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quarta-feira, 11 de agosto de 2010

O buraco é mais cedo

Reta final do mestrado, últimas leituras e... Parece que não saio do lugar. Eu já passei da fase de discutir gênero/sexo, feminilidade. A maternidade ainda está nas minhas aspirações, mas putz, parece que tudo o que falam sobre maternidade é parecido. Ainda com a Beauvoir, em 1949, quando dizia que as mulheres eram seres além da maternidade e reinvicava o direito de não ser mãe não vejo muito progresso.

Alguém aqui vai me matar, mas estou sendo inocentemente sincera. Eu gosto do ponto de vista que desncontroi a identidade feminina formada à partir de uma matriz de gênero que exige uma heterossexualidade compulsória e uma fatidica maternidade identificadora. Para que serve uma mulher sem filhos? Bom, essa discussão é bem produtiva. Mas o que eu quero saber é porque não podemos formar uma identidade relacional com a nossa mãe? Porque o Édipo só se resolve entre sexos? Como não enxergamos a mãe como um ser diferentes e formamos nossa identidade nessa alteridade? Se a sexualização primária das crianças se dá a partir do contato com o corpo dos pais, mulheres e homens adultos apresentam muitas diferenças entre meninos e meninas. Porque a criança nota apenas a falta do pênis na mãe? Não nota a presença dos seios? Como? Ela está em contato com eles constantemente.

É somente a falta de poder da mãe que faz a filha odiá-la? Porque as feministas não reinvidicam o lugar de filha? É uma identidade em comum. Nem todas as mulheres serão mães, mas todas são filhas. Claro que existem excessões, mas acredito que existam também no caso de mulheres que não possam se realizar socialmente com a maternidade. Muitas feministas trabalham a formação da identidade feminina a partir do embate entre a escolha de ser ou não mãe. Essa imposição se dá cedo na vida das meninas, mas a mãe tem um papel fundamental nessa cultura da maternidade. Quem nunca ouviu aquelas palavras jogadas em nossa direção como uma maldição secular "Um dia você terá uma filha igual a você!".

Talvez seja mais simples tratar mais de perto essa relação para poder afrouxar essas amarras. Quem sabe se a mãe disser "Filha, faça o que quiser". E sem traumas parar de culpar sua filha por tudo de bom que a sociedade capitalista oferece aos homens e que ela não pode ter porque foi mãe. Culpe a si mesma e não jogue o fardo na pobre menina. Ela deve saber que pode escolher e que não vai tornar-se amarga e seca e nem um pária dentro da família por não ter filhos. É um saco ouvir as pessoas perguntando quando vou ter um filho se nem sei se quero a carreira acadêmica...

Mas na verdade, acho que inverti a ordem das leituras e por isso tudo me parece tão repetitivo, afinal, estou de volta aos anos 80.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Ser feminista é como ser baixinha (parte 2).

Respondendo ao comentário da minha amiga e continuando a discussão. A Mari disse: "Não acho que eu precise ser feminista pra "conquistar meu lugar ao sol". Pra mim isso é a mesma coisa de dizer que preciso ser religiosa pra acreditar em Deus." Eu adoro as anologias dela, mas as vezes não fica muito bom. Ser religioso e não acreditar em Deus é que é estranho. Ou ainda dizer que acredita em deus e é ateu é não conhecer as nomenclaturas.

As mulheres tem medo de serem feministas. A palavra é feia e assusta. "Que homem vai me achar sexy e interessante com um background desses?" Essa visão é interessante porque já começa errada. Vou usar o conceito do meu novo eleito, Bourdieu, para explicar. Quando Levi-Strauss (que muitas pessoas só conhecem por ter inspirado o nome da grife Levis) analisou os povos primeiros ele descobriu que as mulheres eram a moeda de troca no sentido de criar laços entre duas famílias. Mas ele acabou desconsiderando muito mais e aí o Bourdieu explica. As mulheres tem a função de agregar valor simbólico aos seus homens. O valor delas é serem capazes de elevar a virilidade de seu macho. Hoje em dia as coisas ainda funcionam assim. O fato dos homens não quererem se casar ou ter um relacionamento sério com uma mulher que tem controle da sua vida sexual e da qual todos sabem ter saído com muitos homens é uma prova de que esse pensamento continua vivo. Nenhuma mulher quer ser mal falada pois isso faz seu valor cair no mercado. Quem dá o lastro nessa mercadoria é o homem.

Digamos que ser feminista faz nosso valor simbólico cair pois lutamos justamente contra aquilo que agrega "valor de mercado" às mulheres. Todxs xs estudiosxs são muito clarxs em afirmar que esse valor é composto pela castidade, bons modos, beleza e etc. Uma coisa interessante é que eles não aparecem exatamente como foram criados, mas ainda vigoram. Por exemplo a castidade. A mulher não precisa ser virgem (alguns homens tem até medo, pois as mulheres já podem dizer que um homem é rium de cama), mas também não pode ser rodada. Na minha visão, e agora eu falo de uma postura intelectual e de vida, quando uma mulher diz que não é necessário ser feminista para querer ter seu lugar ao sol ela pode estar dizendo duas coisas:
- Tenho muito valor simbólico e por isso posso ter um homem poderoso e com isso pegar uma carona no poder dele e ter uma boa situação de vida e ser bem vista na sociedade ou;
- Não sei o que ser feminista significa mas todos falam mal e eu quero que os homens me tenham em alta conta. (isso acaba soando como "quero manter meu valor simbólico mesmo sendo uma mulher inteligente").

Para quem tem medo da teoria feminista ou ser pega lendo um "Segundo Sexo" (que é um pouco ultrapassado, mas é por onde quase todas nós começamos), vou dar uma dica. Virgínia Woolf é uma das escritoras mais aguçadas que eu já li e seu livro "Um teto todo seu" é uma das discussões mais interessantes que eu já li sobre a condição da mulher e o fazer literário. Para quem quer se iniciar ou falar mal eu sugiro que ao menos conheça algo. Outro texto clássico é o da Gayle Rubin "The traffic in the women". Quase me esqueci, temos a nossa representante. Marilena Chauí em seu livro "Repressão Sexual: essa nossa (des)conhecida".

continua...

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Ser feminista é como ser baixinha (parte 1).

Cheguei a essa conclusão depois de 3 anos sendo feminista e 27 sendo baixinha. Quando vc é baixinha é tratada quase como se vc fosse doente. Algumas pessoas pensam que a culpa é sua que não selecionou bem os genes na hora de virar zigoto (ou sei lá qual é a primeira fase). Tem aquelas pessoas que te dão dicas, se não para crescer, para parecer maior. Coisas bem inusitadas que vão desde usar sapatos de dragqueen até jogar todos os seus cintos fora pq encolhem a silueta. Mas o melhor mesmo são as pessoas que são burras a ponto de pensarem que vc nunca ouviu uma piada de baixinho (curiosamente essas pessoas costumam ser um pouco maiores do que vc). Para esses eu tenho 3 possíveis respostas: pelo menos eu não sou burra como vc; eu gosto de fazer pessoas mediocres como vc felizes, afinal ser um pouco maior do que eu é sua única qualidade; e a terceira é dar uma lista de apelidos melhores e mais criativos para que o imbecil se convença de que é impossível ele te ofender mais do que com o simples fato de existir.

Ser feminista é quase isso. Pode ser resumido em ter que responder sempre as mesmas perguntas. Infelizmente as pessoas nunca se informam antes e ainda tem em mente conceitos ultrapassados e uma visão preconceituosa do que é ser feminista. Para aqueles que acreditam que o feminismo é algo ultrapassado eu convido a assistir o jornal local e o nacional de qualquer emissora. Provavelmente vai ver alguma notícia de uma mulher morta pelo namorado, ex-namorado, marido, ex-marido ou apenas um homem que gostava dela e que levou um fora. Além desse tema procure ver alguma injustiça contra a mulher, uma adolescente presa numa cela com vários homens tendo que prestar "favores" sexuais a eles. Ou até mesmo uma pesquisa do IBGE, IBOPE, IPEA dizendo que as mulheres tem mais escolaridade, mas ganham menos e ocupam poucos postos de comando. Quem sabe até uma notícia relatando o fato de alguma mulher ter morrido após tentar fazer um aborto. Pode ser que tenha morrido ao dar a luz a um bebê anencéfalo, pois nesses casos, mesmo com o alto risco para mulher, somos obrigadas a levar a gestação adiante apenas por valores religiosos. Talvez ainda, ao ver uma notícia sobre alguma mulher que morreu fazendo uma lipo vc não consiga ver o que há de feminista aí, mas o fato dessas coisas ainda acontecerem afirma de que algo que não atingiu os seus objetivos não pode estar ultrapassado.

O fato da palavra feminista ainda carregar essa conotação negativa faz parte de uma tática que consiste em desqualificar o locutor desse discurso com argumentos inverossímeis e que não fazem parte da discussão (como por ex. chamar a feminista de feia, mal-amada) para que nós não tenhamos nem a oportunidade de defendermos o nosso argumento, afinal, depois de sermos ofendidas, a conversa vai mudar de rumo. O que eu quero dizer com essa "comparação" é que os homens tem especial interesse em desqualificar as feministas. Como suas esposas se contentariam com a falta de talento na cama, a inutilidade masculina nos assuntos domésticos, a ausência paterna na criação dos filhos se fossem feministas? Os homens teriam que crescer, amadurecer se as mulheres fossem feministas. É muito mais fácil ter uma Barbie dentro de casa que uma mulher feminista. É bem mais fácil ser uma marionete pois assim não se é questionada. Sem ser questionada sempre se tem a sensação de estar fazendo a coisa certa, o "natural". Afinal de contas, mulheres são seres frágeis e incapacitados que só servem para o trabalho doméstico e para a maternidade. Indivíduos são homens, mulheres são mães. Se vc está contente com essa situação diga "não sou feminista". Se não está, comece a se informar, pois o conhecimento é poder que quem tem poder não o cede de graça. Se vc quer conquistar seu lugar ao sol nesse mundo "masculino" seja feminista e não tenha vergonha de dizê-lo.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Você é igualzinha ao seu pai

Era o que eu sempre ouvia quando fazia algo de errado. Errada ou não, quando desagradava minha mãe ou era comparada ao meu pai (o diabo na Terra) ou com a minha avó (devidamente culpada por todos os traumas da minha mãe). Durante muitos anos eu senti minha consciencia "pisando em ovos". Vivia numa incerteza enorme. Não concordava com a comparação simplesmente porque não me sentia uma cópia, achava-me um ser autônomo e original. Eu não gostava de dar o braço à torcer. No campo de batalha onde eu vivia era um erro fatal e primário que eu já não podia cometer. Culpar a minha mãe era fazer o mesmo que ela fizera com a dela, eu não queria ser em nada parecida com a minha mãe, já bastava carregar no rosto a semelhança com o meu pai que fez com que eu fosse tão odiada e amada por ela. Eu não podia ser igual à ninguém.

O quê fazer então? Na falta de grana para uma análise... MESTRADO! Ã? Meio bizarra essa minha solução, não? Calma, eu explico. A melhor coisa para entender um problema é... se enfiar nele, claro! Realmente eu não sei e não posso afirmar que seja fácil, mas desde que comecei a estudar a teoria feminista e fatalmente lendo Chodorow, Flax, Micthell a gente entende um pouco esse pesado fardo que se chama maternidade. Infelizmente para as extremistas, quem mais me ajudou a entender a minha mãe foi um homem, feminista sim, mas homem. Anthony Giddens em seu "A transformação de intimidade sexual". Ele pegou emprestado muitos pensamentos feministas, mas conseguiu juntá-los numa temática que deixou claro para mim algo que sempre foi nebuloso, mas que ao mesmo tempo era muito simples de ver.

A grande maioria das mulheres não faz a menor idéia do que é a maternidade, nem ao menos pensa longamente nisso. Posso resumir que a maioria pensa que uma relação feliz e harmoniosa é um pré-requisito para ter filhos felizes e se realizar como mãe. NÃO! NÃO É! Ajuda, mas não é tudo. Pensar em um bebê tbm não é tudo. Pensar em sustentar o filho também não é tudo. Cuidar dele também não. Arrumar tempo pra ele tbm não. Ensiná-lo, transmitir valores tbm não. O que seria então? Bom, além de tudo isso junto acho que todas as mulheres devem ficar um tempo sozinhas e sendo bem sinceras consigo mesmas e se fazerem as seguintes perguntas: Porque eu quero ser mãe? Porque eu acho que vou ser uma boa mãe? Que tipo de pessoa eu quero que o meu filho seja? E acima de tudo: O que eu acho que é ser mãe e quais as consequencias disso?

Muito? Se vc acha então desista da maternidade, pois colocar outro ser no mundo com tantas capacidades quanto os humanos tem (por exemplo, mudar o destino do planeta) e não poder se questionar sobre a responsabilidade disso é não estar preparada. Quem sou eu para dar conselhos se, na verdade, não tenho filhos? Eu sou alguém que um dia, com toda a sinceridade no coração e muita mágoa dentro dele, perguntou para a própria mãe "Porque você quis ser mãe?". Eu nunca obtive uma resposta para essa pergunta e sabe porque? Porque nem ela sabia. A maior parte das mulheres vai seguindo a maré. "É natural", "a gente tem um instinto", "vou saber o que fazer". Se nós vivessemos como os outros animais eu diria "manda ver, pare aí", mas de fato não é. A sociedade humana se organiza de forma muito distinta das outras e está se distanciando cada vez mais delas. O que eu posso dizer é que as relações familiares mudaram, entre homens e mulheres também. E digo mais, entre pais e filhos (ou mães e filhas). Você certamente vai ser cobrada pela(o) sua(seu) filha(o). O que vai responder? Vamos ser sinceras, está preparada para deixar a sorte agir? Sua filha não estará sob o seu controle, as opções sexuais, intelectuais... tudo pode ser diferente do que imaginou e aí? Vc tem que pensar sinceramente. Nada pior para um filho que desistir dos pais. O que será para uma mãe ser desprezada por um filho?

Pode ser muito fácil para vc responder a todas essas perguntas, mas lembre-se, o mundo é plural e diverso. Nem todos tem a mesma cabeça (graças!). O que o Giddens me fez ver que era nebuloso pra mim se resume no seguinte pensamento "Você não tem que ser eternamente grato aos seus pais apenas porque te colocaram no mundo. O reflexo do relacionamento que você tem com eles é um reflexo do que eles tiveram com vc." Pronto! Pof! A bigorna de 100 toneladas que eu carregava caiu das minhas costas. Eu não sou um monstro! Viva! Não preciso amar a minha mãe acima de tudo que aconteceu! (Meio auto-ajuda, eu sei, mas foi necessário na época). Calma aí, não é o fim. A recíproca tbm é verdadeira. A minha mãe não precisa gostar de mim. Isso é verdade. Até porque sabemos que nem todas as mulheres de fato tem noção do que é a maternidade e dos discursos dominadores que estão por trás dela. Devo eu declarar ódio recíproco à minha mãe? Ser contra todas as mulheres que disserem que querem ser mães tentando alertá-las das armadilhas desse discurso?

Volta bigorna!

Peraí, só um pouquinho. Eu acho que é melhor entender o que aconteceu com minha mãe, não?

Ela foi iludida, coitada. Achou que a felicidade se multiplicaria com os filhos, mas ela se dividiu. Um pouquinho de felicidade em cada filho e um monte de apreensão, aperto financeiro, ausência do meu pai... E só ela para cuidar da casa, fazer compra, arrumar, lavar, passar, cozinhar, trabalhar... Sim, eu faço parte das muitas famílias onde a maior parte da renda vem do trabalho feminino... Hum... Tô começando a sentir raiva do meu pai... Mas peraí, o meu pai fez o que o pai dele fez com a mãe dele. A minha mãe? Sempre foi uma mulher inteligente, mas meio esquentada e com um pensamento muito conservador. Vamos voltar ao caso dela. Ela teve filho relativamente tarde (em comparação a outras mulheres), 26 anos. Tinha diploma e um bom emprego. É verdade que se acomodou na carreira, mas ela tinha 3 filhos e um marido pra criar. Dá até pra entender. Ela não teve a criação que o meu pai teve. Meu avô materno era relativamente moderno. Era ciumento com a minha avó, mas ela podia trabalhar e ainda tinha todo conforto em casa. Meu avô era apaixonado pela minha avó, não a tratava mal por achar q ela era propriedade dele. Mas uma coisinha acabou com essa linda história. Meu avô morreu de câncer de pulmão com 40 anos. Minha mãe tinha 14 anos. Naquela época a viúva ficava com apenas 50% da renda do marido. Quem pagava as contas era meu avô, a vovó não sabia cuidar das finanças. E como fazer isso, manter o mesmo padrão com apenas metade da renda? Eu acho até q ela se saiu bem, mas a mamis não concorda. Ela vendeu uma chácara q meu avô tinha, pagou umas dívidas, alugou os quartos da casa onde morava para moças solteiras que vinham trabalhar na capital, dispensou a empregada e fez minha mãe e minha tia cuidarem do serviço da casa.

Sabe quando eu fui saber de toda essa história? Ano passado. Minha mãe falava que a minha vó tinha sido exploradora e injusta, que tinha emancipado a minha mãe e a minha tia só pra depenar o patrimônio do meu avô, mas na verdade o patrimônio era dela. Fiquei sabendo da história depois de ter perdido o meu pai e ter começado a ver as mudanças da lei de sucessão. Descobri meus direitos e os da viúva do meu pai. Mas continuando com mamãe.

Nunca falei exatamente sobre isso com ela, mas imagino que seu raciocínio tenha sido esse: Se a mãe dela ficou na merda porque não tinha mais marido a minha mãe ficaria na boa, porque além de ter emprego e saber cuidar de si sozinha ela ainda tinha... UM MARIDO! Voilà! Ops, mas as coisas não saíram com o planejado. O meu pai não era o meu avô e a minha mãe não era a minha avó paterna. Ela não aceitava ser "dominada" e meu pai não aceitava "não mandar na casa". Mas a maior parte da grana vinha do salário dela, e aí? Bom, apesar disso tudo, eles se amavam loucamente (mesmo) então para não terem que se separarem... A culpa foi nossa. É triste, mas foi a melhor resposta que eu consegui até agora. Acredito que outras coisas contribuíram, mas acho essa a parte essencial.

Vou me atrever a dar um conselho. Na porta do templo de Delfos (eu acho) está escrita a seguinte frase: "Conheça a ti mesmo". A porta desse templo é baixa, fazendo com que quem entre tenha que se abaixar. Saber quem você realmente é não é uma tarefa fácil. Requer humildade. Eu ainda não estou certa se serei mãe um dia, provavelmente sim (espero que seja uma menininha :)) Mas certamente não a culparei por decisões minhas. Não a culparei pelo meu pelo fardo. Até mesmo porque, uma feminista que caí nesse estereótipo tradicional de maternidade está cumprindo mal o seu papel. Tem que colocar o marido (ou o pai) pra estudar. Se for pai, mas se forem mães ou pais tbm. Porque nem todo filho perde tempo tentando entender a prórpia mãe. É bem mais fácil culpar. Se existem mães que não sabem os discursos que estão por trás da maternidade imagine os demais? A responsabilidade é toda da mãe e os louros do pai. O casal pode não ser assim, mas as crianças vão viver isoladas?

A bigorna saiu, mas tá guardada na minha estante para eu nunca esquecer de que não existem apenas dois lados de uma história e que o feminismo, se é o que eu posso dizer, tem me ajudado a ver as coisas de cabeça pra baixo.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Feminista vegetariana

"Nada pior que uma feminista vegetariana!". Era o que eu (isso mesmo, euzinha) costumava dizer assim que entrei na faculdade. Outro dia, quando escrevi o post sobre Antifeminismo, me diverti lembrando de como eu criticava "legitimamente" as feministas. Tentei recuperar o meu raciocínio na época e eu realmente achei coisas interessantes. Veja se você não caiu em algum desses.

Eu andava com meus amigos e muitos deles eram homens. Eu queria parecer descolada. Sabe como é, pela primeira vez na vida eu deixava de ser a esquizita e para "melhorar" a minha auto-estima ainda estava 13 kilos mais magra do que era no segundo grau. Os meninos tinham uma verdadeira hojeriza de feministas. Era praticamente uma hunanimidade que feministas eram mulheres mal-amadas, de suvaco cabeludo e lésbicas. Hoje em dia eu não vejo nenhum problema de uma mulher ser assim, mas realmente para mim que estava descobrindo a minha "feminilidade" esse estereótipo me parecia mais uma ameaça.

Além disso, eu andava muito com os amigos do meu irmão, que fazia História Eu era caloura de Letras, mal tinha começado a estudar e vinha aquele povo todo me falando em Foucault, Marx, Hobsbam e etc. Eu realmente não entendia xongas do que eles falavam, mas achava tudo uma teoria da conspiração, gente que ficava procurando sarna pra se coçar. Além disso não conseguia dar muita credibilidade para aquele bando de filhinho de papai que queria mudar o mundo fumando maconha no CA. Não conseguia ver muita rebeldia nisso. Para completar, o curso de História tinha uma pós-graduação em Estudos Feministas, mas até onde eu fiquei sabendo dos boatos ele acabou por desavenças internas. Outra coisa que eu não conseguia entender muito bem era como as feministas queriam melhorar a condição da mulher se não conseguiam entrar em concenso. Claro que eu era beeem mal informada à respeito dos acontecimentos internos da UnB...

Para piorar a imagem que eu tinha do feminismo conhecia algumas feministas vegetarianas extremamente intransigentes. Aquele tipo de pessoa que quando você está comendo faminta ela chega pra você e começa a descrever o modo como aquele pedaço de carne no seu prato foi abatido ou então te chama de assassino. Elas eram agressivas em suas posições políticas e eu sempre gostei de uma boa discussão. Achava que deveriam me convencer na conversa e pra mim isso era apelação. Outra coisa que me ajudou a ter um pouco de medo das feministas foi uma professora que eu tive que nem dava nada relacionado ao feminismo, mas era do grupo das feministas da História. Ela não tinha empatia, isso era fato. Ficava irritada porque as alunas falavam mal o francês em sala e não conseguiam discutir mais profundamente os temas, mas a culpa era parcialmente delas. Outra coisa que me deixava reticente eram umas exigências despropositadas do tipo "sentem direito na carteira". Pra quê? Eu me perguntava. E essas pequenas coisas me ajudavam a concordar com os preconceitos: feministas eram exageradas e procuravam sarna para se coçarem.

Depois de muito tempo eu fui descobrir mais profundamente que o feminismo não impedia a minha sexualidade ou a minha "vaidade", mas ele ia me fazer refletir profundamente nas implicações que isso teria. Ao ouvir, o até então meu ídolo, meu irmão dizer "Sabe porque o papai sempre me mandava comprar pão no seu lugar? Porque ele dizia: - Vá comprar pão. É um favor que você faz à sua irmã. Ela é mulher, já vai sofrer tanto na vida...". E o meu irmão concordava com isso porque achava que eu ignorava a inferioridade da minha posição e sofreria mais ainda por ser uma mulher "inconformada".

Comecei então a notar a perversidade desses argumentos que refutam o feminismo. São argumentos tão bem construídos que estão em voga até os dias de hoje. Parece que o feminismo distancia as mulheres da normalidade - isso quer dizer, os papéis tradicionais (mãe e dona-de-casa). Fala-se com euforia da pouca contribuição masculina das tarefas domésticas como uma vitória feminista quando na verdade não passam de uma tentativa de "calar a boca" das feministas. Comemora-se a entrada na mulher no mercado de trabalho esquecendo que muitas vezes elas o fazem por terem sido levadas a terem filhos e depois abandonadas por homens que são obrigados a pagarem somente 30% dos seus salários enquanto as mulheres devem abrir mão de si mesmas para os filhos. Fico chocada ao ver as mulheres perdendo os cabelos em salões de quinta para ficarem com o cabelo liso ou ver nos lugares chiques uma proliferação gigante de loiras oxigenadas todas com o mesmo corte de cabelo ou ver na vitrine da C&A uma coleção para mulheres adultas inspirada na BARBIE!!!

Eu reconheço que em alguns casos há um exagero na postura, mas não no argumento. O feminismo não é o mesmo dos anos 70, mas talvez nos falte um pouco mais daquela postura militante. Acho que devemos tentar esclarecer um pouco mais da teoria para os leigos, afinal se você é feminista é porque já se convenceu da importância de se debaterem certas questões por outra ótica. Quantas mulheres ainda sofrem por serem gordinhas ou terem pouco peito sem saber da perversidade desse padrão? Se não há injustiças porque aquele parecer favorável à pedofilia do STJ? Porque prostituição é um problema feminino.

Eu fiz minhas pazes com o feminismo lendo O Espartilho de Lygia Fagundes Telles na aula da uma professora que me ajudou a me decidir entre a Literatura e a Lingüística escolhendo a primeira. Ela me mostrou como pode passar visões intencionadas que reflitam ou apenas repitam idéias pré-concebidas. Será que posso ser a intermediária dessa relação pra mais alguém? Espero que sim.