quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Análise do discurso - faça sempre ao ler o jornal

Coloquei ler, mas serve também para quem assiste TV.

Uma coisa que descobri é que o óbvio não é tão óbvio assim. O que pode ser pra mim, não necessariamente é para você. Enfim. Eu nunca escrevi sobre isso aqui, pois sempre achei que devemos ser críticos ao ler qualquer coisa e que isso era óbvio. Realmente a maneira como lemos criticamente  um romance e o jornal é diferente, mas deve haver crítica, afinal, quem escreve nunca é ingênuo.

Algumas coisas que você deve saber ao pegar o jornal e que normalmente não sabe: qual a orientação política do jornal (o que muitas vezes implica na agenda dele). No Brasil temos um fenômeno estranho, pois apenas nos dias de hoje as orientações jornalísticas começam a ficar um pouco menos nebulosas. Mas na França, por exemplo, eu fiz o teste. Perguntei para o jornaleiro de cara "qual o jornal de esquerda?" e ele disse: Le Figaro. O Le Monde, que todo mundo adora, é centro direita. Agora, vá até a sua banca de jornal e pergunte isso para seu jornaleiro. Eu tenho certeza que ele fará uma cara de interrogação.

Para te ajudar nessa tarefa, faça uma pesquisa sobre os donos do jornal, sobre como eles colocam as reportagens sobre o governo e os políticos de ambos os lados. Se defender o PMDB é de direita e se defender o PT de esquerda. Mas tudo isso com ressalvas. Um jornal de extrema esquerda vai acusar o PT e um de direita que seja de um grupo rival ao PMDB também vai ser menos parcimonioso nas críticas a esse último.

Com essa informação em mente, vale lembrar que os jornais, de ambas as orientações, querem vender (pois precisam ser lidos para ter anunciantes) e isso se traduz na prática em um monte de manchetes chamativas e reportagens com pouco conteúdo. Isso porque sabemos o problema da nossa formação em jornalismo, que em muitos lugares do mundo, é uma especialização. A consequência disso é que o nosso jornalista se torna um grande especialista em escrever sem saber bem sobre nada. Mas é claro, não devemos generalizar.

O jornalista é um profissional mais treinado na arte da maquiagem escrita do que qualquer coisa. Como escrever algo que não se tem certeza e não se comprometer. Como mudar a ordem da história para tornar o texto mais interessante. Essas coisas. E a arte de desfazer esse processo, se chama análise do discurso. Você não vai chegar na "verdade". Nem as fotos são capazes de revelar a verdade. Hoje sabemos que ângulos, contextos, tudo pode maquiar um acontecimento, mesmo numa foto.

Após se desapegar dessa ingenuidade inicial, devo avisar que daqui para baixo é pílula vermelha e não tem volta. Se quiser continuar acreditando no jornalismo "imparcial" e no compromisso com a verdade dos meios de comunicação, pare de ler esse texto e vá direto para o G1, R7, Le Monde, Whashington Post, BBC e seja feliz e "bem informado". Se não, continue.

Você já sabe que o jornal (ou veículo de informação) tem uma orientação. O motivo dela é simples: quem banca. É claro que os anunciantes pagam, mas escolhem os veículos pelo público que o lê. Mas o fato de termos famílias de políticos como principais donas de grupos de comunicação nos remete a possibilidade de que tais grupos sustentam os veículos para verem ali representados seus interesses e reproduzidas suas visões de mundo. Algo como o modo de vida burguês da era contemporânea.

Um fenômeno sintomático disso e que eu acho simplesmente uma sacada sensacional é o Vídeo Chow. Um programa que só fala sobre programas de Rede Bobo, de como os atores são lindos, super interessados em seus trabalhos, como tudo lá dentro é organizado. Ele é uma enciclopédia de todas as novelas que por lá passaram. Mas é engraçado, pois as polêmicas sobre as novelas nunca aparecem. Como o beijo lésbico foi vetado, ou a novela vai acabar mais cedo porque tá sem audiência, como o ator X não foi cotado pois está na reabilitação… Enfim, é tudo bobal no sentido Rede Bobo de ser. A vida maquiada, sem emoção e com uma dose extra de água e açúcar na mistura com o objetivo de te passar uma imagem de que a tal emissora é profissional, comprometida com o que faz, confiança e tranquilidade. "Pode assistir sem medo, sem cérebro, sem senso crítico".

Sendo assim, chegamos às perguntas básicas que todo mundo deve se fazer diante de qualquer texto, seja hiper, tele ou qualquer outro: Quem escreve? Para quem escreve? Como escreve? Com qual objetivo escreve? Não somente o que está escrito faz parte do texto. Tudo, desde imagens até aquelas partes destacadas e os sofríveis gráficos e arte em geral que aparecem nas reportagens deve ser observado. Uma coisa comum, por exemplo, é dar mais destaque a um lado da história do que a outro. Não questionar é uma das maiores "virtudes" de nossos jornalistas. Mas eles também não querem que você se questione, então vão passar batido por tudo que possa causar uma polêmica inversa aquela do interesse do veículo. As vezes me pergunto se isso acontece intencionalmente ou se os jornalista não tem noção dos objetivos por trás do seu trabalho. Essa dúvida me ocorre porque sei que em muitos cursos de comunicação, análise do discurso (ou análise crítica do discurso) não figura nem dentre as disciplinas optativas.

Infelizmente eu não posso colocar nenhum exemplo aqui, pois esses veículos, além de "mal" intencionados, são bem armados e me processariam de maneira desproporcional ao meu "mal feito. Um exemplo seria o caso da cobertura do julgamento do mensalão, que toda imprensa se esmerou em acompanhar, mas quantos lembraram que esse não foi o primeiro esquema? Ou questionar um político do porque a vontade de mudança, pós manifestações, se traduziu em medidas tão ridículas? A menina do CQC fez sucesso porque muito do que fazia era o que os jornalistas deveriam fazer, mas eles, acho eu, estão cada vez mais "amiguinhos"dos políticos. "Oh, vem cá no churrasco aqui em casa e eu te dou aquela informação. Aliás, como vai a sua mãe?…" É realmente viável se perder meia tonelada de cocaína, ou melhor, colocarem no seu helicóptero e você nem saber?

Mais uma coisa, não existe tal coisa chamada veículo de comunicação. Não no sentido que eu entendo comunicação. Se existe, ele está longe de ser a mídia impressa e televisiva. A comunicação é um processo de mão dupla. Pergunta e resposta, mensagem e recepção. Algo parecido com a teoria da comunicação do Roman Jakobson. Para facilitar a explicação, eu fiz um esquema (ficou ruim, mas sinta-se livre para usar).


A parte 1 é  o que acontece quando lê ou assiste ao jornal. Você só recebe a informação. É um processo passivo. Por isso é muito importante que sempre reflita antes de aceitar essa informação, afinal, o processo 2, que para mim é o que caracteriza a comunicação, está ausente. Ninguém quer saber o que você acha e pensa na mídia. É um processo hierárquico onde nós estamos na base. Não geramos opinião, ela é gerada pra gente. Não é a toa que chamam muitos jornalistas e blogueiros de "formadores de opinião". Mas eu prefiro o blog, pois existe um espaço para a resposta.

As manifestações de 2013 foram um bom exemplo de como a mídia (que vou chamar aqui de tradicional, como muitos vem fazendo), tem o hábito de vomitar sua própria opinião e visão dos acontecimentos de maneira impositiva para a opinião pública. Quando ela viu que estava falando mal da maior parte da sua seara, mudou de posição, mas sempre mantendo sua linha esdrúxula (desviando o foco do motivo das manifestações para a destruição de lixeiras). Mas essa volta atrás nem sempre acontece. Eu não acho que a opinião da mídia reflita a da população. Até porque o foco dela é a classe média, e diferente dos dados do governo, nem a metade da população é de fato dessa classe.

Mas porque a mídia mudou de foco? Porque liga para a opinião pública? Eu duvido. Acho que na maioria das vezes não está nem aí pra isso. Vide como é feito o cálculo da audiência (meia dúzia de aparelhos no Rio e em São Paulo). Acho que ela mudou de abordagem porque a internet, com a ajuda da mídia ninja, veio em massa contestar a incontestável dona da verdade. Pela primeira vez, por mais absurdo que fosse os comentários na TV, mais e mais pessoas continuavam ignorando as opiniões da última. O que ficou claro para mim nesse episódio, quando a MT não soube interpretar, explicar, entender, cobrir, é que ela está muito longe da população brasileira, de entendê-la. Por quê? Nunca se preocupou com isso. Um ranço da ditadura, onde o negócio era ludibriar?

Não sei, mas se tiver um pouco de paciência, assista a esse vídeo e veja como as "feras" da MT tem dificuldade em entender o pessoal da Mídia Ninja e como o foco das perguntas está todo na questão do financiamento do veículo. Será que isso é um sinal de que eles , da MT, no lugar de se comprometerem com a "imparcialidade", com o foco no acontecimento, respondem apenas àqueles que os pagam diretamente?

Para conhecer mais sobre análise do discurso:

Norman Fairclough - Discurso e mudança social
Michel Foucault - A ordem do discurso

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