segunda-feira, 5 de outubro de 2009

ELA

Ela era estudante, 24 anos. Ambiciosa, mas honesta. Sarcástica e divertida tinha muitos amigos. Não gostava da mãe

Sempre lhe vinha uma música na cabeça para cada momento importante de sua vida.

Achava que nasceu ouvindo Pink Floyd – Wish you were here.

Gosta de ler o jornal. Caderno de moda, economia e cultura.

Achava que um dia podia montar uma empresa que trabalhasse com as três coisas.

Queria fazer uma tatuagem do gato Félix (sempre achou que ele era o gato Feliz), mas tem medo de desmaiar. Desmaiou quando viu sua melhor amiga fazendo uma tatuagem.

A sua melhor amiga também desmaiou.

Tinha o mesmo tanto de orgulho quanto vergonha do pai.

Gostava da mãe quando ela via TV.

A mãe sempre via TV. Sempre via TV quando ela tinha que conversar com a mãe. A mãe não queria conversar quando via TV. Ela não conversava com a mãe.

A mãe não ficava sabendo das coisas porque estava sempre vendo TV.

A mãe ficava brava com ela. A mãe não "wish ela were here"

Ela percebeu que não gostava muito da mãe.

Era recíproco.

Ela era bonita, mas se achava feia.

A mãe falava muito rápido. Queria respostas rápidas. Ela era tranqüila, falava devagar. Ela irritava a mãe. A mãe dizia que era de propósito.

Tinha uma irmã mais velha.

Achava a irmã mais velha uma vadia, mas gostava dela.

A irmã pegou todos os amigos dela e uma amiga também. A amiga elogiou a irmã. A irmã era vaidosa.

Elas saiam juntas. Ela não gostava muito dos amigos da irmã, então falava pouco com eles.

Eles a achavam metida.

A irmã tinha tudo.

A mãe a achava chata.

O pai gostava dela, mas era o mais fraco.

A mãe tinha ciúmes dela.

Ela não entendia muito bem isso.

A mãe era forte, tinha olho doido. O pai tinha olho doido também, mas não era forte.

Ela não gostava de salão de beleza nem de fazer a unhas. A mãe e a irmã a arrastavam. Era para ela ficar menos feia. Ela queria usar o dinheiro para sair, para ir ao cinema, ao teatro, tomar sorvete, comprar livro... Não podia, TINHA que fazer as unhas, era uma menina relaxada.

Tinha que fazer regime, estava gorda. Só a mãe e a irmã achavam isso. A irmã estava doente, anoréxica. A mãe achava lindo. A irmã parecia com a mãe.

Queria visitar o avô (pai do pai). Não podia, a mãe não gostava dele.

O avô gostava dela.

Ela não via muito os parentes. A mãe dizia que eram uns metidos. O pai não se importava. Os parentes não concordavam com a mãe.

Ela tinha vergonha dos pais. Inventava histórias felizes com eles.

Ela morava num bairro chique, mas os pais estavam falidos.

Ela passou fome.

Ela foi trabalhar para cursar a faculdade e comer.

Os pais não entendiam.

Ela trabalhava muito. Os pais achavam estranho. Brigavam com ela quando chegava tarde do trabalho. Ela não entendia.
Os pais não gostavam de trabalhar.

Ela era inteligente e sagaz, mas tinha medo da mãe.

A mãe acabou com 4 paixões da vida dela – o pai, o segundo e o terceiro namorado e o melhor amigo. A mãe achava que mulheres não podiam ter amigos homens.

O pai matou e ingenuidade dela num só golpe, disse: Sua mãe é louca e eu sou um merda, fumo maconha para esquecer quem sou e que sou fraco.

A irmã mais velha se desequilibrou e ficou balançando de um lado para o outro.

A irmã mais nova era apagada. Ficou parada e nunca saiu do lugar.

Ela tentou acordar a todos. Levou um tapa na cara e uma mala nas costas.

Foi embora, achou que ficou livre mais teve que voltar.

Ela não podia fazer isso com a mãe. A mãe disse que ela devia se desculpar. A mãe disse que ela era igual ao pai

O pai foi embora antes dela.

Ela não pediu desculpas. A mãe ficou magoada. A irmã mais velha se desculpou por ela.

Ela queria morar com o pai. O pai não deixou, tinha uma amante.

Uma amante...

Ela ficou sem saber o que fazer.

A mãe a culpou pelo pai ter uma amante.

Ela não entendeu.

A mãe ficou louca. Cuspiu em todos – fogo e dor. A mãe tinha má fé.

Sete horas da manhã, a prima que nunca liga ligou. O pai morreu, ninguém sabia por quê. Ela chorou e a empregada a abraçou. A mãe foi para o telefone.

No velório muita coisa estranha. Um caixão, o pai cruzava as mãos e um monte de rezação sem emoção. A mãe olha com raiva para ela. Ela queria chegar perto do caixão. A mãe fazia que não.

A amante do pai já era mulher do pai. A amante pegou no braço dela e a levou para ver o pai.

Ela viu os olhos de ódio da mãe. A mãe queria estar no lugar da amante. A mãe ainda cuspia ódio e dor. A tia teve que segurar a mãe para não brigar com ninguém no velório.

A mãe chegou em casa culpando Ela. A mãe achava que Ela estava amiguinha da amante. Ela queria entender o que tinha acontecido. O pai tinha morrido? morrido...

A mãe cuspiu mais ódio, raiva e dor. Ela cansou. Fez as malas e pegou o elevador. A mãe falava sozinha.

Ela nunca mais escutou.

4 comentários:

La Berçot disse...

café bem forte esse, Drica!
GOSTEI!

=*

Luci disse...

forte? café amargo. punk. Oo

Loreley disse...

"No velório muita coisa estranha. Um caixão, o pai cruzava as mãos e um monte de rezação sem emoção".
Realista, pós-gótica, sua narrativa se desdobra em agonia, libertação...
Estranha a sensação!
Gostei muito.

Georgia Martins disse...

Forte...
Me senti Ela.