sexta-feira, 6 de novembro de 2009

E eu com isso?...

Acho que muitos dos meus leitores (imaginários, ideais ou reais) sabem que sou professora. Assumi recentemente um posto na universidade, provisóprio, ou seja, substituto. Mas perante aos alunos temos o mesmo status de um professor qualquer. Acredito então, que passo pelos mesmos problemas de meus colegas mais experiêntes.

Sei que esse assunto é recorrente no meu blog, mas é que eu ando descobrindo muito sobre o bicho-humano no dia a dia do meu métier. Ontem, por exemplo, fui pega de surpresa por uma aluna que talvez tenha se esquecido de como se portar em sala de aula ou talvez tenha se esquecido de que estava na universidade e não na terceira série. Faço essa comparação porque acho que é a que melhor se encaixa no fato que vou relatar em breve. A professora da terceira série não é apenas a professora, é a "tia". Aquela que você gosta mesmo que não goste muito de estudar. A quem quer presentear no dia dos professores e com quem tem até uma relação semelhante a que se tem com uma tia querida (ou odiada, em alguns casos). Mas o importante é que ela, a "tia", é com certeza, uma pessoa importante na sua vida.

Onde quero chegar? Bom, eu realmente não sabia o que fazer com uma aluna de quase dois metros de altura, parecendo ser bem mais velha do que eu, toda dona de si, que chega para mim no início da aula aos prantos e começa a me contar os dramas da vida dela. Posso soar até um pouco seca e cruel, mas o que eu deveria fazer com a criatura? A situação era a seguinte: Ela estava de atestado pois sofreu um acidente de carro sério. Eu aliviei a barra dela e disse para que em entregasse os exercícios por e-mail quando pudesse e converssasse comigo a respeito da prova, se estaria ou não apta a fazê-la e etc. Bom, eu acho que fui bastante razoável e, na ocasião, ela me pareceu bastante feliz com a sugestão. Nunca mais apareceu na aula. Pensei que estivesse ainda impossibilitada. No dia do "incidente" eu ia aplicar a famigerada prova na turma dela.

Gostaria de fazer um parênteses: eu sou humana e tenho problemas. Isso quer dizer que eu não estava num bom dia. Além disso, a proximidade do meu aniversário (odeio o meu aniversãrio). Eu ainda estou sem saber se vou continuar no posto ano que vem ou não e isso me deixa tensa, afinal, perco um tempo que não tenho com essas aulas. Para melhorar, tenho dois artigos atrasados para entregar e nenhum tempo para começar a escrevê-los (tem muitas coisas a serem lidas). E nesse dia chovia muito quando saí de casa e eu não tenho carro nem guarda-chuva. Quando tudo se resolveu e eu cheguei no trabalho (imagine o meu bom humor?) essa moça começa a chorar na minha frente. Eu não sabia o que fazer, então disse: "Tudo bem, vc pode fazer a prova depois, não precisa se estressar". Mas ela parecia não me escutar. Ficou mais de 20 minutos chorando na minha frente. Eu nem me importaria se estivesse num dia qualquer, mas eu estava uma pilha e não queria conversar com ninguém. O pior pra mim foi descobrir que o drama todo era porque os pais da criatura estavam se separando depois de mais de vinte anos de casamento e bibibi e bobobó.

Aí meu sangue subiu à cabeça e uma vontade louca de falar "E eu com isso?" me dominou e eu tentei muito fazer isso transparecer no meu olhar, mas não consegui. (essa é a parte que eu pareço uma escrota). Mas vou me justificar: Eu entendo que a separação dos pais é sempre traumática mesmo quando tranquila. É quase um choque de realidade no "eles foram felizes para sempre", mas espera-se que a situação seja mais difícil para pessoas mais novas. Eu comecei então a ser prática, já que a moça me parecia descontrala. Perguntei se queria tomar uma água, se queria sair um pouco da sala para arejar a cabeça e etc. Mas NADA surtia efeito. Eu entendi então que ela estava atrás da figura da tia. Queria um colinho pra chorar, alguém que dissesse para ela "coitadinha, como sofre!".

Só que ela escolheu a tia errada no dia errado. Eu sempre achei ridículo gente que supervaloriza o sofrimento. Eu gosto de gente que tenta ser forte (não precisa conseguir). Não gosto de pessoas que procurem a piedade alheia. Se ela me pedisse qualquer coisa apenas dizendo, com o mesmo olhar choroso que estava, que tinha problemas familiares sérios eu acataria na hora. Mas ela não me disse nada. No final acabou dizendo que queria ficar fora de casa pq o clima lá tava ruim. Mas pq então ela foi para a sala de aula? Para que atrapalhar a da turma toda? Se queria ficar lá, que me dissesse então "Professora, eu queria ficar na sala lendo os textos, mas não tenho condição de fazer a prova, estou passando por problemas". Isso eu também ia achar ridículo, mas não me irritaria tanto quanto o pranto despropositado da moça. Para melhorar a situação ela não me deixava sair daquela conversa. A sala cheia em dia de prova e ela chorando e querendo desabafar. Fazer essa criatura decidir se sentar e perceber que a vida continua, mesmo com os pais se separando, foi uma dificuldade. E para melhorar, quando entreguei as provas, descobri que faltavam dois terços das cópias que havia mandado fazer para as turmas. Eu não pude deixar de pensar que se essa aluna não me tivesse retido por tanto tempo eu teria conseguido resolver o problema a tempo.

Onde eu quero chegar? Eu não sei porque cargas d'água essa beldade escolheu logo a mim para fazer esse desabafo, mas não é a primeira. As vezes eu tenho vontade de dizer "Eu não estou sendo legal, estou apenas fazendo a minha obrigação". Outras tantas eu tenho vontade de dizer "Aula com terapia é mais caro!". J'en ai marre! Eu não sei lidar direito nem com os meus problemas, tento fugir deles ao máximo e depois tenho que lidar com alunos que querem que eu "compartilhe" dos deles? Tem base? Só para ficar ainda mais claro (se é que alguém conseguiu chegar até aqui sem morrer de tédio), a separação dos meus pais foi um inferno. Mas eu chorava com os meus amigos, com os meus irmãos, com a psicóloga (anos depois quando tive grana pra pagar). Eles chegaram ao ponto de se processarem na justiça com direito a distância mínima que um podia ficar do outro e etc. O meu pai morreu e eu ainda ouço todo o rancor da minha mãe por ele escorrendo da boca dela quase todas as vezes que falo com ela. Agora me pergunta se na época, eu, que estava fazendo cursinho, pedi para o cara do cespe não me aplicar a prova e ficar me ouvindo chorar? No fundo eu até queria ser sem noção como essa moça e achar que todo mundo pode sentir pena de mim, mas infelizmente eu ganhei algo que ela, pelo visto não ganhou - experiência de vida. E um pouco de café amargo também, se é que me entendem.

3 comentários:

La Berçot disse...

Te entender? Como entendo!
Eu, como quase toda tia de ballet, sou bem tia; mas as vezes rola uma mãe de aluna querendo dividir a tia aqui com a filha.... aí não rola!

=*

Amanda disse...

Nossa, que mala sem alça essa garota! Pra falar a verdade nem sei sei um divorcio justifica tantas lagrimas. Hoje em dia é tão comum! Foi-se o tempo das pobres das crianças sofrerem pela separaçao dos pais e po, ela nem criança é mais!

luci disse...

nossa, realmente! eu tinha uma amiga que tava terminando o curso, fazendo a monografia e, ao mesmo tempo, cuidando do pai com cancer. ela dizia que quando o pai tinha os ataques, a mae comecava a espernear na cama e a gritar e chorar e ela nao sabia se corria pra ajudar o pai ou se corria pra ajudar a mae. entao, ela tava com a leitura e a escrita atrasada, mas o que eu achava incrivel eh que ela nunca chegou pra orientadora pra justificar o atraso em cima da doenca do pai. voce via a cara dela derrubada, o olhoar distante, mas ela tava na dela. incrivel.