terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

A educação lobotomizadora

Tenho circulado por ambientes de educação presencial e a distância. No primeiro, como alguns aqui sabem, tenho ouvido coisas do tipo "seu currículo é muito bom, sua formação é muito sólida, mas você não tem experiência". Esquecem entretanto que para ter essa formação super sólida, tive que abrir mão da experiência. As vezes fico na dúvida se deixasse a formação de lado e adquirisse experiência não iria começar a ouvir "Você tem muita experiência, mas tem se capacitado pouco..."

Mas enfim, nos ambientes de EAD o assunto é outro. Discutimos qual é a obrigação do tutor, do professor, da equipe. Sempre com um organograma de funções bem determinadas onde o tutor está na base da cadeia alimentar (estranhamente o aluno não aparece nos esquemas). Qual é a obrigação do tutor? Tudo, menos decidir o plano de aula, o material de estudo e o cronograma. Mesmo que os artigos que nos "incentivam" a ler sobre EAD falem que o tutor na verdade deveria ser o professor da disciplina, mencionem condições ideais, como o número de alunos por sala o que vemos na verdade é uma economia infinita que o governo vem conseguindo fazer. Imagine só, no lugar de contratar professores doutores para ministrarem disciplinas no Ensino Superior presencial ele contrata um presencial que é também responsabilizado pelo EAD, e consegue um monte de mestres e doutores para trabalharem como tutores. Não existe limite para quantidade de alunos que um tutor fica responsável e os supervisores

Mas como ele consegue isso? Ora, o pessoal não está conseguindo emprego, principalmente em Brasília, onde temos poucas opções, ou trabalhamos para o governo ou prestando serviço para o governo. E na EAD você pode contratar um profissional em Brasília que irá ministrar um curso para Bahia, por exemplo. Existem áreas que são mais complicadas para prestação de serviços. Então para complementar a renda, muitos pensam "vou ser tutor, afinal de contas, já passo a maior parte do meu tempo no facebook". Infelizmente o que ninguém nos fala é o quanto demanda de tempo na realidade. Sempre fazem parecer que é algo tranquilo "enquanto você olha seus e-mails responde os alunos", "é só você se organziar", falam. Mas no lugar de se depararem com uma simples monitoria à distância nos assemelhamos a professores de línguas que são obrigados seguir um método em sala de aula e muitas vezes não sabem a relação daquela atividade com o conteúdo. Os cursos são preparados em cima da hora, não temos como nos organizar, não sabemos como serão as atividades que teremos que corrigir, mudam-se os critérios no meio do caminho e vamos nós refazer tudo que havíamos feito... Por fim, acabamos conduzindo a disciplina, isso implica, além de se dedicar ao estudo da disciplina, se responsabilizar também pelo aprendizado dos alunos. Mas diferente do professor, que mesmo mal pago é reconhecido, não levamos os louros pelas conquistas deles, só via mensageiro ou quando os supervisores querem acalmar nossos ânimos irritados com os pagamentos atrasados. Eu me pergunto se uma "bolsa" ou o que quer que chamem o "incentivo" que recebemos é suficiente. Eu acho que não, mas não estou em condições de recusar. E vocês?

Infelizmente não temos a chance de trazer esse debate para dentro dos ambientes. Aí que vem a lobotomia. Antes mesmo de discutirmos essa estrutura injusta e impositiva que está se formando junto com a expansão da EAD brasileira, sempre tem alguém (superior) que, lendo nossos pensamentos, falam o quanto nossa atividade é nobre, discutem que espécie de pessoa só trabalha por dinheiro, dizem que já que dispensamos em média oito horas do nosso dia no trabalho devemos fazer algo que gostamos e blá blá blá - lavagem cerebral. Eu sei, já passei por isso. Voltamos para casa tão felizes pensando o quão nobres e dignos somos, mas esquecemos de notar que esse não é o tipo de campo, daqueles que menciona Bourdieu, onde o fato de desprezarmos o dinheiro faça parte das boas maneiras. Isso é um campo profissional e eu posso dizer que sim, quanto mais se valorizem um profissional ou uma categoria de profissionais mais eles ganham.

3 comentários:

Carol foca disse...

Infelizmente não podemos recusar míseras migalhas para corrigir, mediar, estimular, ensinar, publicar, organizar, responder, verificar, programar, atividades, provas, testes, alunos, discussões, fóruns, chats, e-mails... Que é pouco a se fazer, não? Um tutor não é professor, não tem a responsabilidade para tal... Eu preferiria ser um professor na verdade, porque fazemos o mesmo papel, ou mais até, só que a remuneração é baixa. Se é que podemos chamar de remuneração! Compartilho com sua opinião, críticas e agonias! Eu, com pouco de experiência que tenho, vejo como a EaD é abordada de uma maneira um tanto quanto equivocada... O que nos resta a fazer é criar novos conceitos, a partir dos velhos, talvez, e ir construindo novos caminhos, (re)fazendo a EaD e ver se funciona e se alguém compra a ideia... Mas para isso precisamos de tempo... de um ócio criativo para ter ideias... Só não vejo como conseguir isso sendo tutor bombril!
Beijocas querida!! :**

Palavras Vagabundas disse...

Drixz, não entendo muito do assunto mas entendi que é muito ruim. Mas não conheço ninguém que trabalha por esporte, todo mundo quer ser remunerado dignamente.
bjs
Jussara

Palavras Vagabundas disse...

Drixz, publiquei seu poema. Só não sei se acertei seu e-mail, portanto estou te avisando por aqui.
bjs
Jussara