Eu deveria falar mal de algo da moda sempre, para dar ibope para o blog, mas sou uma pessoa sem TV e as tendências e temas da moda me dão um pouco de preguiça.
Mas algo que eu gostaria de abordar para que os fãs de Game of Thrones, e outros que critico, entendam um pouco melhor o meu ponto de vista. A crítica literária não é uma ciência. Tem gente que até colhe dados, mas tem sempre um aporte teórico por trás. E tudo depende da sua "escola". Mesmo assim, teoria literária não é a casa da mãe joana. Eu não posso falar o que eu quiser. Claro, quando estou colocando a minha opinião pessoal, posso até dizer o que penso sem embasamento teórico. Mas acaba sendo meio difícil isso acontecer, pois determinado tipo de abordagem faz com que você veja tudo, até as coisas mais simples do cotidiano, com outros olhos. Por isso resolvi colocar alguns tópicos caros aos teóricos da literatura tentando abordá-los de uma maneira simples para, quem sabe, sensibilizar alguns leitores.
A representação.
Muita gente se defende dizendo que novela é só para passar o tempo, que revistinha é só para se divertir e etc. Bom, parte da minha formação literária tem uma forte base sociológica e psicossocial que diz o contrário. Como nossa identidade individual é formada? Numa bolha? Não. Nas relações familiares e sociais. A questão da representação dialoga com isso no sentido que parte do imaginário social é auxiliado pela literatura e por outras produções ficcionais como a novela, os filmes e seriados. Quanto você não atribui aos Simpsons da cultura americana? Ou quanto você não acaba imaginando que nos EUA as coisas aconteçam como nos seriados?
A mesma coisa por aqui. Benedict Anderson acredita que a Nação é uma comunidade imaginada. Mas imaginada por quem? Escritores, jornalistas, cineastas, músicos, artistas… Eles reproduzem muito do que veem, e muito do que veem é cheio de preconceito e estereótipos. Muitas vezes eles reproduzem aquilo que querem acreditar. Mulher é dona de casa ou puta, negro é pobre e bandido. Comparando com os dados do senso, isso está longe de representar a realidade. Mas aí tem muita gente que alega ser ficção. Mas porque então a maioria das obras não foge do lugar comum? Sugiro que aqueles que gostarem da discussão deem uma lida na entrevista do link acima.
Mas ainda, porque se preocupar com o que um escritor escreve? Não é só a nação que é fruto da imaginação. Nós temos muitos elementos exteriores que contribuem para a formação do nosso inconsciente e consciente - ou ainda, da identidade. O que eu encontro de mais simples para explicar isso é o fato, por exemplo, das meninas serem sempre representadas de rosa, brincando de bonecas, de vestido. Como se sente a criança, na fase concreta, a pequena menina que quer andar de skate e que sua cor predileta é azul? Pode ser que ela não ligue, se a família dela estimular, mas pode ser que achem que isso não é coisa para menina, afinal, não se vêem muitas meninas por aí representadas dessa maneira. Qual das princesas da Disney anda de skate? O processo é mais complexo, mas eu estou tentando passar de uma maneira mais simples.
Outro exemplo que pode ajudar. A questão dos negros no Brasil. Como eles aparecem na literatura, nas novelas, nos filmes? Pobres, subalternos e sobretudo - bandidos. Todo mundo condena o rolezinho porque já tem na cabeça que negro é bandido, mesmo que não tenham feito nada. Será que o fato deles serem as maiores vítimas da violência policial é apenas coincidência? Eu acho que não. Podemos trabalhar com a lógica tostines: a literatura reflete o preconceito da sociedade que é racista ou a sociedade é racista porque a literatura é racista? Eu prefiro acreditar que eles se retroalimentam. Uma fomenta a outra.
Mas a gente pode colocar a culpa do racismo ou do preconceito na literatura? Eu acho que a responsabilidade total por isso não, mas na atual conjuntura, a reprodução disso é bem problemática. A gente não vive mais na época onde se discutia em público se os negros possuíam ou não alma. Racismo é crime inafiançável. Temos sim que nos responsabilizar pelo que falamos e escrevemos. Mas muitos escritores se escondem atrás do eu-lírico para propagarem livremente todos os seus preconceitos. Alguns ainda acabam sendo considerados como inovadores, o que para mim soa como uma simples repaginada (ou releitura - termo um pouco mais apreciado). O chato é isso acontecer logo na pós-modernidade e da crise da autoria, qual a alegação do autor nesses casos?
A autoria
Para ficar um pouco mais claro, a pós-modernidade recebeu muitas contribuições da teoria feminista para desmistificar a identidade dominante e universalismo. A revelação foi que o universal não era algo neutro que representava todos os seres da humanidade. Ele era masculino, branco e ocidental. Depois disso, muito começou a se discutir sobre a legitimidade do autor para escrever sobre determinados temas. Será que aquele escritor estava qualificado para escrever sobre determinado grupo? Porque no lugar de dar voz aos negros, sem nunca ter vivido na pele de um os seus dramas, não dar espaço para que o próprio negro escrever sobre si? A discussão complicou quando a competência do autor como produtor de ficção começou entrar em xeque. Como serei inovador e criativo, onde fica minha sensibilidade se só poderei escrever sobre o que eu vivo e o que eu conheço? Complicado, né? Mas escrever sem levar essas questões em conta é, no mínimo, irresponsável.
Para aqueles que gostaram dessa última polêmica eu sugiro um exercício bem simples; releia A Hora da Estrela, da Clarice Lispector, e preste atenção na relação entre o narrador da história, o Rodrigo SM e a Macabéa. Tenho certeza de que no Ensino Médio, quando você foi obrigado a ler o romance, passou batido por essa discussão. Outro interessante é O Discurso sobre o Método, do Sérgio Sant'anna. Existem vários outros, mas eu gosto especialmente desses.
A obra
Muitas correntes teóricas pregaram que o que importava ao estudo da Literatura era a obra. Roland Barthes chegou a declarar a morte do autor. O objeto da Literatura seria apenas o livro. Eu confesso que não sei se ainda existem correntes que acreditam nisso, mas essa crença está um pouco fora de moda. O autor tem importância sim pois ele seria o filtro entre a realidade e a ficção. Daí podemos citar a hermenêutica, teoria que parte do pressuposto de que a literatura (e outras obras do gênero), são uma interpretação de mundo e assim sendo, não podemos excluir por completo o autor. Mas além disso, o leitor traz a sua interpretação para a leitura da obra e o processo todo seria uma dupla interpretação.
Eu gosto também de trabalhar com a questão da voz e dos vazios do texto. Dentro de uma obra você tem, claro que através do filtro do autor, várias vozes, vários grupos e várias realidades representadas. Essas vozes podem ser verossímeis ou não e o autor pode te dar espaço (o vazio) para preencher o texto com suas próprias visões de mundo ou não. Se você não consegue entrar no texto, se ele te causa um desconforto ele pode estar mal escrito ou não (e isso pode ser proposital ou não).
O pacto da leitura
Uma das teorias prega que quando abrimos, ou até mesmo escolhemos um texto para ler, fazemos um pacto com o autor. Por exemplo, eu vou ler um romance policial. O que eu espero? Eu espero que haja um crime a ser resolvido, um mocinho e um bandido. O bandido vai ser um lobo em pele de cordeiro e eu vou tentar durante toda a leitura descobrir quem ele é. Ah, e eu quero que tenha ação. Se eu estiver lendo um romance policial que de repente me aparece um mutante soltando raios pelos olhos e o detetive vira um deus grego para combatê-lo é, no mínimo, fora da proposta. Pode ser que se ele estiver bem escrito, a proposta pareça convincente.
Eu faço sempre a analogia com a dança. O gênero literário é como um tipo de dança. Os passos e a música devem se combinar e o autor prepara o cenário, pega a sua mãe e te conduz. Você deve dançar tranquilamente, sem reparar que os músicos estão fora do tom, que os passos do autor estão em desacordo com a música ou que ele está dançando uma valsa no lugar de uma salsa. Se isso acontecer, o pacto foi rompido e você não vai querer mais ler o livro.
Bom, eu vou parar um pouco por aqui e depois, se tiver ânimo, escrevo um pouco mais sobre os elementos do romance ou algo que interesse. Fiquem à vontade para comentar, criticar, pontuar algo que tenha esquecido, e até para me corrigirem, afinal, como pseudo-crítica, eu aceito críticas (confesso que nessa parte ainda não sou muito experiente, mas estou me esforçando).
Caso alguém queira se aventurar, recomendo fortemente:
Antoine Compagnon - O Demônio da Teoria
Antonio Cândido - Literatura de dois gumes (in A educação pela noite)
Roberto Schwarz - Que horas são?
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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
quinta-feira, 18 de julho de 2013
Game of Thrones - eu não gosto e sei por quê.
Eu adoro pegar um livro, sentar, ler e quem sabe me transportar para outro mundo. Quando a cabeça anda muito cheia e a imaginação não consegue sair do chão, uso a ajuda de outras linguagens mais diretas, como as HQs e adaptações televisivas.
Uma que assisti há um tempinho foi Game of Thrones. Nem sei se já escrevi sobre isso aqui, mas eu detestei. Não consegui sair do sofá de tão óbvia, racista e preconceituosa que era a trama. Me desculpem os fãs, pois falo aqui apenas da série de televisão e das duas primeiras temporadas. O que para mim foi o suficiente para caracterizá-la como um fiasco ficcional.
Dependendo de como você entende ficção, o "projeto" do autor pode ser bem ou mal realizado. Para mim é simples: se o autor cumpriu o pacto com o leitor ele foi bem sucedido. Se ele se propõe a escrever um conto maravilhoso, você não vai criticar que haja magia na história, pois dentro do gênero, isso é algo dado. Por outro lado, se vai escrever um romance de cavalaria sem cavaleiros ele está realmente fugindo da proposta. Mesmo assim ainda pode ser bem sucedido se o protagonista de alguma forma possa ser comparado a um cavaleiro nos seus feitos, honra e etc. Não vou entrar no mérito do gênero, pois sabemos que muitas vezes escritores os reinventam, reinterpretam e etc.
Aí, eu começo a assistir a tal da série, sem nenhuma expectativa de uma releitura do "gênero" RPGesco, eu estava esperando mesmo um "Lord of the Rings" em outro reino.Mas me falaram que era muito, MUITO, bom. Gente que sempre me criticou por ler o Harry Potter, disse "leia, assista Game of Thrones, você vai gostar". Logo nos primeiros capítulos se instaura o clichê. Algo que era para ser um mundo novo me aparece como um pastiche da divisão geográfica terrestre da Era Medieval. No norte (gelado), brancos e nobres senhores feudais, honrados e incorruptíveis. No sul, quente, à la Montesquieu, moral e valores vão se derretendo com o calor e, adivinhem qual a cor do povo mais "bárbaro" da série? Quem notar qualquer semelhança com os muçulmanos não está muito longe da pista.
Okay, vá lá. Os americanos tem um troço mal resolvido com o "mundo árabe". Sobretudo em entender que aquilo lá não é o quintal deles. Mas enfim, dá até para entender o cara pintar os "mouros" como os bárbaros, só não dá para achar inovador, né? Mas "só" isso não foi o suficiente para me impedir de ver a série. A sucessão de mulheres usando ou o sexo como arma para chegar ao poder, ou sendo a honrada esposa e mãe de família para ter respeito foi bem além do clichê. Tem algumas mulheres que fogem à regra. A mãe dos dragões, a tal da cavaleira (pois ela não é uma amzona) e a menininha Stark. Alguém pode argumentar que por um determinado ponto de vista, a trama política gira em torno das manipulações femininas com a tal da Lanister e a do cabelo ruivo. Eu também não vejo nada de novo nesse argumento - Bel Ami (Guy de Maupassant), Relações Perigosas (Chrodelios de Laclos) e uma infinidade de outros exemplos.
Mas para ser sincera, a parte que mais me irritou foi a magia. Mas ai eu já nao posso dizer se o defeito foi da serie, se ele foi o estopim da minha irritação, ou se foi o que ela representa de fato na conjuntura atual. Ao final da segunda temporada a magia começa a dar sinais de que vai retornar. O nascimento dos dragões e a volta dos zumbis (ou algo assim) são alguns indícios. Eu teria que assistir mais da série para poder dizer qual é a justificativa do autor para o retorno da magia. O problema está justamente aí. Qualquer justificativa que ele dê é uma espécie de fuga da realidade. Até porque, sabemos que não existe, nem nunca existiu magia no mundo, okay?! O único dragão que conhecemos é o de Komodo.
No início do Iluminismo, a razão e a ciência tomaram o lugar da religião e da magia. Tanto que o termo "desencantamento do mundo" é usado para explicar a conjuntura de fenômenos que inauguraram aquilo que convencionou-se chamar de "modernidade". Mas esse termo tem outras interpretações, pois é um termo alemão e dizem que foi mal traduzido. Uma outra tradução é "desmagialização". Mas e ae?
Bom, um dos gêneros bastante representativos do período é o fantástico. Sua trama fundamental é o conflito entre a ciência e a magia. O indivíduo do conto fantástico tem certeza do que o que vê não pode ser real, pois é demasiado sobrenatural para ser explicado cientificamente, e no entanto ele vê. Instaura-se aí o desafio, pois sendo o sobrenatural impossível depois do cientifcismo, ele (o personagem) passa a duvidar dos seus próprios sentidos (algo também usado para criticar a ciência da época), mas nunca tem certeza do que aconteceu. Tanto é verdade, que o mais importante do fantástico é a dúvida e a magia nunca se realiza de fato, pois o conto fantástico é sempre uma história que alguém contou para o narrador, ou aconteceu com um amigo de um amigo e etc.
Depois dessa explicação, onde fica a magia no Game of Thrones? Os deuses estão renascendo, mesmo baseados na descrença dos fiéis. São novos deuses? Ou a magia existe independente deles? Isso quer dizer o quê? Vamos colocar a crença na frente da ciência? Quais são as implicações disso? Todas as respostas para mim me parecem ruins. Já basta o sistema de governo ser monárquico, uma espécie de pastiche da Távola Redonda. O autor não me convence nem de que está escrevendo uma ficção, nem de que está sendo autêntico. É claro que ele pode se inspirar no que existe, não tem outra forma de fazer, mas ele precisa apagar as marcas, ao meu ver, muito claras de onde ele bebeu. E a magia, essa não tem solução. Para mim vai ser sempre o Frankstein da obra.
Aí você, caro leitor, pode me dizer que é uma obra de ficção. Sim! Eu concordo. Mas veja bem, nunca é apenas ficção e as analogias preconceituosas que o autor faz com o mundo real são demasiado óbvias para me fazerem "descolar" do sofá e parar de pensar na relação atual entre o "retorno" da magia e o crescimento dos fundamentalismos religiosos.
Uma que assisti há um tempinho foi Game of Thrones. Nem sei se já escrevi sobre isso aqui, mas eu detestei. Não consegui sair do sofá de tão óbvia, racista e preconceituosa que era a trama. Me desculpem os fãs, pois falo aqui apenas da série de televisão e das duas primeiras temporadas. O que para mim foi o suficiente para caracterizá-la como um fiasco ficcional.
Dependendo de como você entende ficção, o "projeto" do autor pode ser bem ou mal realizado. Para mim é simples: se o autor cumpriu o pacto com o leitor ele foi bem sucedido. Se ele se propõe a escrever um conto maravilhoso, você não vai criticar que haja magia na história, pois dentro do gênero, isso é algo dado. Por outro lado, se vai escrever um romance de cavalaria sem cavaleiros ele está realmente fugindo da proposta. Mesmo assim ainda pode ser bem sucedido se o protagonista de alguma forma possa ser comparado a um cavaleiro nos seus feitos, honra e etc. Não vou entrar no mérito do gênero, pois sabemos que muitas vezes escritores os reinventam, reinterpretam e etc.
Aí, eu começo a assistir a tal da série, sem nenhuma expectativa de uma releitura do "gênero" RPGesco, eu estava esperando mesmo um "Lord of the Rings" em outro reino.Mas me falaram que era muito, MUITO, bom. Gente que sempre me criticou por ler o Harry Potter, disse "leia, assista Game of Thrones, você vai gostar". Logo nos primeiros capítulos se instaura o clichê. Algo que era para ser um mundo novo me aparece como um pastiche da divisão geográfica terrestre da Era Medieval. No norte (gelado), brancos e nobres senhores feudais, honrados e incorruptíveis. No sul, quente, à la Montesquieu, moral e valores vão se derretendo com o calor e, adivinhem qual a cor do povo mais "bárbaro" da série? Quem notar qualquer semelhança com os muçulmanos não está muito longe da pista.
Okay, vá lá. Os americanos tem um troço mal resolvido com o "mundo árabe". Sobretudo em entender que aquilo lá não é o quintal deles. Mas enfim, dá até para entender o cara pintar os "mouros" como os bárbaros, só não dá para achar inovador, né? Mas "só" isso não foi o suficiente para me impedir de ver a série. A sucessão de mulheres usando ou o sexo como arma para chegar ao poder, ou sendo a honrada esposa e mãe de família para ter respeito foi bem além do clichê. Tem algumas mulheres que fogem à regra. A mãe dos dragões, a tal da cavaleira (pois ela não é uma amzona) e a menininha Stark. Alguém pode argumentar que por um determinado ponto de vista, a trama política gira em torno das manipulações femininas com a tal da Lanister e a do cabelo ruivo. Eu também não vejo nada de novo nesse argumento - Bel Ami (Guy de Maupassant), Relações Perigosas (Chrodelios de Laclos) e uma infinidade de outros exemplos.
Mas para ser sincera, a parte que mais me irritou foi a magia. Mas ai eu já nao posso dizer se o defeito foi da serie, se ele foi o estopim da minha irritação, ou se foi o que ela representa de fato na conjuntura atual. Ao final da segunda temporada a magia começa a dar sinais de que vai retornar. O nascimento dos dragões e a volta dos zumbis (ou algo assim) são alguns indícios. Eu teria que assistir mais da série para poder dizer qual é a justificativa do autor para o retorno da magia. O problema está justamente aí. Qualquer justificativa que ele dê é uma espécie de fuga da realidade. Até porque, sabemos que não existe, nem nunca existiu magia no mundo, okay?! O único dragão que conhecemos é o de Komodo.
No início do Iluminismo, a razão e a ciência tomaram o lugar da religião e da magia. Tanto que o termo "desencantamento do mundo" é usado para explicar a conjuntura de fenômenos que inauguraram aquilo que convencionou-se chamar de "modernidade". Mas esse termo tem outras interpretações, pois é um termo alemão e dizem que foi mal traduzido. Uma outra tradução é "desmagialização". Mas e ae?
Bom, um dos gêneros bastante representativos do período é o fantástico. Sua trama fundamental é o conflito entre a ciência e a magia. O indivíduo do conto fantástico tem certeza do que o que vê não pode ser real, pois é demasiado sobrenatural para ser explicado cientificamente, e no entanto ele vê. Instaura-se aí o desafio, pois sendo o sobrenatural impossível depois do cientifcismo, ele (o personagem) passa a duvidar dos seus próprios sentidos (algo também usado para criticar a ciência da época), mas nunca tem certeza do que aconteceu. Tanto é verdade, que o mais importante do fantástico é a dúvida e a magia nunca se realiza de fato, pois o conto fantástico é sempre uma história que alguém contou para o narrador, ou aconteceu com um amigo de um amigo e etc.
Depois dessa explicação, onde fica a magia no Game of Thrones? Os deuses estão renascendo, mesmo baseados na descrença dos fiéis. São novos deuses? Ou a magia existe independente deles? Isso quer dizer o quê? Vamos colocar a crença na frente da ciência? Quais são as implicações disso? Todas as respostas para mim me parecem ruins. Já basta o sistema de governo ser monárquico, uma espécie de pastiche da Távola Redonda. O autor não me convence nem de que está escrevendo uma ficção, nem de que está sendo autêntico. É claro que ele pode se inspirar no que existe, não tem outra forma de fazer, mas ele precisa apagar as marcas, ao meu ver, muito claras de onde ele bebeu. E a magia, essa não tem solução. Para mim vai ser sempre o Frankstein da obra.
Aí você, caro leitor, pode me dizer que é uma obra de ficção. Sim! Eu concordo. Mas veja bem, nunca é apenas ficção e as analogias preconceituosas que o autor faz com o mundo real são demasiado óbvias para me fazerem "descolar" do sofá e parar de pensar na relação atual entre o "retorno" da magia e o crescimento dos fundamentalismos religiosos.
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
Eu nunca ..., mas...
Antes de começar, já preciso me retratar. Fiz isso inúmeras vezes. Agora vejo o quanto essa postura é perigosa. Estou falando do pseudo-sabido, vulgo desentendido, que diz "eu nunca vi esse filme, mas acho um monte de coisas a respeito dele".
Se você não viu, não leu, não comeu e ainda está pensando se vale a pena ou não, faça perguntas, não tire conclusões. Se você não conhece ou conhece muito pouco, expor seu preconceito tão precipitadamente pode transformar um conceito em um estereótipo.
O que eu ainda faço e estou tentando parar de fazer e tentar fazer alguma coisa, não conseguir e reclamar da coisa. Por exemplo, eu tentei ler Macunaíma umas trocentas vezes. Ele sempre me faz dormir. Mas eu acredito que devam ter coisas interessantes dentro do livro. Antes, eu falava mal dele. Parecia óbvio, afinal, se eu não consegui ler, é porque achava chato. Mas as vezes temos que tentar um pouco mais.
Exemplo. Quando li Lavoura Arcaica pela primeira vez, quase entrou para rol dos romances chato-macunaimescos da minha biblioteca mental. Mas depois de um tempo, me acostumei com o ritmo do livro e descobri coisas que muitos, mesmo do ramo, não percebem. Eu não posso dizer nem que gosto nem que desgosto, só posso dizer que é sensacional (pois fantástico poderia causar confusão).
Outro exemplo, também literário - Vidas Secas. Romance seco, duro, assim como a vida do sertanejo. Lido com uma dificuldade imensa no segundo grau, com o peso e o desânimo da obrigação. Relido na faculdade "estranhado e entranhado" de vez na caixinha dos meus livros favoritos. Não chore pela Baleia, chore por você que foi capaz de sentir mais afinidade por ela do que pelo Fabiano. Graciliano, mandou bem! hehehe
Outro exemplo, ativista. Sempre reclamei de ativismos, hoje sou feminista assumida, estudiosa do assunto e reclamosa dos que falam mal.
Então, minha gente, vamos pensar um pouco depois de completar o mas... com um "eu acho". E quem sabe mudar para um "o que você acha disso que falam?"Mesmo que seja no sentido "socratiano" (era ele que fazia isso?) da pergunta.
Se você não viu, não leu, não comeu e ainda está pensando se vale a pena ou não, faça perguntas, não tire conclusões. Se você não conhece ou conhece muito pouco, expor seu preconceito tão precipitadamente pode transformar um conceito em um estereótipo.
O que eu ainda faço e estou tentando parar de fazer e tentar fazer alguma coisa, não conseguir e reclamar da coisa. Por exemplo, eu tentei ler Macunaíma umas trocentas vezes. Ele sempre me faz dormir. Mas eu acredito que devam ter coisas interessantes dentro do livro. Antes, eu falava mal dele. Parecia óbvio, afinal, se eu não consegui ler, é porque achava chato. Mas as vezes temos que tentar um pouco mais.
Exemplo. Quando li Lavoura Arcaica pela primeira vez, quase entrou para rol dos romances chato-macunaimescos da minha biblioteca mental. Mas depois de um tempo, me acostumei com o ritmo do livro e descobri coisas que muitos, mesmo do ramo, não percebem. Eu não posso dizer nem que gosto nem que desgosto, só posso dizer que é sensacional (pois fantástico poderia causar confusão).
Outro exemplo, também literário - Vidas Secas. Romance seco, duro, assim como a vida do sertanejo. Lido com uma dificuldade imensa no segundo grau, com o peso e o desânimo da obrigação. Relido na faculdade "estranhado e entranhado" de vez na caixinha dos meus livros favoritos. Não chore pela Baleia, chore por você que foi capaz de sentir mais afinidade por ela do que pelo Fabiano. Graciliano, mandou bem! hehehe
Outro exemplo, ativista. Sempre reclamei de ativismos, hoje sou feminista assumida, estudiosa do assunto e reclamosa dos que falam mal.
Então, minha gente, vamos pensar um pouco depois de completar o mas... com um "eu acho". E quem sabe mudar para um "o que você acha disso que falam?"Mesmo que seja no sentido "socratiano" (era ele que fazia isso?) da pergunta.
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
Escrever é preciso
No verão-inferno de Brasília, sinto um peso no meu corpo.
O dia começa e eu continuo, o dia acaba e eu começo.
O avesso do todo.
Tenho medo de mim, vergonha de ser sendo.
Descolada de cola seca da realidade nada úmida dessa cidade.
Vou procurando na natureza inanimada cheia de vida
que os carros não vivem,
que o brasiliense não vive, sobre-vive
procuro companhia para minha solidão,
cheia de vida.
Encontro,
na natureza morta das reflexões
o eco sem eco, oco das concordâncias de grilhões
que escrever é preciso,
compreender é vazio.
O dia começa e eu continuo, o dia acaba e eu começo.
O avesso do todo.
Tenho medo de mim, vergonha de ser sendo.
Descolada de cola seca da realidade nada úmida dessa cidade.
Vou procurando na natureza inanimada cheia de vida
que os carros não vivem,
que o brasiliense não vive, sobre-vive
procuro companhia para minha solidão,
cheia de vida.
Encontro,
na natureza morta das reflexões
o eco sem eco, oco das concordâncias de grilhões
que escrever é preciso,
compreender é vazio.
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
Respirando literatura fantástica
Acho que nunca contei esse detalhe aqui no blog. Adoro Literatura Fantástica. Essa atmosfera misteriosa, de uma tranqüilidade aterrorizante e ao mesmo tempo desoladora me fascina. Outro dia descobri que um representante desse gênero está disponível no Domínio Público.
A dama do pé de cabra, de Alexandre Herculano foi um conto que marcou minha graduação. Antes de falar do conto, talvez eu deva introduzir o autor. Ele é português, do século XIX. Quem quiser mais algumas informações pode dar uma olhadinha na wikipédia, pois infelizmente, eu não tenho mais minhas anotações da graduação.
Acho que foi a primeira vez que consegui aplicar a teoria literária na leitura de um texto. Minha felicidade em encontrar o "desencantamento do mundo", a "morte do sagrado" e por mais estranhas que essas expressões podem parecer a princípio, elas fazem todo o sentido. É muito bobo dizer, mas era como se pela primeira vez eu conseguisse por em palavras minhas impressões da obra.
O tempo todo o narrador tenta se esquivar da responsabilidade de assumir o sobrenatural assumindo-o. Fora que é muito bom ver um texto que se assemelhe tanto a nossa tradição. As superstições, o sinal da cruz, ato significativo no conto tem tanto simbolismo pra gente. Ao mesmo tempo eu acho graça como as criaturas sobrenaturais, tão poderosas, sedutoras e astutas se contorcem de dor ao ouvir um nome santo. Não sei se aplica nesse caso, mas todos esses pequenos elementos me soaram como uma "cor local". É muito diferente do que ler "O homem da areia".
Como o texto não tem direitos autorais, vou reproduzir um trecho aqui, só para deleitar-vos.
"A DAMA DO PÉ-DE-CABRA
Alexandre Herculano
Trova Primeira – Capítulo I
Vós os que não credes em bruxas, nem em almas penadas, nem em tropelias de Satanás, assentai-vos aqui ao lar, bem juntos ao pé de mim, e contar-vos-ei a história de D. Diogo Lopes, senhor de Biscaia.
E não me digam no fim: — "não pode ser." — Pois eu sei cá inventar coisas destas? Se a conto, é porque a li num livro muito velho. E o autor do livro velho leu-a algures ou ouviu-a contar, que é o mesmo, a algum jogral em seus cantares.
É uma tradição veneranda; e quem descrê das tradições lá irá para onde o pague.
Juro-vos que, se me negais esta certíssima história, sois dez vezes mais descridos do que S. Tomé antes de ser grande santo. E não sei se eu estarei de ânimo de perdoar-vos como Cristo lhe perdoou.
Silêncio profundíssimo; porque vou principiar."
A dama do pé de cabra, de Alexandre Herculano foi um conto que marcou minha graduação. Antes de falar do conto, talvez eu deva introduzir o autor. Ele é português, do século XIX. Quem quiser mais algumas informações pode dar uma olhadinha na wikipédia, pois infelizmente, eu não tenho mais minhas anotações da graduação.
Acho que foi a primeira vez que consegui aplicar a teoria literária na leitura de um texto. Minha felicidade em encontrar o "desencantamento do mundo", a "morte do sagrado" e por mais estranhas que essas expressões podem parecer a princípio, elas fazem todo o sentido. É muito bobo dizer, mas era como se pela primeira vez eu conseguisse por em palavras minhas impressões da obra.
O tempo todo o narrador tenta se esquivar da responsabilidade de assumir o sobrenatural assumindo-o. Fora que é muito bom ver um texto que se assemelhe tanto a nossa tradição. As superstições, o sinal da cruz, ato significativo no conto tem tanto simbolismo pra gente. Ao mesmo tempo eu acho graça como as criaturas sobrenaturais, tão poderosas, sedutoras e astutas se contorcem de dor ao ouvir um nome santo. Não sei se aplica nesse caso, mas todos esses pequenos elementos me soaram como uma "cor local". É muito diferente do que ler "O homem da areia".
Como o texto não tem direitos autorais, vou reproduzir um trecho aqui, só para deleitar-vos.
"A DAMA DO PÉ-DE-CABRA
Alexandre Herculano
Trova Primeira – Capítulo I
Vós os que não credes em bruxas, nem em almas penadas, nem em tropelias de Satanás, assentai-vos aqui ao lar, bem juntos ao pé de mim, e contar-vos-ei a história de D. Diogo Lopes, senhor de Biscaia.
E não me digam no fim: — "não pode ser." — Pois eu sei cá inventar coisas destas? Se a conto, é porque a li num livro muito velho. E o autor do livro velho leu-a algures ou ouviu-a contar, que é o mesmo, a algum jogral em seus cantares.
É uma tradição veneranda; e quem descrê das tradições lá irá para onde o pague.
Juro-vos que, se me negais esta certíssima história, sois dez vezes mais descridos do que S. Tomé antes de ser grande santo. E não sei se eu estarei de ânimo de perdoar-vos como Cristo lhe perdoou.
Silêncio profundíssimo; porque vou principiar."
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
Vadia
Segue aqui meu poema homônimo:
Vadia
Você me chamou de vadia
só porque não fiz o que queria
Mas quanta gentileza sua, falar isso depois de ter me visto nua!
É difícil de acreditar que um dia eu quis me casar
só porque não preparo o jantar?
Você me chamou de vadia
porque minhas pernas a mini-saia não escondia?
Mas não foi isso que te fez querer sair comigo aquele dia?
Mas eu digo a você,
uma vadia não é difícil de encontrar,
nós estamos em todo lugar.
Sendo nós mesmas, não temos medo de desagradar.
Agora essa mulher que você espera encontrar,
vive sempre no mesmo lugar, muito fácil de achar:
Um livro de século XIX, que é o seu devido lugar.
Vadia
Você me chamou de vadia
só porque não fiz o que queria
Mas quanta gentileza sua, falar isso depois de ter me visto nua!
É difícil de acreditar que um dia eu quis me casar
só porque não preparo o jantar?
Você me chamou de vadia
porque minhas pernas a mini-saia não escondia?
Mas não foi isso que te fez querer sair comigo aquele dia?
Mas eu digo a você,
uma vadia não é difícil de encontrar,
nós estamos em todo lugar.
Sendo nós mesmas, não temos medo de desagradar.
Agora essa mulher que você espera encontrar,
vive sempre no mesmo lugar, muito fácil de achar:
Um livro de século XIX, que é o seu devido lugar.
segunda-feira, 18 de junho de 2012
Gabriela, again...
Sinto muito, mas eu não li a Gabriela de Jorge Amado. Desde que sou criança, rodeada por Tietas e Gabrielas, eu consegui no máximo me divertir um pouco com "A morte e a morte de Quincas Berro d'água". Sim, eu sou mestre em Literatura Brasileira, mas não li todos os livros nem todos os autores. Assim como, formada em Letras, eu não sei todas as regras da gramática nem todas as palavras do dicionário...
Mas voltando ao assunto, se tem uma coisa que me irrita é esse culto da Literatura neo-naturalista. Mas especificamente sobre aquilo que se entende sobre ela. Sim, Jorge Amado é um clássico, então, consequentemente bom. Talvez o livro até seja, mas se compararmos o casal pelas duas obras que li, "A morte e a morte de Quincas Berro d'água" e "Anarquistas graças a Deus", a Zélia foi para mim uma leitura bem mais agradável. Mas é claro que não se pode fazer isso.
Assim como não podemos pegar as novelas da Globo como um parâmetro para julgar a obra de Jorge Amado, Gabriela, muito embora eu tenha minhas dúvidas de que ele tenha sido tão hábil quanto Machado de Assis ao silenciar Capitu. Gabriela fala no romance? Não sei, mas parece não ter importância. Infelizmente, o que se "vende" sobre Literatura Brasileira no discurso midiático é o "pastiche global". Um bom jeito de suavizar qualquer "ruga" de profundidade da superfície com risadas e imagens paradisíacas. Bem Gabriela.
Toda a discussão que vem sendo feita sobre a exploração do corpo da mulher nas propagandas (e entre outros meios) parece não atingir a magnânima emissora, que em pleno século XXI resgata sem ressignificação todo apelo sexual da mulata brasileira, ignorando inclusive os altos índices de violência contra a mulher, sobretudo quando essa se recusa a atender aos apelos do companheiro.
Eu tenho medo da Gabriela, mas não da Virgínia Woolf. Dessa imagem que "fazemos" questão de mostrar que tanto nos atrapalha, nos limita. A falta de história e de cultura, na concepção de alguns, só pode ser recompensada pelas belezas naturais, sejam de nossas terras, sejam de nossas mulheres. Porque vender o Brasil e a Gabriela como uma terra virgem pronta para ser deflorada? Não seria melhor preservá-la e respeitá-la?
E mais uma vez, porque Gabriela de novo?
Mas voltando ao assunto, se tem uma coisa que me irrita é esse culto da Literatura neo-naturalista. Mas especificamente sobre aquilo que se entende sobre ela. Sim, Jorge Amado é um clássico, então, consequentemente bom. Talvez o livro até seja, mas se compararmos o casal pelas duas obras que li, "A morte e a morte de Quincas Berro d'água" e "Anarquistas graças a Deus", a Zélia foi para mim uma leitura bem mais agradável. Mas é claro que não se pode fazer isso.
Assim como não podemos pegar as novelas da Globo como um parâmetro para julgar a obra de Jorge Amado, Gabriela, muito embora eu tenha minhas dúvidas de que ele tenha sido tão hábil quanto Machado de Assis ao silenciar Capitu. Gabriela fala no romance? Não sei, mas parece não ter importância. Infelizmente, o que se "vende" sobre Literatura Brasileira no discurso midiático é o "pastiche global". Um bom jeito de suavizar qualquer "ruga" de profundidade da superfície com risadas e imagens paradisíacas. Bem Gabriela.
Toda a discussão que vem sendo feita sobre a exploração do corpo da mulher nas propagandas (e entre outros meios) parece não atingir a magnânima emissora, que em pleno século XXI resgata sem ressignificação todo apelo sexual da mulata brasileira, ignorando inclusive os altos índices de violência contra a mulher, sobretudo quando essa se recusa a atender aos apelos do companheiro.
Eu tenho medo da Gabriela, mas não da Virgínia Woolf. Dessa imagem que "fazemos" questão de mostrar que tanto nos atrapalha, nos limita. A falta de história e de cultura, na concepção de alguns, só pode ser recompensada pelas belezas naturais, sejam de nossas terras, sejam de nossas mulheres. Porque vender o Brasil e a Gabriela como uma terra virgem pronta para ser deflorada? Não seria melhor preservá-la e respeitá-la?
E mais uma vez, porque Gabriela de novo?
quarta-feira, 29 de junho de 2011
Associações difíceis, mas possíveis
Eu sou meio "caraminhocoladora"*, tô pensando em 3 coisas diferentes ao mesmo tempo e, as vezes, essas coisas acabam se relacionamdo por acaso. Ou não. Bom, estava lendo o meu e-mail e recebi um convite para um colócio sobre pensadores da cultura. Enquanto lia a programação me veio a cabeça um episódio dos Simpsons. Sempre gostei do desenho pq achava que a minha família parecia com a deles. Hoje vejo que temos muito pouco em comum e também consigo enxergar a parte adulta do desenho. Afinal, os Simpsons começou a passar no Brasil quando eu era criança. O episódio que eu estava assistindo era o dos Simpsons na Inglaterra. Eu gosto especialmente desses episódios onde eles viajam porque é uma esculhambação total. Eles fazem um retrato caricato do país, o país sacaneia com eles e proto, estão quites.
Mas o que eu me lembrei desse episódio que me fez pensar em outra coisa foi o final. Sim, vou SPOILIAR os Simpsons. se vc nunca viu esse episódio, não termine de ler esse post.
Quando o Homer, se eu me lembro bem, fica preso na Torre de Londres por ter batido na carruagem da Rainha. A família dele consegue achar uma passagem secreta para tirá-lo de lá. Mas na fuga ele se perde e acaba indo direto para os aposentos de sua magestade. Não tendo outra saída, Homer se ajoelha aos pés da Rainha e pede clemência, no estilo dele. Como ele pede é que eu acho fantástico. Vou tentar transcrever aqui:
"Por favor, magestade. Eu sei que eu, como muitos americanos aqui, me comportei como um perfeito idiota. Mas nós, os americanos, somos filhos da Inglaterra. Eu sei que não telefonamos com a frequência que deveríamos, nem somos tão bem comportados como nossos irmãos do Canadá [...]. Mas por favor, busque no seu coração cravado de jóias um jeito de me perdoar."
Eu tentei achar o texto em inglês, mas ficou muito complicado para o meu netbook e minhas habilidades internáuticas. Mas acho que era mais ou menos a mesma coisa, se me lembro bem.
Voltando ao colóquio, da lista de mais ou menos 10 pensadores, não tinha nenhuma mulher entre eles. Algumas apresentações não traziam o autor no título, mas eram apenas 3. Se forem mulheres, o que eu duvido, isso no traz 30% de presença feminina no pensamento cultura. É muito pouco se pensarmos que só no Brasil, as mulheres são 50% da população e que nas áreas da cultura e das artes figuram como maior parte do corpo docente e dicente. É difícil pensar que não temos pensadoras da cultura brasileira e até mesmo mundial que mereçam aparecer numa lista dessas. Eu as vezes tenho vontade de surtar como a personagem do conto da Lygia Fagundes Telle, Senho Diretor, e escrever cartas para esse povo. Mas no meu caso seriam cartas bem desaforadas, do tipo "Machado de Assis, de novo!?, ou "mais uma leitura de Shakspeare? Tem certeza que ele é inesgotável?. Ah, não! Tá de brincadeira que vai tentar me vender Bernardo Carvalho como cool e super novo, de novo? Ou que tal mais um Bosi, Cândido e Moisés, isso quando somos muito revolucionários em citar críticos brasileiros.
AAAAAAAAAAAA! Eu quero algo novo! AlôÔÔôu, academia, o povo lá fora ainda acha que a nossa capital é o Rio de Janeiro e que falamos espanhol e vcs ainda preocupados em venerar aqueles que um dia, por acaso, algum gringo veio aqui e estudou pq não tinha mais ninguém no país dele para estudar. Eu escolho Pagu em vez de Andrade, Lygia em vez de Clarice, Júlia Lopes de Almeida no lugar do Machado, Elvira Vigna em vez do Carvalho e que tudo mais vá pro... tororó.
Pronto, falei!
Você pode estar pensando que eu quero que haja apenas mulheres. Certamente eu gostaria que houvesse mais, mas não somente isso. Muitos desses autores que estão sendo estudados, são os mesmos que eu estudei na graduação. Os alunos ainda lêem as mesmas coisas. Tudo parece mais do mesmo...
E o que tudo isso tem a ver com o texto dos Simpsons? Sei lá, talvez estejamos ainda com medo de "sair da casa dos pais", tomar uma postura menos confortável e aceitar os riscos e as consequências, agindo como "crianças" esperando um amadurecimento que não estamos lutando para ter, esperando sermos perdoados pelo mundo pelos nossos eros. Talvez?!
PS: Para evitar defesas acolaradas sobre a qualidade dos autores criticados acima, gostaria de ressaltar que a qualidade deles é lugar comum e não discuto ou duvido disso. Mas o que estou querendo é uma renovada, uma cara nova nos currículos de literatura, na pós... Sei lá, algo diferente. Tá tudo com uma cara meio clichê. Mas graças tem boas pessoas trabalhando com coisas muito diferente, e felizmente, gente muito boa! Infelizmente, uma minoria nesse marzão.
*Expressão da personagem Lorena de As Meninas (Lygia Fagundes Telles)
Mas o que eu me lembrei desse episódio que me fez pensar em outra coisa foi o final. Sim, vou SPOILIAR os Simpsons. se vc nunca viu esse episódio, não termine de ler esse post.
Quando o Homer, se eu me lembro bem, fica preso na Torre de Londres por ter batido na carruagem da Rainha. A família dele consegue achar uma passagem secreta para tirá-lo de lá. Mas na fuga ele se perde e acaba indo direto para os aposentos de sua magestade. Não tendo outra saída, Homer se ajoelha aos pés da Rainha e pede clemência, no estilo dele. Como ele pede é que eu acho fantástico. Vou tentar transcrever aqui:
"Por favor, magestade. Eu sei que eu, como muitos americanos aqui, me comportei como um perfeito idiota. Mas nós, os americanos, somos filhos da Inglaterra. Eu sei que não telefonamos com a frequência que deveríamos, nem somos tão bem comportados como nossos irmãos do Canadá [...]. Mas por favor, busque no seu coração cravado de jóias um jeito de me perdoar."
Eu tentei achar o texto em inglês, mas ficou muito complicado para o meu netbook e minhas habilidades internáuticas. Mas acho que era mais ou menos a mesma coisa, se me lembro bem.
Voltando ao colóquio, da lista de mais ou menos 10 pensadores, não tinha nenhuma mulher entre eles. Algumas apresentações não traziam o autor no título, mas eram apenas 3. Se forem mulheres, o que eu duvido, isso no traz 30% de presença feminina no pensamento cultura. É muito pouco se pensarmos que só no Brasil, as mulheres são 50% da população e que nas áreas da cultura e das artes figuram como maior parte do corpo docente e dicente. É difícil pensar que não temos pensadoras da cultura brasileira e até mesmo mundial que mereçam aparecer numa lista dessas. Eu as vezes tenho vontade de surtar como a personagem do conto da Lygia Fagundes Telle, Senho Diretor, e escrever cartas para esse povo. Mas no meu caso seriam cartas bem desaforadas, do tipo "Machado de Assis, de novo!?, ou "mais uma leitura de Shakspeare? Tem certeza que ele é inesgotável?. Ah, não! Tá de brincadeira que vai tentar me vender Bernardo Carvalho como cool e super novo, de novo? Ou que tal mais um Bosi, Cândido e Moisés, isso quando somos muito revolucionários em citar críticos brasileiros.
AAAAAAAAAAAA! Eu quero algo novo! AlôÔÔôu, academia, o povo lá fora ainda acha que a nossa capital é o Rio de Janeiro e que falamos espanhol e vcs ainda preocupados em venerar aqueles que um dia, por acaso, algum gringo veio aqui e estudou pq não tinha mais ninguém no país dele para estudar. Eu escolho Pagu em vez de Andrade, Lygia em vez de Clarice, Júlia Lopes de Almeida no lugar do Machado, Elvira Vigna em vez do Carvalho e que tudo mais vá pro... tororó.
Pronto, falei!
Você pode estar pensando que eu quero que haja apenas mulheres. Certamente eu gostaria que houvesse mais, mas não somente isso. Muitos desses autores que estão sendo estudados, são os mesmos que eu estudei na graduação. Os alunos ainda lêem as mesmas coisas. Tudo parece mais do mesmo...
E o que tudo isso tem a ver com o texto dos Simpsons? Sei lá, talvez estejamos ainda com medo de "sair da casa dos pais", tomar uma postura menos confortável e aceitar os riscos e as consequências, agindo como "crianças" esperando um amadurecimento que não estamos lutando para ter, esperando sermos perdoados pelo mundo pelos nossos eros. Talvez?!
PS: Para evitar defesas acolaradas sobre a qualidade dos autores criticados acima, gostaria de ressaltar que a qualidade deles é lugar comum e não discuto ou duvido disso. Mas o que estou querendo é uma renovada, uma cara nova nos currículos de literatura, na pós... Sei lá, algo diferente. Tá tudo com uma cara meio clichê. Mas graças tem boas pessoas trabalhando com coisas muito diferente, e felizmente, gente muito boa! Infelizmente, uma minoria nesse marzão.
*Expressão da personagem Lorena de As Meninas (Lygia Fagundes Telles)
sábado, 4 de dezembro de 2010
Dicas de livros
Existe uma personagem da literatura portuguesa que é desconhecida por muitos - Mariana. Mais conhecida ainda como Mariana Alcoforado ou Sóror Saudade. Conheci a história dela através de uma ótima professora que caiu de para-quedas na disciplina de realismo português. Nessa ocasião, eu, que estava crente que ia ler o Fernando Pessoa, acabei lendo A Casa da Malta.
Felizmente essa professora gostava de nos mostrar o lado underground da literatura e acabou comentando sobre a Mariana, Anaïs Nin e Florbela Espanca - expoentes da literatura de suas épocas sutilmente deixadas de lado por muitos estudiosos. Eis que um dia, vasculhando as estantes de livros de bolso da Banca mais famosa do Ceubinho eu encontro ela, Mariana Alcoforado, por r$ 8,00. Não resisti, ainda mais quando para valida-la havia depoimentos dos seus leitores: Rilke, Stendhal, Sainte-Beuve e Rousseau. Esse último queima filme (na minha opinião), mas é famoso.
Falando agora do livro, são 5 cartas de amor publicadas primeiramente de forma anônima, afinal, se trata de confissões amorosas de uma freira (de um convento em Beja). Por isso ainda o nome Sóror Saudade. Essa última informação não encotrei no livro e como foi a professora que comentou muito exitante, coloquei em itálico. Bom, a freira teve uma grande paixão por um oficial do exército francês que estava servindo em Portugal, dizem ser o conde de Saint-Léger, ou De Chamilly. Mas a questão é que, bom, eu estou muito pouco romântica ultimamente, então vou analisar friamente a carta: trata-se de uma mulher desesperada com o rompimento e a indiferença do amante. Eu a acho por demais solícita com ele, apesar de todo ódio que exala em suas cartas, afinal, ele fudeu com ela e com a vida dela.
Parece-me ainda que ela sofreu punições da família pela aventura, mas se recusou entregar o nome do amante, um homem covarde que desgraçou uma mulher sem experiência que viveu num convento a vida toda e não teve coragem para romper com ela pessoalmente. Essa é a minha leitura, afinal, eu sei que no séc. XVIII a educação das meminas em muitos casos era feita por freiras e os pais que não conseguissem ou não quisessem arrumar casamento para suas filhas chegavam a nunca conviver com elas, deixando-as mofar num convento, como parece ser o caso de Mariana. Mas ele também pode ter sido ameaçado pela família de Mariana, que era muito poderosa. Quanto a parte romântica da carta, a considerada por muitos como uma voz que se sobressai, vale a pena dizer que a dor de uma desilusão parece ser a mesma, não importa a época.
Cartas Portuguesas, Mariana Alcoforado
Felizmente essa professora gostava de nos mostrar o lado underground da literatura e acabou comentando sobre a Mariana, Anaïs Nin e Florbela Espanca - expoentes da literatura de suas épocas sutilmente deixadas de lado por muitos estudiosos. Eis que um dia, vasculhando as estantes de livros de bolso da Banca mais famosa do Ceubinho eu encontro ela, Mariana Alcoforado, por r$ 8,00. Não resisti, ainda mais quando para valida-la havia depoimentos dos seus leitores: Rilke, Stendhal, Sainte-Beuve e Rousseau. Esse último queima filme (na minha opinião), mas é famoso.
Falando agora do livro, são 5 cartas de amor publicadas primeiramente de forma anônima, afinal, se trata de confissões amorosas de uma freira (de um convento em Beja). Por isso ainda o nome Sóror Saudade. Essa última informação não encotrei no livro e como foi a professora que comentou muito exitante, coloquei em itálico. Bom, a freira teve uma grande paixão por um oficial do exército francês que estava servindo em Portugal, dizem ser o conde de Saint-Léger, ou De Chamilly. Mas a questão é que, bom, eu estou muito pouco romântica ultimamente, então vou analisar friamente a carta: trata-se de uma mulher desesperada com o rompimento e a indiferença do amante. Eu a acho por demais solícita com ele, apesar de todo ódio que exala em suas cartas, afinal, ele fudeu com ela e com a vida dela.
Parece-me ainda que ela sofreu punições da família pela aventura, mas se recusou entregar o nome do amante, um homem covarde que desgraçou uma mulher sem experiência que viveu num convento a vida toda e não teve coragem para romper com ela pessoalmente. Essa é a minha leitura, afinal, eu sei que no séc. XVIII a educação das meminas em muitos casos era feita por freiras e os pais que não conseguissem ou não quisessem arrumar casamento para suas filhas chegavam a nunca conviver com elas, deixando-as mofar num convento, como parece ser o caso de Mariana. Mas ele também pode ter sido ameaçado pela família de Mariana, que era muito poderosa. Quanto a parte romântica da carta, a considerada por muitos como uma voz que se sobressai, vale a pena dizer que a dor de uma desilusão parece ser a mesma, não importa a época.
Cartas Portuguesas, Mariana Alcoforado
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
O post do desassosego
Ou o não-post
Eu adoro essa palavra. Pra mim ela soa bem diferente de ansiedade. Quando penso em ansiedade me dá vontade de roer as unhas, no desassosego, tenho vontade de trabalhar, dançar, ir tomar uma cerva com os amigos, mas ficar à espreita, só olhando.
Essa palavra não surgiu aí a toa. Foi inspirada no livro do desassossego do Fernando Pessoa - o esquizofrênico mais criativo que eu já vi. Bom, eu o chamo assim porque ao ler seus heterônimos separadamente e desavisadamente pode-se muito bem achar que se tratam de 3 escritores distintos. Inclusive eu faço a mesma pergunta que muitos: Será que o próprio Pessoa não é um heterônimo? Afinal, pessoa vem de persona, a máscara do teatro grego. Acho que só com essa explanação já posso ter plantado a semente do desassossego em vcs. Enfin, esse livro, ou não livro como Pessoa o chamou, é enorme e eu não li nem 1/3 dele ainda, mas já me deixou por demais desassossegada. Vou colocar aqui o primeiro trecho do livro para que vcs se sintam tão desassossegados quanto eu.
"1. Nasci em um tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a haviam tido - sem saber porquê. E então, porque o espírito humano tende naturalmente para criticar por que sente, e não por que pensa, a maioria desses jovens escolheu a Humanidade para sucedâneo de Deus. Pertenço, porém, àquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem, nem vêem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado. Por isso nem abandonei Deus tão amplamente como eles, nem aceitei nunca a Humanidade. Considerei que Deus, sendo improvável, poderia ser, podendo pois dever ser adorado; mas que a Humanidade, sendo uma mera idéia biológica, e não significando mais que uma espécie animal humana, não era mais digna de adoração do que qualquer outra espécie animal. Este culto da Humanidade, com seus ritos de Liberdade e Igualdade, pareceu-me sempre uma revivescência dos cultos antigos, em que animais eram como deuses, ou os deuses tinham cabeças de animais.
Assim, não sabendo crer em Deus, e não podendo crer numa soma de animais, fiquei, como outros da orla das gentes, naquela distância de tudo que comummente se chama Decadência. A Decadência é a perda total da inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida. O coração, se pudesse pensar, pararia."
Livro do desassossego - Bernardo Soares (ou Fernando Pessoa)
Acho que a principal diferença entre nós, aqui, é que para ele houve um tempo em que se acreditava em Deus, esse Deus que fazia girar o sol em torno da Terra. No meu tempo, ele já havia morrido, sido esquecido.
Eu adoro essa palavra. Pra mim ela soa bem diferente de ansiedade. Quando penso em ansiedade me dá vontade de roer as unhas, no desassosego, tenho vontade de trabalhar, dançar, ir tomar uma cerva com os amigos, mas ficar à espreita, só olhando.
Essa palavra não surgiu aí a toa. Foi inspirada no livro do desassossego do Fernando Pessoa - o esquizofrênico mais criativo que eu já vi. Bom, eu o chamo assim porque ao ler seus heterônimos separadamente e desavisadamente pode-se muito bem achar que se tratam de 3 escritores distintos. Inclusive eu faço a mesma pergunta que muitos: Será que o próprio Pessoa não é um heterônimo? Afinal, pessoa vem de persona, a máscara do teatro grego. Acho que só com essa explanação já posso ter plantado a semente do desassossego em vcs. Enfin, esse livro, ou não livro como Pessoa o chamou, é enorme e eu não li nem 1/3 dele ainda, mas já me deixou por demais desassossegada. Vou colocar aqui o primeiro trecho do livro para que vcs se sintam tão desassossegados quanto eu.
"1. Nasci em um tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a haviam tido - sem saber porquê. E então, porque o espírito humano tende naturalmente para criticar por que sente, e não por que pensa, a maioria desses jovens escolheu a Humanidade para sucedâneo de Deus. Pertenço, porém, àquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem, nem vêem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado. Por isso nem abandonei Deus tão amplamente como eles, nem aceitei nunca a Humanidade. Considerei que Deus, sendo improvável, poderia ser, podendo pois dever ser adorado; mas que a Humanidade, sendo uma mera idéia biológica, e não significando mais que uma espécie animal humana, não era mais digna de adoração do que qualquer outra espécie animal. Este culto da Humanidade, com seus ritos de Liberdade e Igualdade, pareceu-me sempre uma revivescência dos cultos antigos, em que animais eram como deuses, ou os deuses tinham cabeças de animais.
Assim, não sabendo crer em Deus, e não podendo crer numa soma de animais, fiquei, como outros da orla das gentes, naquela distância de tudo que comummente se chama Decadência. A Decadência é a perda total da inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida. O coração, se pudesse pensar, pararia."
Livro do desassossego - Bernardo Soares (ou Fernando Pessoa)
Acho que a principal diferença entre nós, aqui, é que para ele houve um tempo em que se acreditava em Deus, esse Deus que fazia girar o sol em torno da Terra. No meu tempo, ele já havia morrido, sido esquecido.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
As desastrosas crônicas de Nárnia
Para matar o tempo e dar uma relaxada do trabalho eu pedi e ganhei o volume único das Crônicas de Nárnia. A minha idéia era ler uma coisa bobinha e divertida para fugir um pouco da minha linha de pesquisa. Afinal, o que poderia ter a ver com práticas sociais e represetação um livro pra crianças?
Ledo engano! O livro é um prato cheio para críticas. O autor coloca de forma praticamente transparente todos os seus preconceitos e crenças. Isso pode ser considerado bom de certa forma porque sendo transparente e facilmente identificável torna-se questionável.
Do ponto de vista estético o livro é medíocre. Eu não sei dizer se é um problema da tradução, acredito que seja, mas além de tudo, o livro (ou a tradução) é muito mal escrito. As descrições são imprecisas e os acontecimentos se atropelam. Essa última parte acredito que, para as crianças, seja uma vantagem. Elas dificilmente dormirão se alguém estiver lendo corretamente o livro para elas. Mas o vocabulário é tão pobre em comparação a riqueza que se imagina haver no mundo de Nárnia.
Ideologicamente não podemos culpar o tradutor. O Lewis devia ser um pedagogo pra lá de retrógado. Critica abertamente as escolas mistas, prega que as mulheres, mesmo sendo rainhas, devam ficar à sombra dos Grandes Reis homens e é claro, humanos são melhores que os bichos. Os animais em Nárnia são mais honestos, inteligentes e fiéis que os humanos, mas curiosamente apenas aos filhos-de-adão é dada a capacidade de reinar sob a terra de Nárnia. Os tempos áureos desse mundo apenas existiram quando um humano o governou. Curiosamente ainda aos humanos é dada a alcunha de filhos-de-adão ressaltando o caráter católico do livro. O deus desse mundo é um leão e vc pode até cair na besteira de pensar que nisso o autor foge ao clichê catequizante que dá o tom da narrativa, mas não se engane. Na penúltima crônica, que será precisamente o 3º filme da série, ao chegar ao fim do mundo (que em Nárnia é plano) o leão aparece sob a forma de um cordeiro apenas para dizer as crianças que ele também é o senhor do mundo deles (a Terra ou mais precisamente, a Inglaterra), mas que lá aparece sob diferentes formas.
Outro problema agoniante é o racismo escrachado do livro. Os nativos de nárnia são os animais falantes. Os reis são os humanos. Mas Nárnia é um país. Existe a Arquelândia, onde os animais são burros e os homens são brancos. Na visão do autor, é um bom país. Já a Calormânia, uma terra árida onde as pessoas tem a pele morena e os olhos escuros e as roupas se parecem muito com as que conhecemos por serem árabes, é um país feio de gente ruim, música e poesia inferiores e comida estranha e difícil de agradar realmente ao paladar.
O que ele tem de bom? Apesar de tudo, a imaginação do autor não é de se jogar fora. Imaginar que você pode se transportar para um outro mundo atravessando um guarda roupa é muito divertido. Eu só daria um conselho aos pais que queiram ler o livro aos filhos: discuta essas passagens com os meninos explicando bem a época em que o autor viveu e o porquê de certos pensamentos. E principalmente, não deixe passar o preconceito e o sexismo do livro. Eu acredito que devamos ler todo e qualquer livro com uma certa dose de crítica e atenção, mas não precisamos jogar fora coisas que fujam as nossas crenças. Dessa forma estariamos nos tornando iguais ao Lewis ao criticar escolas mistas.
Ledo engano! O livro é um prato cheio para críticas. O autor coloca de forma praticamente transparente todos os seus preconceitos e crenças. Isso pode ser considerado bom de certa forma porque sendo transparente e facilmente identificável torna-se questionável.
Do ponto de vista estético o livro é medíocre. Eu não sei dizer se é um problema da tradução, acredito que seja, mas além de tudo, o livro (ou a tradução) é muito mal escrito. As descrições são imprecisas e os acontecimentos se atropelam. Essa última parte acredito que, para as crianças, seja uma vantagem. Elas dificilmente dormirão se alguém estiver lendo corretamente o livro para elas. Mas o vocabulário é tão pobre em comparação a riqueza que se imagina haver no mundo de Nárnia.
Ideologicamente não podemos culpar o tradutor. O Lewis devia ser um pedagogo pra lá de retrógado. Critica abertamente as escolas mistas, prega que as mulheres, mesmo sendo rainhas, devam ficar à sombra dos Grandes Reis homens e é claro, humanos são melhores que os bichos. Os animais em Nárnia são mais honestos, inteligentes e fiéis que os humanos, mas curiosamente apenas aos filhos-de-adão é dada a capacidade de reinar sob a terra de Nárnia. Os tempos áureos desse mundo apenas existiram quando um humano o governou. Curiosamente ainda aos humanos é dada a alcunha de filhos-de-adão ressaltando o caráter católico do livro. O deus desse mundo é um leão e vc pode até cair na besteira de pensar que nisso o autor foge ao clichê catequizante que dá o tom da narrativa, mas não se engane. Na penúltima crônica, que será precisamente o 3º filme da série, ao chegar ao fim do mundo (que em Nárnia é plano) o leão aparece sob a forma de um cordeiro apenas para dizer as crianças que ele também é o senhor do mundo deles (a Terra ou mais precisamente, a Inglaterra), mas que lá aparece sob diferentes formas.
Outro problema agoniante é o racismo escrachado do livro. Os nativos de nárnia são os animais falantes. Os reis são os humanos. Mas Nárnia é um país. Existe a Arquelândia, onde os animais são burros e os homens são brancos. Na visão do autor, é um bom país. Já a Calormânia, uma terra árida onde as pessoas tem a pele morena e os olhos escuros e as roupas se parecem muito com as que conhecemos por serem árabes, é um país feio de gente ruim, música e poesia inferiores e comida estranha e difícil de agradar realmente ao paladar.
O que ele tem de bom? Apesar de tudo, a imaginação do autor não é de se jogar fora. Imaginar que você pode se transportar para um outro mundo atravessando um guarda roupa é muito divertido. Eu só daria um conselho aos pais que queiram ler o livro aos filhos: discuta essas passagens com os meninos explicando bem a época em que o autor viveu e o porquê de certos pensamentos. E principalmente, não deixe passar o preconceito e o sexismo do livro. Eu acredito que devamos ler todo e qualquer livro com uma certa dose de crítica e atenção, mas não precisamos jogar fora coisas que fujam as nossas crenças. Dessa forma estariamos nos tornando iguais ao Lewis ao criticar escolas mistas.
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Livro bom x ruim
Ontem rolou um amigo oculto "da galera". É assim que eu e os meus amigos de 2 grau nos referimos uns aos outros e ao grupo. Esse amigo oculto já é tradição. Fazemos todos os anos no Natal e acho que já há uns 5 anos ou mais. A novidade desses últimos 2 anos é que eu entrei no mestrado e acabei abrindo mão dos presentes comuns e venho pedindo sempre livros na minha lista. Eu sempre gostei de ganhar livros de presente, mas poucas pessoas se arriscam a me dar um. Na minha família eu posso dizer que se não especificar que quero o livro "tal" ganho sempre uma roupa ou uma bijoteria de presente.
Eu já compreendi que no caso da minha família, como a maioria não gosta de ler, acha livro um presente demasiado sem graça. Tem ainda uma parcela dela que acha que como eu faço mestrado em Literatura, livro pra mim é trabalho e como a maior parte das pessoas está acostumada a trabalhar em algo que não gosta elas acham estranho a idéia de me dar trabalho de presente. Com os meus amigos é um pouco diferente. A maioria gosta de ler. Confesso que aqueles que não gostam me deixam um pouco sem opção, afinal, comecei a considerar dar roupas de presente algo muito pessoal. Mas para se dar um livro de presente é necessário conhecer um pouco o gosto literário da pessoa e aí está a dificuldade e a razão pela qual não ganho muitos livros de presente.
Quando as pessoas pensam em alguém que faz mestrado na área elas acham que essa pessoa só gosta de Literatura com L maiúsculo. E de fato não deve ser fácil escolher um livro que caiba nessa característica e seja de Literatura Brasileira que não seja Machado de Assis, pois esse todos sabem que eu odeio. Literatura mundial não ajuda meus amigos, pois só leio em português e francês. Posso achar que eles vão conseguir escolher algo nessas duas línguas, mas a dúvida que deve pairar neles é "qual autor ela pode gostar?". Afinal, sou uma pessoa esquizita. Não gosto do Saramago.
Penso então em outro problema para eles "Que tipo de coisa ela gosta?". Nem os famosos e nem os ditos "bons" cabem. Bom, acho que para o espanto do meu amigo oculto, 15 dos 20 livros que eu pedi, não se acha nas livrarias (nem eu imaginei que fosse tudo isso). Mas dentre eles tinha um considerado um best seller. Será que ele se chocou ao ver "As Crônicas de Nárnia" na minha lista? Acho que sim, pois ao me entregar o presente ele estava indisfarçavelmente espantado. Imagina, logo eu pedir um livro bobo para criança?
Não tenho preconceito quanto à literatura ou Literatura. Tudo depende da perspectiva que vc vai ler. Nesse aspecto eu concordo com o Compagnon quando diz que o próprio conceito de Literatura já é um juízo de valor e o que é considerado Literatura hoje pode ser bula de remédio ou filosofia amanhã. Se espera ler um cânone ou algo que queira pensar se tratar de Literatura universal, esqueça a maioria dos livros divertidos, das comédias e das coisas fáceis de ler. Mas se quer se distrair e se divertir qual o mau em ler um livro para crianças? Eu adoro contos fantásticos, como poderia abrir mão de conhecer um livro inteiro de crônicas desse tipo? Ainda não sei se são fantásticas, mas qual a melhor forma de descobrir? Tem horas que a gente cansa de finais infelizes, pessimismos pós-modernos e crítica social.
Eu já compreendi que no caso da minha família, como a maioria não gosta de ler, acha livro um presente demasiado sem graça. Tem ainda uma parcela dela que acha que como eu faço mestrado em Literatura, livro pra mim é trabalho e como a maior parte das pessoas está acostumada a trabalhar em algo que não gosta elas acham estranho a idéia de me dar trabalho de presente. Com os meus amigos é um pouco diferente. A maioria gosta de ler. Confesso que aqueles que não gostam me deixam um pouco sem opção, afinal, comecei a considerar dar roupas de presente algo muito pessoal. Mas para se dar um livro de presente é necessário conhecer um pouco o gosto literário da pessoa e aí está a dificuldade e a razão pela qual não ganho muitos livros de presente.
Quando as pessoas pensam em alguém que faz mestrado na área elas acham que essa pessoa só gosta de Literatura com L maiúsculo. E de fato não deve ser fácil escolher um livro que caiba nessa característica e seja de Literatura Brasileira que não seja Machado de Assis, pois esse todos sabem que eu odeio. Literatura mundial não ajuda meus amigos, pois só leio em português e francês. Posso achar que eles vão conseguir escolher algo nessas duas línguas, mas a dúvida que deve pairar neles é "qual autor ela pode gostar?". Afinal, sou uma pessoa esquizita. Não gosto do Saramago.
Penso então em outro problema para eles "Que tipo de coisa ela gosta?". Nem os famosos e nem os ditos "bons" cabem. Bom, acho que para o espanto do meu amigo oculto, 15 dos 20 livros que eu pedi, não se acha nas livrarias (nem eu imaginei que fosse tudo isso). Mas dentre eles tinha um considerado um best seller. Será que ele se chocou ao ver "As Crônicas de Nárnia" na minha lista? Acho que sim, pois ao me entregar o presente ele estava indisfarçavelmente espantado. Imagina, logo eu pedir um livro bobo para criança?
Não tenho preconceito quanto à literatura ou Literatura. Tudo depende da perspectiva que vc vai ler. Nesse aspecto eu concordo com o Compagnon quando diz que o próprio conceito de Literatura já é um juízo de valor e o que é considerado Literatura hoje pode ser bula de remédio ou filosofia amanhã. Se espera ler um cânone ou algo que queira pensar se tratar de Literatura universal, esqueça a maioria dos livros divertidos, das comédias e das coisas fáceis de ler. Mas se quer se distrair e se divertir qual o mau em ler um livro para crianças? Eu adoro contos fantásticos, como poderia abrir mão de conhecer um livro inteiro de crônicas desse tipo? Ainda não sei se são fantásticas, mas qual a melhor forma de descobrir? Tem horas que a gente cansa de finais infelizes, pessimismos pós-modernos e crítica social.
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Olha a poesia!
Tem de sal, tem de doce.
Tem com queijo e tem que remoce.
Tenho poesia fresquinha,
com crítica social ou alegria,
de humor e redondilha.
O soneto é mais barato,
pois já num é mais muito usado
Mas a rima rica é mais caro.
Rimar verbo com subistantivo e ainda fazer sentido
valoriza a mercadoria
e ainda é tudo artezanal
Não, seu moço!
Fazer duas por um real não posso
Se outro fizer compre lá!
Eu aposto esses versos brancos
que poesia não se encontra fácil
Em qualquer lugar
Ou num blog ralé,
um tal de café...
Tem com queijo e tem que remoce.
Tenho poesia fresquinha,
com crítica social ou alegria,
de humor e redondilha.
O soneto é mais barato,
pois já num é mais muito usado
Mas a rima rica é mais caro.
Rimar verbo com subistantivo e ainda fazer sentido
valoriza a mercadoria
e ainda é tudo artezanal
Não, seu moço!
Fazer duas por um real não posso
Se outro fizer compre lá!
Eu aposto esses versos brancos
que poesia não se encontra fácil
Em qualquer lugar
Ou num blog ralé,
um tal de café...
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Conclusão fatal
Andei pensando esses dias no que escrever no meu querido blog. Me deparei então com uma série de problemas. Além da minha crônica falta de assunto enfrento ainda um descolamento sério de idéas boas do meu cérebro. Mas o que mais agrava a temática bloguística aqui discutida é, inacreditavelmente, a meu esforço otimista. Sim, eu estou tentando ser otimista! Andei relendo alguns posts e de verdade, eu praticamente só reclamo, pelo menos aqui. Fiquei pensando então que com tantas coisas para se reclamar que praticamente são comuns a muitos dxs leitorxs do blog pensei que poderia fazer algo diferente. Falar de algo agradável, otimista, alegre ou quem sabe fazê-los rir? ;)
Mas então, seguindo meu pensamento, cheguei a conclusão de que felicidade não dá muito ibope. Pensem se a mocinha da novela ficasse com mocinho no início, não teria novela. Seria no máximo um episódio. Tem que ter trama, fofoca, enrolação. É que nem literatura (ou o contrário), os gêneros mais populares (não entre os críticos) de toda História sempre foram aqueles que a construção das personagens fica em segundo plano e que os acontecimentos entre a personagem principal e o seu fim (objetivo) são o mais importante.
Como cada vez mais a minha frequencia de postagem diminuirá, como motivar os leitores nesse intervalo de tempo, que deverá ser grande, entre as postagens? Falar mal de alguém? Fazer fofoca? Colocar a resenha de um livro? Hum... nada me parece realmente muito divertido... Atualidades? Bom, eu realmente ando uma pessoa que está fuguindo dela. Me atualizar está me custando um tempo que eu não tenho e sempre acabo me extressando com algo que descubro...
Tive então a brilhante idéia que me amedronta bastante, mas que deve sair do papel mais cedo ou mais tarde: postar aqui os meus textos, poemas, crônicas antigas de quando ainda sonhava ser escritora e não me imaginava acadêmica.
Espero que se divirtam. A primeira vai semana que vem. Aguardem!
Mas então, seguindo meu pensamento, cheguei a conclusão de que felicidade não dá muito ibope. Pensem se a mocinha da novela ficasse com mocinho no início, não teria novela. Seria no máximo um episódio. Tem que ter trama, fofoca, enrolação. É que nem literatura (ou o contrário), os gêneros mais populares (não entre os críticos) de toda História sempre foram aqueles que a construção das personagens fica em segundo plano e que os acontecimentos entre a personagem principal e o seu fim (objetivo) são o mais importante.
Como cada vez mais a minha frequencia de postagem diminuirá, como motivar os leitores nesse intervalo de tempo, que deverá ser grande, entre as postagens? Falar mal de alguém? Fazer fofoca? Colocar a resenha de um livro? Hum... nada me parece realmente muito divertido... Atualidades? Bom, eu realmente ando uma pessoa que está fuguindo dela. Me atualizar está me custando um tempo que eu não tenho e sempre acabo me extressando com algo que descubro...
Tive então a brilhante idéia que me amedronta bastante, mas que deve sair do papel mais cedo ou mais tarde: postar aqui os meus textos, poemas, crônicas antigas de quando ainda sonhava ser escritora e não me imaginava acadêmica.
Espero que se divirtam. A primeira vai semana que vem. Aguardem!
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Tempo, tempo, mano velho!
Desgraçado! Eu não tenho um só pra mim, e ele nunca me pertencerá! Ai ai
A falta de tempo faz as idéias descolarem da cabeça. No meu caso elas ainda escorrem pelo chão tão diluídas que é impossível retomá-las. Uma leve sombra vaga na minha mente daquilo que uma vez pensei.
Mas, caso vc não seja como eu, vai aí mais uma dica literária! O livro é um romance de formação brasileiro da Conceição Evaristo: Ponciá Vicêncio. Ele conta a história da vida de uma menina negra no interior, neta de escravo liberto, mas que leva a vida ainda nas terras do ex-senhor de seu pai. O livro mostra a precária situação em que vivem os ex-escravos e a profundidade simples dos sonhos deles. É uma leitura rápida e muito agradável. As personagens são encantadoras e bem construídas e o que eu mais gostei no livro foi a passagem do tempo bem como na tradição africana - cíclico. Fica bem claro no livro que não adiante sermos senhorxs de nossas ações quando o tempo regula a eficácia delas.
É um livro difícil de achar, mas quem esbarrar com ele por aí, leia-o. Tenho certeza que não se arrependerá.
A falta de tempo faz as idéias descolarem da cabeça. No meu caso elas ainda escorrem pelo chão tão diluídas que é impossível retomá-las. Uma leve sombra vaga na minha mente daquilo que uma vez pensei.
Mas, caso vc não seja como eu, vai aí mais uma dica literária! O livro é um romance de formação brasileiro da Conceição Evaristo: Ponciá Vicêncio. Ele conta a história da vida de uma menina negra no interior, neta de escravo liberto, mas que leva a vida ainda nas terras do ex-senhor de seu pai. O livro mostra a precária situação em que vivem os ex-escravos e a profundidade simples dos sonhos deles. É uma leitura rápida e muito agradável. As personagens são encantadoras e bem construídas e o que eu mais gostei no livro foi a passagem do tempo bem como na tradição africana - cíclico. Fica bem claro no livro que não adiante sermos senhorxs de nossas ações quando o tempo regula a eficácia delas.
É um livro difícil de achar, mas quem esbarrar com ele por aí, leia-o. Tenho certeza que não se arrependerá.
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
...quando florescem os ipês
É o título do romance de Ganymédes José que fala da vida de quatro jovens de uma cidadezinha pequena no interior de São Paulo. Eu acho que por vontade própria nunca leria esse livro, mas como estava na lista da disciplina, li. Até gostei, mas é muito triste. Não somente a história sofrida dos mais pobres da trupe, mas o que mais me chamou a atenção é a atualidade dos problemas. O livro foi escrito em 76, mas a temática da desilusão, da vida sem instrução e esperança dessa gente é bem contemporânea. Até uma personagem que morre de tuberculose num contexto muito parecido com o de Macabéia em A hora da estrela que me encheu de tristeza.
Não vou revelar detalhes da história porque esse blog tá ficando muito saudosista e melancólico. O que quero contar se passou nos momentos seguintes ao fechar do livro. Após terminar a leitura, querendo abandonar o livro tal qual o ator faz para sair da personagem eu entrei na internet para me distrair um pouco e pensar em outras coisas. Li alguns blogs amigos e muitas reclamações. Vendo que a coisa não ia melhorar assim decidi tomar um banho e espairecer. Durante o processo comecei a pensar se de fato as pessoas em geral não estão ficando muito amarguradas, como as personagens do romance. Desiludidas com a vida mesmo sendo elas cheias de vida e com muitos anos pela frente. Pensei ainda que talvez esse seja o sentimento que precede a tomada de decisão crucial na vida de cada um. Ficar e ver o ipê florescer ou ir e buscar o próprio ipê, aquele que acreditamos florescer todos os dias.
No fundo estamos sempre em busca da felicidade, mas não será a felicidade uma busca? É talvez uma busca constante que no fundo se revela como sendo a própria vida e quando chegarmos à plenitude nos daremos conta então do quão feliz foram os tempos da busca. A felicidade das pequenas coisas, da corrida ao supermercado, das andanças por entre a UnB, das conversas enquanto se lava louça, de olhar pro céu e pensar somente "que lindo!". Pode ser isso e pode ser muito mais. Pode ainda ser a diversão solitária que senti sozinha ao pensar "O que será que Aristóteles teria dito se realmente tivesse escrito uma "Comédia" como segundo volume da "Poética"? Teria ele feito chacota das tragédias mostrando o quanto é bom rir? Teria ele enfim debochado dos grandes problemas "mortais" dos deuses e semi-deuses desdizendo tudo o que havia dito anteriormente?"
Será então que a vida é isso, sentir algo reconfortante no meio dessa loucura toda que mesmo que inexplicável ainda cause um sorriso suave no rosto? Algo que diga mostre que há alegria em tudo e que mesmo na seca ainda florescem os ipês?
Não vou revelar detalhes da história porque esse blog tá ficando muito saudosista e melancólico. O que quero contar se passou nos momentos seguintes ao fechar do livro. Após terminar a leitura, querendo abandonar o livro tal qual o ator faz para sair da personagem eu entrei na internet para me distrair um pouco e pensar em outras coisas. Li alguns blogs amigos e muitas reclamações. Vendo que a coisa não ia melhorar assim decidi tomar um banho e espairecer. Durante o processo comecei a pensar se de fato as pessoas em geral não estão ficando muito amarguradas, como as personagens do romance. Desiludidas com a vida mesmo sendo elas cheias de vida e com muitos anos pela frente. Pensei ainda que talvez esse seja o sentimento que precede a tomada de decisão crucial na vida de cada um. Ficar e ver o ipê florescer ou ir e buscar o próprio ipê, aquele que acreditamos florescer todos os dias.
No fundo estamos sempre em busca da felicidade, mas não será a felicidade uma busca? É talvez uma busca constante que no fundo se revela como sendo a própria vida e quando chegarmos à plenitude nos daremos conta então do quão feliz foram os tempos da busca. A felicidade das pequenas coisas, da corrida ao supermercado, das andanças por entre a UnB, das conversas enquanto se lava louça, de olhar pro céu e pensar somente "que lindo!". Pode ser isso e pode ser muito mais. Pode ainda ser a diversão solitária que senti sozinha ao pensar "O que será que Aristóteles teria dito se realmente tivesse escrito uma "Comédia" como segundo volume da "Poética"? Teria ele feito chacota das tragédias mostrando o quanto é bom rir? Teria ele enfim debochado dos grandes problemas "mortais" dos deuses e semi-deuses desdizendo tudo o que havia dito anteriormente?"
Será então que a vida é isso, sentir algo reconfortante no meio dessa loucura toda que mesmo que inexplicável ainda cause um sorriso suave no rosto? Algo que diga mostre que há alegria em tudo e que mesmo na seca ainda florescem os ipês?
terça-feira, 12 de maio de 2009
On continue
Continuando com o costume de dar algumas dicas literárias aos meus 'inúmeros' leitores, mas certamente superestimáveis. Vou postar a dica da semana, e talvez do mês.
O livro maravilhoso que li semana passada tem seu protagonista belissimamente representado no cinema por não menos que Marcello Mastroiani. Afirma Pereira que seu livro é muito interessante, mesmo não sendo o melhor de todos. Afirma Pereira ainda que pode proporcionar momentos de risadas e emoção numa história pouco conhecida que muitos tentaram apagar. E que alguns conseguiram, afirma. Pereira afirma ainda ser um jornalista na ditadura de Salazar um tanto saudosista dos bons tempos de Portugal que antecederam o regime. Mas da ditadura, não sabe muita coisa, afirma. Mas sabe muito de literatura francesa do séc. XIX, afirma, mas se isso é a coisa mais importante do mundo ele já não está lá muito certo.
Alguém pegou o nome do livro?
Para quem ainda ficou na dúvida, seu autor é Antonio Tabucchi e o livro é fantástico. O nome do filme é Páginas da Revolução, mas o livro não tem esse nome, Afirma Pereira.
O livro maravilhoso que li semana passada tem seu protagonista belissimamente representado no cinema por não menos que Marcello Mastroiani. Afirma Pereira que seu livro é muito interessante, mesmo não sendo o melhor de todos. Afirma Pereira ainda que pode proporcionar momentos de risadas e emoção numa história pouco conhecida que muitos tentaram apagar. E que alguns conseguiram, afirma. Pereira afirma ainda ser um jornalista na ditadura de Salazar um tanto saudosista dos bons tempos de Portugal que antecederam o regime. Mas da ditadura, não sabe muita coisa, afirma. Mas sabe muito de literatura francesa do séc. XIX, afirma, mas se isso é a coisa mais importante do mundo ele já não está lá muito certo.
Alguém pegou o nome do livro?
Para quem ainda ficou na dúvida, seu autor é Antonio Tabucchi e o livro é fantástico. O nome do filme é Páginas da Revolução, mas o livro não tem esse nome, Afirma Pereira.
quarta-feira, 8 de abril de 2009
A imagem eurocêntrica
Lendo um livro muito bom "Crítica da imagem eurocêntrica" fiquei pensando em como somos bombardeados por imagens, paradigmas, discursos e imagens que não são nossas e estão distantes da realidade. Essas imagens são desdobramentos das antigas imagens européias de colonizador sobre o colonizado.
Pode parecer um pouco exagerado, mas quando a autora faz uma comparação de diversos filmes que retratam o Oriente, a África e a América Latina vc realiza esse fenomeno. Eu senti vontade de rir com algumas comparações como a do Elvis vestido de Sheik e salvando a bela mocinha branca dos bandidos árabes no meio do deserto de Nevada. Outra engraçada e Cleópatra, a rainha negra do Egito sendo representada por atrizes brancas e no lugar de sua inteligencia e preparo para o poder ela apenas "conquista" os romanos por sua beleza e sensualidade.
A autora não cita (talvez porque eu ainda não tenha terminado o livro) a imagem carnavalesca que se tem do Brasil. No filme do James Bond que é passado no Brasil é uma caricatura ridícula de um país onde mesmo nas repartições públicas as pessoas sambam e andam semi-nuas.
O problemas dessas imagens que tem sempre como ponto do vista o europeu lúcido e racional sobre o "nativo primitivo" de uma terra "virgem". Porque antes do europeu não existia nada por aqui, só muitos milhões de índios e algumas civilizações avançadas sem importância. É que essa imagem o que faz com que os museus europeus e americanos estejam repletos dos nossos tesouros roubados por povos que se sentem no direito de "preservar", "interpretar" e "ensinar" a nossa cultura e a nossa história a nós mesmo. Além disso, os europeus se firmaram como o paradigma que faz com que localizem a Europa e a América do Norte no centro, como a fonte criadora da razão e do pensamento. Eles tem o direito e a autoridade para falar e decidir sobre tudo porque aquilo que não seguem seus moldes e padrões e o errado e o inferior.
Bom, essa é uma interpretação resumida e reducionista do fenômeno, mas eu acho que a leitura do livro vale muito. Principalmente para quem gosta de cinema e literatura. A lista de filmes e livros que exemplifica a interpretação dos autores é fantástica porque vai desde os clássicos canônicos e hollywoodianos até filmes egípicios, indianos, venezuelanos, bolivianos, brasileiros que não seguem estritamente a linha "cult".
Pode parecer um pouco exagerado, mas quando a autora faz uma comparação de diversos filmes que retratam o Oriente, a África e a América Latina vc realiza esse fenomeno. Eu senti vontade de rir com algumas comparações como a do Elvis vestido de Sheik e salvando a bela mocinha branca dos bandidos árabes no meio do deserto de Nevada. Outra engraçada e Cleópatra, a rainha negra do Egito sendo representada por atrizes brancas e no lugar de sua inteligencia e preparo para o poder ela apenas "conquista" os romanos por sua beleza e sensualidade.
A autora não cita (talvez porque eu ainda não tenha terminado o livro) a imagem carnavalesca que se tem do Brasil. No filme do James Bond que é passado no Brasil é uma caricatura ridícula de um país onde mesmo nas repartições públicas as pessoas sambam e andam semi-nuas.
O problemas dessas imagens que tem sempre como ponto do vista o europeu lúcido e racional sobre o "nativo primitivo" de uma terra "virgem". Porque antes do europeu não existia nada por aqui, só muitos milhões de índios e algumas civilizações avançadas sem importância. É que essa imagem o que faz com que os museus europeus e americanos estejam repletos dos nossos tesouros roubados por povos que se sentem no direito de "preservar", "interpretar" e "ensinar" a nossa cultura e a nossa história a nós mesmo. Além disso, os europeus se firmaram como o paradigma que faz com que localizem a Europa e a América do Norte no centro, como a fonte criadora da razão e do pensamento. Eles tem o direito e a autoridade para falar e decidir sobre tudo porque aquilo que não seguem seus moldes e padrões e o errado e o inferior.
Bom, essa é uma interpretação resumida e reducionista do fenômeno, mas eu acho que a leitura do livro vale muito. Principalmente para quem gosta de cinema e literatura. A lista de filmes e livros que exemplifica a interpretação dos autores é fantástica porque vai desde os clássicos canônicos e hollywoodianos até filmes egípicios, indianos, venezuelanos, bolivianos, brasileiros que não seguem estritamente a linha "cult".
domingo, 5 de abril de 2009
Outra dica

Como eu não ando fazendo muita coisa da minha vida a não ser ler, aqui vai outra dica: Ciranda de Pedra, da Lygia Fagundes Telles. Para quem viu a novela, vale a pena ler o livro. A novela colocou água nos principais dramas do livro e o entopiu de interpretações preconceituosas que mudaram completamente o enredo e os personagens. Eles ficaram sem força nem objetivo.
Confesso que a história me chocou um pouco, principalmente depois de saber que ele foi escrito em 1954. Frases cortantes da aristocracia paulistana, cheio de hipocrisia e traições inacreditáveis. Para quem não viu a novela, não perca tempo, leia o livro. Quem a assistiu terá o prazer de descobrir uma história bem mais interessante e sensual. Além disso, puxando a sardinha para o meu trabalho, a Lygia é uma escritora que vale a pena conhecer.
Ah, só pra eu não me sentir tão alcoforada, vai aqui a dica de uma bandinha francesa que pra mim é mooooito mais legal que a Ielle. Eles se chamam Prototypes e o cd que eu escutei é o Mutants Médiatiques.
http://www.youtube.com/watch?v=07t1XQZOXOM
quarta-feira, 1 de abril de 2009
Dicas

Como estou tendo que ler coisas que por minha própria vontade eu nunca leria, ando conhecendo muitos autores que apesar de não serem novos não são tão populares. Muitos deles badaladíssimos no exterior, traduzidos para diversas línguas e acumuladores de prêmios Jabutis (o mais importante da nossa literatura).
Um desses "fenômenos" é Milton Hatoum. Brasileiro, descendente de imigrantes libaneses e ainda por cima manauara ele é um escritor capaz de nos mostrar um Brasil completamente novo na visão do imigrante que conhece tão de perto. Conhecido para mim como o tradutor de Edward Said (teórico árabe proíbido nos EUA durante o governo Bush) ele se revelou uma surpresa na literatura de palavras simples, leitura fácil e gostosa e enredos complicados e densos.
Eu dou a dica do livro "dois irmãos". A interessante história de dois irmãos gêmeos que se odeiam por causa de uma mãe superprotetora. (resumos e sinopses melhores que as minhas podem ser encontradas em qq site). O livro saiu pela Companhia de Bolso (da Companhia das Letras) é baratinho e fácil de ser encontrado.
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