável à pedofilia do STJ? Porque prostituição é um problema feminino.
Eu fiz minhas pazes com o feminismo lendo O Espartilho de Lygia Fagundes Telles na aula da uma professora que me ajudou a me decidir entre a Literatura e a Lingüística escolhendo a primeira. Ela me mostrou como pode passar visões intencionadas que reflitam ou apenas repitam idéias pré-concebidas. Será que posso ser a intermediária dessa relação pra mais alguém? Espero que sim.
Eu andava com meus amigos e muitos deles eram homens. Eu queria parecer descolada. Sabe como é, pela primeira vez na vida eu deixava de ser a esquizita e para "melhorar" a minha auto-estima ainda estava 13 kilos mais magra do que era no segundo grau. Os meninos tinham uma verdadeira hojeriza de feministas. Era praticamente uma hunanimidade que feministas eram mulheres mal-amadas, de suvaco cabeludo e lésbicas. Hoje em dia eu não vejo nenhum problema de uma mulher ser assim, mas realmente para mim que estava descobrindo a minha "feminilidade" esse estereótipo me parecia mais uma ameaça.
Além disso, eu andava muito com os amigos do meu irmão, que fazia História Eu era caloura de Letras, mal tinha começado a estudar e vinha aquele povo todo me falando em Foucault, Marx, Hobsbam e etc. Eu realmente não entendia xongas do que eles falavam, mas achava tudo uma teoria da conspiração, gente que ficava procurando sarna pra se coçar. Além disso não conseguia dar muita credibilidade para aquele bando de filhinho de papai que queria mudar o mundo fumando maconha no CA. Não conseguia ver muita rebeldia nisso. Para completar, o curso de História tinha uma pós-graduação em Estudos Feministas, mas até onde eu fiquei sabendo dos boatos ele acabou por desavenças internas. Outra coisa que eu não conseguia entender muito bem era como as feministas queriam melhorar a condição da mulher se não conseguiam entrar em concenso. Claro que eu era beeem mal informada à respeito dos acontecimentos internos da UnB...
Para piorar a imagem que eu tinha do feminismo conhecia algumas feministas vegetarianas extremamente intransigentes. Aquele tipo de pessoa que quando você está comendo faminta ela chega pra você e começa a descrever o modo como aquele pedaço de carne no seu prato foi abatido ou então te chama de assassino. Elas eram agressivas em suas posições políticas e eu sempre gostei de uma boa discussão. Achava que deveriam me convencer na conversa e pra mim isso era apelação. Outra coisa que me ajudou a ter um pouco de medo das feministas foi uma professora que eu tive que nem dava nada relacionado ao feminismo, mas era do grupo das feministas da História. Ela não tinha empatia, isso era fato. Ficava irritada porque as alunas falavam mal o francês em sala e não conseguiam discutir mais profundamente os temas, mas a culpa era parcialmente delas. Outra coisa que me deixava reticente eram umas exigências despropositadas do tipo "sentem direito na carteira". Pra quê? Eu me perguntava. E essas pequenas coisas me ajudavam a concordar com os preconceitos: feministas eram exageradas e procuravam sarna para se coçarem.
Depois de muito tempo eu fui descobrir mais profundamente que o feminismo não impedia a minha sexualidade ou a minha "vaidade", mas ele ia me fazer refletir profundamente nas implicações que isso teria. Ao ouvir, o até então meu ídolo, meu irmão dizer "Sabe porque o papai sempre me mandava comprar pão no seu lugar? Porque ele dizia: - Vá comprar pão. É um favor que você faz à sua irmã. Ela é mulher, já vai sofrer tanto na vida...". E o meu irmão concordava com isso porque achava que eu ignorava a inferioridade da minha posição e sofreria mais ainda por ser uma mulher "inconformada".
Comecei então a notar a perversidade desses argumentos que refutam o feminismo. São argumentos tão bem construídos que estão em voga até os dias de hoje. Parece que o feminismo distancia as mulheres da normalidade - isso quer dizer, os papéis tradicionais (mãe e dona-de-casa). Fala-se com euforia da pouca contribuição masculina das tarefas domésticas como uma vitória feminista quando na verdade não passam de uma tentativa de "calar a boca" das feministas. Comemora-se a entrada na mulher no mercado de trabalho esquecendo que muitas vezes elas o fazem por terem sido levadas a terem filhos e depois abandonadas por homens que são obrigados a pagarem somente 30% dos seus salários enquanto as mulheres devem abrir mão de si mesmas para os filhos. Fico chocada ao ver as mulheres perdendo os cabelos em salões de quinta para ficarem com o cabelo liso ou ver nos lugares chiques uma proliferação gigante de loiras oxigenadas todas com o mesmo corte de cabelo ou ver na vitrine da C&A uma coleção para mulheres adultas inspirada na BARBIE!!!
Eu reconheço que em alguns casos há um exagero na postura, mas não no argumento. O feminismo não é o mesmo dos anos 70, mas talvez nos falte um pouco mais daquela postura militante. Acho que devemos tentar esclarecer um pouco mais da teoria para os leigos, afinal se você é feminista é porque já se convenceu da importância de se debaterem certas questões por outra ótica. Quantas mulheres ainda sofrem por serem gordinhas ou terem pouco peito sem saber da perversidade desse padrão? Se não há injustiças porque aquele parecer favorável à pedofilia do STJ? Porque prostituição é um problema feminino.
Eu fiz minhas pazes com o feminismo lendo O Espartilho de Lygia Fagundes Telles na aula da uma professora que me ajudou a me decidir entre a Literatura e a Lingüística escolhendo a primeira. Ela me mostrou como pode passar visões intencionadas que reflitam ou apenas repitam idéias pré-concebidas. Será que posso ser a intermediária dessa relação pra mais alguém? Espero que sim.
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