terça-feira, 20 de maio de 2014

O paradoxo da maternidade

Muitos ainda acreditam que o papel da mulher é ser mãe. A alegação se baseia no papel supostamente "natural" e "biológico" do sexo feminino. Para continuar com essa afirmação em tempos onde os instintos são tão pouco valorizados e tentamos ao máximo nos separar da natureza, fala-se do gratificante papel da mãe. Temos até um dia para elas (!) Mas contrariamente ao que se possa imaginar, a maternidade não é tão valorizada assim no nosso país.

Apesar dos clichês existe um paradoxo na maternidade. Ele reside na sua real importância e na competência da mulher para exercê-la. Desde a gravidez até o parto e para o resto da vida. Ao mesmo tempo que é valorizada como mãe, não é dado a mulher autonomia para gerir seu corpo, seu parto, seu filho. E contraditoriamente é a pessoa mais autorizada a exercer essa função. Em algumas sociedades, como a nossa, de base extremamente sexista, nem ao menos empurrar o carrinho é uma função que pode ser exercida por homens.

Bourdieu, em seu livro "A dominação masculina" expõe a teoria de que todos os papeis da mulher na sociedade contemporânea tem relação com a maternidade e o cuidado que deriva dela. Secretária, professora, enfermeira... Como se o papel da mulher fosse uma grande continuação da maternidade over and over.

Felizmente o debate e a luta contra esses papéis vem se acirrando. E a famosa frase que eu ouvi durante todo o meu mestrado e que ressoa aos meus ouvidos "quando você for mãe, você vai entender", pode conter um futuro menos apocalíptico do que parece. Mas uma coisa eu devo confessar, por mais que tenha aprendido, com a gravidez mais do que nunca, a fazer ouvidos de mercador, o que mais sinto é indignação feminista na veia. Pois a verdade é que ao ser mãe não ganhamos tanto respeito ou autoridade quanto poderíamos esperar.

Duvida? Porque então as mulheres são tão mal tratadas na sala de parto? Porque são vítimas do teto de vidro no mercado de trabalho por conta a simples possibilidade de serem mães? No fundo no fundo não tem autoridade para decidirem nem como querem parir. Depois ainda temos a enorme responsabilidade de cuidar do bem estar físico e emocional dos bebês, levando todas as frescuras da sociedade em consideração pois podemos ser acusadas de negligência o tempo todo. Como disse a Badinter, o sinônimo de maternidade é culpa.

Culpa que nos fazem sentir desde o instante em que engravidamos. "Mas você não se preparou antes de engravidar?", "está tomando isso, comendo aquilo, fazendo assim, pesando assado"... Tem que ler um monte, pois nem o que vai comer ela tem autonomia para decidir. E o que eu acho mais engraçado é que as cervejas importadas vem um símbolo de que mulheres grávidas são proibidas de ingerí-las (o que sabemos que não é verdade absoluta), mas outras coisas que grávidas não deveriam comer, não são reconhecidamente proibidas para gestantes. Se você não está informada, pode acabar comendo algo que não deve, fazendo algo que não deve. Nenhuma informação é de fácil acesso, nada é confiável. E ainda assim, a culpa é 100% sua, só sua.

Paralelamente a isso, temos que lidar com o fato de não sermos autoridade suficiente para escolher pelos nossos filhos e lidarmos com as consequências. Parece que a sociedade toda é um grande espião. Devemos entender que o cuidado com a criança não deveria ser nem chamado de maternidade. Algo que poderia sim ser dividido entre os sexos deveria ser entendido como cuidado parental. O próprio termo maternidade influencia homens a continuarem negligentes com a função. Praticamente tudo o que a mãe faz o pai pode fazer.

Muitos falam que só a mulher pode amamentar. Bom, agora eu sei que o percentual de mulheres que não tem leite ou do qual o leite não é suficiente é grande. Insistir nesse argumento faz com que essas mulheres se sintam menos mulheres (visto que isso e o parto parecem ser as exclusividades femininas em termos de parentalidade), mas também faz com que homens, que poderiam participar desse momento, onde muitos afirmam ser onde se a cria o vínculo com a criança, fiquem de fora tornando a relação deles com os filhos distante. Se qualquer um pode dar leite para a criança no copinho, porque o pai não pode fazer?

A maternidade é função da mulher, muitos dizem e afirmam. Mas as mulheres estão cercadas de autoridades masculinas mais capazes de julgar seu papel do que ela. Médicos, juízes… Sinto muita vontade de não ouvir nada. Sinto muitas vezes raiva de quem fala, com sarcasmo, "você vai ver, vai entender". Porque jogar uma praga nos outros? Se ter um filho é uma experiência tão única porque supões que todxs a encararão da mesma maneira?

Enfim, seria tão melhor se as pessoas esperassem a gente perguntar do que saírem por aí se metendo na maternidade dos outros, ou melhor, na parentalidade dos outros.

Em contrapartida, governo e sociedade não fazem nada para aliviar o fardo. Ter um filho não tem nenhum incentivo do governo. O bolsa família é exclusivo para uma faixa da população. Deveria ser estendido à todas. Não ganhamos o enxoval do bebê, não temos creches, berçários, nada em quantidade suficiente. Em suma, não ganhamos nenhum incentivo por colocarmos mais um brasileiro no mundo, no máximo um dia por ano e uma comemoração ridícula, um "feriado" com fins comerciais para quem já gasta tanto por negligência do governo.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

A sinceridade

Esse é um tema bastante espinhoso. Falar a verdade por aqui pode ser um comportamento muito criticado. Desde coisas bobas como "não gostei" ou "não quero" até colocar suas opiniões em relatórios supostamente "objetivos".

Um exemplo clássico dessa dificuldade nacional é recusar um convite. Sempre temos que estar tencionados a comparecer, por isso devemos inventar algo, nem que seja a famosa consulta ao dentista ou o exame de sangue para recusar um barzinho com os amigos. Parece que dizer "não estou muito a fim" ou "não estou muito animado" é equivalente a dizer "você é um chato e eu não quero sair com você".

Eu percebi isso com mais clareza quando estava na Suécia. Minhas amigas sempre faziam "diners parties"e muitas vezes eu só queria ficar em casa na companhia do meu marido que trabalhava umas 10 horas por dia. Eu, no meu hábito brasileiro, com vergonha de dizer "não", soltava um "maybe". Pra que!? Depois eu ficava sabendo que era presença contada na festa. Que para eles, os alemães, talvez era quase "sim", quando aqui, é mesmo "não".

Uma amiga minha indiana me ensinou bastante sobre sinceridade, embora eu nunca tenha dito isso a ela. Uma pessoa franca, não sei se a cultura indiana é assim, ou se era ela mesma. Mas não tinha medo de dizer que não comia comida ocidental, que não gostava disso, daquilo e que achava isso ou aquilo. E era engraçado, pois ela não tinha papas na língua. Falava sem floreios. Não é à toa que era o guia da turma. Sempre que alguém precisava de um conselho, recorria à ela. E é engraçado, pois eu quase sempre concordava com ela. Mas acredito que se ela vivesse por aqui, não teria tal posição. Acho que seria considerada grossa ou tosca.

Outra coisa interessante é que você aprende a ouvir os outros de uma maneira mais tranquila e principalmente, respeitar sim as diferenças. E talvez por isso, consiga até conviver melhor com seus amigos. Uma certa vez, um amigo nosso recusou um convite dizendo "Vou tomar café e ler artigos. Sempre faço isso às quintas-feiras". No começo achei estranho alguém ter uma agenda assim, mas depois de uns tempos morando por lá, percebi que muitas vezes para dar conta de se fazer tudo o que se tem que fazer é preciso colocar na agenda, senão não sobra tempo para se fazer o que quer. No fim, ele acabou aparecendo no bar para nos encontrar, mas desconfio que só depois de ler uns artigos antes.

Quando estava lá, recebi muito poucas visitas. Uma delas me desapontou muito nessa "brasilianidade". Eu não tinha muito dinheiro para viajar e precisava organizar as coisas com antecedência. Essa pessoa ficou hospedada na casa de amigos numa cidade próxima. No mesmo período, meus sogros estavam na nossa casa e iriam embarcar no tour pela Escandinávia em poucos dias. Resumo da ópera, eu deixei meus sogros no hotel e fui encontrar essa amiga. Mas algo me chamou a atenção: ela não parecia fazer muita questão de me ver. Achei deselegante essa atitude, sendo que ela sabia que eu estava abrindo mão de passar mais tempo com eles para encontrá-la. Mas se ia me tratar com descaso, porque não me poupou a viajem?

Eu sei que muitas vezes as pessoas se magoam com a gente e a gente não sabe ao certo o motivo. Acredito que quando a gente não acha que fez algo errado, não consegue prever os melindres alheios. Mas será que esse descaso não foi um resultado desse hábito de ter que estar, em tese, sempre disposto? Ou pior, talvez ela tenha pensado que eu fosse me magoar ao ouvir que ela de fato não queria me ver e fosse preferir ser mal tratada por ela. Faz sentido, né...

Outra coisa que considero parte da hipocrisia nacional é o respeito às diferenças. Todo mundo fala, mas quem é que realmente respeita? Em toda a discussão parece que quem puxa a carta da diferença é aquele que não tem argumentos ou que não consegue aceitar outro ponto de vista. No fim, o que você percebe mesmo que sua diferença será respeitada sim, quando for igual a de todo mundo, ou seja, não seja diferente.

Outra coisa que me irrita muito é a máxima de que existem diferentes maneiras de se dizer a verdade, indicando que haveria uma certa e uma errada. Quando eu digo "verdade" é no sentido de dizer o que o outro realmente acha ou pensa. Ninguém é de fato dono da verdade. Mas as pessoas confundem aquela mentirinha de elogiar uma roupa que você de fato não gostou porque percebeu que a pessoa está se sentindo bem nela e perguntou sua opinião com coisas mais sérias, como trabalhos de escola, feedbacks profissionais e etc. Tudo sobre a desculpa do "existem maneiras de se falar isso ou aquilo". A discussão sai do plano do conteúdo do que foi falado e vai para o da forma como foi falado e aquilo que se disse não tem mais importância.

Eu confesso que sofri muito durante a minha adolescência por ser sincera. Claro que quando era adolescente, acrescia uma dose de sarcasmo à minha sinceridade, e isso sim, eu descobri que é, em muitas vezes, desnecessário. Mas hoje não me arrependo de ser como sou. Ao contrário de muitos que se fixam na minha imagem adolescente, eu não saio por aí falando as minhas verdades ao vento. Reservo sim minhas opiniões mais sinceras ao crème de la crème dos meus amigos, mas também não sou hipócrita. Aquilo que sei que não será bem recebido, não minto, omito.

Não me envergonho de ser sincera. Não digo que sei tudo, mas tem muita gente que gosta de interpretar assim. Fica sentido pelo o que eu falei e racionaliza dizendo a si mesmo "quem ela pensa que é? acha que é a dona da verdade?". Para esses, fica o meu lamento. Quem souber ouvir uma opinião sincera, e desencanar se não concordar, talvez se beneficie da companhia, mas quem não souber, se poupe e não me pergunte o que eu acho. Também não tenho medo de ouvir respostas de qualquer jeito e esse eu acho que é o segredo. Como diz o batido ditado "Quem fala o que quer ouve o que não quer".

No mais, por mais "autista social" (como um amigo meu me chamou outro dia) eu possa ser, sinto que estou bem comigo mesma nesse aspecto e talvez aqueles que não gostam da divergência e chamem isso de falta de tato social, não tenha muito do que se orgulhar.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Porque eu AMEI Breaking Bad

Antes de mais nada, gostaria de avisar aqueles que ainda não assistiram a totalidade do programa que NÃO leiam esse post. Muitos SPOILERS.

O principal motivo pelo qual gostei do seriado, foi a narrativa: simples e direta. Além de cumprir a proposta que faz . Não é necessário ler livros para se entender o que passa na série. Os dois principais personagens, Walter White e Jessie Pinkman foram muito bem pensados. Os atores ajudaram. Mas o que eu mais gostei foi o sentido dado ao título do seriado que norteia toda a narrativa.

O meu marido tem um certo problema com expressões idiomáticas. Muitas vezes traduz literalmente do inglês expressões que ele presume que serão idênticas no português. Uma que eu sempre achei engraçada foi o tal do "quebrar a personalidade". Não sei como deve ser a original em inglês, mas assumo que tenha "breaking" em algum lugar.

Temos então os dois protagonistas: Walter White e Jessie Pinkman. A princípio tudo leva a crer que Breaking Bad é uma referência a falência do personagem principal por conta da incapacidade de pagar pelo tratamento de câncer que precisa. 

Ao olharmos para Walter White da primeira temporada, imaginamos um homem comum, honesto, que tem dois empregos para dar conta de prover sua família como se deve. Ele aparece nessa temporada como um homem discreto. Mas uma coisa parece não encaixar: sua escolaridade. Incompatível com os demais membros de sua família e de seu núcleo familiar. A então modéstia do personagem levanta algumas suspeitas. Quando aparecem os ex-sócios de Walter, imaginamos que ele foi injustiçado na sociedade, como tantos outros casos que vimos por aí. Talvez essa tenha sido a razão pela qual se encontra na posição em que está no início da trama: professor de um College durante meio período e lavador de carros no outro.

Tudo bem que essa parte de lavador de carro eu não consegui entender muito bem. Um trabalho que ainda tem relação com sua formação, como professor de Química de uma escola, eu até entendo, mas lavador de carros, eu confesso que não consigo entender. Mas é preciso entender um pouco de como funciona o mercado de trabalhos braçais lá fora. Talvez o segundo emprego pagasse melhor do que o primeiro e ele só continuasse dando aula para se manter perto da sua área de formação.

Já Jessie Pinkman começa a série como um dependente químico controlado pelo vício que parece ter problemas em perceber a idade que realmente tem. Ele age como um adolescente, se veste como tal e fala como tal. Impulsivo e inconsequente, o jovem é menos carismático no princípio que o íntegro professor de Química. Esse porém nos deixa com pena, pois ao descobrir que tem câncer, ele tenta continuar suas atividades normalmente para não alarmar a família.

Com o passar das temporadas o papel se inverte. Vamos percebendo que a postura íntegra de Walter White é sim um papel que ele representa e só o faz por ser orgulhoso. Incapaz de ser rico, talvez por culpa do próprio orgulho, ele faz de tudo para conservar a reputação de homem correto. Vemos então o orgulho que ele tem da droga que elabora e como fica irritado quando alguém tenta imitar o seu produto. As provas desse orgulho aparecem nas últimas temporadas, quando alerta o cunhado policial sobre a possibilidade de Gael não ser o famoso Heisenberg e quando mantém guardado o livro que o primeiro lhe dá de presente pois contém comentários elogiosos a respeito dele.

Já Jessie, mesmo sem ter no que se agarrar, sem ter uma desculpa, não concorda em matar, extorquir ou mesmo se meter com gente perigosa. Já Walter tenta se convencer de que aquilo é um negócio, como se assim pudesse se distanciar do mal que a atividade causa ou que pelo fato de estar fazendo o que faz para proteger sua família, seu pecado seria menor. Chega a parecer as vezes que ele se sente injustiçado pelo mundo e está no seu direito de reagir.

Outra coisa que causa estranheza a primeira vista é como a relação dos dois vai se intensificando. A princípio, Walter despreza Jessie e só propõe uma parceria porque precisa de alguém para introduzí-lo no meio. É engraçado pensar que Jessie fora aluno de Walter e detestava o professor que aparentemente se decepcionou com o aluno. Quando os dois se reencontram, tempos depois de Jessie ter largado a escola, ele está justamente trabalhando no cozimento da droga, uma atividade química. Ele também é o único que consegue repetir o processo de Walter e produzir o "blue sky". Mas nem por isso ganha o respeito de Walter.

A relação dele com Jessie é como se o último fosse o único resquício de humanidade e bondade que pudesse emanar de Walter. Ele se apega ao garoto e o protege na tentativa de se fazer parecer mais humano frente aos outros. Mas o pupilo vai conhecendo cada vez mais a natureza sórdida de Walter que o faz desprezar o professor. Infelizmente ele se vê preso a ele e ao negócio e age como um autômato em vários momentos da série por ser incapaz de agir como Walter, sem escrúpulos.

Ainda nesse momento da série muitas vezes duvidamos se Walter é realmente esse monstro, mas para quem reluta em acreditar, nos últimos episódios da série, ele dá um telefonema para a mulher confessando o assassinato de seu cunhado (que não diretamente praticado por ele, mas que havia de fato sido arquitetado por ele) e ameaçando a esposa. Pela primeira vez ele se revela completamente na trama, pois não busca se justificar com motivos nobres suas atitudes.

Por fim, e eu vou parar por aqui, mesmo tendo mais coisas para comentar, há um confronto final entre Jessie e Walter onde o primeiro tem a chance de se vingar do segundo. E ao invés de se desumanizar como Walter, Jessie o deixa viver, o que é uma pena para Walter, pois ele não tem mais a máscara de bom moço nem a justificativa de estar zelando para o bem de sua família. Ou seja, todo o seu disfarce de desfaz por completo, um processo que vem acontecendo desde a primeira temporada, e aí que ele "breaking bad".

O seriado ainda poderia se estender mais, mas esse é o bom dele, afinal, quando começa, já sabemos que Walter vai morrer. Só nos resta saber se em decorrência do câncer ou do envolvimento com o tráfico de drogas. Ele não tem porque enrolar. Eu entendo que os processos são inversos: a desconstrução da falsa normalidade e honestidade de Walter em contraponto com o fortalecimento do caráter de Jessie. O primeiro vai de herói a anti-herói e o segundo sofre o processo inverso.

#breakingbad

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Mudar é difícil, mas é preciso

Depois de quase um mês em Londrina, arranjo pela primeira vez um tempinho para blogar. A saudade é imensa, inclusive dos espaços virtuais aos quais me habituei. Mas as miudezas do cotidiano nos consomem e quando paramos para pensar, quase nada era realmente necessário. Infelizmente, refletir sobre isso não é produtivo ou permitido. Vamos em frente.

Durante todo o processo eu achei que estava indo devagar, mas um mês aqui já temos quase tudo o que precisamos, temos médico para o bebê, fogão, geladeira e máquina de lavar. Cama e bom, só. O dinheiro acabou, agora só quando o pagamento cair. O mais difícil são os detalhes. Muitos. Tantos que nem nos damos conta do quanto gastamos e do que precisamos. Talheres, copos, pratos, panos... Isso sem contar os mantimentos. Temos que comprar tudo novamente, desde o sal até os temperos. Nada é de graça.

Realmente não é fácil. E as perguntas parecem não entender a odisseia que é montar uma vida. Não estamos começando, estamos continuando, mas tivemos que resetar o sistema. Ainda me cobro por não ter o mesmo pique que tinha antes de engravidar. Aos poucos estou entendendo o que a amiga Pati disse: Nada vai ser como antes.

O apoio vem de onde não esperávamos. Chegam cartinhas lindas de amigas de luta para as quais nem expus meus anseios, mas que tiveram sensibilidade e empatia para dizer com eficácia "sim, você vai conseguir e sim, estamos aqui". Eu também estou aqui.

Impressões ainda estão bem turvas. A cidade parece legal. Tem falafel e chorinho no bairro. Mas ainda é cedo para dizer o achei, como vai ser a vida aqui. Mais uma vez acho bom não me precipitar. Já ouvi dizer que a gente gosta de onde vive bem. Tudo indica que viverei bem aqui. Assim espero. E quem sabe daqui a pouco não me inteiro sobre os modos e costumes do londrinense a ponto de adicionar outra sessão ao blog, crônicas londrinenses.

De Brasília saudades também. Da beleza, das histórias, da vivências, dos amigos, da família, do clima.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Espero que vocês fiquem entalados no trânsito!

Desculpem o tom, mas é mesmo um desabafo...

Desde que saí da casa da minha mãe, nunca tive carro. Usei uma scooter como meio de transporte e uma bike. Não concomitantemente. Da scooter eu abri mão quando uma madame tentou me matar, da bike, quando parei de trabalhar perto de casa.

Hoje, para a minha infelicidade, tenho um carro. Não que eu ache ruim poder ter um carro, mas acho ruim ter que ter um. Carro implica gasto com manutenção, seguro, gasolina, estacionamento e impostos. Além de muito estress. Se você tem um carro, vai ter que andar com ele no trânsito e aí vai lidar com o melhor tipo de pessoa #sqn.

O carro é um símbolo de poder. Ter um carro coloca você acima de quem não tem (ou de quem não está no carro naquele momento). Para algumas pessoas, ausente de qualidades individuais, o carro é a única maneira de se conseguir respeito. Muitos colocam todas as frustrações no veículo. A sensação de poder, de estar protegido pela couraça de metal, de ser quase um mascarado, permite aos projetos de delinquentes cometer todo o tipo de delito com a desculpa de "mas onde eu ia para o MEU CARRO?".

Tudo é desculpa. O do carro maior "não" viu o menor, o mais caro podia sim fechar o mais barato, afinal, ele não ia chegar a tempo mesmo. Tudo pode, menos parar no lugar permitido, dar passagem, para no sinal vermelho quando não tem pardal…

Eu odeio o trânsito porque as pessoas são egoístas e mal educadas. Vale mais botar a mãozinha pra fora e fechar o outro do que dar a seta avisando que vai virar. Somos uma legião de inválidos parando no meio fio, subindo a calçada, estacionando em fila dupla, porque não podem andar 5 minutos até o destino. Eu me pergunto se o estacionamento subterrâneo (a ideia de jerico mor) vai funcionar, afinal, quanta gente não insistirá em estacionar em cima porque dá muito trabalho subir escada.

"Servidor público, ai como eu odeio você nessa hora!" Só entende quem mora na 402 Sul e quer sair da sua própria quadra entre 14 e 18 horas. O pessoal do setor de autarquias estaciona em fila dupla, sendo que tem vários prédios repletos de vagas devidamente reservadas para esse fim. Mas os inválidos mentais não podem andar um pouquinho. Eles precisam tornar a nossa vida um inferno. E ainda assim, não tem nem o bom senso de não estacionar na curva. Correm demais para quem está andando numa residencial, trancam a pista de modo que só pode passar um carro de cada vez, onde passariam 2. E ah, são todos apressadinhos e rápidos na buzina.

Mas eu gosto mesmo dos donos de utilitários. Sempre sozinhos nos seus carros, nunca parando no lugar certo, ainda tem a ilusão de que seus carros não são um trambolho, param de qualquer jeito. Só porque sabem que as encostadas dos outros, no máximo, pegarão nos seus pneus. Como vocês são incômodos! Espero que no fundo, sintam-se felizes por estarem na contra-mão do mundo. Tem gente que diz que é o carro ideal para a família, mas qual? A menos que essa família possua 7 integrantes e esteja sempre de mudança, não vejo a utilidade de um utilitário.

De todo modo, nada pior do que o DETRAN que NUNCA multa esse povo. Eu me pergunto para que ele serve. Quando alguém já viu um veículo estacionado em lugar indevido ser rebocado? Realmente não dá pra confiar no bom senso alheio, tem que multar. Mas só multa no pardal, na câmera. Porque o cara não quer nem sair do lugar. Fica lá, olhando a telinha e arrecadando dinheiro. É mesmo um absurdo. Qualquer voltinha no Setor de Altarquias, Bancário e na 402 Sul no horário comercial ia render uma fortuna em multas para o governo. E quem sabe com o dinheiro ele pensasse melhor e colocar um asfalto "à prova d'água"?

sábado, 1 de março de 2014

Mais um carnaval

Lantejoulas e paetês
cerveja e brilhantina
a música não interessa
não precisa nem ter rima

Uma beleza quando começa
A grandeza da nossa festa
Ninguém liga para o dinheiro que se gasta
Nem organizar tamanha arruaça
Só importa a farra
Beber pra esquecer o merda que é você

E no fim do glamour
O perfume se mistura com suor
O corpo salpicado de papel picado
O chão mijado
O lápis borrado

Mas quem liga?
Valeu a pena
E a alma, é pequena?


*poema inédito e meu mesmo.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Para entender um pouco sobre literatura - a representação

Eu deveria falar mal de algo da moda sempre, para dar ibope para o blog, mas sou uma pessoa sem TV e as tendências e temas da moda me dão um pouco de preguiça.

Mas algo que eu gostaria de abordar para que os fãs de Game of Thrones, e outros que critico, entendam um pouco melhor o meu ponto de vista. A crítica literária não é uma ciência. Tem gente que até colhe dados, mas tem sempre um aporte teórico por trás. E tudo depende da sua "escola". Mesmo assim, teoria literária não é a casa da mãe joana. Eu não posso falar o que eu quiser. Claro, quando estou colocando a minha opinião pessoal, posso até dizer o que penso sem embasamento teórico. Mas acaba sendo meio difícil isso acontecer, pois determinado tipo de abordagem faz com que você veja tudo, até as coisas mais simples do cotidiano, com outros olhos. Por isso resolvi colocar alguns tópicos caros aos teóricos da literatura tentando abordá-los de uma maneira simples para, quem sabe, sensibilizar alguns leitores.

A representação.

Muita gente se defende dizendo que novela é só para passar o tempo, que revistinha é só para se divertir e etc. Bom, parte da minha formação literária tem uma forte base sociológica e psicossocial que diz o contrário. Como nossa identidade individual é formada? Numa bolha? Não. Nas relações familiares e sociais. A questão da representação dialoga com isso no sentido que parte do imaginário social é auxiliado pela literatura e por outras produções ficcionais como a novela, os filmes e seriados. Quanto você não atribui aos Simpsons da cultura americana? Ou quanto você não acaba imaginando que nos EUA as coisas aconteçam como nos seriados?

A mesma coisa por aqui. Benedict Anderson acredita que a Nação é uma comunidade imaginada. Mas imaginada por quem? Escritores, jornalistas, cineastas, músicos, artistas… Eles reproduzem muito do que veem, e muito do que veem é cheio de preconceito e estereótipos. Muitas vezes eles reproduzem aquilo que querem acreditar. Mulher é dona de casa ou puta, negro é pobre e bandido. Comparando com os dados do senso, isso está longe de representar a realidade. Mas aí tem muita gente que alega ser ficção. Mas porque então a maioria das obras não foge do lugar comum? Sugiro que aqueles que gostarem da discussão deem uma lida na entrevista do link acima.

Mas ainda, porque se preocupar com o que um escritor escreve? Não é só a nação que é fruto da imaginação. Nós temos muitos elementos exteriores que contribuem para a formação do nosso inconsciente e consciente - ou ainda, da identidade. O que eu encontro de mais simples para explicar isso é o fato, por exemplo, das meninas serem sempre representadas de rosa, brincando de bonecas, de vestido. Como se sente a criança, na fase concreta, a pequena menina que quer andar de skate e que sua cor predileta é azul? Pode ser que ela não ligue, se a família dela estimular, mas pode ser que achem que isso não é coisa para menina, afinal, não se vêem muitas meninas por aí representadas dessa maneira. Qual das princesas da Disney anda de skate? O processo é mais complexo, mas eu estou tentando passar de uma maneira mais simples.

Outro exemplo que pode ajudar. A questão dos negros no Brasil. Como eles aparecem na literatura, nas novelas, nos filmes? Pobres, subalternos e sobretudo - bandidos. Todo mundo condena o rolezinho porque já tem na cabeça que negro é bandido, mesmo que não tenham feito nada. Será que o fato deles serem as maiores vítimas da violência policial é apenas coincidência? Eu acho que não. Podemos trabalhar com a lógica tostines: a literatura reflete o preconceito da sociedade que é racista ou a sociedade é racista porque a literatura é racista? Eu prefiro acreditar que eles se retroalimentam. Uma fomenta a outra.

Mas a gente pode colocar a culpa do racismo ou do preconceito na literatura? Eu acho que a responsabilidade total por isso não, mas na atual conjuntura, a reprodução disso é bem problemática. A gente não vive mais na época onde se discutia em público se os negros possuíam ou não alma. Racismo é crime inafiançável. Temos sim que nos responsabilizar pelo que falamos e escrevemos. Mas muitos escritores se escondem atrás do eu-lírico para propagarem livremente todos os seus preconceitos. Alguns ainda acabam sendo considerados como inovadores, o que para mim soa como uma simples repaginada (ou releitura - termo um pouco mais apreciado). O chato é isso acontecer logo na pós-modernidade e da crise da autoria, qual a alegação do autor nesses casos?

A autoria

Para ficar um pouco mais claro, a pós-modernidade recebeu muitas contribuições da teoria feminista para desmistificar a identidade dominante e universalismo. A revelação foi que o universal não era algo neutro que representava todos os seres da humanidade. Ele era masculino, branco e ocidental. Depois disso, muito começou a se discutir sobre a legitimidade do autor para escrever sobre determinados temas. Será que aquele escritor estava qualificado para escrever sobre determinado grupo? Porque no lugar de dar voz aos negros, sem nunca ter vivido na pele de um os seus dramas, não dar espaço para que o próprio negro escrever sobre si? A discussão complicou quando a competência do autor como produtor de ficção começou entrar em xeque. Como serei inovador e criativo, onde fica minha sensibilidade se só poderei escrever sobre o que eu vivo e o que eu conheço? Complicado, né? Mas escrever sem levar essas questões em conta é, no mínimo, irresponsável.

Para aqueles que gostaram dessa última polêmica eu sugiro um exercício bem simples; releia A Hora da Estrela, da Clarice Lispector, e preste atenção na relação entre o narrador da história, o Rodrigo SM e a Macabéa. Tenho certeza de que no Ensino Médio, quando você foi obrigado a ler o romance, passou batido por essa discussão. Outro interessante é O Discurso sobre o Método, do Sérgio Sant'anna. Existem vários outros, mas eu gosto especialmente desses.

A obra

Muitas correntes teóricas pregaram que o que importava ao estudo da Literatura era a obra. Roland Barthes chegou a declarar a morte do autor. O objeto da Literatura seria apenas o livro. Eu confesso que não sei se ainda existem correntes que acreditam nisso, mas essa crença está um pouco fora de moda. O autor tem importância sim pois ele seria o filtro entre a realidade e a ficção. Daí podemos citar a hermenêutica, teoria que parte do pressuposto de que a literatura (e outras obras do gênero), são uma interpretação de mundo e assim sendo, não podemos excluir por completo o autor. Mas além disso, o leitor traz a sua interpretação para a leitura da obra e o processo todo seria uma dupla interpretação.

Eu gosto também de trabalhar com a questão da voz e dos vazios do texto. Dentro de uma obra você tem, claro que através do filtro do autor, várias vozes, vários grupos e várias realidades representadas. Essas vozes podem ser verossímeis ou não e o autor pode te dar espaço (o vazio) para preencher o texto com suas próprias visões de mundo ou não. Se você não consegue entrar no texto, se ele te causa um desconforto ele pode estar mal escrito ou não (e isso pode ser proposital ou não).

O pacto da leitura

Uma das teorias prega que quando abrimos, ou até mesmo escolhemos um texto para ler, fazemos um pacto com o autor. Por exemplo, eu vou ler um romance policial. O que eu espero? Eu espero que haja um crime a ser resolvido, um mocinho e um bandido. O bandido vai ser um lobo em pele de cordeiro e eu vou tentar durante toda a leitura descobrir quem ele é. Ah, e eu quero que tenha ação. Se eu estiver lendo um romance policial que de repente me aparece um mutante soltando raios pelos olhos e o detetive vira um deus grego para combatê-lo é, no mínimo, fora da proposta. Pode ser que se ele estiver bem escrito, a proposta pareça convincente.

Eu faço sempre a analogia com a dança. O gênero literário é como um tipo de dança. Os passos e a música devem se combinar e o autor prepara o cenário, pega a sua mãe e te conduz. Você deve dançar tranquilamente, sem reparar que os músicos estão fora do tom, que os passos do autor estão em desacordo com a música ou que ele está dançando uma valsa no lugar de uma salsa. Se isso acontecer, o pacto foi rompido e você não vai querer mais ler o livro.

Bom, eu vou parar um pouco por aqui e depois, se tiver ânimo, escrevo um pouco mais sobre os elementos do romance ou algo que interesse. Fiquem à vontade para comentar, criticar, pontuar algo que tenha esquecido, e até para me corrigirem, afinal, como pseudo-crítica, eu aceito críticas (confesso que nessa parte ainda não sou muito experiente, mas estou me esforçando).

Caso alguém queira se aventurar, recomendo fortemente:

Antoine Compagnon - O Demônio da Teoria
Antonio Cândido - Literatura de dois gumes (in A educação pela noite)
Roberto Schwarz - Que horas são?



sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O novo cortiço brasileiro

Também chamado de "novo conceito de habitação".

Quando Aluísio de Azevedo escreveu O Cortiço, em 1890 tinha uma preocupação em mente: relatar os problemas sociais daquela comunidade. É claro que o cunho realista-determinista da obra faz crer em alguns momentos que os problemas ali expostos são devido a natureza e etc. Confesso que não me lembro bem do romance, coisas da leitura impositiva. Lembro melhor do filme. E no filme o que mais me marcou foi a caracterização do próprio cortiço.

Eu, quando criança, morava num bairro que era por muitos considerado periferia. Muitas vezes não falava onde morava para meus colegas de escola por vergonha. É fato que sofria bem pouco bullying na escola, mas a vergonha era automática. A semelhança do cortiço com o bairro onde morava era a vida pública das pessoas: roupas dependuradas na janela, crianças chorando e principalmente; casais brigando no meio da rua, e principalmente o espaço pequeno que fazia com que parte da sua vida acontecesse fora da sua casa. As pessoas do cortiço tinham me lembrava muito o apê onde morava: 2 quartos, uma sala com 2 ambientes bem pequenos e uma cozinha que mais parecia um corredor onde não cabiam duas pessoas ao mesmo tempo. Meu apê era bem melhor do os quartos do cortiço, mas era muito apertado.

Recentemente fui olhar apartamentos para alugar em outra cidade, pois irei me mudar e não foi que toda essa sensação de viver num cortiço voltou a minha mente?! Os prédios são super "chiques"; tem garagem, espaço gourmet, piscina, sala de ginástica... E 3 quartos, uma sala, uma cozinha e 2 banheiros espremidos em 60 metros quadrados.

A justificativa para esses apartamentos compactos é que tudo aquilo que você não pode fazer na sua própria casa, você faz na área comum do prédio. Mas a minha pergunta é como? e pra quê? Se todos os moradores dos 38 andares e dos 76 apartamentos resolverem frequentar o espaço gourmet, a piscina, a sala de ginástica e etc nos horários livres (que para a maioria das pessoas é o mesmo), não vai caber. E bom, eu sou uma pessoa reservada. Ninguém parou para pensar que nem sempre você quer fazer a social com o seu vizinho? Claro, nem todo mundo usa esses espaços, mas mesmo assim, porque não tirar essas bobagens do prédio e aumentar uns 10metros quadrados dentro do apartamento? Porque a gente tem que viver numa gaiola? Porque não dá para colocar uma esteira dentro de casa sem ter que se livrar da cama?

Um dos prédios que eu visitei tinha uma lavanderia. A corretora me mostrou toda contente. Parece que isso está virando moda por aqui. Bom, eu já morei fora e lá é muito comum ter uma lavanderia comum por prédio. Onde eu morava tinha que marcar hora. Mas existem lugares que se a máquina está livre, pode ser usada. Isso parece muito bom, mas imagina se tem uma pessoa folgada que resolve ocupar todas? Ou você ter que ficar supervisionando a sua roupa para ninguém tirar ela da máquina antes de acabar de bater?

Onde eu morava, só o morador que tinha reservado a lavanderia para aquele período podia entrar lá, pelo menos. Mas para dar conta de toda roupa eu tinha que passar um dia inteiro lavando e colocando para secar. Não podia dar mole e perder o tempo do ciclo de lavagem ou secagem porque a máquina levava de 4 a 5 horas. A de secar, se perdemos o tempo, ela esturrica a roupa, claro, elas tem timer, mas como você acha que eu aprendi o tempo certo para cada peça? Em suma, é um saco porque você não pode colocar a roupa para lavar e ir fazer outra coisa. Pendurar quando puder.

Isso NÃO é vantagem. É bem melhor ter a máquina na sua casa. Sabe porque fazer isso? Se não tem máquina de lavar, não precisa de área de serviço e o apartamento fica cada vez menor. Se tem espaço gourmet, para que cozinha?

E no final, vamos morar todos em cortiços "conceituais"- Mouquifau Residence.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Quem tem medo de rolezinho?

"Daqui do morro dá pra ver tão legal
O que acontece aí no seu litoral
Nós gostamos de tudo, nós queremos é mais
Do alto da cidade até a beira do cais
Mais do que um bom bronzeado
Nós queremos estar do seu lado"

Nós vamos invadir sua praia - Ultraje a Rigor

Eu acho esse música a cara do rolezinho. Adoro também ouvir as opiniões dos "especialistas" (gostaria de saber onde eles acham especialistas tão desinformados) sobre os rolezinhos. Mas o principal, eu fico muito triste em ver que o brasileiro é tão classista e preconceituoso. Tem medo do seu próprio povo. 

Mas antes eu vou dizer o que eu acho dos rolezinhos friamente - se tem gente que ainda quer frequentar o shopping, a administração dele devia mais era deixar. Eu acho shopping um saco. É ruim chegar, caro para estacionar, fechado, cheio e com o único objetivo de te fazer gastar dinheiro. Você raramente vai fazer alguma coisa além de perder o seu dinheiro lá dentro. Tudo é feito para você achar que a realização pessoal está em comprar um bando de porcaria que no fundo nem precisa. É diferente, por exemplo, de um museu, onde você paga para entrar, mas vê um monte de coisas interessantes.

Eu fui vendedora de shopping por um ano e não precisei de mais para entender como funcionava. É um ambiente estranho e competitivo. Mas qualquer um pode ser vendedor, inclusive aquele povo que os gerentes estão tentando barrar, basta saber vender. O que acaba acontecendo é o que é proibido por lei. Os vendedores são escolhidos pela aparência e pela experiência. Nas lojas mais chiques, os mais bonitos das classes mais altas, nas lojas mais ou menos, os mais bonitos das classes mais baixas.

Mas o preconceito do shopping não começou com o rolezinho. Os vendedores são tratados como lixo, os funcionários também. Não existe cantina na maioria deles para que você leve seu almoço e o moço da marmita, na minha época, foi proibido de entrar no shopping. O que você vai fazer com os seus 15 minutos de almoço? Muitas vezes você nem quer perder esse tempo todo porque a loja tá bombando. Mas faça o teste, o que você consegue comer rápido e que preste num shopping? 

Além disso, na minha época sofríamos bullying por parte da direção do shopping. Eles baixavam normas absurdas, como por exemplo, a de que era proibido escovar os dentes no banheiro porque isso incomodava os clientes. Teve até rumores de que iam proibir nossa entrada nos banheiros. Eu não me lembro se havia um banheiro para funcionários, mas acho que pela nossa revolta na época, não. Tinham uns túneis na época, para evitar que o pessoal da limpeza andasse com os materiais de limpeza sujos pelo shopping, que eram nojentos, umas coisas apertadas sem reboco… 

Mas o mais interessante eram as fofocas e a própria dinâmica do shopping, um universo à parte.  Você fica sabendo, por exemplo, que o dono de uma das grifes mais caras do shopping quer fazer uma sacola bem vagabunda porque não quer ver nenhuma empregada doméstica sair por aí depois carregando a sacola, pois ele acha que isso é propaganda negativa. Mas essa mesma loja tem uma gambiarra na registradora que dá um jeitinho de registrar a venda sem emitir nota. Essa mesma loja também sonega mercadoria e abarrota tudo na caixa dizendo que tem bem menos peça lá dentro do que na verdade tem. Aliás, muitas lojas fazem isso. 

*Sempre que fizer compras no shopping exija a nota fiscal. Evite pagar com cheque, pois eles vão dizer que a máquina está com problema e não te darão a notinha. 

Ou seja, na minha cabeça é um bando de gente que faz coisa errada, mas não olha para o próprio umbigo e depois fica cagando regra. Eu, sinceramente, depois que saí desse ramo, vou ao shopping quando não tenho outra alternativa. Detesto o fato de que quase todos os cinemas de Brasília são dentro de shoppings. Passear e shopping são duas palavras que não deveriam ser usadas na mesma frase, não combina. Ele não é um lugar agradável. Cheio de luzes artificiais, plantas de plástico. Tudo brilha em excesso. É uma poluição visual e auditiva.

Mas infelizmente aqui nós não temos um centro onde você possa caminhar, sentar num banquinho e ver os pássaros e depois comprar o que precisa e pegar a roupa na lavanderia. Aqui fica tudo meio setorizado e nunca é muito simples resolver várias coisas de uma vez.

Mas voltando ao rolezinho, porque eles não podem? A cleptomaníaca não é a menina da periferia, o estelionatário não usa boné aba reta. Bagunça, baderna? Coloque 3 adolescentes que se conheçam da qualquer classe longe dos pais que o resultado será parecido. Mas porque eles não podem? Tudo que eles querem e ver e serem vistos. Quer dizer que o dinheiro deles não é bem vindo no seu shopping? A madame vai ficar com medo de um bando de adolescente que quer aparecer? O que ela, a madame, andou fazendo para ter medo? Será que tratou alguém feito lixo só porque era pobre ou estava numa situação inferior? Eu não sei, mas vejo muita sabedoria naquele ditado "quem não deve não teme". Porque esse povo tem medo? Medo do quê? 

Proibir o rolezinho ou os jovens de entrar no shopping eu sou contra. Eles podem fazer alguma coisa? Sim, podem. Mas eles também podem só querer estar lá. Não existe um princípio do direito que diz que você é inocente até que se prove o contrário? Ah, mas esse certamente não serve para o Brasil. Aqui você só tem o benefício da dúvida a partir de uma determinada classe.


quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Não se iluda, se você morar fora não será elite

Vendo a polêmica causada por aquele americano que detestou morar por aqui e um dado de uma pesquisa que diz que a maior parte da elite brasileira quer morar fora, eu resolvi escrever esse post, afinal, morei um ano fora do país e talvez possa dar um toque para aqueles que pretende sair, não se decepcionarem.

Eu acho que tudo depende para onde vai. Não posso dizer muito, mas para mim parece que os EUA são o Brasil com gadgets. O modo de pensar, o consumismo, a disputa e o classissismo que parecem existir nos dois. Afinal, o modo de vida americano parece muito com o brasileiro. As pessoas vão passear no shopping, todo mundo tem carro… essas coisas.

Eu vivi na Escandinávia, na Suécia, mais precisamente. O pior e o melhor lugar, na minha opinião para ter um gostinho do é o 1º mundo. Me desculpem os outros, mas depois dela a França, Inglaterra e outros me pareceram uma bagunça. Mas aí reside o problema, o lugar é tão organizado que sua vida não apresenta muitas surpresas. Inclusive você não pode deixar para programar o seu final de semana na semana que ele irá ocorrer, pois seus amigos já terão compromisso. Deixar para comprar bebida quando quiser beber também não. Só os ricos tem grana para beber no bar e a loja do governo, o único outro lugar autorizado a vender bebidas com mais de 4% de teor alcóolico tem horários bem restritos de funcionamento.

Outra coisa que é bom lembrar: você não poderá tratar os prestadores de serviço (garçons, motoristas de ônibus, vendedores, pedreiros e etc) como lixo, que nem trata no Brasil. É possível que a pessoa que esteja te atendendo fale pelo menos 3 línguas e tenha um mestrado. Eles também não irão tratar você como o Xá. É bem possível que, mesmo no restaurante, tenha que se servir de água e pegar os seus próprios talheres. Está mesmo preparado para isso? Pode ser um choque.

Muito provavelmente, se trocar o Brasil por um país mais desenvolvido, terá que andar de transporte público. Outro choque para o filhinho da mamãe que nunca pegou sol na moleira. Por melhor que seja, transporte público é transporte público. Isso significa que dificilmente irá sentar no horário de pico. Vai ter que exercitar as pernocas, pois em qualquer outro lugar do mundo, uma distância de 10min até a parada ou a estação não é nada. Mas eu desconfio que ser como todo mundo no exterior pode, só aqui é que não, afinal, no Brasil pobre não entra nem no shopping.

Ah, essa é muito importante: você provavelmente não terá nem empregada nem faxineira. Isso pode ser um tremendo susto para alguns. Terá que limpar a sua própria sujeira. Mas sempre pode viver como uma barata. A menos que você more numa república (o que é muito comum em vários países), nesse caso, talvez tenha que manter o decoro. Mas não se preocupe, os eletrodomésticos lá fora realmente funcionam. Os aspiradores de pó são uma maravilha e a máquina de lavar louça não é artigo de luxo.

Você não poderá quebrar a lei e colocar a culpa no governo. Se estacionar seu carro (ou bicicleta) em lugar indevido não ganhará o perdão do guarda só porque não tem onde estacionar perto de onde você vai. Na melhor das hipóteses, ele te dará uma advertência e ainda te mostrará o quão folgado está sendo, dizendo que poderia muito bem parar mais longe e ir à pé.

Esse é especial para as meninas: você provavelmente não fará a unha no salão toda semana. Provavelmente nem fará a unha no salão. Isso porque fazer a unha custa uns 20 euros. Eu, além de fazer a unha em casa, cortava o meu próprio cabelo, pois via os cortes da moda e ficava com medo de sair do salão com um mullet moderno.

Ah, outro toque para aqueles que se orgulham da tez branca: não, não é tão branca para eles. Provavelmente você ainda terá cara de gringo. Se não tiver cara, vai ter sotaque. E muito provavelmente vai entrar em contato com os estereótipos do brasileiro cedo ou tarde. Mesmo que seja depois de um ou 5 pints de cerveja. "Samba aí, brasileira", "Toma a bola, Pelé", "Você mora numa árvore?", "Conhece a Amazônia, ama o carnaval?"… Aí nessa hora você encontra o seu orgulho, que estava há muito tempo escondido e volta a ser brasileiro. Uma pena que precise disso. O seu sobrenome gringo e o seu passaporte não escondem de onde você vem. Sinto muito.

Por que eu voltei? Bom, não gosto da sensação de ser "estrangeiro" na minha casa. Tudo bem que pelo meu modo de pensar muitas vezes me sinta estrangeira no meu próprio país. Mas ainda tenho essa boba sensação de que posso fazer algo pelo Brasil, mas lá fora eu seria apenas mais uma girando junto com a roda, fazendo parte do esquema já montado, organizado. Aqui ainda há o que fazer. Para quem ainda não entende, cito meu pai:

"Você prefere ser o rei dos cachorros ou o cachorro do rei?"

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Análise do discurso - faça sempre ao ler o jornal

Coloquei ler, mas serve também para quem assiste TV.

Uma coisa que descobri é que o óbvio não é tão óbvio assim. O que pode ser pra mim, não necessariamente é para você. Enfim. Eu nunca escrevi sobre isso aqui, pois sempre achei que devemos ser críticos ao ler qualquer coisa e que isso era óbvio. Realmente a maneira como lemos criticamente  um romance e o jornal é diferente, mas deve haver crítica, afinal, quem escreve nunca é ingênuo.

Algumas coisas que você deve saber ao pegar o jornal e que normalmente não sabe: qual a orientação política do jornal (o que muitas vezes implica na agenda dele). No Brasil temos um fenômeno estranho, pois apenas nos dias de hoje as orientações jornalísticas começam a ficar um pouco menos nebulosas. Mas na França, por exemplo, eu fiz o teste. Perguntei para o jornaleiro de cara "qual o jornal de esquerda?" e ele disse: Le Figaro. O Le Monde, que todo mundo adora, é centro direita. Agora, vá até a sua banca de jornal e pergunte isso para seu jornaleiro. Eu tenho certeza que ele fará uma cara de interrogação.

Para te ajudar nessa tarefa, faça uma pesquisa sobre os donos do jornal, sobre como eles colocam as reportagens sobre o governo e os políticos de ambos os lados. Se defender o PMDB é de direita e se defender o PT de esquerda. Mas tudo isso com ressalvas. Um jornal de extrema esquerda vai acusar o PT e um de direita que seja de um grupo rival ao PMDB também vai ser menos parcimonioso nas críticas a esse último.

Com essa informação em mente, vale lembrar que os jornais, de ambas as orientações, querem vender (pois precisam ser lidos para ter anunciantes) e isso se traduz na prática em um monte de manchetes chamativas e reportagens com pouco conteúdo. Isso porque sabemos o problema da nossa formação em jornalismo, que em muitos lugares do mundo, é uma especialização. A consequência disso é que o nosso jornalista se torna um grande especialista em escrever sem saber bem sobre nada. Mas é claro, não devemos generalizar.

O jornalista é um profissional mais treinado na arte da maquiagem escrita do que qualquer coisa. Como escrever algo que não se tem certeza e não se comprometer. Como mudar a ordem da história para tornar o texto mais interessante. Essas coisas. E a arte de desfazer esse processo, se chama análise do discurso. Você não vai chegar na "verdade". Nem as fotos são capazes de revelar a verdade. Hoje sabemos que ângulos, contextos, tudo pode maquiar um acontecimento, mesmo numa foto.

Após se desapegar dessa ingenuidade inicial, devo avisar que daqui para baixo é pílula vermelha e não tem volta. Se quiser continuar acreditando no jornalismo "imparcial" e no compromisso com a verdade dos meios de comunicação, pare de ler esse texto e vá direto para o G1, R7, Le Monde, Whashington Post, BBC e seja feliz e "bem informado". Se não, continue.

Você já sabe que o jornal (ou veículo de informação) tem uma orientação. O motivo dela é simples: quem banca. É claro que os anunciantes pagam, mas escolhem os veículos pelo público que o lê. Mas o fato de termos famílias de políticos como principais donas de grupos de comunicação nos remete a possibilidade de que tais grupos sustentam os veículos para verem ali representados seus interesses e reproduzidas suas visões de mundo. Algo como o modo de vida burguês da era contemporânea.

Um fenômeno sintomático disso e que eu acho simplesmente uma sacada sensacional é o Vídeo Chow. Um programa que só fala sobre programas de Rede Bobo, de como os atores são lindos, super interessados em seus trabalhos, como tudo lá dentro é organizado. Ele é uma enciclopédia de todas as novelas que por lá passaram. Mas é engraçado, pois as polêmicas sobre as novelas nunca aparecem. Como o beijo lésbico foi vetado, ou a novela vai acabar mais cedo porque tá sem audiência, como o ator X não foi cotado pois está na reabilitação… Enfim, é tudo bobal no sentido Rede Bobo de ser. A vida maquiada, sem emoção e com uma dose extra de água e açúcar na mistura com o objetivo de te passar uma imagem de que a tal emissora é profissional, comprometida com o que faz, confiança e tranquilidade. "Pode assistir sem medo, sem cérebro, sem senso crítico".

Sendo assim, chegamos às perguntas básicas que todo mundo deve se fazer diante de qualquer texto, seja hiper, tele ou qualquer outro: Quem escreve? Para quem escreve? Como escreve? Com qual objetivo escreve? Não somente o que está escrito faz parte do texto. Tudo, desde imagens até aquelas partes destacadas e os sofríveis gráficos e arte em geral que aparecem nas reportagens deve ser observado. Uma coisa comum, por exemplo, é dar mais destaque a um lado da história do que a outro. Não questionar é uma das maiores "virtudes" de nossos jornalistas. Mas eles também não querem que você se questione, então vão passar batido por tudo que possa causar uma polêmica inversa aquela do interesse do veículo. As vezes me pergunto se isso acontece intencionalmente ou se os jornalista não tem noção dos objetivos por trás do seu trabalho. Essa dúvida me ocorre porque sei que em muitos cursos de comunicação, análise do discurso (ou análise crítica do discurso) não figura nem dentre as disciplinas optativas.

Infelizmente eu não posso colocar nenhum exemplo aqui, pois esses veículos, além de "mal" intencionados, são bem armados e me processariam de maneira desproporcional ao meu "mal feito. Um exemplo seria o caso da cobertura do julgamento do mensalão, que toda imprensa se esmerou em acompanhar, mas quantos lembraram que esse não foi o primeiro esquema? Ou questionar um político do porque a vontade de mudança, pós manifestações, se traduziu em medidas tão ridículas? A menina do CQC fez sucesso porque muito do que fazia era o que os jornalistas deveriam fazer, mas eles, acho eu, estão cada vez mais "amiguinhos"dos políticos. "Oh, vem cá no churrasco aqui em casa e eu te dou aquela informação. Aliás, como vai a sua mãe?…" É realmente viável se perder meia tonelada de cocaína, ou melhor, colocarem no seu helicóptero e você nem saber?

Mais uma coisa, não existe tal coisa chamada veículo de comunicação. Não no sentido que eu entendo comunicação. Se existe, ele está longe de ser a mídia impressa e televisiva. A comunicação é um processo de mão dupla. Pergunta e resposta, mensagem e recepção. Algo parecido com a teoria da comunicação do Roman Jakobson. Para facilitar a explicação, eu fiz um esquema (ficou ruim, mas sinta-se livre para usar).


A parte 1 é  o que acontece quando lê ou assiste ao jornal. Você só recebe a informação. É um processo passivo. Por isso é muito importante que sempre reflita antes de aceitar essa informação, afinal, o processo 2, que para mim é o que caracteriza a comunicação, está ausente. Ninguém quer saber o que você acha e pensa na mídia. É um processo hierárquico onde nós estamos na base. Não geramos opinião, ela é gerada pra gente. Não é a toa que chamam muitos jornalistas e blogueiros de "formadores de opinião". Mas eu prefiro o blog, pois existe um espaço para a resposta.

As manifestações de 2013 foram um bom exemplo de como a mídia (que vou chamar aqui de tradicional, como muitos vem fazendo), tem o hábito de vomitar sua própria opinião e visão dos acontecimentos de maneira impositiva para a opinião pública. Quando ela viu que estava falando mal da maior parte da sua seara, mudou de posição, mas sempre mantendo sua linha esdrúxula (desviando o foco do motivo das manifestações para a destruição de lixeiras). Mas essa volta atrás nem sempre acontece. Eu não acho que a opinião da mídia reflita a da população. Até porque o foco dela é a classe média, e diferente dos dados do governo, nem a metade da população é de fato dessa classe.

Mas porque a mídia mudou de foco? Porque liga para a opinião pública? Eu duvido. Acho que na maioria das vezes não está nem aí pra isso. Vide como é feito o cálculo da audiência (meia dúzia de aparelhos no Rio e em São Paulo). Acho que ela mudou de abordagem porque a internet, com a ajuda da mídia ninja, veio em massa contestar a incontestável dona da verdade. Pela primeira vez, por mais absurdo que fosse os comentários na TV, mais e mais pessoas continuavam ignorando as opiniões da última. O que ficou claro para mim nesse episódio, quando a MT não soube interpretar, explicar, entender, cobrir, é que ela está muito longe da população brasileira, de entendê-la. Por quê? Nunca se preocupou com isso. Um ranço da ditadura, onde o negócio era ludibriar?

Não sei, mas se tiver um pouco de paciência, assista a esse vídeo e veja como as "feras" da MT tem dificuldade em entender o pessoal da Mídia Ninja e como o foco das perguntas está todo na questão do financiamento do veículo. Será que isso é um sinal de que eles , da MT, no lugar de se comprometerem com a "imparcialidade", com o foco no acontecimento, respondem apenas àqueles que os pagam diretamente?

Para conhecer mais sobre análise do discurso:

Norman Fairclough - Discurso e mudança social
Michel Foucault - A ordem do discurso

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Enchente, de novo?

Numa aula de História Social e Política Geral (que era mais Hosbsbawm para dummies e deveria se chamar História da Europa e dos Estados Unidos), o professor foi dizendo como os fenômenos naturais, com a revolução industrial e agrícola, o conhecimento sobre o clima e talz foi capaz de evitar os efeitos de catástrofes como enchentes, secas e etc na Europa.

Nesse momento ele colocou uma pergunta para a classe que ficou perplexa: Porque será que algo que não acontece na Europa há mais de 300 anos pode ainda causar tantas mortes no Brasil? Ele se referia a última grande seca do Nordeste. Mas eu logo fiz a associação com as cheias que vemos todo final de ano, tão tradicionais quanto as rabanadas. É incrível, pois desde que me entendo por gente chove no final do ano. Todo final de ano é a mesma coisa: os estados afetados decretando estado de calamidade pública, o governo federal repassando dinheiro (ou dizendo que vai repassar) e bom, no final das contas é sempre remediar o mal.

Estava ouvindo no rádio os municípios de Minas Gerais que decretaram tal estado. Engraçado que foram justamente os das áreas mais pobres: Vale do Jequitinhonha.
Lembrei também do Morro do Bumba - um festival de incompetência, maldade, classismo. Na minha interpretação, a pessoal que deixou que se construíssem casas na região deveria estar na cadeia. Mas aí eu me lembrei de outra coisa na nossa sociedade que me deixa bastante irritada: filho feio não tem dono.

É muito difícil alguém dar a cara a tapa aqui. Todo mundo culpa o coitado do goleiro que perdeu a Copa de 50. Muita gente nem estava viva na época, mas conhece a famosa culpa do Barbosa. Mas quem aqui assume as responsabilidades? Não me entenda mal, dizer "putz, foi mal"não é assumir responsabilidade nenhuma, pois nessa caso, a gente sempre espera um perdão, um tapinha nas costas, um entendimento. Quero dizer que é difícil arcar com as consequências. E nesse caso não pode ser uma só pessoa e sim uma cadeia de gente que foi empurrando a coisa com a barriga na mesma velocidade que os moradores foram construindo suas casas.

Eu não responsabilizo tanto os moradores do morro, afinal, são o elo mais fraco dessa cadeia. Muitas vezes não sabem o que é erosão e não tem alternativa habitacional. Depois que o morro caiu, os moradores receberam 400 reais de aluguel social. Mas será que 400 reais para alguém que perdeu tudo não me parece muito justo. Como essa pessoa vai comprar uma geladeira com isso? Refazer a vida? E vamos pensar ainda na escolaridade da maioria dessas pessoas que é um agravante no fato de conseguirem entender onde estavam construindo seus barracos em primeiro lugar. Já os moradores de Águas Claras e dos condomínios irregulares de Brasília sim sabem onde estão se metendo. E o pior, entram na piração dos políticos brasileiros. O cara acha que no futuro, porque o fulaninho quer se reeleger, vai regularizar o condomínio e pronto! O papel vai protegê-lo dos desastres naturais.

Aliás, é bom lembrar do que aconteceu com o Palace II. Muitos moradores estão até hoje sem seus imóveis. E os responsáveis? Sérgio Naya faleceu. Não sei dizer se por culpa ou por desgosto. Não me lembro se ele foi preso. Mas a gente sabe o que acontece no final do festival de incompetência: nada. Então temos que pensar em duas coisas: qual é a consequência de um desastre natural para um rico e para um pobre (a classe média se ferra quase o mesmo tanto que um pobre, como vocês podem perceber no caso do Palace II).

Mas voltando a questão das catástrofes naturais, que n ós parecemos incapazes de prevenir. Vem a questão: qual é o aspecto eleitoreiro da coisa? Até que ponto o cara que aceita esse aspecto, esperando que sua casa seja regularizada não é co-responsável? E será mesmo que os ricos e os políticos serão sempre imunes às consequências dessa negligência? E até quando as pessoas vão se reconfortar com o "passar a bola" da responsabilidade para outra?

Resumindo: Feliz 2014, Brasil!

domingo, 22 de dezembro de 2013

O sonho de toda mulher é casar? Será?

Texto escrito a pedido de uma amiga sobre um artigo traduzido por, ironicamente, um homem e publicado na folha.

Minha avó, que deveria ser uns 50 ou 60 anos mais velha do que eu dizia:

O primeiro marido de toda mulher é o trabalho”.

Isso porque ela, vinda de uma família pobre, só conseguiu melhorar de vida por ter se casado. Ela sempre fora uma mulher inteligente e perspicaz, trabalhou como professora primária e na época dela, foi forçada a largar tudo o que tinha para se tornar mãe e dona de casa. O meu avô, muito ciumento, não a deixava trabalhar, como muitos em sua época.

Mas ele morreu com 40 anos de câncer e a deixou com duas filhas para criar, sem trabalho ou experiência, um patrimônio para administrar que ela não sabia como fazer. Na época do ocorrido, as viúvas precisavam entrar na justiça para receber a pensão e essa decisão demorava algum tempo. Além disso, minha avó passou algum tempo recebendo apenas uma parte do salario do meu avô. Me lembra um pouco a história de “A partilha”- da Júlia Lopes de Almeida.

Tudo na vida da minha avó se resumia ao casamento, e ela se viu viúva, sem trabalho. Falar o que para as contas? “Eu investi no meu casamento antes da profissão, como a Suzana Venker aconselhou e agora me f*&%”.

No texto que o blog da folha traz, uma série de anomalias. Eu sou brasileira e não sou de nenhuma cidade super cosmopolita, como São Paulo. Os brasilienses irão negar, mas tem uma mentalidade que é, em muitos aspectos, interiorana. As mulheres aqui ainda se desesperam ao pensar que podem algum dia ficar “para titia”. Acho que é o sonho de muitas mulheres casar. Casamentos de meio milhão acontecem o tempo todo.

Eu não sei bem o que o casamento representa para a maioria dos homens. Acredito que para o brasileiro padrão, o casamento significa ter, me desculpem o linguajar, alguém para limpar, cozinhar, trepar e cuidar das crianças. E pior, muitos homens nem conseguem mais manter a casa sozinhos e ainda tratam suas mulheres como vassalas.

Realmente não consigo entender como alguém pode defender o casamento nos moldes do que era antigamente. Isso tem para mim ares de preconceito e inveja. Mas enfim, muitas teorias afirmam que em épocas de crise econômica, para se abrirem postos no mercado de trabalho para os homens, há uma volta desse discurso conservador visando a volta das mulheres ao lar, para, aí sim, dar emprego para os homens.

Para quem ainda levanta a bandeira dos papéis tradicionais de gênero, basta lembrar que eles são extremamente recentes. Inclusive, já na revolução industrial, as mulheres eram grande parte da força de trabalho. Mas tem gente que só enxerga aquilo que quer ver. Essa autora, por exemplo, o que está fazendo escrevendo livros e os vendendo? Isso não é um trabalho? Quem cuida da casa dela? E dos filhos? Enfim, será que ela mesma não está sendo contraditória?

Nos anos 50, nos EUA, as mulheres da classe média tinham um alto grau de instrução. Isso porque precisavam esperar o marido se formar e arrumar um bom emprego antes de se casarem. Sendo assim continuavam a estudar. Conclusão: a depressão e a taxa de suicídio entre as mulheres dessa época era altíssima, afinal, a vida de uma dona de casa não necessita de PhD.

Ela diz “Não é mais necessário casar para se fazer sexo”. Da parte dos homens, isso nunca foi necessário. Para as mulheres, isso nunca deixou de valer, basta ver os casos das meninas difamadas pelas redes sociais pelos seus próprios parceiros sexuais. Parte disso se dá porque eles podem, e elas não. Ao fazerem isso são vistas como vadias, prostitutas... Onde está mesmo a liberdade sexual das mulheres? O duplo padrão ainda está aí. O que a autora está dizendo não é nada além do “faça o que a sociedade ainda espera de você, não questione, não faça o que quer, se aliene e será feliz”.

Isso porque muitos homens ainda tem problemas para lidar com mulheres modernas. Por isso vemos esse tipo de manifestação visando difamar as mulheres, fruto de uma insegurança masculina. Mas é sempre bom lembrar, ainda bem, que não são todos os homens que agem dessa maneira. E também é bom lembrar que não são todos os homens e nem todas as mulheres que estão de fato interessados em relacionamentos monogâmicos ou heterossexuais.

Aliás, eu queria entender um pouco mais das motivações dessa autora, que claramente não foi criada na época que esse tipo de pensamento não era contestado.

Existe um certo medo das mulheres em oferecer a sobremesa antes do jantar, e os homens não quererem nada mais com elas. Bom, eu só posso dizer uma coisa, a sobremesa não é a única parte. Sem o jantar, é apenas sobremesa. E se o cara comeu e sumiu, melhor pra você. Sinal que não devia ser lá grande coisa. O problema, para mim, é o fato das mulheres que querem apenas satisfazer suas vontades sexuais serem difamadas, ou aquelas que dão no primeiro encontro. Ninguém nunca para pra pensar que essa poderia ser a razão do encontro per si? E se ele foi mais do que isso, porque deixar um preconceito impedir um conhecimento mais aprofundado do outro? Por que não partir para um segundo ou um terceiro?

Outro ponto importante a ressaltar é: o casamento mudou e os arranjos familiares também. Muitas vezes, a melhor coisa do passado é que ele passou. As pessoas se esquecem que os tempos antigos não eram apenas uma propaganda vintage da Coca Cola. É sempre mais fácil ser saudosista quando os maus momentos de uma época foram cuidadosamente suprimidos. E não tem nada de inovador em ser conservador.

Falar que os homens são imaturos ou amadureceram menos porque tem menos responsabilidades é uma coisa, mas dizer que isso é culpa das mulheres, porque elas resolveram que existe mais na vida do que casar é, no mínimo, falacioso. Os homens precisam de incentivos para casar? As mulheres também! Afinal, pelo menos aqui no Brasil, muitas vezes o casamento é um mau negócio para as mulheres, que se veem obrigadas a terem uma dupla jornada. O que eu acho que está ficando evidente hoje em dia, que por mais que as mulheres queiram ter uma família e casar-se, estão pouco propensas a fazê-lo nos moldes de antigamente. Além disso, os homens terão que enxergar que se o quiserem, precisarão tomar para si a parte que lhes cabe na paternidade e nos afazeres domésticos e não tem discurso conservador que seja que me convença do contrário.

Como deixar de viver, se os homens continuarem como estão? Como acreditar que o casamento amadurecerá milhagrosamente os homens? Se a mulher não investir no trabalho, o que sobrará para ela na grade partilha da sociedade?


Há mais coisas além do trabalho? Certamente que sim. E existe muito mais além do casamento.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Aos pais ou responsáveis

Não, eu não tenho filhos, antes que usem esse único ponto da minha argumentação contra todo o conteúdo dela. Tenho sim noção da limitação do que vou falar aqui no que tange a parentalidade. Mas meu argumento é válido quanto educadora experiente, professora, mestre em literatura e apaixonada pelo conhecimento.

Recentemente tomei uma das poucas decisões na minha vida que considero praticamente sem volta. Não dar mais aula para o ensino tradicional, especificamente em escolas particulares. Muito se fala sobre a mercadorização do ensino, mas ler sobre o assunto é muito diferente de ver o fenômeno acontecer na prática.

Dentre os problemas da carreira de professor, muitos são popularmente conhecidos, como o cansaço que sentimos ao ficar horas em pé; o trabalho extra que levamos para casa, correção de provas, elaboração de atividades etc. Somam-se a esses alguns outros que muitos desconhecem, como o desgaste físico de ter turmas indisciplinadas, a esse também podemos acrescentar a falta de educação dos alunos. A falta de respeito é gritante, tanto das instituições como dos alunos.

Não adianta a propaganda da escola, a maioria delas funciona como "agente maximizador de lucros". Isso implica dizer que vão colocar o máximo de alunos por sala, sem se preocupar com a qualidade do ensino que seus estudantes irá ter. Um exemplo da ineficácia desse sistema é a necessidade de que se tenham aulas de línguas em outras escolas (muitos pais pagam por fora), porque no ensino de línguas estrangeiras, sabemos que é muito difícil, numa turma com mais de 25 alunos, ter um aprendizado eficiente em todas as competências (a fala, a escrita e a compreensão oral e escrita). Gente, faça as contas de o quanto você paga por mês, o quanto de alunos existem em cada turma e o quanto a escola deve gastar com o salário dos professores. É um absurdo, uma máquina de ganhar dinheiro. E ainda cobram a mais por tudo.

Você pode até defender tais instituições dizendo que essas competências não são todas trabalhadas na escola. Será? Por que falamos tanto hoje em "analfabetismo" funcional? Que chance o professor, com o salário que ganha, dando pelo menos 30 horas semanais, com um descanso remunerado ridículo, se dedicar a cada aluno com a devida atenção se tem em média 40 alunos por sala? Se você acha possível, tente. E por incrível que pareça, tem gente que culpa os professores "como vocês, que ensinam, não conseguem ensinar a sociedade a respeitá-los?", ou ainda "é culpa dessa ganância, professor além de super qualificado ainda quer ser bem remunerado?".

Um absurdo mesmo, né. Se nem os fundamentos básicos é possível trabalhar nesse contexto, quem dirá do "senso crítico" que aparece na maioria dos planos políticos pedagógicos de cada escola? Aliás, uma piada. Você quer saber mesmo o que a escola faz com o seu filho? Elas vão pelo caminho mais fácil, pois pela lógica da maximização do lucro, mais aprovação, mais alunos, mais alunos, mais dinheiro. Mas você realmente já somou as porcentagens dos melhores colégios da cidade? Deve dar mais de 200% de aprovação. Eu não fiz a conta detalhadamente, mas se você somar todos os alunos de cada escola, a porcentagem de alunos que eles alegam ter aprovado na UnB, por exemplo, e subtrair pela quantidade de vagas que a UnB abre todos os anos do vestibular, tá sobrando aluno na UnB que não está lá de verdade. Muitas vezes essa pessoa é contada duas vezes, uma no colégio e a outra no cursinho. Qual deles será que deve realmente levar o crédito? E o que eles querem fazer mesmo com o seu filho é socar o conteúdo. Se não aprendeu o problema é dele e no mais, tem plantão.

Mas a questão talvez nem deva ser essa. Muitos dizem que a maioria dos vestibulares vão ser reformulados. O norte dessa mudança parece ser o ENEM, exame que visa estimular muito mais as habilidades dos alunos do que a simples decoreba a qual estamos acostumados. Mas mesmo assim as escolas não entendem o recado. Dão palestras e mais palestras tentando descobrir como "decodificar"e exame e ensinar a "manhã" aos estudantes. Gente, não é conhecimento, é informação vazia de significado. O aprendiz dificilmente saberá tornar o que aprende na escola de maneira plástica. Vai ocupar sua memória com sujeito e predicado, mas não saberá como manipulá-los para escrever períodos coerentes. Eu passei por isso. Alunos que não sabem a diferença entre a conjunção "e" e o verbo ser ("é"). Eles tanto não sabiam como falavam errado e pelos textos ficava claro que não compreendiam nem para que servia cada coisa. Me disseram uma vez que a professora explicou literalmente "um é verbo e outro é uma conjunção". Mas e ae, no que isso me ajuda a escrever? Não me recordo de nenhum gramático poeta, escritor, prêmio Nobel de literatura… Mas o conteúdo está lá, dividido por aulas, horas, atividades, exercícios, provas. E no fim tenho que prestar conta aos diretores, pais, coordenadores, chefes de área, mas a minha consciência sempre se sentia mal, por mais que eu vencesse "a minha meta". Me sentia como me senti quando fui vendedora de loja, não interessava o cliente que não fosse comprar o produto.

Me frustrava muito não conseguir por em prática quase nada do que aprendi na universidade. A coisa que mais me irritava era colocar um bilhetinho na prova "professor, corrija essa prova com muita atenção porque esse aluno é laudado". Como se a responsabilidade fosse minha. Não se fazia provas específicas para eles, nem ao menos de cores diferentes. Como eles poderiam se dar bem se a maioria das provas era de marcar a resposta certa? "Laudado" com o quê? Como se dislexia, déficit de atenção e hiperatividade fossem a mesma coisa. E o que me dava mais raiva era colocar pelo menos cinco desses meninos numa sala superlotada sem ao menos nos preparar para isso. Só recebíamos o bilhetinho ordinário grampeado junto a prova que o pobre coitado do menino tinha que fazer numa sala onde confinam todos os "LAUDADOS" juntos, uma zona total e completa, sem alguém que lesse a prova para esse menino achando que o bilhetinho vai resolver o problema dele.

Ah, mas a escola usa tablets, quadros interativos e ainda tem uma empresa de jogos educativos aplicando sua metodologia "super" inovadora em sala de aula. Não sei nem por onde começar a crítica desse tópico. Vão soar super moderninhas, mas bloqueiam a internet dos professores e dos alunos. Passar vídeo do youtube, só se der um jeito de copiar. Internet em sala de aula, se dermos sorte de conseguir conectar, é só o e-mail e olhe lá. Recursos como a wikipédia, o facebook, o blogger (não podia montar um blog com os meus alunos!!!)

Desculpem o desabafo, mas precisava compartilhar isso. Se no fundo só querem um lugar para vigiar seus filhos enquanto trabalham, coloquem em qualquer escola, mas se querem que ele aprende, que seja criativo, tenho sérias dúvidas do que fazer com essa criança, mas já digo que vai ser muito difícil ele ser criativo ou inventivo no ensino tradicional. Ele vai ser alguém apesar da escola e não com a ajuda dela.

Segue um vídeo sobre criatividade e escola para aqueles que se interessam pelo tema:

http://youtu.be/iG9CE55wbtY