quarta-feira, 7 de março de 2012

É impossível viver com menos de ...R$

Não é a primeira nem a última vez que escuto isso, mas acho que sempre vai me incomodar. Muita gente vem até mim e/ou até o meu marido reclamado de grana. Não sei exatamente porque despertamos nos outros a confiança para falarem de suas vidas financeiras, mas as vezes acho que é pena.

As pessoas vêm reclamar do preço dos imóveis, do aluguel e afins. Esperam um apoio para reclamar que dão como certo da nossa parte. É, realmente reclamamos e muito do preço das coisas aqui em Brasília, mas nossa lógica as vezes desconcerta a lógica típica brasiliense, como alguns leitores devem ter notado. Quem disse, por exemplo, que o único meio de declarar a independência dos pais é comprando um apartamento no Plano Piloto? Qual o problema de morar de aluguel?

Muitos respondem que o preço do aluguel é o preço de uma prestação. Claro, mas quanto você tem que dar de entrada para conseguir uma prestação equivalente à um aluguel? Você certamente não paga aluguel na casa dos seus pais, mas perde em maturidade (além de falta de vergonha na cara em obrigar seus pais a te sustentarem até os 40 anos). Mas parece ser bem mais vergonhoso morar de alugar num lugar mais ou menos do que viver com os pais.

Pagar aluguel num lugar melhor e não ter carro = MORTE. Quase ninguém da classe média da cidade entende essa lógica. NÃO HÁ VIDA SEM CARRO NA CAPITAL!!! Todos(?) são unanimes. "Como vocês fazem para ir pro barzinho?" Não sei o que mais choca, a pergunta ou a resposta "Quando o bar é perto, vamos à pé, quando é longe, vamos de carona e às vezes, de taxi". O preço da corrida não dá duas cervas. E se tivesse mais gente para rachar a corrida com a gente, saia ainda mais barato.

Mas a melhor de todas, é quando a conversa chega no ponto onde surge a "oportunidade" de animar o nosso interlocutor dizendo que o fato dele ganhar uma soma "x" por mês no momento, não implica que deva necessariamente pular da ponte, pois nós, com a metade (às vezes 1/3) sobrevivemos satisfatoriamente. É sempre o clímax do assunto. Quando chega esse ponto, até as pessoas da mesa que estavam em papos mais interessantes e acalorados se viram para nós com uma mistura de espanto e incredulidade no olhar. Outros nos olham como se fossem escutar a receita de um milagre, mas a maioria tem dentro de si, no momento da revelação, a idéia pré-concebida de que nós estamos falando um absurdo. Todos partilham depois de outro fenômeno, a negação. Alguns repetem 3 vezes para afastar a praga "É impossível, é impossível, é impossível!"

A afirmação é tanto unanime quanto categórica: é impossível viver como vivemos. É engraçado, pois eu e o Marcos vivemos a 4 anos assim e não temos nenhuma dívida. Devo acrescentar ainda que raramente pedimos dinheiro emprestado, e quando pedimos, pagamos. Nunca ficamos no vermelho desde que moramos juntos. As pessoas não entendem mesmo a diferença entre viver e viver de forma confortável. Nós não queremos dizer que todos devam ter o mesmo padrão de vida que temos. Mas ofende as vezes essa idéia pré concebida de noivado em Paris, casamento na mansão das águas e apartamento no Sudoeste que a maioria das pessoas aqui tem. (Aliás, noivar na festa da Laje é muito mais legal!).

É difícil pensar fora da casinha. Todo mundo sonha com uma propaganda de margarina, inclusive um golden retriever na casinha do jardim. Mas a vida é muito mais do que isso. Precisar mesmo, a gente só precisa de um lugar para dormir e ter o que comer. Se a sua felicidade se resume a ter um iphone 4, eu não posso afirmar, mas posso arriscar a dizer que tem algo de errado com seus valores e/ou prioridades. Se para ter filho você precisa de dinheiro para a babá, acho que começou pelo lado errado.

Mas voltando a afirmação do começo, é impossível viver com XR$ por mês, eu gostaria de lembrar que o salário mínimo são 600 e alguma coisa. E existem muitas famílias que vivem com menos do que isso. Quando eu escuto essa informação ou vejo a reação de algumas pessoas tenho vontade de perguntar "Você quer que eu não exista?"

Outras coisas passam pela minha cabeça quando vejo a incredulidade no rosto dos que afirmam que é impossível viver com x reais por mês. As vezes acham que eu devo uma explicação a essas pessoas. Elas parecem querer que eu diga que sou louca ou que estou completamente equivocada e enganada. Querem que eu me retrate. "Como é possível viver com x reais por mês e estar feliz?" Como não ter vergonha em ser da classe C? No fundo o que elas realmente pensam, eu acho, é "Você não tem vergonha de ser pobre?".

Deixa eu só acrescentar um parágrafo, antes de concluir meu texto. Vergonha a gente tem que ter de roubar, de explorar os outros, de desrespeitar as leis, de não ter educação, de se prostituir num emprego que não gosta só por causa do dinheiro. A gente nunca deve ter vergonha de viver com verdade.

Mas é engraçado, quase todos são unanimes em afirmar, dinheiro não traz felicidade.

4 comentários:

Glória Maria Vieira disse...

Lola sempre fala que é uma questão de organização, né?! Não só Lola, como todo e qualquer especialista financeiro. É que as pessoas costumam priorizar bobagens. (Tá, aqui entra o relativismo, sei disso, mas algumas bobagens não vão deixar de ser bobagens mesmo assim. AUHSUHAHSUHASH) E, claro, acaba ficando sem dinheiro para mais algumas... Bobagens.

Só pra concluir: Eu acho que dinheiro traz sim felicidade, ao contrários dos unânimes citados nas entrelinhas. Mas não é o meio único de ser feliz, né?!

Drixz disse...

É, Glória, pelo menos vc é honesta consigo mesma. hehehe A Lola dá boas dicas. Aquela de anotar todas as despesas é ótima. Principalmente quando você perde o controle e não sabe no que está gastando demais.

Marina disse...

Post interessantíssimo!

Eu sou servidora pública, cargo de psicóloga, trabalho no SUS e ganho um salário considerado baixo por muitas pessoas. E sou super feliz. Tenho um trabalho extremamente significativo e não sofro de ímpetos incontroláveis de comprar um Ipad. Não mesmo!

Quando revelo a minha ideia de felicidade (que basicamente consiste em ter tempo livre pra fazer o que eu quiser, inclusive ficar à toa fazendo coisas pouco intelectualizadas) as pessoas se controlam pra não voar em cima de mim. Muita gente acha uma loucura "uma pessoa tão inteligente como você" não ter aspirações a uma vida acadêmica. Meus pais não entendem até hoje porque não fiz o mestrado e o doutorado e meus colegas de profissão tentam me pressionar para fazer uma formação em Psicanálise "que paga bem melhor". A verdade é que adoro ter uma formação generalista e que ela me serve muito bem. Se der na telha um dia sigo a carreira acadêmica, mas se der na telha um dia vou vender picolé na praia, trabalhar com contabilidade, abrir um comércio, fritar cozinhas em casa pra vender na rua, viajar por aí com uma mochila nas costas e estamos resolvidos!

Eu tenho carro e adoro. Ultimamente tem todo um movimento de viver sem carro e eu digo que não é pra mim. As pessoas dizem que "um carro é como uma pessoa a mais numa família" e eu respondo "Então seja bem vindo o Sr. Ka". cada um tem que fazer o que achar melhor da sua vida. Tenho pacientes que vivem com 200 reais por mês e não querem ganhar mais. Tenho pacientes que vivem com 5.000 e querem ganhar o triplo.

Não se qual é a sua idade, mas eu tenho 18 e a minha geração tá com essa mania de continuar mroando na casa dos pais. O pessoal só quer sair de casa se for pra morar na zona sul, se for pra ter carro, se for pra mobiliar o apartamento com peças moderninhas e descoladas, se for pra continuar comendo mirtilo, cebola do Outback e tudo o mais... Tenho vários amigos assim. Eles não entendem como eu consigo ser feliz morando numa casa alugada com 5 cachorros, num bairro de classe média mais simples e afastado. A maioria está assumidamente esperando que os pais os presenteiem com um apartamento em bairro bom. Os pais, estão se esforçando pra conseguri comprar o presente e, quando não têm condições, estão secretamente espumando de raiva por ter de continuar pagando conta de celular e lavando roupas de marmajos... rsrsrsrs... Clari que existem exceções e situações em que esse arranjo combina, mas é a maioria do pessoal que está assim. Sério: quase todo mundo!

Marina disse...

Ops, erro: tenho 28 e não 18! rs...