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quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Análise do discurso - faça sempre ao ler o jornal

Coloquei ler, mas serve também para quem assiste TV.

Uma coisa que descobri é que o óbvio não é tão óbvio assim. O que pode ser pra mim, não necessariamente é para você. Enfim. Eu nunca escrevi sobre isso aqui, pois sempre achei que devemos ser críticos ao ler qualquer coisa e que isso era óbvio. Realmente a maneira como lemos criticamente  um romance e o jornal é diferente, mas deve haver crítica, afinal, quem escreve nunca é ingênuo.

Algumas coisas que você deve saber ao pegar o jornal e que normalmente não sabe: qual a orientação política do jornal (o que muitas vezes implica na agenda dele). No Brasil temos um fenômeno estranho, pois apenas nos dias de hoje as orientações jornalísticas começam a ficar um pouco menos nebulosas. Mas na França, por exemplo, eu fiz o teste. Perguntei para o jornaleiro de cara "qual o jornal de esquerda?" e ele disse: Le Figaro. O Le Monde, que todo mundo adora, é centro direita. Agora, vá até a sua banca de jornal e pergunte isso para seu jornaleiro. Eu tenho certeza que ele fará uma cara de interrogação.

Para te ajudar nessa tarefa, faça uma pesquisa sobre os donos do jornal, sobre como eles colocam as reportagens sobre o governo e os políticos de ambos os lados. Se defender o PMDB é de direita e se defender o PT de esquerda. Mas tudo isso com ressalvas. Um jornal de extrema esquerda vai acusar o PT e um de direita que seja de um grupo rival ao PMDB também vai ser menos parcimonioso nas críticas a esse último.

Com essa informação em mente, vale lembrar que os jornais, de ambas as orientações, querem vender (pois precisam ser lidos para ter anunciantes) e isso se traduz na prática em um monte de manchetes chamativas e reportagens com pouco conteúdo. Isso porque sabemos o problema da nossa formação em jornalismo, que em muitos lugares do mundo, é uma especialização. A consequência disso é que o nosso jornalista se torna um grande especialista em escrever sem saber bem sobre nada. Mas é claro, não devemos generalizar.

O jornalista é um profissional mais treinado na arte da maquiagem escrita do que qualquer coisa. Como escrever algo que não se tem certeza e não se comprometer. Como mudar a ordem da história para tornar o texto mais interessante. Essas coisas. E a arte de desfazer esse processo, se chama análise do discurso. Você não vai chegar na "verdade". Nem as fotos são capazes de revelar a verdade. Hoje sabemos que ângulos, contextos, tudo pode maquiar um acontecimento, mesmo numa foto.

Após se desapegar dessa ingenuidade inicial, devo avisar que daqui para baixo é pílula vermelha e não tem volta. Se quiser continuar acreditando no jornalismo "imparcial" e no compromisso com a verdade dos meios de comunicação, pare de ler esse texto e vá direto para o G1, R7, Le Monde, Whashington Post, BBC e seja feliz e "bem informado". Se não, continue.

Você já sabe que o jornal (ou veículo de informação) tem uma orientação. O motivo dela é simples: quem banca. É claro que os anunciantes pagam, mas escolhem os veículos pelo público que o lê. Mas o fato de termos famílias de políticos como principais donas de grupos de comunicação nos remete a possibilidade de que tais grupos sustentam os veículos para verem ali representados seus interesses e reproduzidas suas visões de mundo. Algo como o modo de vida burguês da era contemporânea.

Um fenômeno sintomático disso e que eu acho simplesmente uma sacada sensacional é o Vídeo Chow. Um programa que só fala sobre programas de Rede Bobo, de como os atores são lindos, super interessados em seus trabalhos, como tudo lá dentro é organizado. Ele é uma enciclopédia de todas as novelas que por lá passaram. Mas é engraçado, pois as polêmicas sobre as novelas nunca aparecem. Como o beijo lésbico foi vetado, ou a novela vai acabar mais cedo porque tá sem audiência, como o ator X não foi cotado pois está na reabilitação… Enfim, é tudo bobal no sentido Rede Bobo de ser. A vida maquiada, sem emoção e com uma dose extra de água e açúcar na mistura com o objetivo de te passar uma imagem de que a tal emissora é profissional, comprometida com o que faz, confiança e tranquilidade. "Pode assistir sem medo, sem cérebro, sem senso crítico".

Sendo assim, chegamos às perguntas básicas que todo mundo deve se fazer diante de qualquer texto, seja hiper, tele ou qualquer outro: Quem escreve? Para quem escreve? Como escreve? Com qual objetivo escreve? Não somente o que está escrito faz parte do texto. Tudo, desde imagens até aquelas partes destacadas e os sofríveis gráficos e arte em geral que aparecem nas reportagens deve ser observado. Uma coisa comum, por exemplo, é dar mais destaque a um lado da história do que a outro. Não questionar é uma das maiores "virtudes" de nossos jornalistas. Mas eles também não querem que você se questione, então vão passar batido por tudo que possa causar uma polêmica inversa aquela do interesse do veículo. As vezes me pergunto se isso acontece intencionalmente ou se os jornalista não tem noção dos objetivos por trás do seu trabalho. Essa dúvida me ocorre porque sei que em muitos cursos de comunicação, análise do discurso (ou análise crítica do discurso) não figura nem dentre as disciplinas optativas.

Infelizmente eu não posso colocar nenhum exemplo aqui, pois esses veículos, além de "mal" intencionados, são bem armados e me processariam de maneira desproporcional ao meu "mal feito. Um exemplo seria o caso da cobertura do julgamento do mensalão, que toda imprensa se esmerou em acompanhar, mas quantos lembraram que esse não foi o primeiro esquema? Ou questionar um político do porque a vontade de mudança, pós manifestações, se traduziu em medidas tão ridículas? A menina do CQC fez sucesso porque muito do que fazia era o que os jornalistas deveriam fazer, mas eles, acho eu, estão cada vez mais "amiguinhos"dos políticos. "Oh, vem cá no churrasco aqui em casa e eu te dou aquela informação. Aliás, como vai a sua mãe?…" É realmente viável se perder meia tonelada de cocaína, ou melhor, colocarem no seu helicóptero e você nem saber?

Mais uma coisa, não existe tal coisa chamada veículo de comunicação. Não no sentido que eu entendo comunicação. Se existe, ele está longe de ser a mídia impressa e televisiva. A comunicação é um processo de mão dupla. Pergunta e resposta, mensagem e recepção. Algo parecido com a teoria da comunicação do Roman Jakobson. Para facilitar a explicação, eu fiz um esquema (ficou ruim, mas sinta-se livre para usar).


A parte 1 é  o que acontece quando lê ou assiste ao jornal. Você só recebe a informação. É um processo passivo. Por isso é muito importante que sempre reflita antes de aceitar essa informação, afinal, o processo 2, que para mim é o que caracteriza a comunicação, está ausente. Ninguém quer saber o que você acha e pensa na mídia. É um processo hierárquico onde nós estamos na base. Não geramos opinião, ela é gerada pra gente. Não é a toa que chamam muitos jornalistas e blogueiros de "formadores de opinião". Mas eu prefiro o blog, pois existe um espaço para a resposta.

As manifestações de 2013 foram um bom exemplo de como a mídia (que vou chamar aqui de tradicional, como muitos vem fazendo), tem o hábito de vomitar sua própria opinião e visão dos acontecimentos de maneira impositiva para a opinião pública. Quando ela viu que estava falando mal da maior parte da sua seara, mudou de posição, mas sempre mantendo sua linha esdrúxula (desviando o foco do motivo das manifestações para a destruição de lixeiras). Mas essa volta atrás nem sempre acontece. Eu não acho que a opinião da mídia reflita a da população. Até porque o foco dela é a classe média, e diferente dos dados do governo, nem a metade da população é de fato dessa classe.

Mas porque a mídia mudou de foco? Porque liga para a opinião pública? Eu duvido. Acho que na maioria das vezes não está nem aí pra isso. Vide como é feito o cálculo da audiência (meia dúzia de aparelhos no Rio e em São Paulo). Acho que ela mudou de abordagem porque a internet, com a ajuda da mídia ninja, veio em massa contestar a incontestável dona da verdade. Pela primeira vez, por mais absurdo que fosse os comentários na TV, mais e mais pessoas continuavam ignorando as opiniões da última. O que ficou claro para mim nesse episódio, quando a MT não soube interpretar, explicar, entender, cobrir, é que ela está muito longe da população brasileira, de entendê-la. Por quê? Nunca se preocupou com isso. Um ranço da ditadura, onde o negócio era ludibriar?

Não sei, mas se tiver um pouco de paciência, assista a esse vídeo e veja como as "feras" da MT tem dificuldade em entender o pessoal da Mídia Ninja e como o foco das perguntas está todo na questão do financiamento do veículo. Será que isso é um sinal de que eles , da MT, no lugar de se comprometerem com a "imparcialidade", com o foco no acontecimento, respondem apenas àqueles que os pagam diretamente?

Para conhecer mais sobre análise do discurso:

Norman Fairclough - Discurso e mudança social
Michel Foucault - A ordem do discurso

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Enchente, de novo?

Numa aula de História Social e Política Geral (que era mais Hosbsbawm para dummies e deveria se chamar História da Europa e dos Estados Unidos), o professor foi dizendo como os fenômenos naturais, com a revolução industrial e agrícola, o conhecimento sobre o clima e talz foi capaz de evitar os efeitos de catástrofes como enchentes, secas e etc na Europa.

Nesse momento ele colocou uma pergunta para a classe que ficou perplexa: Porque será que algo que não acontece na Europa há mais de 300 anos pode ainda causar tantas mortes no Brasil? Ele se referia a última grande seca do Nordeste. Mas eu logo fiz a associação com as cheias que vemos todo final de ano, tão tradicionais quanto as rabanadas. É incrível, pois desde que me entendo por gente chove no final do ano. Todo final de ano é a mesma coisa: os estados afetados decretando estado de calamidade pública, o governo federal repassando dinheiro (ou dizendo que vai repassar) e bom, no final das contas é sempre remediar o mal.

Estava ouvindo no rádio os municípios de Minas Gerais que decretaram tal estado. Engraçado que foram justamente os das áreas mais pobres: Vale do Jequitinhonha.
Lembrei também do Morro do Bumba - um festival de incompetência, maldade, classismo. Na minha interpretação, a pessoal que deixou que se construíssem casas na região deveria estar na cadeia. Mas aí eu me lembrei de outra coisa na nossa sociedade que me deixa bastante irritada: filho feio não tem dono.

É muito difícil alguém dar a cara a tapa aqui. Todo mundo culpa o coitado do goleiro que perdeu a Copa de 50. Muita gente nem estava viva na época, mas conhece a famosa culpa do Barbosa. Mas quem aqui assume as responsabilidades? Não me entenda mal, dizer "putz, foi mal"não é assumir responsabilidade nenhuma, pois nessa caso, a gente sempre espera um perdão, um tapinha nas costas, um entendimento. Quero dizer que é difícil arcar com as consequências. E nesse caso não pode ser uma só pessoa e sim uma cadeia de gente que foi empurrando a coisa com a barriga na mesma velocidade que os moradores foram construindo suas casas.

Eu não responsabilizo tanto os moradores do morro, afinal, são o elo mais fraco dessa cadeia. Muitas vezes não sabem o que é erosão e não tem alternativa habitacional. Depois que o morro caiu, os moradores receberam 400 reais de aluguel social. Mas será que 400 reais para alguém que perdeu tudo não me parece muito justo. Como essa pessoa vai comprar uma geladeira com isso? Refazer a vida? E vamos pensar ainda na escolaridade da maioria dessas pessoas que é um agravante no fato de conseguirem entender onde estavam construindo seus barracos em primeiro lugar. Já os moradores de Águas Claras e dos condomínios irregulares de Brasília sim sabem onde estão se metendo. E o pior, entram na piração dos políticos brasileiros. O cara acha que no futuro, porque o fulaninho quer se reeleger, vai regularizar o condomínio e pronto! O papel vai protegê-lo dos desastres naturais.

Aliás, é bom lembrar do que aconteceu com o Palace II. Muitos moradores estão até hoje sem seus imóveis. E os responsáveis? Sérgio Naya faleceu. Não sei dizer se por culpa ou por desgosto. Não me lembro se ele foi preso. Mas a gente sabe o que acontece no final do festival de incompetência: nada. Então temos que pensar em duas coisas: qual é a consequência de um desastre natural para um rico e para um pobre (a classe média se ferra quase o mesmo tanto que um pobre, como vocês podem perceber no caso do Palace II).

Mas voltando a questão das catástrofes naturais, que n ós parecemos incapazes de prevenir. Vem a questão: qual é o aspecto eleitoreiro da coisa? Até que ponto o cara que aceita esse aspecto, esperando que sua casa seja regularizada não é co-responsável? E será mesmo que os ricos e os políticos serão sempre imunes às consequências dessa negligência? E até quando as pessoas vão se reconfortar com o "passar a bola" da responsabilidade para outra?

Resumindo: Feliz 2014, Brasil!

domingo, 22 de dezembro de 2013

O sonho de toda mulher é casar? Será?

Texto escrito a pedido de uma amiga sobre um artigo traduzido por, ironicamente, um homem e publicado na folha.

Minha avó, que deveria ser uns 50 ou 60 anos mais velha do que eu dizia:

O primeiro marido de toda mulher é o trabalho”.

Isso porque ela, vinda de uma família pobre, só conseguiu melhorar de vida por ter se casado. Ela sempre fora uma mulher inteligente e perspicaz, trabalhou como professora primária e na época dela, foi forçada a largar tudo o que tinha para se tornar mãe e dona de casa. O meu avô, muito ciumento, não a deixava trabalhar, como muitos em sua época.

Mas ele morreu com 40 anos de câncer e a deixou com duas filhas para criar, sem trabalho ou experiência, um patrimônio para administrar que ela não sabia como fazer. Na época do ocorrido, as viúvas precisavam entrar na justiça para receber a pensão e essa decisão demorava algum tempo. Além disso, minha avó passou algum tempo recebendo apenas uma parte do salario do meu avô. Me lembra um pouco a história de “A partilha”- da Júlia Lopes de Almeida.

Tudo na vida da minha avó se resumia ao casamento, e ela se viu viúva, sem trabalho. Falar o que para as contas? “Eu investi no meu casamento antes da profissão, como a Suzana Venker aconselhou e agora me f*&%”.

No texto que o blog da folha traz, uma série de anomalias. Eu sou brasileira e não sou de nenhuma cidade super cosmopolita, como São Paulo. Os brasilienses irão negar, mas tem uma mentalidade que é, em muitos aspectos, interiorana. As mulheres aqui ainda se desesperam ao pensar que podem algum dia ficar “para titia”. Acho que é o sonho de muitas mulheres casar. Casamentos de meio milhão acontecem o tempo todo.

Eu não sei bem o que o casamento representa para a maioria dos homens. Acredito que para o brasileiro padrão, o casamento significa ter, me desculpem o linguajar, alguém para limpar, cozinhar, trepar e cuidar das crianças. E pior, muitos homens nem conseguem mais manter a casa sozinhos e ainda tratam suas mulheres como vassalas.

Realmente não consigo entender como alguém pode defender o casamento nos moldes do que era antigamente. Isso tem para mim ares de preconceito e inveja. Mas enfim, muitas teorias afirmam que em épocas de crise econômica, para se abrirem postos no mercado de trabalho para os homens, há uma volta desse discurso conservador visando a volta das mulheres ao lar, para, aí sim, dar emprego para os homens.

Para quem ainda levanta a bandeira dos papéis tradicionais de gênero, basta lembrar que eles são extremamente recentes. Inclusive, já na revolução industrial, as mulheres eram grande parte da força de trabalho. Mas tem gente que só enxerga aquilo que quer ver. Essa autora, por exemplo, o que está fazendo escrevendo livros e os vendendo? Isso não é um trabalho? Quem cuida da casa dela? E dos filhos? Enfim, será que ela mesma não está sendo contraditória?

Nos anos 50, nos EUA, as mulheres da classe média tinham um alto grau de instrução. Isso porque precisavam esperar o marido se formar e arrumar um bom emprego antes de se casarem. Sendo assim continuavam a estudar. Conclusão: a depressão e a taxa de suicídio entre as mulheres dessa época era altíssima, afinal, a vida de uma dona de casa não necessita de PhD.

Ela diz “Não é mais necessário casar para se fazer sexo”. Da parte dos homens, isso nunca foi necessário. Para as mulheres, isso nunca deixou de valer, basta ver os casos das meninas difamadas pelas redes sociais pelos seus próprios parceiros sexuais. Parte disso se dá porque eles podem, e elas não. Ao fazerem isso são vistas como vadias, prostitutas... Onde está mesmo a liberdade sexual das mulheres? O duplo padrão ainda está aí. O que a autora está dizendo não é nada além do “faça o que a sociedade ainda espera de você, não questione, não faça o que quer, se aliene e será feliz”.

Isso porque muitos homens ainda tem problemas para lidar com mulheres modernas. Por isso vemos esse tipo de manifestação visando difamar as mulheres, fruto de uma insegurança masculina. Mas é sempre bom lembrar, ainda bem, que não são todos os homens que agem dessa maneira. E também é bom lembrar que não são todos os homens e nem todas as mulheres que estão de fato interessados em relacionamentos monogâmicos ou heterossexuais.

Aliás, eu queria entender um pouco mais das motivações dessa autora, que claramente não foi criada na época que esse tipo de pensamento não era contestado.

Existe um certo medo das mulheres em oferecer a sobremesa antes do jantar, e os homens não quererem nada mais com elas. Bom, eu só posso dizer uma coisa, a sobremesa não é a única parte. Sem o jantar, é apenas sobremesa. E se o cara comeu e sumiu, melhor pra você. Sinal que não devia ser lá grande coisa. O problema, para mim, é o fato das mulheres que querem apenas satisfazer suas vontades sexuais serem difamadas, ou aquelas que dão no primeiro encontro. Ninguém nunca para pra pensar que essa poderia ser a razão do encontro per si? E se ele foi mais do que isso, porque deixar um preconceito impedir um conhecimento mais aprofundado do outro? Por que não partir para um segundo ou um terceiro?

Outro ponto importante a ressaltar é: o casamento mudou e os arranjos familiares também. Muitas vezes, a melhor coisa do passado é que ele passou. As pessoas se esquecem que os tempos antigos não eram apenas uma propaganda vintage da Coca Cola. É sempre mais fácil ser saudosista quando os maus momentos de uma época foram cuidadosamente suprimidos. E não tem nada de inovador em ser conservador.

Falar que os homens são imaturos ou amadureceram menos porque tem menos responsabilidades é uma coisa, mas dizer que isso é culpa das mulheres, porque elas resolveram que existe mais na vida do que casar é, no mínimo, falacioso. Os homens precisam de incentivos para casar? As mulheres também! Afinal, pelo menos aqui no Brasil, muitas vezes o casamento é um mau negócio para as mulheres, que se veem obrigadas a terem uma dupla jornada. O que eu acho que está ficando evidente hoje em dia, que por mais que as mulheres queiram ter uma família e casar-se, estão pouco propensas a fazê-lo nos moldes de antigamente. Além disso, os homens terão que enxergar que se o quiserem, precisarão tomar para si a parte que lhes cabe na paternidade e nos afazeres domésticos e não tem discurso conservador que seja que me convença do contrário.

Como deixar de viver, se os homens continuarem como estão? Como acreditar que o casamento amadurecerá milhagrosamente os homens? Se a mulher não investir no trabalho, o que sobrará para ela na grade partilha da sociedade?


Há mais coisas além do trabalho? Certamente que sim. E existe muito mais além do casamento.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Aos pais ou responsáveis

Não, eu não tenho filhos, antes que usem esse único ponto da minha argumentação contra todo o conteúdo dela. Tenho sim noção da limitação do que vou falar aqui no que tange a parentalidade. Mas meu argumento é válido quanto educadora experiente, professora, mestre em literatura e apaixonada pelo conhecimento.

Recentemente tomei uma das poucas decisões na minha vida que considero praticamente sem volta. Não dar mais aula para o ensino tradicional, especificamente em escolas particulares. Muito se fala sobre a mercadorização do ensino, mas ler sobre o assunto é muito diferente de ver o fenômeno acontecer na prática.

Dentre os problemas da carreira de professor, muitos são popularmente conhecidos, como o cansaço que sentimos ao ficar horas em pé; o trabalho extra que levamos para casa, correção de provas, elaboração de atividades etc. Somam-se a esses alguns outros que muitos desconhecem, como o desgaste físico de ter turmas indisciplinadas, a esse também podemos acrescentar a falta de educação dos alunos. A falta de respeito é gritante, tanto das instituições como dos alunos.

Não adianta a propaganda da escola, a maioria delas funciona como "agente maximizador de lucros". Isso implica dizer que vão colocar o máximo de alunos por sala, sem se preocupar com a qualidade do ensino que seus estudantes irá ter. Um exemplo da ineficácia desse sistema é a necessidade de que se tenham aulas de línguas em outras escolas (muitos pais pagam por fora), porque no ensino de línguas estrangeiras, sabemos que é muito difícil, numa turma com mais de 25 alunos, ter um aprendizado eficiente em todas as competências (a fala, a escrita e a compreensão oral e escrita). Gente, faça as contas de o quanto você paga por mês, o quanto de alunos existem em cada turma e o quanto a escola deve gastar com o salário dos professores. É um absurdo, uma máquina de ganhar dinheiro. E ainda cobram a mais por tudo.

Você pode até defender tais instituições dizendo que essas competências não são todas trabalhadas na escola. Será? Por que falamos tanto hoje em "analfabetismo" funcional? Que chance o professor, com o salário que ganha, dando pelo menos 30 horas semanais, com um descanso remunerado ridículo, se dedicar a cada aluno com a devida atenção se tem em média 40 alunos por sala? Se você acha possível, tente. E por incrível que pareça, tem gente que culpa os professores "como vocês, que ensinam, não conseguem ensinar a sociedade a respeitá-los?", ou ainda "é culpa dessa ganância, professor além de super qualificado ainda quer ser bem remunerado?".

Um absurdo mesmo, né. Se nem os fundamentos básicos é possível trabalhar nesse contexto, quem dirá do "senso crítico" que aparece na maioria dos planos políticos pedagógicos de cada escola? Aliás, uma piada. Você quer saber mesmo o que a escola faz com o seu filho? Elas vão pelo caminho mais fácil, pois pela lógica da maximização do lucro, mais aprovação, mais alunos, mais alunos, mais dinheiro. Mas você realmente já somou as porcentagens dos melhores colégios da cidade? Deve dar mais de 200% de aprovação. Eu não fiz a conta detalhadamente, mas se você somar todos os alunos de cada escola, a porcentagem de alunos que eles alegam ter aprovado na UnB, por exemplo, e subtrair pela quantidade de vagas que a UnB abre todos os anos do vestibular, tá sobrando aluno na UnB que não está lá de verdade. Muitas vezes essa pessoa é contada duas vezes, uma no colégio e a outra no cursinho. Qual deles será que deve realmente levar o crédito? E o que eles querem fazer mesmo com o seu filho é socar o conteúdo. Se não aprendeu o problema é dele e no mais, tem plantão.

Mas a questão talvez nem deva ser essa. Muitos dizem que a maioria dos vestibulares vão ser reformulados. O norte dessa mudança parece ser o ENEM, exame que visa estimular muito mais as habilidades dos alunos do que a simples decoreba a qual estamos acostumados. Mas mesmo assim as escolas não entendem o recado. Dão palestras e mais palestras tentando descobrir como "decodificar"e exame e ensinar a "manhã" aos estudantes. Gente, não é conhecimento, é informação vazia de significado. O aprendiz dificilmente saberá tornar o que aprende na escola de maneira plástica. Vai ocupar sua memória com sujeito e predicado, mas não saberá como manipulá-los para escrever períodos coerentes. Eu passei por isso. Alunos que não sabem a diferença entre a conjunção "e" e o verbo ser ("é"). Eles tanto não sabiam como falavam errado e pelos textos ficava claro que não compreendiam nem para que servia cada coisa. Me disseram uma vez que a professora explicou literalmente "um é verbo e outro é uma conjunção". Mas e ae, no que isso me ajuda a escrever? Não me recordo de nenhum gramático poeta, escritor, prêmio Nobel de literatura… Mas o conteúdo está lá, dividido por aulas, horas, atividades, exercícios, provas. E no fim tenho que prestar conta aos diretores, pais, coordenadores, chefes de área, mas a minha consciência sempre se sentia mal, por mais que eu vencesse "a minha meta". Me sentia como me senti quando fui vendedora de loja, não interessava o cliente que não fosse comprar o produto.

Me frustrava muito não conseguir por em prática quase nada do que aprendi na universidade. A coisa que mais me irritava era colocar um bilhetinho na prova "professor, corrija essa prova com muita atenção porque esse aluno é laudado". Como se a responsabilidade fosse minha. Não se fazia provas específicas para eles, nem ao menos de cores diferentes. Como eles poderiam se dar bem se a maioria das provas era de marcar a resposta certa? "Laudado" com o quê? Como se dislexia, déficit de atenção e hiperatividade fossem a mesma coisa. E o que me dava mais raiva era colocar pelo menos cinco desses meninos numa sala superlotada sem ao menos nos preparar para isso. Só recebíamos o bilhetinho ordinário grampeado junto a prova que o pobre coitado do menino tinha que fazer numa sala onde confinam todos os "LAUDADOS" juntos, uma zona total e completa, sem alguém que lesse a prova para esse menino achando que o bilhetinho vai resolver o problema dele.

Ah, mas a escola usa tablets, quadros interativos e ainda tem uma empresa de jogos educativos aplicando sua metodologia "super" inovadora em sala de aula. Não sei nem por onde começar a crítica desse tópico. Vão soar super moderninhas, mas bloqueiam a internet dos professores e dos alunos. Passar vídeo do youtube, só se der um jeito de copiar. Internet em sala de aula, se dermos sorte de conseguir conectar, é só o e-mail e olhe lá. Recursos como a wikipédia, o facebook, o blogger (não podia montar um blog com os meus alunos!!!)

Desculpem o desabafo, mas precisava compartilhar isso. Se no fundo só querem um lugar para vigiar seus filhos enquanto trabalham, coloquem em qualquer escola, mas se querem que ele aprende, que seja criativo, tenho sérias dúvidas do que fazer com essa criança, mas já digo que vai ser muito difícil ele ser criativo ou inventivo no ensino tradicional. Ele vai ser alguém apesar da escola e não com a ajuda dela.

Segue um vídeo sobre criatividade e escola para aqueles que se interessam pelo tema:

http://youtu.be/iG9CE55wbtY

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Entre a beterraba e a cenoura, uma lição de vida.

Fui almoçar num self-service simpático onde costumo ir sempre que não sei onde comer. Tento fazer um semblante cool e concentrada para disfarçar o desconforto que sinto sempre que como só. Não porque esteja em Brasília (mesmo aqui não vejo problema nenhum em sair sozinha, como algumas reportagens idiotas sugerem), mas porque não gosto de comer só nem em casa.

Sentei à mesa tentando regular a velocidade de comer para não ser tão rápida quanto queria (para me ver logo livre daquela situação), nem tão devagar que prolongasse demais meio desconforto. Esse lugar costuma estar sempre cheio, e nesse dia não foi diferente. Ao meu lado, numa mesa com três cadeiras, sentaram-se a mãe e o filho que pelo linguajar, eu julgo, não ter mais do que 5 anos.

Na minha tarefa de parecer concentrada, não pude deixar de ouvir a conversa entre mãe e filho. A mãe tentava dar comida ao filho usando uma figura de linguagem, se não me engano a catacrese. Ela dizia, "olha a beterraba, a irmã da cenoura", e colocava a colher na boca do menino. Depois vinha a "amiga carne", e o menino dizia "a irmã da beterraba?" e a mãe dizia "não, a carne é irmã do frango e do peixe". Eu confesso que não entendi muito a brincadeira. Vai ensinar e depois o menino vai ter que aprender tudo de novo... mas enfim, não tenho filhos, não sei até que ponto os pais são capazes de ir para alimentar os seus.

Essa artimanhna continuou por pouco tempo, até uma amiga da mãe se sentar. O assunto da mãe mudou, não lembro o quão repentinamente. Sei que a moça sentou e logo a mãe começou "filhinho, você acha que a Tia X vai passar num concurso, né?" e a tia continuou, agora me toquei o quanto os adultos interrompem as crianças na hora de falar pois o menino ia responder "nã...", quando a tia disse "O que você acha, fulaninho?". E a mãe já toda nervosa concertando "Não, X, você vai passar sim".

*Só uma observação - tem concurso público que é mais difícil do que vestibular para medicina. 1000 candidatos para uma vaga. Eu, pessoalmente acharia mais legal que a mãe tivesse dito "uma hora você passa". Mas eu não estava escrevendo o script.

E o menino, vendo a fobação da mãe e da tia, não entendia porque. Ele disse "mas porque você tem que passar num concurso, tia?". A resposta quase me deu asia, mas a comida estava leve demais pra isso. A mãe disse:

"Para ela ganhar muito dinheiro e comprar muitos presentes pra você".

Ela disse isso, eu me lembro muito bem. Quase fiquei com vontade de levantar e dizer ao menino que ele não precisava gostar da tia dele porque ela lhe daria presentes. Mas me contive. Até porque parei para pensar no número de coisas erradas (para mim, obviamente) contidas naquela afirmação que concluí que não valia a pena. Fiquei com pena foi da tia. Se ela não passar, nem o sobrinho nem a amiga gostarão dela do mesmo jeito. Imagina, passar num concurso para ter o afeto das pessoas!? Eu não vejo muita meritocracia nisso, mas essa já é coisa para outro post…

A tia, coitada, está sendo julgada pela capacidade de passar em algo que quase ninguém passa. E seu sobrinho vai ser ensinado a tratar diferente as pessoas, pelo que elas tem e pelo papel social delas. É, Goffman, aprendemos a fazer o check-in social desde cedo. Fico pensando se é que esse menino já não aprendeu que entre a irmã carne e o irmão frango, aqueles que estão mal vestidos não são confiáveis.

Lembrei de mim, que sou uma tia lascada e não dou presentes. Será que devo parar de pensar em sair para brincar com as minhas sobrinhas, assistir um dvd com elas? Afinal de contas, o que importa é o presente. Mas fiquei na dúvida sobre uma coisa, quase perguntei para a mãe do menino. Os presentes tem que ser numerosos e caros ou podem ser muitos de R$ 1,99? E o que a gente faz quando a criança gosta mais do embrulho do que do presente?

E esse menino, o que será se não for o que a mãe espera dele? E essa mãe, será que está preparada para algo diferente da propaganda de margarina?


segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A ganância

Das coisas que eu não entendo

Parte 2

Uma coisa que eu realmente não entendo é a ganância. Não que eu nunca a tivesse ou que não entenda aquela vontade louca de comer todos os chocolates da caixa sozinha sem dividir com ninguém, mas acho que existem vários tipos de ganância. Ou talvez um sentimento parecido com ela que eu não sei nomear.

Mas eu prefiro chamar de ganância do que encarar o fato de que a maior parte das pessoas é mesquinha, invejosa e egoísta. Digo isso quando me refiro a programas de transferência de renda como o Bolsa Família e outros. Eu achava que o tatcherismo havia provado sua inutilidade, seu grau de exclusão e incapacidade de resolver problemas, mas as pessoas guardam muito dessa retórica em seu pensamento.

A "meritocracia", ah, que doce ilusão! No fundo no fundo, quem trabalha sabe que é mais importante gostarem de você (e isso pode ter n razões além da sua competência), do que sua capacidade per si. Estar no lugar certo na hora certa, ter nascido na cor certa, na cidade certa, na família certa. Tudo isso conta mais do que o mérito. O mérito, na verdade, serve mais para superar os "erros" do destino para quem nasce com a cor, o sexo, a cidade e a família errados.

Mas o que isso tem a ver com o Bolsa Família? Bom, eu me doou toda vez que vejo uma mãe com uma criancinha de colo pedindo esmola. Se ela que ou não trabalhar, eu não consigo julgar. Fico pensando que não deve ser nada fácil ter que mijar na rua, pedir esmola pra comprar água, morar debaixo de uma lona. Acredito ainda, que, muitas vezes essa pessoa nem sabe que pode trabalhar, não tem documentos, não consegue matricular os filhos na escola pois precisa de um endereço residencial e a única alternativa seria se livrar dos filhos para que a assistência social os encaminha para viver numa família melhor.

Eu não sei qual é o caso daquela pessoa que está me pedindo esmola, puxando a carroça para dizer "sim, esse aqui merece ajuda e aquele não". Além disso, eu confesso, sou fraca. Não consigo ver um velhinho se contorcendo para entrar num ônibus, com as costas curvadas pelo peso da caixa de doces sem pensar que ele deveria estar em casa, curtindo a aposentadoria, vendo seus netinhos crescerem. Acho sim nossa sociedade muito injusta, principalmente porque sempre usamos a exceção para justificar nossa opinião.

Além disso, para a maioria das pessoas, essas pessoas são invisíveis. O caso típico de alienação, pois se toda vez que você ver alguém numa situação dessas e comparar com você, sua vida ótima, se você não for uma pessoa sem empatia, vai ficar triste, pensando o quanto nossa sociedade é injusta. Por isso nosso mecanismo de defesa é ignorar.

Eu conheci gente que não precisava de dinheiro, mas entrava no grupo 1 da UnB para pagar 0,50 centavos no almoço enquanto eu decidia se tirava a xerox de que precisava ou pagava o preço cheio do almoço. Não ia denunciar os outros, pensava que se a consciência da pessoa não a incomodava, não adiantava fazer nada, era um caso perdido. Além disso, eu só conheci uma pessoa que abusava do sistema, as outras usavam-no com justeza.

Mas aquele que tem tudo, todas as oportunidades e ainda é míope para os problemas dos meros mortais, ainda acha que consegue julgar com acuracidade os problemas dos outros é que me incomodam. Acham que só porque tem que ter (ou acha que deve) um carro porque o transporte público não funciona, que todos devem mais é se lascar. Não entende que é seu direito também ter um transporte público de qualidade. Se não precisa de Bolsa Família, deveria ter um bom SUS, creche... Mas essas pessoas acham que só porque elas tem que pagar e conseguem, todos também deveriam.

Eu confesso, não consigo ter inveja de quem recebe o Bolsa Família e não acho que a falência do nosso Estado se deva ao ridículo sistema de walfare que ele está implantando. Também não acho que o Estado mínimo seja solução para algo. Qualquer um que comparar EUA e Canadá ou Inglaterra e Suécia vai ver que Estado mínimo nunca foi solução. E vamos e convenhamos, as pessoas que recebem o Bolsa Família não tem a menor noção do que o Estado deveria ou não fazer por elas, ficam gratas quando deveriam ficar indignadas, porque isso, minha gente, é sim, muito pouco.

Se é ganância taxar tacitamente de preguiçoso quem recebe tal tipo de benefício eu realmente não sei, mas que é uma tremenda vesguice social, isso lá é.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

A pressa

Das coisas que eu não entendo

Parte 1

Eu nunca entendi esse hábito de correr esbaforido para chegar a algum lugar. Entendo que as vezes, no mundo moderno, temos que correr pois precisamos fazer muitas coisas em pouco tempo. Mas por que chegamos a esse ponto? Temos demandas demais ou aproveitamos de modo pouco inteligente o tempo?

Para mim as duas coisas são ruins. Não quero ter demandas que me obriguem a engolir minha comida, a tomar café tão rápido que queime a língua, a andar de carro tão apressada que esqueça de parar na faixa, de olhar o céu. Em suma, atropelar a poesia da vida para cumprir as demandas da mediocridade.

Sim, meus caros, é medíocre trabalhar 10 horas por dia, sem gostar do que faz, para ganhar muito dinheiro para poder apenas viver um mês por ano. Ter que ter um carro maravilhoso pois com certeza, passará horas dentro dele. Ter que passar 40 anos pagando um apartamento que é um âncora, que não te deixa viajar, relaxar, ver o mar.

Mas cada um tem suas prioridades, seu modo de pensar. Eu não entendo a pressa de ser como todo mundo, de fazer tudo que os outros fazem de ter tudo que os outros têm. Eu não entendo a pressa de ser mal educado, furar os outros no retorno, só para parar a um carro de distância a frente no sinal. Não entendo a pressa de quase atropelar um pedestre e dar aquele sinalzinho safado de "foi mal, não te vi" - mentira!

Não entendo a pressa de comer mal, fast food, nem a do "eu tenho" e a do "eu preciso". "Eu" antes de "você(s)", "ele(s)" - uma impolidez do português do Brasil. A pressa pela pressa, pela primazia daqueles que além disso, não chegariam na frente. Correm para enfim descobrirem que não chegaram a lugar algum, pois fizeram o caminho errado. Aquele que leva mais fácil e rápido a uma vida infeliz, uma juventude mal aproveitada, pois corremos para passar dela e uma velhice amargurada, pois nesse estágio já se sabe:

Sim, serás o primeiro a ir para um lugar onde não podes contar vantagem de chegar. A entropia vence!

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Brasil, o país da argumentação 8 ou 80

Como amante da análise do discurso, muitas vezes me assusto vendo absurdos na retórica popular brasileira. Mesmo comentaristas "consagrados", ditos opinadores de respeito, angariam preciosos minutos no jornal das oito, e até mesmo páginas inteiras com suas fotos de perfil em revistas quinzenais, para achincalhar seus oponentes. Digo achincalhar pois na sua maioria, a opinião desses "baluartes" é pessoal e muitas vezes não versa nem acerca da personalidade ou das atitudes daquele a quem julgam e sim da aparência, classe social...

Mas não se engane. Essa estratégia pífia de argumentação é patrimônio nacional. Se sua vestimenta serve para credibilizar aquilo que diz o que dizer do seu sexo, sua cor, sua posição? O que se diz também não importa muito. Como se diz é bem mais importante. Os psicólogos e behavioristas podem tentar ponderar minha crítica dizendo que existem respostas instintivas a gestos e tons de voz. Eu como conhecedora de alguns pontos da linguística, sei que o tom é importante para insinuar o sarcasmo e a ironia. O problema está em que se tirando esses aspectos da equação, praticamente não podemos criticar nada nesse país.

Estamos numa meritocracia que no lugar de mostrar o mérito, nos concentramos em esconder os erros e defeitos, em conseguir desculpas, desviar os dedos inquisidores para outro. Quantas vezes eu escutei um "me desculpa" ou "mea culpa"? Acho que nunca. Se teve erro de digitação na prova "acontece", "é culpa do editor de texto que está configurado para outro idioma". Se alguém não deu o recado, nunca ouvirá um "eu esqueci", mas sim "você não deve ter recebido o e-mail" ou "o seu celular não está funcionando". Eu não sei se a corrupção é endêmica, mas as vezes eu acho que a mania de desculpar-se e mentir é quase esporte nacional. "Você quer sair amanhã? Hum, não vai dar, é aniversário da minha tia". Porque dizer "eu não estou afim" é ultrajante.

Talvez daí (ou de outro lugar) venha a falta de habilidade para se ponderar, discutir e solucionar. Na ânsia de mostrar o mérito, sem saber ao certo o que isso significa, toman-se decisões à la va vite, verticalmente e sem espaço para discussões.

Um bolsista qualquer foi viajar pela Europa e não terminou o doutorado? Vamos cobrar dele? Não. Vamos proibir TODOS de viajar enquanto estiverem fazendo seu doutorado, sanduíche (mais para misto quente). Os médicos não querem ir para o interior? Vamos investigar? Não. Vamos obrigá-los! (como se eles fossem os únicos que custam milhões aos cofres públicos e não dão o suposto retorno à sociedade). Será que os engenheiros assim que formados serão obrigados a construir pontes?

Outra coisa engraçada foi a discussão em torno da vinda dos médicos cubanos. Deixando de lado o fato deles serem ou não bons médicos, eu não vi muita ênfase nas ponderações acerca da atitude brasileira, sem pudores de privar Cuba de seus médicos e tentando aplicar neles aqui o mesmo regime que tem lá. Eles iam ficar como? Trancafiados para não verem "os prazeres do capitalismo"? Eles veriam sim. Os doentes pelo chão, a falta de equipamento, o descaso do poder público com o povo... E para falar a verdade, tentando deixar o xenofobismo de lado, eu preferiria muito mais um cubano do que um português ou um espanhol. Será que a gente não deveria descolonializar a medicina brasileira no lugar de recolonializá-la mais uma vez?

Na mesma linha das argumentações 8/80 estão algumas das críticas do povo "acordado" ao governo. A Dilma é poderosa sim, mas ela não é O GOVERNO! Nós temos instâncias municipais, estaduais e federais. Bom, e eu até acho bom ela não ser a única responsável pela instância federal. Além disso, no âmbito das leis (pois a gente adora uma lei, por mais absurda e sem chance de ser cumprida que ela seja), existe a Câmara e o Senado e está cheio de gente lá adotando um comportamento extremamente "instável" desde que os protestos começaram.  É muito provável que os problemas da sua cidade sejam culpa do governo estadual e municipal. Aqui em Brasília eu não vi muita reclamação sobre a Câmara Legislativa. Ela faz "tanta" coisa que a gente até se esquece dela... Jaqueline, sua família e seus amigos agradecem.

Só para dar um exemplo de argumentação 8/80: existe a esquerda e a direita no pensamento político, certo? Não. Existe a centro esquerda, centro direita, extrema de qualquer lado e ainda algo do qual a gente pouco fala: a terceira via (que é do que a gente pouco fala mas é sobre tudo que está acontecendo aqui no Brasil). Mas se você é de esquerda logo te taxam de... petista. Pomba, eu não sou mais petista desde o primeiro mandato do Lula. E desculpem-me os ainda petistas, mas, para mim, o PT não é mais um partido de esquerda.

Posso citar muitos outros exemplos dessa intransigência argumentativa, mas eu acho que essas já são suficientes para nos fazer pensar um pouquinho no que temos usado para sustentar nosso argumento e onde todos vamos chegar com essa discussão pouco frutífera.


sábado, 6 de julho de 2013

As manifestações, a esquerda, a direita, eu e a depressão

"Texto escrito no calor das manifestações e pode ser revisado em breve, mas precisava postá-lo"

Quando comecei a escrever esse texto, estava mesmo contente com o levante do povo brasileiro. Me surpreendeu ainda mais a quantidade de pessoas que preferiam manifestar do que assistir aos jogos da copa das confederações. Achava, no começo que a manifestação era legítima. Ainda acho, mas agora tenho algumas ressalvas.

Quanto à Copa, a audiência, aqui em Brasília, parece ter voltado ao normal. Olhando por esse ponto podemos nos indagar se os protestos não foram contra o monopólio da Rede Bobo nas transmissões e sua insistência em mostrar seu poder nos enfiando Gavião Nãobueno goela abaixo. Agora então fica a estranheza - assistir aos jogos na tv e depois ir para a manifestação. Isso parece combinar com a pitada de hipocrisia de todos os brasileiros à la "não sou preconceituoso, mas empregada deve comer na cozinha e andar pelo elevador de serviço".

Já para mim, a legitimidade da manifestação está na resposta àqueles que sempre disseram que o brasileiro é um povo pacífico e que no fundo quer dizer que somos acomodados. Para mim o nosso problema é um só: nossa indignação não é ouvida, nunca foi.

Eu era muito nova na época da ditadura, mas me lembro bem que na época as coisas estavam muito ruins. Comprávamos comida como guerrilheiros famintos, pois as maquininhas de preços não paravam. A nossa tão "comemorada" democracia se resumia a um presidente civil, escolhido pelos militares (que ainda por cima é imortal), e um mauricinho que dispensa comentários. Para mim, naquela época, o Brasil já era sim o lugar do "tudo acaba em pizza", mesmo depois do "fora Collor". Já tinha dentro de mim esse sentimento de derrotismo.

Agora, nesse momento tem aqueles que ressuscitam o movimento dos cara-pintadas, lembrando como "o povo" tirou um presidente do poder. Uaaaal!!! Mas minha pergunta é: quem estava mesmo a frente desse movimento dos cara pintadas??? Pense...

Desde que eu comecei a trabalhar, em 2004, há manifestações na Esplanada, mas, estranhamente, elas eram ignoradas, por mais transtornos que causassem ao trânsito. O que está acontecendo agora? Os olhos do mundo se voltam para o Brasil por causa da Copa e com isso alguém nos autoriza a falar?

Fato é que o estado de sítio da Fifa foi a gota d'água. Exigências absurdas, maquiagem nos hospitais para os estrangeiros enquanto nós, que nunca tivemos nada, que tivemos que batalhar por tudo, vemos o que o governo pode fazer quando é pressionado por alguém de fora, sem nos incluir na bonança, como sempre.

Rede Bobo mais uma vez cumprindo o seu papel de veículo imparcialíssimo na sua esquizofrenia sem pudores para ficar, a todo custo, por cima da carne seca. Ignorando seus primeiros posicionamentos sobre os protestos, ela agora se concentra em esvaziar qualquer sentido que haja nas manifestações, focando-se no mais fútil e inútil sobre o movimento - a violência. Violência sobretudo dos manifestantes, que antes eram todos acéfalos e agora, esses, são somente um grupo isolado, por maior que seja. Violência que não justifica o medo e a debandada dos políticos de seu próprio eleitorado. A apresentação de propostas da carochinha

Confuso? Nem tanto, deve ter um motivo pra isso. Sorte dela que ainda não vi nenhuma reivindicação para que o governo reveja a lei que regulamente as concessões de emissoras de televisão. Mas é claro que ela não precisa se preocupar. Quem são mesmo os donos das afiliadas da Bobo no Nordeste? Além de seguir o interesse de seus "acionistas", a rede Bobo, faz o que sempre fez, ignora por completo críticas, apaga todas as marcas que pode até convencer a todos de que elas não existem. Muda de assunto, desvia o foco... É assim, simples assim. Mas funciona.

E a esquerda? Por que não toma frente dos protestos? Ela está lá, minha gente. Não nos partidos, mas nas ideias. Você ser de esquerda não implica ser de um partido de esquerda. Agora, mesmo sendo de esquerda e apartidária, me preocupo um pouco com essa ênfase da Bobo no caráter apartidário das manifestações. Afinal, sendo dotada do toque de "Merdas", se a Bobo apóia deve ter algo de errado com isso.

No mais, o gigante, que nunca esteve dormindo, não pode voltar a apatia resultante da cooptação bobística. Acho que os protestos tem que continuar, mas precisamos repensar nosso classicismo.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Direitos humanos, direitos dos homens

Não, eu não vou entrar nessa discussão. Colocar o pastor ou as ovelhas não faria a menor diferença. Colocar um joão bobo também não. Os direitos humanos no Brasil são uma piada para o governo, ele apenas está deixando isso muito claro.

O povo também deixa claro que não sabe o que é política nem o fazer político ao votar em pessoas pela convicção religiosa e não pela capacidade intelectual, pela carreira. Mas deve ser meio difícil pensar nessa separação quando a profissão do tal pastor é... o que mesmo? Pregar a religião. De qualquer modo, política e religião não são a mesma coisa a muito tempo.

Acho que se o que ele queria era um emprego na Câmara, poderia tentar na capela. Tem capela lá? Nem sei, mas pelo visto quer pregar no púlpito. Mas eu não me importo com isso. Alguém já viu uma sessão lá? É um bordel, tenho certeza que ninguém que está lá presta atenção no que esse povo fala.

Só a gente, que está aqui bem indignado. Mas quem liga pra gente? Afinal somos povo também, e o governo só liga pra gente na época de eleição e de pagar a conta. Mas pagar pra quê mesmo?

Eu não quero falar sobre isso mesmo.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Eu nunca ..., mas...

Antes de começar, já preciso me retratar. Fiz isso inúmeras vezes. Agora vejo o quanto essa postura é perigosa. Estou falando do pseudo-sabido, vulgo desentendido, que diz "eu nunca vi esse filme, mas acho um monte de coisas a respeito dele".

Se você não viu, não leu, não comeu e ainda está pensando se vale a pena ou não, faça perguntas, não tire conclusões. Se você não conhece ou conhece muito pouco, expor seu preconceito tão precipitadamente pode transformar um conceito em um estereótipo.

O que eu ainda faço e estou tentando parar de fazer e tentar fazer alguma coisa, não conseguir e reclamar da coisa. Por exemplo, eu tentei ler Macunaíma umas trocentas vezes. Ele sempre me faz dormir. Mas eu acredito que devam ter coisas interessantes dentro do livro. Antes, eu falava mal dele. Parecia óbvio, afinal, se eu não consegui ler, é porque achava chato. Mas as vezes temos que tentar um pouco mais.

Exemplo. Quando li Lavoura Arcaica pela primeira vez, quase entrou para rol dos romances chato-macunaimescos da minha biblioteca mental. Mas depois de um tempo, me acostumei com o ritmo do livro e descobri coisas que muitos, mesmo do ramo, não percebem. Eu não posso dizer nem que gosto nem que desgosto, só posso dizer que é sensacional (pois fantástico poderia causar confusão).

Outro exemplo, também literário - Vidas Secas. Romance seco, duro, assim como a vida do sertanejo. Lido com uma dificuldade imensa no segundo grau, com o peso e o desânimo da obrigação. Relido na faculdade "estranhado e entranhado" de vez na caixinha dos meus livros favoritos. Não chore pela Baleia, chore por você que foi capaz de sentir mais afinidade por ela do que pelo Fabiano. Graciliano, mandou bem! hehehe

Outro exemplo, ativista. Sempre reclamei de ativismos, hoje sou feminista assumida, estudiosa do assunto e reclamosa dos que falam mal.

Então, minha gente, vamos pensar um pouco depois de completar o mas... com um "eu acho". E quem sabe mudar para um "o que você acha disso que falam?"Mesmo que seja no sentido "socratiano" (era ele que fazia isso?) da pergunta.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Da incompetência

Apontar o dedo na cara dos outros é fácil, mas reconhecer os próprios erros, é muito difícil. Eu não vou bancar de profissional perfeita, pois isso está longe da minha realidade. Eu tento sempre fazer o meu melhor com o tempo que eu tenho. Já fui de me sacrificar pelo trabalho. Ainda hoje abdico de alguns finais de semana pelo bem dos meus alunos. Confesso, entretanto, que o esmero na preparação das aulas é algo que me abandona às vezes. Outras é minha ânsia por novas metodologias que me atrapalha. Afinal, quem nunca usou os próprios alunos como cobaias para novas abordagens de ensino?

Eu posso não ser uma profissional perfeita, mas sei exatamente o que é um mau profissional. Sempre relutei em usar o termo, mas hoje reconheço que ser pró-ativo é essencial. Na minha opinião, essa característica separa os (bons) profissionais em duas categorias: Os "achadores" de problemas e os "resolvedores" de problemas.

Digo os bons porque os ruins não são pró-ativos de forma alguma. Mesmo quando sabem de algo errado, fingem não ver, se apressam em não saber e, é claro, nunca são responsáveis por nada.

Quanto aos "bons" profissionais se dividirem em duas categorias, na verdade é bondade minha. Talvez eu seja um pouco "paternalista", como muitos brasileiros. Eu deveria dizer que existe apenas um tipo de bom profissional. Existem pessoas que acham que criticar apenas basta. Reclamar, descer o cacete. Parece para muitos um sinal de competência. Para mim não é. Se a pessoa pode usar tamanha energia para criticar, também pode para ajudar. Não adianta falar que está errado e não propor uma forma de consertar.

Muitas vezes a gente não sabe ainda como arrumar algo, então, esmiuçamos a crítica. Levantamos todos os pontos ruins e assim, num trabalho conjunto, procuramos respostas. Criticar por criticar é gastar toda energia produtiva em algo que não volta ou que volta em forma de mais críticas improdutivas. Eu não acho que devamos ser hiper-sensíveis a críticas. Devemos aceita-las, mesmo quando não apontam uma direção, pois como bons profissionais, saberemos resolver o problema, mas ao contrários dos inquisidores, o bom profissional vai criticar quando souber o porquê da crítica. #prontofalei.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Escrever ou não sobre o aborto, de novo?

Eu posterguei muito essa postagem, por vários motivos que exporei aqui. Mas enfim decidi me manifestar. Agora não mais poderei expor minha opinião livremente, pois o endurecimento de algumas posturas em relação à posições colocadas na internet e também com uma demonização da prática do aborto, posso estar correndo algum risco. Acredito (ou espero), entretanto, que isso não se aplique, pois nunca disse que as mulheres devam fazer um aborto, obrigatoriamente, mas que elas deveriam ser livres para o fazerem se assim decidirem.

Mas eu realmente não quero que o aborto seja o assunto principal do post, e sim a tolerância e o respeito. Isso é o que está por trás da questão do aborto, na minha opinião. O Estado brasileiro enxerga as mulheres através da condição de mães. Tudo que é feito em matéria de políticas públicas para as mulheres ganha força quando visa a mulher-mãe. A ênfase no papel materno é tanta que as políticas de saúde da mulher, visam a mãe, as políticas de habitação colocam as casas no nome das mulheres, pois como mães, elas ficarão com os filhos e portanto a casa fica na família. Outra questão, por exemplo, é que muitas políticas da saúde dão ênfase na mulher como mãe/esposa-cuidadora, alertando-a para os problemas que seus familiares possam ter, ela eficazmente mobiliza àqueles à sua volta a se tratarem. Claro, as políticas são feitas com base em estudos. O problema de muitas dessas políticas não são seus objetivos e sim seus métodos, melhor dizendo, como elas pretendem resolver o problema.

Mas quando o cidadão mulher passa a só existir para o Estado através da maternidade nós vemos o que estamos vendo agora, a demonização da mulher que não quer ser mãe. A mulher que nega a maternidade deve ser punida. Das punições sociais sofre aquela que consegue abrir mão por meios modernos, evitando a gravidez. Para as outras (a maior parte, talvez?) que recorrem ao aborto, resta a penalização legal. Porque? Muitos vão alegar motivos religiosos. O que não se aplica, pois em teoria, o Brasil é um país laico. A religião de uns não pode ser usada pelo Estado para punir outros. Se na sua crença o aborto é crime, o adultério, que em muitas também é, deixou de ser punido pelo Estado para ser algo que marido, mulher e Deus resolverão no juízo final.

Qual a diferença então entre o adultério e o aborto para a opinião pública? Bom, eu vou ser simplista agora e dizer que o adultério pode ser cometido por homens, já o aborto não. Eu me pergunto às vezes se o homem que agride uma mulher até que ela aborte espontaneamente é condenado por aborto também, além da agressão? Mesmo que a resposta seja sim, o aborto é majoritariamente um crime feminino.

Muitos vão dizer que o aborto é um assassinato. É engraçado então esse ser o ÚNICO caso em que a religião e a ciência concordem. Ou melhor, a ciência tenta estabelecer quando a vida começa e a religião quer saber quando a alma entra dentro do corpo. O que acontece, na verdade, é que como a ciência ainda não tem uma resposta concreta, a igreja usa a dúvida científica para apoiar seu argumento. Do ponto de vista religioso, a coisa piora um pouco, pois Deus não se preocupou nadinha com as mulheres e para ele, não deveríamos nem poder evitar ter filhos, de forma alguma. Estranho que planejamento familiar possa e aborto não. Inclusive esse último é uma forma de planejamento familiar, o defeito é ele ser unilateral. Vamos propor outra lei então de cunho religioso semelhante? Vamos proibir a vasectomia?

Voltando ao assunto, a meu ver, como a mulher só passa a ser uma cidadã plena para o Estado depois que é mãe. Sim, pois para a sociedade não é mais necessário que a mulher se case, o Estado assumiu o papel de provedor com os programas sociais, tendo a mulher sob sua tutela, mas se ela não for mãe, ela passa a disputar um status de cidadão simbolicamente igual ao do homem (e arrisco eu a dizer, fica fora das políticas do estado). A sociedade não sabe definir essa mulher fora do "titia". O que é engraçado, porque se é tão maravilhoso ser mãe, porque existem mulheres que não querem sê-lo? É realmente necessário que TODAS as mulheres exerçam esse papel?

A mulher ser vista pelo prisma da maternidade é limitador, controlador e sufocante. A maternidade é cada dia mais responsabilizada por todas as mazelas da sociedade. Chego até a pensar que essa recente coerção das mulheres que praticam o aborto é algo para nos lembrar de sermos mães, mesmo que seja à força. A sociedade não percebe a sucessão de fenômenos que só podem provocar no coração de muitas mulheres o medo. Sim, pois a maternidade é uma responsabilidade tamanha que se formos "falíveis e humanas" poderemos reproduzir monstros para a nossa tão perdida sociedade. Caso tentemos, desesperadamente, fugir dessa responsabilidade eterna e exclusiva, vamos ser presas. Ou seja, de qualquer modo, é um caminho sem volta. A culpa é nossa. Estamos entra a cruz e a caldeirinha.

Minha pergunta é: será que esse é o melhor caminho? "Search and destroy"? Isso me lembra a Revolta da Vacina, quando em vez perder tempo explicando para as pessoas porque elas deveriam ser vacinadas, o governo do Rio de Janeiro preferiu fazer à força. A diferença é que no caso da maternidade, como o Estado e grande parte dos homens são omissos com relação à criação das crianças eles não tem explicações para dar do porque mesmo temos que ser mães. Solução encontrada, proibir o aborto.


quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Exatas x Humanas = todos saem perdendo

Não é preciso demorar-se muito no meu blog para constatar que eu sou das humanas. Sempre gostei de ler, de artes, de história e geo-política. Nunca me dei bem com números e, devo confessar, certo tipo de lógica matemática me desconcerta. Entretanto, consigo fazer árvores gerativas de deixar alguns chocados. Embora atualmente, posso dizer modestamente, que minhas atividades são compostas de um tanto de crítica literária e outro tanto de prática docente.

Começo o texto falando de mim não por acaso, mas porque tenho grandes amigos que fazem parte desse misterioso e também fascinante universo da chamada "Ciência", ou "Exatas" como muitos erroneamente insistem em chamar. Eu, inclusive, sou casada com um biólogo (uma das disciplinas mais humanas das exatas). Devido a minha experiência pessoal, muitas vezes ouvi sem ter como revidar, ou por medo de perder os amigos ou por falta de maturidade intelectual, argumentos do tipo "as humanas não servem para nada". Ou, "eu até entendo a psicologia, mas literatura... afe!". O que sempre me intrigou é que muitas dessas pessoas aversas às humanas gostavam de ir ao cinema, ler um livro, assistir um concerto ou ver uma exposição, mas era incapazes de associar uma coisa a outra.

Cheguei a pensar que era um pouco de inveja, pois nós fazíamos algo de que realmente gostávamos e todos partilham do pensamento comum que trabalho só serve para ganhar dinheiro e tem necessariamente que ser chato. Se você gosta do seu trabalho, deve haver algo errado. Para resolver o problema dessa "equação" supõe-se assim que nós não trabalhamos. O que é, no mínimo, errado.

Outra possível explicação para o problema seria dizer que o pessoal das exatas acha que as humanas não servem para nada porque não as entendem, daí também não entenderem sua utilidade. Eu vou tentar exemplicar para que serve a literatura no final desse post, mas antes gostaria de pedir uma "licença histórica".

Vou atribuir o início do ensino como algo institucionalizado aos gregos, simplesmente porque compreendo mais a História a partir deles. Enfim, na Grécia havia a principal "disciplina" ou área do conhecimento que era a filosofia. Dela faziam parte a matemática, a física, a lógica e a biologia. Sim, coisas que parecem hoje absolutamente distintas tem a mesma origem formal. Por exemplo, Pitágoras, aquele do triângulo era um filósofo. A especialização de cada área do conhecimento fez com que as disciplinas se separarem paulatinamente até chegarmos o dia de hoje onde parece ser ilusório supor que um engenheiro tenha algum conhecimento de filosofia ou que já tenha lido Aristóteles.

Não nego porém, que existam muitos profissionais em todas as áreas que tenha um diverso conhecimento do mundo. Mas de onde vem essa hipótese de que as humanas não servem para nada? Bom, quando pensamentos no nome dado para elas, humanas, e nós como seres humanos, deveríamos em si adorar uma disciplina que tem o humano como foco. Mas não é bem assim. As humanas muitas vezes criticam o modus operandi de nossa sociedade, do pensamento, do senso comum e etc. E, ver o humano demasiado humano não é tarefa fácil. Mexe com egos, certezas e zonas de conforto.

Eu acho porém que a principal crítica dos exatos aos humanos é que nós parecemos não nos encaixarmos nessa lógica de mercado e produção que se adequa tão bem às exatas. Você tem uma demanda e cria um produto. O produto é o resultado do seu trabalho. Nós, "humanos" temos produtos, mas muitas vezes eles não são mercadorias, não tem valor de comércio, muitas vezes. Não é um produto químico, um remédio, um celular, uma cadeira, um eletrodoméstico, um carro. Podemos vender obras de arte, algumas com valores muitos superiores à um carro, por exemplo, mas a utilidade do carro é facilmente compreendida por qualquer um - a locomoção. Já o que muitos pensam da obra de arte é que um objeto apenas estético. Se o nosso produto do nosso trabalho não tem valor, pode-se fazer a analogia de que o nosso trabalho também não.

Isso para mim é o como o senso comum entende a arte e as humanas em geral. Mas então eu me pergunto, o que seria do mundo sem nenhuma ciência humana? Podemos nós virarmos apenas consumidores acéfalos? Existe algo nas relações humanas que não se baseie em comprar e vender? Somos homo sapiens, ou homo trabalhus? E sabedoria é apenas saber fazer contas, entender movimentos, compostos, particulas? Não estou dizendo que os cientistas não tenham senso crítico, mas a distância entre as disciplinas e a recente competição estimulada por avaliações feitas com base em apenas parâmetros quantitativos tem prejudicado à todos, mas principalmente as humanas.

Porque? Bom, acho eu que a pesquisa em geral tem um papel social, seja de compreender um fenômeno ou até mesmo resolver um problema. Mas muitas outras questões se apropriam dessa simples natureza. A pesquisa das humanas dificilmente é de interesse do Estado como as pesquisas ou das empresas (que no Brasil aproveitam muito mal nossos pesquisadores). Inclusive, elas podem ser do desinteresse, em determinados aspectos. Mas o interesse do Estado, muitas vezes é contrário ao da sociedade em geral. O problema, a meu ver, é que quando os exatos não tem qualquer interesse em conhecer um pouco mais das humanas, pode entender que está de fato cumprindo uma grande parte do seu papel social, pois está fazendo o seu trabalho. Por exemplo, construindo uma hidreéletrica no Xingu, sem entender que pode estar sendo co-resposável por desabrigar centenas de pessoas que virão a morar ninguém sabe onde. Mas ele estava fazendo apenas o trabalho dele. Não se pode apenas inventar coisas e negar o uso que elas terão. Negar o humano da ciência seria como desenvolver a bomba atômica supondo apenas que ela será usada para fazer a paz e negar o quanto de pessoas elas podem matar.

O que poucos sabem é que a maior parte dos cientistas não estão construindo pontes, enviando satélites e curando o câncer. Muitas das descobertas são feitas por acaso e muitos estudos que estão sendo feito hoje em dia só serão aplicados em alguns anos. Claro que eles devem ser feitos. Mas eu não entendo porque o cara estudar algo agora para ser usado (se for) só daqui há 5 anos é mais relevante do que algo que está acontecendo aqui e agora e que pode ser observado. Também não entendo porque tudo deve ser comparado, humanas versus exatas.

Para que servem as humanas? Fiquei de responder essa pergunta. Vou falar por mim e resumidamente pela minha área. A literatura serve para muitas coisas: distrair, encantar, ensinar, mudar, dar voz e silenciar. Podemos disceminar preconceitos, mas também respoder a críticas e injustiças. A literatura serve para desenvolver a imaginação, deixar um legado, falar em primeira pessoa. Podemos encontrar conforto ou desconforto. Podemos imaginar mundos e fazer previsões futuristicas. Eu consigo imaginar um mundo sem deus, mas não imagino um sem literatura. Deus é um produto literário, o cinema, as revistas em quadrinhos, a música, somos todos parceiros de palavras em diferentes linguagens. Tire a literatura de sua vida e veja que não sobram nem belas palavras para falar ao seu amado. A literatura é a expressão íntima humana/social.

Para encerrar, uma frase de um físico que vcs devem conhecer de nome, César Lattes:

“O homem como cientista é amoral. Só é moral como homem, não se preocupa se o que descobre vai ser usado para o bem ou para o mal. Como toda descoberta científica dá mais poderes sobre a natureza, ela pode aumentar o bem ou o mal.”

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Quanto vale uma boa educação?

Recentemente me chamou a atenção um comentário na reportagem da Folha da sub-síndica de um prédio da Vila Mariana em São Paulo sobre a educação dos condôminos. Na ocasião, houve uma confusão na frente do prédio pois um menor de idade que morava no prédio anunciou uma festa através de uma rede social e super lotou a cobertuda do local. "De acordo com a subsíndica, o fato de haver bebida para menores era inaceitável. "São jovens de escolas boas. E os pais pagam uma fortuna pra isso?", disse."

Eu fiquei me perguntando exatamente para que os pais desses jovens pagam uma fortuna. Alguém tem alguma idéia? Bom, talvez a primeira preocupação dos pais seja com a educação em si. As disciplinas, o conteúdo. Sim, pois eu não me lembro exatamente de nenhuma disciplina da grade curricular dizendo que os adolescentes não devam beber ou fazerem festas. Se pararmos para pensar, se o governo não tivesse tanto medo de ensinar um pouco sobre direito civil (ou constitucional) nas escolas isso até poderia ser discutido, afinal, o consumo de álcool no Brasil por menores de 18 é proíbido por lei. Mas isso não é matéria da escola. Pelo menos não fazia parte da grade curricular no meu tempo. Acho que agora existe sociologia, mas não sei que é o enfoque da matéria.

Mas o que mais me chamou a atenção foi a outra possível interpretação dessa frase. Aquela de que supõe-se que frequentar a escola, sendo uma escola cara, é sinônimo de boa educação. Eu lembro de minha mãe dizendo "boa educação vem de berço" como sinônimo de algo que se aprende em casa. Talvez educação agora seja outra coisa, não mais uma obrigação familiar. Parece que ter dinheiro para pagar a escola vai resolver o enorme encargo da família com a educação. Coitada dessa família, não sabe da missa a metade. Poucas são as escolas particulares empenhadas em algo além de aprovar seus alunos no vestibular. Senso crítico, cidadania, civilidade, meio ambiente? Alguém pode até responder que está dentro das "missões" da escola. Pode até estar escrito no Projeto Pedagógico, mas se a família participasse mais veria que no máximo, separa-se o lixo em algumas escolas.

O que se quer hoje, nessa educação lucrativa, são números, lucros e poucos dividendos. Paga-se para ter resultados. Esquece-se do caráter humano, pula-se etapas. Que adolescente já decidiu com 13, 14 anos o que quer da vida? Quantas crianças gostam mais de estudar do que de brincar? Eu gostava da subjetividade do ensino, de estimular o senso crítico, a multiplicidade. Mas o negócio agora é a resposta certa, é fazer pontos, o vestibular, o vestibular! Depois se aprende a viver, afinal de contas, brasileiro estudado, mora com os pais até os trinta, não vai ficar endividado.

Pensado que seus filhos serão educados pela escola, os pais de hoje talvez percebam o estrago e sejam mais "condenscendentes" com seus jovens adultos, mimando-os um pouquinho mais. Afinal, agora, aposentados, podemos dar a atenção que deveríamos ter dado antes,mas estávamos ocupados demais trabalhando, vendo televisão, para dar. Depois dizem que o estado é paternalista, que injustiça. Estranho que alguém esqueceu de avisar aos cursos de licenciatura para prepararem os professores para "educarem" os filhos dos outros. Estranho ainda é que hoje em dia os professores não tem mais quase nenhum poder ou respeito dentro de sala de aula, mas mesmo assim, vai tentar. Em meio ao seu cronograma apertado, cheio de informações entre compostos, logarítimos e machadianos, tentar atingir alguma das outras metas do suposto projeto pedagagatico. E se não der, que pena, fique só no conteúdo do vestibular mesmo, é mais imediato, entende?

E assim caminha a brasilidade: "estudando", repetindo e decorando, em nome de uma boa educação. Mas se o filho reprovar, a culpa nunca é dele não. Foi o professor que não cumpriu a meta, justa causa nele, então.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O golpe da barriga, ou a faca de dois gumes

Quem nunca ouviu alguma história sobre alguma mulher que engravidou para segurar o namorado? Recentemente com a notícia da pílula masculina algumas mulheres levantaram a questão: "E se o cara falar que tá tomando a pílula só para transar sem camisinha?"

Eu confesso que demorei um pouco para entender essa hipótese pois precisou entrar mais uma desculpa no meio de tantas que os caras já dão para transar com uma mulher sem camisinha. Pois eles já usam aquela do "eu só tenho vc na minha vida", ou "se vc me ama, confia em mim". E acreditem se quiser, até os caras que pegam mais de uma, mesmo quando as meninas já sabem, ainda usam a seguinte "mas eu só faço sem camisinha com vc". Agora acrescentamos mais essa ao repertório dos caras de pau "mas eu tô tomando pílula, vc não vai ficar grávida".

Vamos e convenhamos que não é tão ruim para o cara engravidar uma mulher. Se ele não quiser nem saber do filho ele pode, é moralmente e legalmente aceitável, contanto que pague uma parcela ridícula de seu salário para a mãe (que muitas vezes é vista como uma aproveitadora) e não dispense nenhum minuto de sua vida com carinho e atenção ao bebê/filhx/criança.

Porque a mulher é vista como uma aproveitadora? Voltemos ao famoso golpe da barriga. O que a mulher quer com isso? Um casamento, uma pensão? Vamos lá; caso a mulher engravide de um milhonário, vai ganhar uma pensão, gorda, talvez, mas não chega a ser grande coisa para o cara. Não lembro os números, mas ouve uma expeculação tempos atrás de que um jogador de futebol pagaria uma pensão de aproximadamente 45 mil reais para a ex com o filho. Muita gente chamou a mulher de aproveitadora, mas se esqueceu que o cara ganhava mais de 2 milhões por mês. Dentro desse quadro isso é pouco. Porque? Bom, primeiro porque se a mulher não cuidar do filho, provavelmente perde a pensão. Mas em se tratando de um milhonário, o cara não é obrigado a casar com a mulher, pode simplesmente "reparar" os danos. Se casou, é porque queria, não?

Mas e quando o cara não tem dinheiro, o que ele perde? É engraçado, mas a lógica do casamento por motivo de gravidez é sempre a da perda, e nunca a dos ganhos. Parece que o homem só perde, mas uma coisa que muita gente esquece de levar em consideração quando acha que uma mulher é golpista é que ela perde mais num casamento ocorrido nessas circunstâncias do que o homem. Por exemplo, acho que para uma mulher se enquadrar no termo golpista deve ser antes de tudo jovem. Se ela é jovem, está na idade de estudar, se formar, começar ou no começo da carreira de trabalho. Na maioria dos casos, quando ocorre esse "golpe" parece que fica acordado informalmente que o cara casa, mas a mulher cuida da criança. Isso implica, o marido primeiro, o filho segundo e a mulher por último. Consequentemente, muitas largam o estudo e/ou o trabalho pois sua principal obrigação é cuidar da casa e da criança. É uma espécie de dívida de gratidão. Só que o homem continua trabalhando e cedo ou tarde progride, afinal, tem uma esposa para cuidar de todo o resto. O homem só precisa trabalhar. Como a mulher não tem renda, tudo que o casal tem, por mais que a lei diga que é do casal, é visto socialmente como bem do homem pois foi ele quem comprou. Na hora do divórcio muita gente acha que a mulher não tem direito porque "não fez nada". Mas poucos são aqueles que contabilizam as perdas que a mulher teve porque casou nessas circunstâncias.

Eu acho, e aí posso estar falando uma baita besteira, que o golpe da barriga é um mal negócio para as mulheres e elas só percebem quando já estão casadas. Não acho porém que muitas mulheres façam isso de propósito. Algo do tipo maquiavélico "Tenho o plano perfeito, vou engravidar e ele será obrigado a casar e dividir seu patrimônio comigo, hahahah!" estilo vilã de novela da Globo. Acho que muitas são ingênuas a ponto de estarem bobocamente apaixonadas e pensam "se eu engravidar, ele vai, pelo menos, ficar perto de mim pra sempre". Algumas nem pensam em casamento ou em termos práticos. Afinal de contas, o que é uma adolescente apaixonada? Acho até que muitas meninas gostam tanto do cara que aceitam casar só para ficar junto do namoradinho e tomam resignadamente o papel de mãe e dona de casa como uma forma de agradecer o cara por eles terem se casado. Mas o que elas perdem? Uma liberdade que nunca tiveram, pois são ainda poucas as mulheres brasileiras que saem da casa dos pais para morarem sozinhas antes de se casarem. A juventude, não aquela que está aliada a beleza, mas aquela que te dá gaz para ter dois empregos, estudar e ainda ir para balada com as amigas na quinta-feira à noite (sem ter o braço quebrado por um mala, por favor). E independência, porque não dizer isso, pois ter o próprio dinheiro te deixa livre, por exemplo, para comprar aquela coisa super inútil e super cara que vc quer sem ter que dar satisfação para ninguém.

Tem uma lógica maquiavélica por trás desse "golpe da barriga". Sempre parece que o homem é aquele cara livre com um futuro brilhante que foi brutalmente interrompido pela aproveitadora que engravidou dele de propósito. Até parece que o cara não sabia das consequências de se fazer sexo sem camisinha. Eu não sei, mas chego a pensar que esse golpe seja mais praticado por homens do que por mulheres. Algo que o cara pensa "Eu quero sair da casa da minha mãe, mas ainda quero ter alguém para cozinhar pra mim e lavar a minha roupa. Hum, ter um filho também parece legal. Ah, bora casar então". E o melhor é que a sociedade ainda tá do lado do cara, então é como fazer a arte e ainda sair por cima.

Sabe o que isso me diz? Que tem alguém achando que as mulheres tem controle total de seu aparelho reprodutivo. Eu nunca soube quando estava ovulando ou não. E olha, vou contar um segredo. Os sintomas pré-menstruais são muito parecidos com os da gravidez porque vc incha, se sente casada, indisposta, algumas mulheres enjoam... Olha que sacanagem, a gente achando que tá pra ficar menstruada e de repende descobre que tá grávida. Mas enfim, as coisas não são bem assim, a responsabilidade de evitar o filho é dos dois. Então, se o cara transou sem camisinha porque a mulher disse que estava tomando pílula e ela engravidou, ele também tem culpa. Afinal, a pílula não é 100% infalível e a mulher não é 100% responsável. Ela pode esquecer. Mas parece que esquecimento nesse caso é proposital, né.

Por outro lado, se a pílula masculina sair mesmo e se os caras começarem a usar será que vai ter algum aproveitador deixando de usar só para engravidar uma mulher? Ou será que a história não vai continuar a mesma e a culpada vai continuar sendo a mulher que acreditou no cara e, de novo, engravidou porque quis?

Por fim, o que eu acho da pílula masculina: demorou! Mas, mulheres, continuem usando métodos contraceptivos e camisinha, afinal, o filho é o menor dos males. Você pode acabar casando com um aproveitador.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Não é preciso ser mãe para falar de maternidade

Essa é a questão. Em toda discussão sobre aborto e maternidade sempre aparece uma hora ou outra comentários do tipo "Eu tenho x filhos, decidi (ou não) tê-los e estou muito feliz com isso". Bom, primeiro que muito raramente alguma mulher tem coragem de dizer que se arrependeu de ter filhos ou que a maternidade era pior do que esperava. Muitos podem pensar que a ausencia de comentários negativos se dá devido a perfeita adequação da mulher com a função materna e que as poucas que se arrependem sofrem de problemas psicológicos, mentais e etc.

Bem, eu não concordo com isso. Estou aqui falando do ponto de vista de uma filha, que teve uma mãe e viu a experiência dela de perto (e que ajudou a criar a própria irmã). A maternidade é uma função desvalorizada socialmente. Basta ver os incentivos de governo brasileiro para as mães. Além disso, maternar é apenas mais uma das funções desvalorizadas que a mulher é obrigada a enfrentar diariamente. Somam-se a essa, as tarefas domésticas. Que todos podemos notar que não são compartilhadas pela maioria dos homens brasileiros. Além disso, o cuidado com o bebê é algo cada vez mais complicado, pois a mulher é responsável pela saúde física e mental do feto (pois não pode beber, comer gordura enquanto está grávida), além de ter toda responsabilidade pelo desenvolvimento psicológico do filho. Isso eu li num livro, mas constatei de perto quando minha cunhada ficou grávida. Cada recomendação absurda que as pessoas faziam para ela...

Só que as pessoas esquecem de um pequeno detalhe. Nem toda mulher é igual e nem toda mulher tem aspirações parecidas. Além disso, a realização de uma pessoa tem mais fatores do que apenas a parentalidade. Sejamos francos, vivemos num mundo materialista e individualista e o modelo de maternidade vai contra tudo que a sociedade de consumo prega. Eu não sou a favor desse modelo de sociedade, mas concordo que a maternação não é tarefa exclusiva para a mulher. Eu sou uma que gosto de trabalhar e não sei se me sentiria confortavel dividindo minha vida apenas com um único ser que ainda não desenvolveu nem sua coordenação motora. Para falar a verdade, conheço muitas mulheres que parecem parar de pensar quando deixam de trabalhar apenas para cuidarem dos filhos. Algumas perdem suas habilidades sociais e quando saem de casa são motivo de vergonha, pois não conseguem dar conta de uma conversa adulta e civilizada. Muitas deixam a companhia de pessoas da própria idade, inclusive de outras mães, para brincarem com as crianças. Além de outros pais extremamente chatos que não sabem falar de outra coisa além dos próprios filhos. Eu entendo estar orgulhoso e feliz, mas vamos e convenhamos, algumas crianças não interagem direito com os outros até uns dois anos de idade, e é algo meio chato ser coagido a babar como os pais só porque o moleque falou "agu"? Ele só está fazendo o que todas as crianças fazem.

Tem uma amiga minha que acha crianças extremamente brochantes. Ela não entende como alguém pode ficar bobalhão e sair correndo para abraçar e tirar foto de uma criança que não é sua ou da sua família. Outra coisa engraçada que ela fala é que ela acha que crianças não deveriam ser trazidas para eventos sociais, a menos que elas saibam ficar caladas e não mexer onde não devem. Eu as vezes me irrito com as crianças alheias, principalmente porque alguns pais parecem querer apenas incomodar. Deixam o muleque esguelar, encher o saco, gritar, chorar... As vezes tenho a impressão que eles são como aqueles caras com cartazes dizendo "O mundo vai acabar em ...". Só que os cartazes são os filhos e eles dizem "Salve-se, não tenha filhos", outros querem apenas se esquecer dos moleques por algum tempo.

Mas nem tudo é assim. Existem crianças extremamente divertidas e inteligentes. As crianças europeias são, no geral, extremamente independentes e não ficam na aba dos pais como as brasileiras. Eu acho isso fantástico, pois se vc levar seu filho ao parquinho com um casal de amigos que tenha filhos, todos podem se divertir, tanto os pais quanto os filhos, pois quando os adultos se cansarem, sim, adultos são velhos, as crianças brincam entre si, sem aborrecer. Parece loucura, mas conheço mesmo crianças muito chatas que só brincam com adultos e vc tem que inventar a brincadeira pro muleque e ele ainda tem que sair ganhando.

Outra questão é que a sociedade vê como bom pai e marido aquele que faz o mínimo e como uma mãe normal, aquela que faz no mínimo o máximo. Não tá meio errada essa conta? Se o material genético da criança é 50/50 de cada um porque só um dos pais tem que ter a responsabilidade pelo cuidado? Vamos pensar no aspecto econômico também, será que a sociedade pode se dar ao luxo de desprezar a mão de obra mais qualificada que tem (e que ainda por cima, custa menos)? Ninguém vai convencer uma mulher de negócios a ter filhos se ela sabe que corre o risco de ser demitida porque vai ser obrigada a tirar a licença maternidade por 4 meses sem poder nem ao menos trabalhar meio expediente e que no máximo poderá contar com 1 mês e 2 semanas de ajuda do pai, se o cara quiser emendar as férias com a licença (mas eu acho que nem isso pode mais).

Todo mundo fala "Quando vc tiver filho vc vai entender". Será que isso é uma maldição? Só podemos entender a maternidade depois que tivermos filhos? Isso é um modo de deixar as mulheres curiosas e fazerem elas terem filhos? Será que pelo fato de acharmos que só podemos falar dela depois de passarmos por ela, estamos deixando de trabalhar por ela, de fazer com que a maternidade seja um encargo menor para mulher e que tenha uma maior participação da sociedade como um todo? Será que é por isso que estamos a esperar alguém que resolva esse problema por nós, porque depois de sermos mães, será muito tarde para questioná-la?

Também não é preciso ser mãe para maternar.