quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Para entender um pouco sobre literatura - a representação

Eu deveria falar mal de algo da moda sempre, para dar ibope para o blog, mas sou uma pessoa sem TV e as tendências e temas da moda me dão um pouco de preguiça.

Mas algo que eu gostaria de abordar para que os fãs de Game of Thrones, e outros que critico, entendam um pouco melhor o meu ponto de vista. A crítica literária não é uma ciência. Tem gente que até colhe dados, mas tem sempre um aporte teórico por trás. E tudo depende da sua "escola". Mesmo assim, teoria literária não é a casa da mãe joana. Eu não posso falar o que eu quiser. Claro, quando estou colocando a minha opinião pessoal, posso até dizer o que penso sem embasamento teórico. Mas acaba sendo meio difícil isso acontecer, pois determinado tipo de abordagem faz com que você veja tudo, até as coisas mais simples do cotidiano, com outros olhos. Por isso resolvi colocar alguns tópicos caros aos teóricos da literatura tentando abordá-los de uma maneira simples para, quem sabe, sensibilizar alguns leitores.

A representação.

Muita gente se defende dizendo que novela é só para passar o tempo, que revistinha é só para se divertir e etc. Bom, parte da minha formação literária tem uma forte base sociológica e psicossocial que diz o contrário. Como nossa identidade individual é formada? Numa bolha? Não. Nas relações familiares e sociais. A questão da representação dialoga com isso no sentido que parte do imaginário social é auxiliado pela literatura e por outras produções ficcionais como a novela, os filmes e seriados. Quanto você não atribui aos Simpsons da cultura americana? Ou quanto você não acaba imaginando que nos EUA as coisas aconteçam como nos seriados?

A mesma coisa por aqui. Benedict Anderson acredita que a Nação é uma comunidade imaginada. Mas imaginada por quem? Escritores, jornalistas, cineastas, músicos, artistas… Eles reproduzem muito do que veem, e muito do que veem é cheio de preconceito e estereótipos. Muitas vezes eles reproduzem aquilo que querem acreditar. Mulher é dona de casa ou puta, negro é pobre e bandido. Comparando com os dados do senso, isso está longe de representar a realidade. Mas aí tem muita gente que alega ser ficção. Mas porque então a maioria das obras não foge do lugar comum? Sugiro que aqueles que gostarem da discussão deem uma lida na entrevista do link acima.

Mas ainda, porque se preocupar com o que um escritor escreve? Não é só a nação que é fruto da imaginação. Nós temos muitos elementos exteriores que contribuem para a formação do nosso inconsciente e consciente - ou ainda, da identidade. O que eu encontro de mais simples para explicar isso é o fato, por exemplo, das meninas serem sempre representadas de rosa, brincando de bonecas, de vestido. Como se sente a criança, na fase concreta, a pequena menina que quer andar de skate e que sua cor predileta é azul? Pode ser que ela não ligue, se a família dela estimular, mas pode ser que achem que isso não é coisa para menina, afinal, não se vêem muitas meninas por aí representadas dessa maneira. Qual das princesas da Disney anda de skate? O processo é mais complexo, mas eu estou tentando passar de uma maneira mais simples.

Outro exemplo que pode ajudar. A questão dos negros no Brasil. Como eles aparecem na literatura, nas novelas, nos filmes? Pobres, subalternos e sobretudo - bandidos. Todo mundo condena o rolezinho porque já tem na cabeça que negro é bandido, mesmo que não tenham feito nada. Será que o fato deles serem as maiores vítimas da violência policial é apenas coincidência? Eu acho que não. Podemos trabalhar com a lógica tostines: a literatura reflete o preconceito da sociedade que é racista ou a sociedade é racista porque a literatura é racista? Eu prefiro acreditar que eles se retroalimentam. Uma fomenta a outra.

Mas a gente pode colocar a culpa do racismo ou do preconceito na literatura? Eu acho que a responsabilidade total por isso não, mas na atual conjuntura, a reprodução disso é bem problemática. A gente não vive mais na época onde se discutia em público se os negros possuíam ou não alma. Racismo é crime inafiançável. Temos sim que nos responsabilizar pelo que falamos e escrevemos. Mas muitos escritores se escondem atrás do eu-lírico para propagarem livremente todos os seus preconceitos. Alguns ainda acabam sendo considerados como inovadores, o que para mim soa como uma simples repaginada (ou releitura - termo um pouco mais apreciado). O chato é isso acontecer logo na pós-modernidade e da crise da autoria, qual a alegação do autor nesses casos?

A autoria

Para ficar um pouco mais claro, a pós-modernidade recebeu muitas contribuições da teoria feminista para desmistificar a identidade dominante e universalismo. A revelação foi que o universal não era algo neutro que representava todos os seres da humanidade. Ele era masculino, branco e ocidental. Depois disso, muito começou a se discutir sobre a legitimidade do autor para escrever sobre determinados temas. Será que aquele escritor estava qualificado para escrever sobre determinado grupo? Porque no lugar de dar voz aos negros, sem nunca ter vivido na pele de um os seus dramas, não dar espaço para que o próprio negro escrever sobre si? A discussão complicou quando a competência do autor como produtor de ficção começou entrar em xeque. Como serei inovador e criativo, onde fica minha sensibilidade se só poderei escrever sobre o que eu vivo e o que eu conheço? Complicado, né? Mas escrever sem levar essas questões em conta é, no mínimo, irresponsável.

Para aqueles que gostaram dessa última polêmica eu sugiro um exercício bem simples; releia A Hora da Estrela, da Clarice Lispector, e preste atenção na relação entre o narrador da história, o Rodrigo SM e a Macabéa. Tenho certeza de que no Ensino Médio, quando você foi obrigado a ler o romance, passou batido por essa discussão. Outro interessante é O Discurso sobre o Método, do Sérgio Sant'anna. Existem vários outros, mas eu gosto especialmente desses.

A obra

Muitas correntes teóricas pregaram que o que importava ao estudo da Literatura era a obra. Roland Barthes chegou a declarar a morte do autor. O objeto da Literatura seria apenas o livro. Eu confesso que não sei se ainda existem correntes que acreditam nisso, mas essa crença está um pouco fora de moda. O autor tem importância sim pois ele seria o filtro entre a realidade e a ficção. Daí podemos citar a hermenêutica, teoria que parte do pressuposto de que a literatura (e outras obras do gênero), são uma interpretação de mundo e assim sendo, não podemos excluir por completo o autor. Mas além disso, o leitor traz a sua interpretação para a leitura da obra e o processo todo seria uma dupla interpretação.

Eu gosto também de trabalhar com a questão da voz e dos vazios do texto. Dentro de uma obra você tem, claro que através do filtro do autor, várias vozes, vários grupos e várias realidades representadas. Essas vozes podem ser verossímeis ou não e o autor pode te dar espaço (o vazio) para preencher o texto com suas próprias visões de mundo ou não. Se você não consegue entrar no texto, se ele te causa um desconforto ele pode estar mal escrito ou não (e isso pode ser proposital ou não).

O pacto da leitura

Uma das teorias prega que quando abrimos, ou até mesmo escolhemos um texto para ler, fazemos um pacto com o autor. Por exemplo, eu vou ler um romance policial. O que eu espero? Eu espero que haja um crime a ser resolvido, um mocinho e um bandido. O bandido vai ser um lobo em pele de cordeiro e eu vou tentar durante toda a leitura descobrir quem ele é. Ah, e eu quero que tenha ação. Se eu estiver lendo um romance policial que de repente me aparece um mutante soltando raios pelos olhos e o detetive vira um deus grego para combatê-lo é, no mínimo, fora da proposta. Pode ser que se ele estiver bem escrito, a proposta pareça convincente.

Eu faço sempre a analogia com a dança. O gênero literário é como um tipo de dança. Os passos e a música devem se combinar e o autor prepara o cenário, pega a sua mãe e te conduz. Você deve dançar tranquilamente, sem reparar que os músicos estão fora do tom, que os passos do autor estão em desacordo com a música ou que ele está dançando uma valsa no lugar de uma salsa. Se isso acontecer, o pacto foi rompido e você não vai querer mais ler o livro.

Bom, eu vou parar um pouco por aqui e depois, se tiver ânimo, escrevo um pouco mais sobre os elementos do romance ou algo que interesse. Fiquem à vontade para comentar, criticar, pontuar algo que tenha esquecido, e até para me corrigirem, afinal, como pseudo-crítica, eu aceito críticas (confesso que nessa parte ainda não sou muito experiente, mas estou me esforçando).

Caso alguém queira se aventurar, recomendo fortemente:

Antoine Compagnon - O Demônio da Teoria
Antonio Cândido - Literatura de dois gumes (in A educação pela noite)
Roberto Schwarz - Que horas são?



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